Stroessner, deposto há 25 anos, teve no Brasil um aliado, asilo e túmulo

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Por: Jonas | 03 Fevereiro 2014

O ditador paraguaio Alfredo Stroessner, derrubado por um golpe que completará nesta segunda-feira 25 anos, viveu um asilo tranquilo até sua morte no Brasil, país ao qual esteve muito ligado e para quem fez grandes concessões no acordo para construir a hidrelétrica de Itaipu.

A reportagem é de Carlos A. Moreno, publicada pelo portal Uol, 02-02-2014.

A boa relação com Stroessner permitiu ao Brasil retirar o Paraguai da esfera de influência da Argentina e ganhar este mercado, enquanto o ditador obteve um importante apoio, afirma o historiador Paulo Renato da Silva, professor da Universidade da Integração Latino-Americana (Unila) e especialista no tema.

"O Brasil apoiou a ditadura Stroessner de muitas formas, direta e indiretamente. O apoio do Brasil foi um elemento importante para a sobrevivência da ditadura de Stroessner por 35 anos", diz Silva, autor de vários artigos sobre o tema e que atualmente coordena uma pesquisa sobre o assunto na Unila.

Para os historiadores, o general que governou seu país com mão de ferro entre 1954 e 1989 foi importante para uma política externa brasileira que desde os anos 40 buscava diminuir a influência argentina no Paraguai. E como resultado transformou o Brasil no principal parceiro comercial e investidor do vizinho.

Para a ONG Coordenadora de Direitos Humanos do Paraguai (Codehupy), com a chegada de Stroessner ao poder "aconteceu um giro radical na orientação geopolítica do país, pois os "fortes vínculos de nosso país com a Argentina foram se enfraquecendo, enquanto se fortaleceram as relações com o Brasil".

Stroessner nunca negou sua inclinação pelo Brasil, país em que viveu em 1940 e 1941 para fazer cursos no exército. Desta época, datam seus estreitos vínculos com os militares brasileiros.

O então ditador manteve 26 reuniões com presidentes brasileiros nos 35 anos de seu regime e conheceu pessoalmente a todos, com exceção de Jânio Quadros e João Goulart, deposto pelos militares em 1964.

As relações se aprofundaram ainda mais após o golpe militar de 1964, que instaurou uma ditadura no Brasil e com a qual Stroessner elaborou a chamada Operação Condor.

"O Brasil também ajudou a ditadura de Stroessner a reprimir seus opositores. Exilados paraguaios eram constantemente vigiados, sem contar os que foram detidos, sequestrados e enviados de volta ao Paraguai. Aqui na fronteira, isso era muito comum", explica Silva, que vive em Foz do Iguaçu, onde fica a sede da Unila.

Stroessner, que viajava ao Brasil inclusive para passar suas férias privadas, estreitou ainda mais os laços com o vizinho a partir de 1970, quando os dois países assinaram o contrato para construir Itaipu, até pouco tempo a maior hidrelétrica do mundo.

A obra gerou um crescimento econômico sem precedentes no Paraguai. "A construção de Itaipu ajudou a ditadura de Stroessner a vender a imagem de um governo moderno, que estaria finalmente desenvolvendo o Paraguai e rompendo seu isolamento", diz o historiador.

"A obra também ajudou a alimentar redes de corrupção que garantiram o apoio a Stroessner, principalmente entre militares e membros do Partido Colorado", afirma Silva.

Em troca, Stroessner assinou um tratado que desde o início foi apontado como muito mais favorável para o Brasil. Apesar de cada país ter direito a metade da energia de Itaipu, o Paraguai, que usa uma parte pequena, não pode vender eletricidade a terceiros e tem que cedê-la ao Brasil a preços muito abaixo do mercado.

Em 2010, quando assinou um acordo para emendar o Tratado de Itaipu e elevar o pagamento pela energia paraguaia, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu que o Brasil obtinha mais benefícios da hidrelétrica que seu vizinho.

"O ditador aceitou as condições do Brasil e colocou o Paraguai em uma situação de inferioridade cujas consequências ainda pagamos. Após o golpe de Estado que depôs Stroessner, um Brasil já democratizado não haveria de dar as costas a um colaborador tão fiel. E para lá foi o tirano deposto se refugiar", segundo a Codehupy.

Após o asilo que concedeu por solicitação de políticos paraguaios e "por razões humanitárias", o Brasil se absteve a responder a um pedido de extradição feita pelo Paraguai no ano 2000.

Stroesner viveu asilado no Brasil 17 anos, desde o golpe de 3 de fevereiro de 1989, liderado por seu consogro, o general Andrés Rodríguez, até sua morte, em 2006.

O general passou o final de sua vida totalmente recluso em sua mansão em Brasília, e onde antes recebia peregrinações de importantes líderes políticos paraguaios, hoje um esquecido túmulo é testemunha do ostracismo no qual viveu seus últimos anos.