“Promiscuidade antidemocrática” e crise do STF: as relações entre poder, dinheiro e religião. Entrevista especial com José de Souza Martins

“Estamos caminhando para o enfraquecimento das instituições nos vários âmbitos do país institucionalizado que o Brasil já foi”, adverte o sociólogo

Foto: Fellipe Sampaio | STF

Por: Patricia Fachin | 18 Setembro 2026

A atual crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) “foi provocada propositalmente para debilitar a candidatura do PT”. Essa é a avaliação de José de Souza Martins. No ritmo em que novos escândalos vêm à tona, faltando poucos dias para as eleições, “a trama pode dar certo, a menos que o óbvio potencial de desgaste moral da direita, em particular dos Bolsonaros, se traduza em consciência política e voto”, diz o sociólogo na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail. 

Na avaliação dele, antes de ser uma crise localizada no Poder Judiciário, o momento atual é o de “desfecho da acumulação histórica de confrontos e tensões politicamente manipulados desde antes do fim da ditadura militar”. Desde a promulgação da Constituição Federal, contextualiza o entrevistado, “o Poder Executivo foi enfraquecido”, “o legislativo governa para si mesmo, em nome dos interesses pessoais de seus membros”, e o STF “assumiu o vazio de poder e a seu modo instituiu uma ordem jurídica ad hoc para evitar a anarquia e, portanto, a ditadura. Mas, no geral, criou-se entre nós uma corrupção consentida em todos os âmbitos do Estado e, em graus variáveis, evitada apenas com decisões pessoais de pessoas honestas”. 

Para o sociólogo, a combinação entre religião e política é outro elemento que contribui para o aprofundamento da crise nacional. “Se examinarmos a identidade religiosa dos envolvidos nos escândalos e nas conspirações, descobriremos com facilidade que um fator decisivo de promiscuidade antidemocrática, envolvendo dinheiro, corrupção, poder e política, está no fundamentalismo pentecostal. Embora não só nele”, afirma.

Martins também comenta o retorno da direita na política latino-americana. Para ele, o fenômeno explica-se, entre outras razões, pelas novas demandas sociais. “Convém lembrar que essas demandas já não são de um proletariado que está deixando de existir e são de uma confusa classe média que está querendo existir politicamente”, pontua. A direita, acrescenta, “vive um momento de avanço em face do fato de que as esquerdas, batidas pela aplicação do rótulo de ‘direita’ que elas próprias vêm atribuindo aos seus opositores e pela incapacidade de reconhecer reclamos de seus direitos sociais justos, não deixaram à classe média senão a alternativa de reconhecerem-se como direita, mesmo não sabendo eles o que é isso”. E conclui: “Esse engano, provavelmente, cobrará seu tributo na eleição deste ano”.

José de Souza Martins (Foto: Unesp)

José de Souza Martins é graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo USP. Foi professor visitante da Universidade da Flórida e da Universidade de Lisboa e membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão de 1998 a 2007. Foi professor da Cátedra Simón Bolívar, da Universidade de Cambridge (1993-1994) e atualmente é professor titular aposentado da USP. Entre suas obras, destacamos Exclusão social e a nova desigualdade (Paulus, 1997), A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala (Contexto, 2000), Linchamentos: a justiça popular no Brasil (Contexto, 2015) e Do PT das lutas sociais ao PT do poder (Contexto, 2016).

Confira a entrevista. 

IHU – Como o senhor avalia a atual crise no STF? Trata-se de um problema exclusivo do Judiciário, de um problema que envolve a relação entre os três poderes ou reflete uma crise política, social e institucional mais ampla?

José de Souza Martins – O que está em andamento é claramente uma conspiração contra o PT no poder. É a continuação da tentativa de golpe de janeiro de 2023 com novidades reveladoras da ampla competência de mobilização da extrema-direita. No entanto, essa é a interpretação inicial possível da dúvida que você levanta. É uma dúvida de difícil resposta, porém, porque estamos falando de uma instituição decisiva do regime democrático, que é o STF, que tem provado sua relevância em diferentes momentos de sua história, como vítima (da ditadura militar, por exemplo, nas cassações de nomes eminentes da Corte) e, portanto, como núcleo de um sistema de mediações e regras jurídicas que situam os problemas em jogo numa temporalidade de juízo crítico a que se chega lentamente. 

