Myriam Gautho é autora das obras África Romana: Gênese do Cristianismo Latino, Cartago e as Margens da Fé e A Seara Africana: Mártires e Bispos, empunha o cinzel. O Mediterrâneo se desvela sob seus dedos.
Cartago, ano 180. O porto exala sal, peixe, especiarias. Mercadores púnicos descarregam ânforas de azeite. Escravos berberes cantam baixinho, o ritmo ancestral furando o rumor das ondas. Num sobrado estreito, à luz de uma lucerna, doze pessoas partilham pão. Murmuram o nome de Cristo. Um pescador. Um jovem de toga puída. A porta range. Silêncio. A espada do vigia noturno lambe a fresta de luz e passa.
Cartago, ano 252. A peste devasta as ruas. Corpos apodrecem nas esquinas. Os pagãos fogem. Um bispo, parado entre os moribundos, organiza enterros e distribui água. Suas mãos não tremem. Ele escreve: a mortalidade é portal. A cidade o observa, entre o ódio e a reverência.
Arena de Cartago. Uma jovem amamenta o filho na cela. O carcereiro grita: renuncia. Ela sorri. A porta se escancara. A multidão ruge. Uma vaca selvagem investe. O corpo se eleva, cai. Ela ajeita a túnica, o último gesto de pudor. Seus olhos fitam o céu. O rugido vira zumbido. A cidadela interior permanece intacta.
Essa mesma fortaleza invisível é rabiscada, a quilômetros de distância e décadas antes, sob a lona de um acampamento militar às margens do Danúbio. Um imperador escreve que a alma é uma cidadela inexpugnável. Nenhuma flecha a atinge. Os bárbaros uivam na floresta. Ele não levanta os olhos. O aço interior que ele busca é o mesmo que sustentará os mártires.
Num tribunal de Cartago, um advogado romano lança a toga para trás e investe. Fala do corpo. A carne não é lixo. A carne ressuscitará. Sua voz é martelo. O pretor recua. Os assistentes seguram a respiração. O latim se contorce, ganha vértebras novas: Trindade, Pessoa, Substância. Uma língua teológica nasce ali, na poeira do fórum, entre o rumor do comércio e o cheiro de peixe.
Um bispo africano, em Roma, fixa a data da Páscoa. Sua mão corta o calendário. Unifica a liturgia latina. As igrejas da Ásia protestam, ele não recua. A Sé Apostólica respira fundo e assume seu ritmo.
Outro bispo africano, no palácio de Latrão, recebe das mãos de um mensageiro o édito imperial. A perseguição acabou. Ele desenrola o papiro. As catacumbas ficam para trás. A Igreja pisa o mármore.
Um terceiro bispo africano, séculos depois, crava a pena no pergaminho. Escreve ao imperador: duas espadas, dois poderes. A autoridade do espírito não se dobra ao trono. Sua frase atravessa os séculos. O gládio espiritual fulgura, autônomo.
O bispo de Roma cavalga ao encontro de um bárbaro. Átila recua diante de palavras que não são apenas diplomacia, mas a densidade teológica forjada no Norte da África. História, lenda? Papiros, iluminuras e gravuras confirmam. Os crentes creem porque é absurdo.
Uma biblioteca no alvorecer do século XXI. Um leitor de sotaina branca acaricia as páginas de cartagineses e tagastenses. Seus olhos se iluminam. A beleza da verdade. Ele murmura: foi aqui que o latim cristão nasceu. Foi a África que nos deu a fala. A ortodoxia, por um instante, é pura luz.
Um jesuíta, no silêncio da noite, olha a lua. Escreve: a Igreja é essa lua. Sem luz própria, apenas reflexo do Sol. Ela cresce, mingua, sangra nas perseguições. A Igreja norte-africana, lua cheia sob Teodósio, crescente fino sob o islã. Mas a luz que refletiu ainda viaja. Nenhum vândalo pode apagá-la. O vento levanta poeira sobre as ruínas de uma basílica. As estrelas, indiferentes, continuam seu giro.
