O discurso de Bergoglio que convenceu os cardeais a elegê-lo: "A Igreja deve sair de si mesma"

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18 Março 2017

A grafia é diminuta, difícil de ler, mas totalmente compreensível, em espanhol. São as anotações originais escritas pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio para a Congregação Geral do dia 9 de março de 2013, poucos dias antes do conclave. Foi esse texto que fez crescer o consenso em torno dele, até a eleição.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 17-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cardeal cubano Jaime Ortega, depois que os conteúdos já haviam sido divulgados no passado, pediu para Francisco uma cópia do texto original, recebendo também o aval para a publicação. Divulgadas nestas horas, a quatro anos de distância da eleição, as anotações despertam estupor. Em particular, como escreveu o site Il Sismografo, o quarto ponto. Bergoglio dá a sua opinião sobre o futuro papa, um homem que, através da contemplação de Jesus e da adoração de Jesus, ajude a Igreja a “sair de si mesma rumo às periferias existenciais, que a ajude a ser a mãe fecunda que vive da doce e reconfortante alegria de evangelizar”.

Anotações do então cardeal Bergoglio durante as Congregações Gerais do conclave que o elegeu como pontífice

Francisco explica o que significa evangelizar. Envolve “zelo apostólico” e “pressupõe, na Igreja, a ‘parrésia’ de sair de si mesmos”, para ir “rumo às periferias, não só as geográficas, mas também as existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, as da ignorância e da ausência de fé, as do pensamento, as de todas as formas de miséria”.

Bergoglio lembra também os males que afligem a Igreja, em particular a autorreferencialidade, o “narcisismo teológico”. O futuro papa recorda o Apocalipse, onde está escrito que Jesus está à porta e chama.

Evidentemente, o texto se refere ao fato de que “Ele está fora da porta e bate para entrar...”. Mas às vezes “eu penso que Jesus bate de dentro, para que o deixemos sair. A Igreja autorreferencial pretende manter Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair”.

E ainda: “A Igreja, quando é autorreferencial, sem se dar conta, acredita que tem luz própria; deixa de ser o ‘mysterium lunae’ e dá origem àquele mal tão grave que é a mundanidade espiritual (de acordo com De Lubac, o pior mal em que a Igreja pode incorrer): aquele viver para se dar glória uns aos outros. Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si mesma; a do ‘Dei Verbum religiose audiens et fidenter proclamans’ – a Igreja que religiosamente escuta e fielmente proclama a Palavra de Deus –, ou a Igreja mundana que vive em si, por si, para si. Isso deve iluminar as possíveis mudanças e reformas a serem realizadas para a salvação das almas”.