Temos que superar nossa concepção apressada da história para compreender a anti-história de nossa história. Colocamos um partido social no poder ainda subjugados pelo voluntarismo, pelo foquismo, pelo sectarismo e presos na armadilha de uma suposta – ainda que necessária – opção preferencial pelos pobres, que não fizeram a mesma opção. Pobre, com razão, não gosta de pobreza. Subestimamos outras categorias sociais, vítimas de outras variantes e modalidades de pobreza, que não conhecemos porque somos pobres de teoria e de consciência social e política.

Eis um dos aspectos da temporalidade peculiar desses equívocos, que recomenda a cautela de ter em conta que os fatos não são de agora, mas são multiplicativos de um processo histórico de reprodução ampliada de privilégios injustos e descabidos, assegurados por violações históricas de direitos sociais dos desvalidos. A crise deste momento não é, portanto, uma crise do PT. Mas as distorções antidemocráticas contidas nas entrelinhas de nossa legislação asseguram o contínuo retorno ao poder dos que são de fato o poder. Não é o caso dos partidos democráticos.

Crise do STF: desfecho de confrontos e tensões 

Em meu modo de ver, trata-se do desfecho da acumulação histórica de confrontos e tensões politicamente manipulados desde antes do fim da ditadura militar. O regime autoritário não caiu porque tivesse sido vencido e superado. O regime administrou seu próprio fim aparente, de modo a permanecer embutido e disfarçado nas instituições. O fim da ditadura veio de dentro do próprio regime militar, dividido, que nunca foi coeso. Esse fim tampouco foi consequência de uma vitória da esquerda, ela própria ideologicamente muito fragmentada. Foi indicação de uma vitória das elites e da classe média, uma classe social que não é propriamente classe, mero ajuntamento categorial de atributos de identidade da sociedade de consumo. Não foi vitória da classe trabalhadora, cujos atributos vem da produção e das contradições que definem o salário como reconhecimento de direito e, ao mesmo tempo, como mascaramento da procedência da acumulação de capital. 

A crise vem ocorrendo, desde o fim formal da ditadura, como ataque disfarçado contra a ideologia da luta de classes e seus riscos geopolíticos. A geopolítica é nosso governante invisível, que atua através de oportunistas antibrasileiros e traidores da pátria. Quando Bolsonaro encontrou Trump nos corredores da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York e lhe disse empolgado: “I love you” e recebeu a resposta: “Tudo de bom pra você também”, ficou claro quem manda, e quem manda em que e de que modo. Não viu quem não quis. 

O protagonismo das classes sociais e do confronto de classes só ocorre quando as contradições sociais se agudizam ao extremo e as tensões revelam identidades políticas que expressem necessidades radicais, como as definem Henri Lefebvre e Ágnes Heller. Estas contradições são superáveis unicamente com transformações sociais que sejam também transformações políticas.

A abertura política não se deu em nome desse tipo de demanda. O que se abriu foi mais um cenário de conciliação política aglutinante que neutralizasse os setores civis e militares autoritários inconformados com a eventualidade de partidos de esquerda assumirem o poder. 

O PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, e o PT, de Lula, podem ter errado ao não perceberem que o máximo de progressismo político possível era de centro-esquerda, capaz de mobilizar e aglutinar setores sensíveis e decisivos da classe média e os trabalhadores fabris que estavam entrando num período adverso de sua história. Era o período da desindustrialização e da dispersão espacial da indústria para esvaziar o poder hegemônico dos operários qualificados do operariado além do mais geograficamente concentrado.

No outro lado estava a violência no campo, que, na abertura política, foi particularmente mencionada por Tancredo Neves, quando fez referência ao banho de sangue que resultava do latifúndio improdutivo e, naquele momento, sobretudo da criminalidade fundiária, da grilagem de terras de posseiros e das populações indígenas.