Hipona, ano 410. O velho bispo dita entre ânforas de tinta. As notícias de Roma saqueada chegam com o mensageiro suado. Ele não para. A Cidade de Deus nasce sobre as cinzas. Duas cidades: uma de amor-próprio, outra de amor divino. A morte, ali, é portal. A carne aguarda transfiguração. Seus dedos manchados correm sobre o papiro. Lá fora, o mar lambe as pedras. O mesmo mar de Cartago.
O mapa está completo. As narrativas antigas ruíram. Cartago dorme sob as estrelas. As ondas sussurram o segredo das palavras que unem terra e céu. O diálogo transcende os séculos.
Myriam Sylvesta Gautho é senegalesa de Dakar, investigadora e docente vinculada ao Departamento de História da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar (UCAD), onde integra a Escola Doutoral Artes, Culturas e Civilizações (ARCIV). Foi nessa instituição que, em 2020, defendeu a sua tese de doutorado, “L’Afrique romaine et le développement du christianisme du Ier au début du Vème siècle après J.C.”, um que reconstitui a expansão do cristianismo nas províncias meridionais do Império Romano, sublinhando o papel das regiões costeiras, dos grandes centros urbanos e do fervor religioso que, a partir do século II, assegurou ao cristianismo uma vitória sobre os cultos concorrentes.
Dessa investigação matricial desdobram-se, como degraus sucessivos, os artigos que publicou em revistas científicas de referência. Nos Cahiers du CBRST (ISSN 1840-703X) deu a conhecer “L’Afrique antique : l’illustre chrétienne” (n.º 16, 2019); logo a seguir, na Revue Sénégalaise d’Histoire (ISSN 0850-2560), assinou “L’apport des Africains dans le développement du christianisme du IIe au Ve siècle de notre ère” (n.º 12, 2022). A revista Éthiopiques (ISSN 0850-2005) acolheu o seu estudo “Afrique romaine: classes sociales et conversion au christianisme du 1er au 3e siècle” (n.º 103, 2019) e, fechando este primeiro ciclo, a plataforma digital Sunu Xalaat – Revue Africaine des Sciences de l’Antiquité (ISSN 2772-2104) divulgou “La conception de la mort à Rome à l’époque impériale” (vol. 3, 2023).
Em março de 2019, nas Jornadas de Estudo do GERHIC na Universidade Alassane Ouattara (Bouaké, Costa do Marfim), dissecou as tensões entre o poder imperial e a nascente hierarquia cristã na comunicação “Le pouvoir et le christianisme naissant dans l’Empire romain”, mostrando como a indiferença romana face aos cultos privados se desfez diante do monoteísmo intransigente. Nesse mesmo ano, no VII Colóquio de Ciências, Culturas e Tecnologia da Universidade de Abomey-Calavi (Benim), abordou a dialética entre a adoção da língua latina e a resistência cultural berbere na comunicação “Romanisation et Résistances en Afrique romaine”.
Em abril de 2022, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro recebeu a sua conferência “La contribution des Africains au développement du christianisme (II-V siècles)”, na qual percorreu a galeria de bispos, escritores e imperadores oriundos do solo norte-africano. Poucos meses depois, no seminário sobre Religião e Identidade na Antiguidade do laboratório Ibnou Diagne e da secção de História Antiga da UCAD, deteve-se sobre os três papas africanos: Victor I, Miltiades e Gelásio I —, figuras que, entre o final do século II e o ocaso do século V, imprimiram à Sé Apostólica uma marca jurídica e teológica indelevel.
Agora, o seu olhar bifurca-se em duas grandes vertentes que prolongam e aprofundam a escada já percorrida. No eixo das religiões e da política, pretende interrogar as razões da perene atualidade dos escritos de Agostinho, a difusão do culto imperial nas províncias africanas e a ideologia que sustentou o poder de Roma. No eixo da sociedade e da cultura, debruça-se sobre a identidade dos povos mediterrânicos, a resistência à cidadania romana, as estruturas familiares, a demografia, a saúde e os usos da morte, sem jamais perder de vista a animada vida intelectual que fez de Cartago, Cirene e Alexandria o verdadeiro laboratório do Ocidente cristão.