Saqueamento do bem público e anomalias sociais

A ditadura concebeu e redefiniu o nosso regime fundiário para que deixasse de ser latifundista como era desde o tempo das escravidões, a indígena e a negra, para ser empresarial. Nossos conflitos camponeses foram conflitos defensivos de populações residuais de agregados, ameaçadas de reescravização ou de privação da terra de trabalho. São populações potencialmente credoras do que, em livro a ser lançado agora em outubro, pela Editora Unesp, sobre o anticapitalismo dos simples, defino como direitos sociais historicamente pendentes. Estes direitos decorrem do modo como foram reconhecidos, mas não efetivados: os dos indígenas emancipados pelo Diretório dos Índios do Maranhão e Grão Pará, em 1755, e os dos vitimados pela Lei de Terras de 1850, lei que transferiu o domínio da terra pelo Estado ao particular. Associando-o à posse útil da terra, criou aqui a propriedade privada da terra, um regime de propriedade fundiária absoluta que se tornou, assim, equivalente da propriedade do escravo pelo seu senhor como garantia de empréstimos hipotecários aos grandes possuidores de terra.

Foi o modo inventivo e original pelo qual a ditadura militar resolveu, de modo capitalista, a questão agrária, que em lugar nenhum foi e tem sido uma questão social, uma questão de terra para os pobres, para mitigar-lhes a pobreza. A questão agrária é uma questão para o capital, representada pela cobrança de renda da terra ao capital pelos proprietários de terra. Mesmo quando são proprietários de capital e também proprietários de terra, “não percebem” nem podem perceber que não estão recebendo a renda da terra que estão usando. 

Através de incentivos fiscais e tributação do latifúndio, a reforma fundiária da ditadura converteu essa unidade de contrários em empresa. O capital como proprietário de terra e assim senhor de lucro e de renda da terra, senhor de lucro resultante da exploração da força de trabalho e senhor de renda da terra na distribuição da mais-valia produzida pelo trabalho sob a forma de aluguel da própria terra cobrado como se fosse lucro do capital. A ditadura promoveu, deste modo, a modernização capitalista do latifúndio com a transferência de renda de destinada às funções sociais do Estado para o desenvolvimento do agronegócio. Um modo de saquear um bem público em favor da empresa privada.

A ditadura não previu as anomalias sociais originárias das duas escravidões em que se criara um sistema paralelo de acesso criminoso ao monopólio da terra. 

A grilagem de terra de posseiros, a invasão de terras indígenas, enfim uma vasta e poderosa criminalidade fundiária, não criou no campo o cenário de um protagonismo dos pobres da terra no processo político. As vítimas do latifúndio acabaram se expressando por interpostos protagonistas, como a Igreja, que não tinha uma visão sociologicamente fundamentada do que poderia ser o caráter político na resistência do campo.

A luta pela reforma agrária não era uma luta pela revolução agrária e menos ainda equivocadamente com base na ideologia da luta de classes referida ao modo operário de compreender as diferenças sociais e de compreender as demandas dos trabalhadores. Ao surgir, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) enveredou por esse caminho, esquecendo que, desde antes do golpe de 1964, as próprias esquerdas já reconheciam a diferença entre camponeses e trabalhadores rurais. Entre os que entendiam que na mística da terra de trabalho, no campo, estavam as raízes de tradições comunitárias, familistas e vicinais, que não se reduziam nem se reduzem aos atributos dos profissionais do trabalho agrícola, os chamados trabalhadores rurais. Historicamente diversos dos apenas trabalhadores rurais, sociologicamente societários e modernos. No camponês são tradições dos fundamentos do que é próprio do sociologicamente comunitário de seu modo de vida e de sua consciência social. A terra como um bem social e nesse sentido como mediação de compreensão antagônica, potencialmente política, da realidade do capitalismo. As bases sociais do que Henri Lefebvre definiu como romantismo revolucionário que, se manifestou na própria região da França de que Lefebvre era nativo. E, de inspiração gramsciana, também no sul da Itália, na região da Calábria, onde inspirou a antropologia de Ernesto de Martino e de seu discípulo Luigi Lombardi Satriani.

Para o camponês, o capitalismo não é um modo de produção. É um modo de desorganização, de sujeição e de destruição social de seu modo de vida e de suas tradições. Portanto, a centralidade da tradição conservadora em suas vidas é a mais fecunda e a mais compreensível fonte de crítica das contradições do capital. O camponês, pelas peculiaridades de seu modo de vida e, portanto, pelas referências sociais de sua consciência social, mais do que o operário, tem condições de compreender criticamente o capitalismo como totalidade irrealizável, por isso em crise e, portanto, senão no vê-lo como negação do possível. É a realidade camponesa que dá ao antagonismo anticapitalista do camponês a dimensão da práxis social transformadora. Esta é uma premissa dialética do pensamento crítico. A facilidade com que, em várias regiões do Brasil, camponeses compreendiam as análises que com eles eu desenvolvia como explicação do que é o capitalismo que a eles se antepunha, foi para mim uma boa indicação de que esse era o caminho de uma pedagogia do possível, transformadora.

Conservador não quer dizer direita nem quer dizer reacionário. Diz respeito aos que resistem ao capitalismo na luta contra a fragmentação de suas instituições pré-capitalistas, aos que lutam contra a alienação de que o capitalismo depende para se reproduzir. O pensamento marxiano vem da tradição conservadora e nela da concepção de pessoa como totalidade e da luta social como práxis de transformação e não como mera e superficial ação de mudança social. Estamos vivendo um momento em que a superestrutura de manifestação da crise, por impropriedade das mediações de seu deciframento, não se dá a ver na vida cotidiana senão como anomalia.

Embora pareça remoto em relação a esse foco problemático das manifestações do que é uma crise estrutural, o destaque que o STF tem nestes dias vem das decorrências políticas desses desencontros dominados por mediações que espelham os interesses dos protagonistas afastados do poder e das possibilidades do poder com o fim do regime militar. O próprio PT não desenvolveu uma compreensão correta de suas próprias contradições internas, como partido de classe média, porém de ação fundada numa ideologia estritamente operária. 

IHU – Que desdobramentos institucionais, políticos e sociais essa crise pode gerar?

José de Souza Martins – No geral estamos caminhando para o enfraquecimento das instituições nos vários âmbitos do país institucionalizado que o Brasil já foi. Isso tem sido organizado e planejado pelos que são de direita, seja direita por convicção, seja funcionalmente de direita, os oportunistas e corruptos. Fragilizar as instituições cria um cenário de favorecimento do autoritarismo político e debilitamento da democracia. A ditadura militar, ao reconhecer que havia terminado a possibilidade de sua continuidade, legou uma abertura política intencionalmente debilitada. Mesmo a Constituição de 1988 foi minada por dentro de modo a assegurar que as forças armadas fora do poder fossem tutoras do poder. O Artigo 142 claramente estabelece isso, o que só foi neutralizado com a decisão do STF de que não era bem assim.

Ao mesmo tempo, uma enxurrada de emendas constitucionais invadiu a carta magna transformando-a, de certo modo, em outra coisa. O Poder Executivo foi enfraquecido, o Legislativo tornou-se um poder parlamentar sem parlamento, que subjuga o Executivo por meio de partidos não doutrinários, fragmentados, sem um perfil que proponha um Legislativo que represente a nação e não que substitua a nação. O legislativo governa para si mesmo, em nome dos interesses pessoais de seus membros. O STF assumiu o vazio de poder e a seu modo instituiu uma ordem jurídica ad hoc para evitar a anarquia e, portanto, a ditadura. Mas, no geral, criou-se entre nós uma corrupção consentida em todos os âmbitos do Estado e, em graus variáveis, evitada apenas com decisões pessoais de pessoas honestas.

O Estado frágil nos empurra para a insegurança do poder pessoal e o imenso risco de uma ruptura da ordem política. 

IHU – O que os escândalos do caso Master e a crise institucional do STF indicam sobre as conexões entre o poder econômico, a política e as instituições do país?