A entrevista foi conduzida por Thiago Gama por videoconferência; historiador comparativista, mestre e doutorando pelo programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Myriam Gautho (Foto: Arquivo Pessoal)
A sua tese abrange o desenvolvimento do cristianismo na África romana do século I ao início do século V. Por que a senhora escolheu precisamente esse marco final? O que estaria em jogo, a seu ver, no alvorecer do século V, a ponto de encerrar naturalmente esse período fundador?
Myriam Gautho — O século I é evidentemente o início do cristianismo, que se abre ao mundo após o Pentecostes. Tanto os apóstolos quanto os novos judeus convertidos ao cristianismo veem-se investidos de uma missão de evangelizar o mundo.
O início do século V constitui uma virada decisiva para o Império Romano e, também, para o cristianismo, que conhecerá um florescimento e um reconhecimento oficial sob imperadores como Teodósio I.
A chegada dos vândalos marca a ruptura de 439: naquele ano, os vândalos arianos conquistam Cartago, o que abala profundamente o episcopado africano. Sob os reis vândalos, os bispos católicos atravessam períodos de exílio ou de perseguição.
A sua tese fala de um verdadeiro “desenvolvimento” do cristianismo na África romana, e não de uma simples recepção passiva vinda de Roma. Quais traços próprios da África romana, administrativos, urbanos ou intelectuais, permitiram, segundo as suas pesquisas, esse desenvolvimento autônomo?
Myriam Gautho — A África romana contava com grandes centros comerciais, como Cartago, Cirene e Alexandria. Os judeus estavam presentes em todo o mundo mediterrâneo, encontrando-se onde quer que houvesse dinheiro a ganhar ou comércio a fazer. O judaísmo da diáspora havia, de certo modo, balizado o caminho para o cristianismo.
Alexandria era um grande centro intelectual e religioso: ali, o cristianismo, desprendido de suas raízes judaicas, desenvolveu-se rapidamente, como atestam as obras de Orígenes. Os progressos do cristianismo na África foram notórios, e já no último quartel do século II dispomos do testemunho histórico de seus mártires.
Em Cartago, destaca-se sobretudo a contribuição de Tertuliano para a formação de um latim teológico notável. Tertuliano, que viveu de cerca de 155 a cerca de 220 depois de Cristo, é um dos mais importantes pensadores do cristianismo antigo. Originário de Cartago, na atual Tunísia, é considerado o primeiro grande escritor cristão de língua latina, e sua influência sobre a teologia cristã foi considerável.
Antes de Tertuliano, a maior parte dos escritos cristãos estava em grego; foi ele quem contribuiu para fazer do latim uma língua maior da teologia, o que viria a influenciar duradouramente a Igreja do Ocidente.
Tertuliano é também o primeiro autor conhecido a utilizar o termo latino Trinitas. Explica que Deus é um único ser em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ainda que a doutrina viesse a ser precisada mais tarde pelos concílios, o vocabulário por ele cunhado marcou profundamente a teologia cristã.
Escreveu, além disso, diversas obras de apologética para responder às críticas das autoridades romanas e dos filósofos pagãos, e combateu movimentos que considerava contrários à fé cristã, notadamente o marcionismo e o gnosticismo, insistindo sempre na importância da tradição apostólica e do ensinamento transmitido pelos bispos.
A essa reflexão, que se estende também à moral cristã, soma-se um legado duradouro: Tertuliano lançou as bases do vocabulário teológico latino, contribuiu para a formulação da doutrina da Trindade, reforçou a defesa intelectual do cristianismo diante de seus críticos e influenciou pensadores como Cipriano de Cartago e Agostinho de Hipona.