José de Souza Martins – Indicam que estamos pensando a realidade política brasileira com as categorias erradas. Forças poderosas e não políticas dominaram a política brasileira, adulteraram o caráter da representação política e violaram a possibilidade de uma autêntica democracia representativa. Estou me referindo, em particular, à religião. Se examinarmos a identidade religiosa dos envolvidos nos escândalos e nas conspirações, descobriremos com facilidade que um fator decisivo de promiscuidade antidemocrática, envolvendo dinheiro, corrupção, poder e política, está no fundamentalismo pentecostal, embora não esteja só nele. As ocorrências expõem o comprometimento moral da ética e da própria religião.

A crise envolvendo o STF neste setembro de 2026 expôs vínculos pessoais anômalos de ministros com nexos transversais paralelos das funções que ocupam. Os envolvidos são ou membros de igrejas ou são parentes de pastores.

Costuma-se dizer que para descobrir os nexos da corrupção basta seguir o dinheiro. Vai se ver, o dinheiro passa por alguma igreja evangélica, pelo que se pode chamar de Bíblia de sovaco, para ser usada nas axilas como desodorante da fé.

Os evangélicos são pouco menos do que um terço da população brasileira. Na resistência à possibilidade de um governo socialmente progressista, como o governo do PT e sua aliança de esquerda, vemos facilmente que a direita está imobilizada no mesmo um terço do eleitorado. Os setores politicamente antiautoritários dificilmente conseguirão crescer nesse “território” adverso. Pesquisa eleitoral recente revelou que a maioria dos que foram ouvidos frequentam igreja em que o púlpito é usado pelo respectivo pastor para tratar de temas políticos. Esse uso do púlpito deveria assegurar aos candidatos diferentes dos beneficiados por essa irregularidade, a usar o púlpito do mesmo templo para difundir sua doutrina. 

Os evangélicos têm uma cultura religiosa peculiar, que não é a de considerar política a disputa entre candidatos ideologicamente equivalentes. As pesquisas de opinião eleitoral trabalham com um pressuposto completamente errado. O de que os eleitores pensam a política de maneira culturalmente igual. Isso, aqui no Brasil, não é verdadeiro. O evangélico pensa a política de maneira evangélica, como avesso do que a política propriamente é. Políticos com perfil de envolvimento na corrupção, que fazem na sua vida de relação e na sua vida cotidiana, e mesmo como políticos, o contrário do que recomenda a moral evangélica, continuam recebendo o voto dos evangélicos.

O evangélico acredita que nisso Deus tem um plano, que só Ele conhece. O agente do mal, o pecador, está sendo usado por Deus para edificação dos que têm fé. Deus está invadindo o território de satanás para derrotá-lo, para salvar almas. Mesmo os oportunistas de direita e de esquerda que vão aos templos e até indevidamente sobem ao púlpito baixam a cabeça e fecham os olhos na hora da oração, desse modo teatral e desse modo eventualmente hipócrita, dão sinais de que Deus pode estar tocando em seu coração. Bolsonaro só consegue dizer dois versículos bíblicos, não consegue dizer uma oração e nem mesmo cantar um hino evangélico. Além de batizado na Igreja Católica, foi também batizado em duas igrejas evangélicas, numa delas no próprio rio Jordão, o mesmo em que João Batista batizou Jesus. Deus não permitiria que isso acontecesse se não tivesse um plano para o pecador e para sua igreja. É como geralmente creem. Mesmo que Deus não tenha combinado isso com eles. Isso é prova de fé dos que são propriamente membros da igreja. Essa fé, no efeito religioso positivo do que é o avesso da fé cristã, a reconhecida e praticada, por exemplo, pelos católicos, define a concepção de política dos fundamentalistas religiosos. Exatamente o contrário do que os democratas e as esquerdas (e a Constituição, e o STF) acreditam ser a política e a democracia. 

IHU – Como o senhor interpreta a defesa do presidente Lula de quebra completa de sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, a fim de acabar com os vazamentos selecionados, tanto à luz da independência dos três poderes quanto à luz da aproximação das eleições presidenciais?

José de Souza Martins – A postura do presidente da República é a postura lúcida de um estadista. A quebra do sigilo de todos os envolvidos inviabilizará a estratégia perversa e direitista de manter ocultações como técnica reacionária de tornar todos os inocentes suspeitos. 

IHU – Como analisa a exploração da crise do STF pela direita no 7 de setembro?