É o próprio Bento XVI quem confirma essa avaliação: em catequese proferida na Audiência Geral de 30 de maio de 2007 [1], dedicada inteiramente a Tertuliano, o papa apresenta-o como o africano que, entre o final do século II e o início do III, inaugura a literatura cristã em língua latina e dá início a uma teologia nessa mesma língua, obra cujos frutos decisivos, nas palavras do próprio pontífice, “seria imperdoável subestimar”. Vale registrar que Bento XVI dedicou catequeses semelhantes a Cipriano, na Audiência Geral de 6 de junho de 2007 [2], e a Agostinho, na Audiência Geral de 16 de janeiro de 2008 [3].
A senhora cita Tertuliano, que apresenta como apologista africano, a propósito da ressurreição da carne. Diria que sua formação retórica e jurídica, tipicamente cartaginesa, marcou sua maneira tão particular, quase carnal, de defender esse dogma?
Myriam Gautho — Sim, a formação retórica e jurídica de Tertuliano marcou profundamente sua maneira de defender a ressurreição da carne. Seu método carrega claramente os traços de um espírito formado pela cultura jurídica romana e pela escola retórica de Cartago.
Tertuliano constrói sua defesa como um verdadeiro arrazoado jurídico, uma apologia no sentido pleno do termo: não trata a ressurreição apenas como uma meditação teológica, mas a defende como um advogado que pleiteia uma causa diante de um tribunal. Expõe as objeções adversas, refuta-as e, só então, estabelece a verdade da doutrina, numa estrutura muito próxima da retórica jurídica, que passa pela apresentação da causa, pela acusação do adversário, isto é, os negadores da ressurreição, pela refutação dos argumentos inimigos, pela demonstração positiva e, por fim, pela conclusão vitoriosa. Seu vocabulário é, com frequência, o do processo: fala em verdade a defender, em erros a refutar, em testemunhos, provas e contradições.
Sua formação jurídica aparece de modo particular no argumento sobre a responsabilidade corporal. Para Tertuliano, é com o corpo que o homem age: a carne jejua, a carne sofre o martírio, a carne realiza as obras de caridade, mas a carne também pode pecar. Seria, portanto, contrário à justiça divina que o corpo participasse dos atos terrenos sem participar, depois, do julgamento e da recompensa. Trata-se de uma lógica muito próxima do direito romano, segundo a qual o sujeito responsável deve receber as consequências de seus próprios atos.
Tertuliano possui um estilo particularmente combativo: frases curtas, fórmulas contundentes, oposições radicais, ironia contra os adversários. Sua formação em Cartago, grande centro intelectual em que a retórica era fortemente valorizada, explica em parte esse temperamento de orador.
Sua formação jurídica lhe fornece um método, mas sua convicção provém de uma visão teológica mais ampla: a carne não é uma prisão da qual seria preciso libertar a alma, mas parte integrante da criação querida por Deus. Vale-se, para tanto, de fórmulas tipicamente retóricas, breves, memoráveis, construídas como máximas destinadas a marcar o espírito.
O seu método cruza fontes textuais, iconográficas e arqueológicas. Existem, especificamente no Norte da África, vestígios epigráficos ou arqueológicos cristãos que lhe pareçam ainda insuficientemente explorados pela historiografia ocidental do cristianismo antigo?
Myriam Gautho — Sim, o Norte da África possui um patrimônio epigráfico e arqueológico cristão muito rico, amplamente explorado pela historiografia ocidental do cristianismo antigo. As descobertas arqueológicas e epigráficas desempenharam papel central na reconstituição da vida das comunidades cristãs africanas. As fontes mostram que o cristianismo africano não era uma periferia do Império, mas um centro intelectual, teológico e institucional de primeira grandeza, do qual Tertuliano, Cipriano e Agostinho são as figuras mais célebres.
O sítio arqueológico de Cartago, na atual Tunísia, é o mais importante para o estudo do cristianismo africano antigo. As escavações ali realizadas revelaram milhares de inscrições funerárias cristãs, em sua maioria em latim, que informam sobre os nomes dos fiéis, as funções eclesiásticas, entre bispos, presbíteros e diáconos, e as práticas funerárias da época.
A esse patrimônio somam-se as basílicas cristãs e os lugares de culto, como a Basílica de Damous el Karita e a Basílica de São Cipriano, além dos sítios cristãos da Numídia, na atual Argélia. Em Timgad, antiga cidade romana, foram identificados edifícios cristãos tardios, cujas inscrições atestam a implantação progressiva das comunidades cristãs nas cidades romanas da África. Em Madaura, cidade ligada à formação intelectual de Agostinho de Hipona, os vestígios permitem estudar a passagem de uma cultura pagã romana a uma cultura cristã. Já em Hipona, a Hippo Regius dos romanos e cidade episcopal do próprio Agostinho, as pesquisas arqueológicas concentraram-se nos edifícios religiosos e no ambiente urbano da sede episcopal.
Os mosaicos cristãos constituem, por sua vez, uma fonte de primeira ordem, pois trazem inscrições comemorativas, representações bíblicas, símbolos cristãos e informações sobre os doadores.
Os textos epigráficos ligados aos mártires formam outro conjunto fundamental. A África cristã é particularmente rica em documentos relativos ao martírio, e os pesquisadores têm-se debruçado sobre os Acta martyrum, isto é, os atos dos mártires, sobre as inscrições que os comemoram e sobre os lugares de memória, os martyria. A esse conjunto liga-se, ainda, o debate teológico mais amplo: a África foi um verdadeiro laboratório das controvérsias sobre o batismo, o cisma donatista, a disciplina eclesiástica e a natureza da Igreja.
Entre as grandes coleções utilizadas pelos pesquisadores, destacam-se o Corpus Inscriptionum Latinarum, o CIL, que reúne numerosas inscrições cristãs da África romana, e as Inscriptiones Christianae Latinae, empregadas no estudo da epigrafia cristã. As publicações da École Française de Rome e de grandes institutos arqueológicos europeus também desempenharam papel importante na exploração científica desses dados.
A sua tese detém-se no limiar do século V, momento em que o episcopado norte-africano já havia atingido uma densidade institucional notável, com concílios que reuniam dezenas de bispos. O que revela, em sua opinião, essa densidade episcopal sobre o vínculo entre cristianismo e vida cívica na África romana?
Myriam Gautho — A densidade episcopal testemunha a grande receptividade do cristianismo no Norte da África, favorecendo, por consequência, a criação de diversos episcopados nas regiões que deles mais necessitavam. No século V, o episcopado norte-africano constitui uma das redes eclesiásticas mais desenvolvidas de todo o mundo cristão latino, particularmente bem documentada graças aos escritos de Agostinho de Hipona, às atas dos concílios africanos, às cartas episcopais e à epigrafia cristã. Esse período é marcado por dois grandes fenômenos: a maturidade institucional da Igreja africana e o conflito donatista.
Trata-se de uma Igreja fortemente estruturada em torno dos bispos. A África romana do século V possui uma densidade episcopal excepcional: contam-se várias centenas de sedes episcopais, distribuídas entre a Proconsular, em torno de Cartago, a Bizacena, no centro e sul da atual Tunísia, a Numídia, no leste argelino atual, e a Mauritânia, na Argélia ocidental e no Marrocos oriental.
Os concílios africanos configuram, nesse sentido, uma espécie de “democracia episcopal” relativa. O século V conhece intensa atividade conciliar: os bispos reúnem-se em Cartago ou em outras cidades para tratar da disciplina do clero, da fixação das práticas litúrgicas, da questão dos rebatizados provenientes do donatismo e da definição da doutrina cristã.
A crise donatista constitui o grande conflito religioso do Norte da África no início do século V, opondo os donatistas, que consideravam, entre outros pontos, que os bispos que haviam falhado durante as perseguições não podiam mais administrar validamente os sacramentos, ao restante da Igreja africana. O donatismo possuía, ele próprio, uma organização episcopal muito forte, com bispos e concílios próprios.