José de Souza Martins – A direita valeu-se da situação adversa do ministro Moraes, difícil de explicar e mais difícil ainda de interpretar. Do ponto de vista histórico, na biografia de Moraes o que ficará será o seu empenho lúcido e corajoso, em nome do STF, no enquadramento na lei dos identificados como participantes da tentativa de golpe de Estado de janeiro de 2023. 

Ele foi severo e ponderado ao mesmo tempo, tratando a individualidade do crime como crime sem atenuante. Os que agiram o fizeram na certeza da impunidade e da desmoralização da Constituição e da Lei. O general e a cabeleira igualados no crime coletivo contra a Pátria e a democracia, contra o povo brasileiro. Do mesmo modo, corretamente, não distinguiu mandante, inspirador, financiador e agente do delito coletivo.

Por isso mesmo, a exploração da crise no 7 de setembro interpreta-a com base no imaginário de suspeição sobre Lula e o PT que a direita criou através de fake news para explicar a derrota da direita pelo STF e pelo papel que nela teve o ministro. Um episódio da vida de família do ministro não é da mesma natureza de episódios da história do clã Bolsonaro e não anula as decisões do processo da tentativa de golpe nem as punições aplicadas aos envolvidos, a começar de Jair Bolsonaro. 

Por outro lado, convém ter em conta que, no plano geral, está se definindo um cenário de vazio político e que Flávio Bolsonaro, em vez de ser um medíocre substituto nominal do pai, pode estar sendo interpretado pela classe média eleitoral como um potencial terceiro nome para disputar com Lula. Apesar de seu perfil pobre em face do perfil politicamente muito mais denso e experiente de Lula, sem o pretender ele pode estar usurpando o lugar do pai em vez de ser dele mero continuador nominal ou substituto provisório.

Com o auxílio dele e do irmão Eduardo, aparentemente Trump e Marco Rúbio, assessorados por bolsonaristas da porta de trás da Casa Branca, são clandestinamente os substitutos de Jair Messias, que na cadeia se confirmou como o político obsoleto que já era quando foi eleito. Há no bolsonarismo, da família ou não, que em face da decadência do “capo” resolveram cuspi-lo.

É possível que, para uma significativa parte do eleitorado, Jair Messias Bolsonaro possa estar sendo considerado politicamente “morto”. Portanto substituível. Rei morto, rei posto. A população indica que está querendo mudança em face dessa possível vontade popular, que não é a propriamente de filé mignon no prato do almoço, mas de ascensão social e de ingresso de fato na sociedade de consumo. A região do grande ABC, que é meu “laboratório” de observação da realidade operária, dos sete municípios, só um nunca foi petista. Agora, só um é petista, o município de Mauá. Os outros são de centro-direita ou direita mesmo. 

IHU – De que forma a crise no STF pode influenciar o cenário eleitoral dos próximos dias? Quais os possíveis impactos nas eleições?

José de Souza Martins – A crise do STF, que não é de agora, é uma crise provocada propositalmente para debilitar a candidatura do PT. O declínio das opções eleitorais pela esquerda indica que a trama pode dar certo, a menos que o óbvio potencial de desgaste moral da direita, em particular dos Bolsonaros, se traduza em consciência política e voto. Essa consciência vai depender das redes sociais na difusão convincente e do convincente debate que desoculte e debilite a eficácia das fake news e os ardis dos segredos do processo político, de direita ou não.

Não é a crise do STF que está no centro do risco como fator dos resultados adversos possíveis das eleições. Esse risco vem sendo montado faz tempo com êxito evidente. O risco acumula e junta a voracidade de poder das direitas e, também, os equívocos de interpretação da realidade e de ação sobre ela das esquerdas. 

IHU – Há riscos de abrir espaço para pressão ou interferência externa dos Estados Unidos nas eleições dos próximos dias ou no futuro governo?

José de Souza Martins – Essa intervenção já vem ocorrendo. Trump e seu secretário de Estado, ao acolherem dentro da Casa Branca brasileiros, como “valets de chambre”, como camareiros de quarto e meros limpa-botas do presidente americano, que se consideram, aqui, apenas temporariamente fora do poder com a não reeleição de Jair Bolsonaro e sua posterior prisão. Para os muitíssimos brasileiros que foram educados como mascadores de chicle de bola, consumidores de Coca-Cola e leitores das histórias do Pateta, do Pato Donald e do Zé Carioca, esses brasileiros são heróis de histórias em quadrinhos. Os únicos que muitos brasileiros conhecem. Poucos notam que as histórias de Disney são histórias de personagens estéreis, não procriam e não têm filhos, são anomalamente órfãos de filhos. Mas têm poder e dinheiro, ainda que poder vicário à sombra do milionário da moedinha número um, o Tio Patinhas. Os brasileiros que rastejam na Casa Branca, que subiram na vida, são personagens de ficção. São filhos vicários do Tio Patinhas e do Pateta, isto é, filhos ideológicos e simbólicos, procriações do nada e de coisa nenhuma. 

É estranho que no confronto eleitoral deste momento as esquerdas estejam na defensiva em vez de estar na acusação à direita como expressão desse parentesco anômalo e do puxa-saquismo próprio de traidores da pátria. Já não estamos no momento eleitoral de 2002, quando Lula foi eleito presidente pela primeira vez. As polarizações não são as mesmas, o capitalismo mudou muito, assenhoreou-se de dimensões decisivas da realidade social e da consciência social, fortaleceu significativamente a alienação social como instrumento de dominação social. Já não é o principal inimigo apenas como modo de produção. As esquerdas têm dificuldade para compreender que seu principal inimigo está nas transformações sociais que o capitalismo promoveu desde então. Ser de esquerda neste momento da história é ser protagonista das urgências atualizadas e transformadoras da vida cotidiana.

O governo Lula não explicitou com a devida ênfase o papel das esquerdas na defesa de uma versão alternativa de capitalismo, a do crescimento econômico com desenvolvimento social no lugar do subcapitalismo da escravidão por dívida, que persiste entre nós, da exclusão social, da jornada retrógrada e injusta da semana de 6x1. Explicar isso não é aplicar no real um rótulo não conceitual que dá nome ao que não precisa de nome para ser sentido e sofrido. É mostrar em detalhe que a semana de concepção arcaica rouba do trabalhador dimensões importantes do direito à vida. 

Nossas esquerdas não conseguiram se atualizar em relação ao pensamento de esquerda. Sem esquerda como força política reguladora das irracionalidades do capital e das contradições da reprodução ampliada do capital, o capitalismo só é possível com a privação de direitos sociais: sem direitos sociais e com violência coercitiva do trabalho e do trabalhador, com privações. As esquerdas não fizeram aqui a crítica sociológica e política do ultraliberalismo de Milton Friedman, personificado por Guedes e Bolsonaro.

IHU – Teóricos de vários países buscam entender, para além das ideologias da extrema-direita, o descontentamento social que a impulsiona. No Brasil, quais são esses descontentamentos e como eles se refletem no debate político sobre segurança pública, saúde, trabalho e crítica das instituições, por exemplo?

José de Souza Martins – No meu modo de ver, é relativamente fácil entender esse fenômeno. Se o homem supostamente mais poderoso do mundo pode tudo, como colocar a Islândia inteira, um país civilizado, num novo mapa do mundo, como província americana, o imenso número de toscos de um país cujo senso comum tem sido desde sempre destinado a nos tornar um povo subserviente e carneiril, seria uma “honra” fazermos parte do rebanho. Teríamos perdido a vergonha na cara.

A modalidade e o poder da alienação social que se difundiu entre nós a partir da queda de Dilma e do governo Temer criaram um elenco de nomes de carências sociais, como essas de sua pergunta, que não teve debate partidário. Em primeiro lugar, para libertar os problemas sociais de conceitos simplificadores e de concepções sem conteúdo propriamente social. Meros rótulos da mídia, simplificações e não questionamentos de carências reais da vida cotidiana. Aqui, tudo se diluiu no que é apenas a expectativa de uma grande festa que não acontece. São demandas nominais para culpar o governo de esquerda, demandas que o governo mais do que atende, mas que não são ideologicamente essas. 