Nesse sentido, a África cristã não é uma periferia diante da Europa: ela representa um dos laboratórios institucionais que prepararam a prática conciliar de toda a Igreja antiga. No sínodo africano realizado no ano 240, estiveram presentes cerca de noventa bispos africanos. A Igreja de Cartago, como sede metropolitana, anima as decisões fundamentais tanto no plano da fé quanto no da disciplina, e o avanço cristão transborda os meios urbanos para se espalhar também pelo mundo rural.
Para finalizar: se levássemos a sério o que a sua pesquisa dá a ver, um cristianismo primeiramente pensado, discutido e instituído na África, o que isso deveria mudar na maneira como a história da Igreja continua a ser contada, tanto em Roma quanto nas faculdades de teologia ocidentais?
Myriam Gautho — É preciso reconhecer que o cristianismo foi pensado, discutido e instituído no Norte da África, e corrigir uma visão longamente centrada em Roma, que por vezes apresentou a África cristã como periferia, quando ela foi, na verdade, um centro maior de produção teológica, institucional e intelectual. Tertuliano elabora um vocabulário teológico latino; Cipriano pensa a unidade da Igreja; Agostinho influencia, por séculos, a teologia ocidental. A África não é, portanto, apenas um terreno de missão: foi um lugar de criação doutrinal. Os Padres africanos moldaram o pensamento cristão, e boa parte da linguagem teológica ocidental nasceu na África.
No que diz respeito ao vocabulário cristão latino, Tertuliano desempenha papel essencial na criação de uma linguagem teológica em latim, ao cunhar termos como Trinitas, isto é, Trindade, ao empregar persona em seu uso teológico e ao aplicar substantia aos debates sobre Deus.
No campo da eclesiologia, Cipriano de Cartago desenvolve reflexão maior sobre a unidade da Igreja, a autoridade episcopal e a relação entre os bispos e a comunidade dos fiéis.
Já na teologia da graça, Agostinho de Hipona torna-se referência central para o Ocidente latino no que se refere ao pecado original, à graça, à liberdade humana e à predestinação.
O cristianismo ocidental não é, portanto, simples herança romana ou europeia: é também herança africana, pois alguns de seus conceitos fundamentais foram elaborados por cristãos do Norte da África. Reconhecer a contribuição africana não corrige apenas uma omissão histórica; permite compreender melhor a própria identidade do cristianismo latino.
Teodósio I — imperador (r. 379–395) cujo Edito de Tessalônica (380) tornou o cristianismo niceno religião do Estado. O “reconhecimento oficial” citado por Gautho não é tolerância: é monopólio de culto.
Arianismo — doutrina que subordinava o Filho ao Pai, condenada em Niceia (325). Os vândalos que tomam Cartago em 439 a professam: daí a perseguição aos bispos católicos, não só conquista militar.
Apologética — defesa racional da fé diante de acusadores (do grego apologia, discurso de tribunal), não “pedir desculpas”. O mesmo reflexo judiciário da resposta seguinte de Gautho sobre Tertuliano.
Marcionismo — doutrina de Márcion (c. 85–160): opunha o deus vingativo do Antigo Testamento ao Deus de amor do Novo, rejeitando as escrituras hebraicas. Tertuliano rebateu-o num tratado inteiro.
Gnosticismo — famílias de doutrinas que separavam matéria e espírito, prometendo salvação por conhecimento (gnosis) reservado a poucos. Contra elas, Tertuliano defende a fé transmitida por todos os bispos.
Donatismo — cisma batizado por Donato, bispo dissidente de Cartago nunca nomeado por Gautho. Os “bispos que haviam falhado durante as perseguições” que ela descreve são os traditores: quem entregou as escrituras aos perseguidores.
[1] PAPA BENTO XVI AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 30 de Maio 2007
[2] PAPA BENTO XVI AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 6 de Junho de 2007
[3] PAPA BENTO XVI AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008.
Todas as referências foram verificadas no dia 15 de julho de 2026.