A crítica à segurança pública é crítica ao fato de que o governo não a tem porque não mata os criminosos e os supostos criminosos, o que inclui muitos inocentes. A eleição de um número anômalo de deputados federais e estaduais vinculados aos setores violentos das forças policiais é uma significativa evidência desse fato. O fato de que continua alto o índice de linchamentos no Brasil, a justiça pelas próprias mãos, no mínimo três por dia. A população quer justiça vingativa e não justiça educativa e restitutiva. 

IHU – A politização da crise atual paralisa discussões importantes para o futuro do país, como o fim da escala 6x1, a redução da jornada de trabalho, a ampliação dos direitos sociais, a discussão sobre projetos de desenvolvimento. Quais as consequências colaterais dessa paralisação? O que o país perde com esse impasse?

José de Souza Martins – O Brasil é o país de um capitalismo retrógrado, que tem setores da economia baseados na sobre-exploração do trabalho. No fundo, não somos um país capitalista. Mas uma economia anticapitalista baseada no crescimento econômico sem desenvolvimento social. A não atualização da concepção de jornada de trabalho em nosso país de fato faz com que o Brasil perca e o capital ganhe, para com sua concepção atrasada e antissocial de ganho, com base em lucro extraordinário resultante de maior taxa de exploração do trabalhador, possa equiparar-se aos países desenvolvidos e ricos, mesmo sendo um país muito atrasado. Nosso capitalismo é uma farsa, que afetou as próprias esquerdas, na medida em que o combatem em nome da luta de classes onde, com a sobre-exploração do trabalho, o trabalhador só excepcionalmente pode conceber-se e manifestar-se como classe social. Em nome desse trabalhador, usurpa-lhe a identidade e em nome dele fala e luta a classe média ideologicamente de esquerda. É uma luta que o trabalhador não compreende, porque não é luta vivencial.

IHU – Na última entrevista que nos concedeu, o senhor disse que o “país estava bloqueado nas armadilhas ideológicas de um senso comum insensível e pobre”. Como romper com esse bloqueio e resgatar a dignidade da política e das instituições para avançar na direção do bem comum e projetar o futuro do país?

José de Souza Martins – Não há receita para romper o que existe como consequência dos erros e omissões, e da alienação, de quem, como muitos de nós, se espanta com o fato. Os educadores e os militantes de causas sociais ativeram-se ao meramente ideológico e deixaram de lado a dimensão antropológica da urgente necessidade de formação de um novo senso comum, um conhecimento de senso comum de superação do desconhecimento alienador. Os próprios educadores, ideologizados, vêm se omitindo sistematicamente em relação a isso. O que nos remete ao desafio proposto por Marx nas Teses sobre Feuerbach: quem educará o educador?

IHU – Como avalia a recente guinada à direita na América Latina? O que essa mudança sinaliza para o futuro político e social da região e qual é o papel do Brasil nesse novo cenário?

José de Souza Martins – Não se trata de uma recente guinada para a direita, mas de uma direita que resolveu sair do descanso que a esquerda lhe deu no período que foi de fato um intervalo no domínio da direita. O relaxamento das esquerdas quanto a acompanhar criticamente, cotidianamente, as mudanças sociais e as mudanças da compreensão popular dessas mudanças tem permitido diferentes grupos sociais descontentes com a situação social, definidos pelas esquerdas como de direita. São demandas de grupos sociais que, com descabida facilidade e sem cuidado definimos como de direita, podem ter legítimas demandas sociais. Convém lembrar que essas demandas já não são de um proletariado que está deixando de existir e são de uma confusa classe média que está querendo existir politicamente. Há algum tempo, Lula, que tem demonstrado grande percepção dessas sutilezas, chamou a atenção dos petistas para o fato de que estavam deixando de levar em conta a classe média. 

A direita vive um momento de avanço em face do fato de que as esquerdas, batidas pela aplicação do rótulo de “direita” que elas próprias vêm atribuindo aos seus opositores e pela incapacidade de reconhecer reclamos de seus direitos sociais justos, não deixaram à classe média senão a alternativa de reconhecerem-se como direita, mesmo não sabendo eles o que é isso. Esse engano, provavelmente, cobrará seu tributo na eleição deste ano. 

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