Jesuíta da comunidade da Terra Santa testemunha o significado da celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em uma região que se tornou símbolo contemporâneo da barbárie e do esquecimento humano
“Seguimos Jesus em seu sofrimento terreno”. É com este espírito que David Neuhaus, jesuíta e professor de Sagrada Escritura no seminário do Patriarcado Latino de Jerusalém, diz que os cristãos estão celebrando a Semana Santa em Jerusalém, em meio ao mais recente conflito no Oriente Médio. A crescente escalada de violência na região, resume o religioso, “é uma continuação dos planos sinistros de formar um ‘novo’ Oriente Médio”.
A impossibilidade de celebrar publicamente a Semana Santa em Jerusalém, afirma, “é muito triste”, mas, a celebração em pequenos grupos, como está ocorrendo nos últimos dias, “talvez seja uma forma verdadeiramente apropriada de vivenciar a Páscoa”, afirma o ex-vigário patriarcal para católicos e migrantes de língua hebraica na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail. “Assim como os primeiros discípulos, que viviam em um ambiente de medo, nós também seremos desafiados a experimentar os acontecimentos da Semana Santa – a cruz na Sexta-feira Santa, a deposição no túmulo no Sábado Santo e a ressurreição de Cristo na Páscoa – de maneira discreta e em espírito de oração”, sublinha.
O maior desafio neste momento da história, assegura, “será vivenciar a realidade do túmulo vazio e a alegria do Cristo Ressuscitado em um mundo tão manifestamente exposto à violência, à morte e à destruição”. Contudo, reitera o entrevistado, “devemos ser o fermento na massa que contém a promessa evangélica de nova vida, mesmo onde a morte ainda reina”.


David Neuhaus (Foto: Caffestoria)
De origem judaica, Neuhaus converteu-se ao catolicismo e ensina Bíblia para seminaristas católicos de língua árabe, religiosos, religiosas e professores de religião na Palestina e em Israel há 25 anos. Nasceu em Joanesburgo. Concluiu bacharelado em Psicologia e Ciência Política na Universidade Hebraica de Jerusalém e em Teologia, no Centro Sèvres, Instituto Superior de Teologia e Filosofia, de Paris. Realizou mestrado em Ciência Política com o tema “Política e Islã em Israel, 1948-1987” e concluiu o doutorado com tese intitulada “Entre a tranquilidade e a agitação: as funções políticas da religião. Um estudo da minoria árabe em Israel 1948-1990”, também na Universidade Hebraica de Jerusalém.
Lecionou no curso de Ciência Política do Centro Universitário de Boston. Em 2000, foi ordenado sacerdote católico romano, ingressando na Companhia de Jesus. É correspondente em Israel da revista La Civiltà Cattolica. Os textos do jesuíta são reproduzidos na página eletrônica do IHU. Em 2012, Neuhaus concedeu uma entrevista à Revista IHU On-Line sobre o papel religioso no conflito do mundo árabe. A publicação está disponível aqui. A seguir, o Pe. Neuhaus apresenta sua visão do que se passa na região e comenta como os cristãos celebrarão a Páscoa nestas circunstâncias.
IHU – Qual é a sua percepção sobre o que está acontecendo no Oriente?
David Neuhaus – Estamos vivendo tempos catastróficos. Esta mais recente onda de violência, que envolve o Irã, Israel, Líbano e outros países do Golfo Árabe, é uma continuação dos planos sinistros de formar um “novo” Oriente Médio. Quando esses planos foram iniciados? Em retrospectiva, acredito que podemos dizer que o primeiro passo foi a Declaração de Balfour de 1917. As autoridades coloniais britânicas declararam que promoveriam o estabelecimento de um lar nacional judaico na Palestina. A ideia de assentar judeus europeus, rejeitados em seus próprios países por nacionalistas europeus racistas – primeiro no Império Russo, depois em toda a Europa Oriental e atingindo um auge com os nazistas na Alemanha e nas terras que ocuparam –, tem sido uma fonte contínua de instabilidade em todo o Oriente Médio.
A ferida purulenta da catástrofe palestina de 1948 infectou toda a região. Refugiados palestinos no Líbano, na Jordânia e em outros países vizinhos desestabilizaram regime após regime. Dentro de Israel, regimes de discriminação e ocupação corroeram a alma da sociedade. Ideologias islâmicas, fortemente críticas ao Ocidente, também foram estimuladas pela proteção do Ocidente a Israel e por sua recusa em reconhecer os direitos dos palestinos de viver com dignidade, segurança e igualdade em suas próprias terras. Guerra após guerra, agressão após agressão, a tragédia contínua chegou a Gaza, onde a maioria da população é composta por refugiados de 1948, e culminou em um genocídio que nos deixou atordoados. E agora, a guerra contra o Irã…! Quando isso vai acabar? Ou será que pode acabar? Parece que Israel é viciado em guerra e só consegue sobreviver por meio dela.
IHU – Como é viver e celebrar a Semana Santa e a Páscoa em Jerusalém e na Palestina neste momento?
David Neuhaus – Sem dúvida, é muito triste. As principais celebrações foram canceladas. A procissão do Domingo de Ramos, um dos eventos mais alegres do ano cristão, foi cancelada. A Missa do Crisma da Quinta-feira Santa foi adiada por tempo indeterminado. Os principais santuários, especialmente a Igreja da Ressurreição (Santo Sepulcro), estão fechados para visitantes. Nós nos reuniremos em pequenos grupos para marcar a Semana Santa e celebrar a Páscoa.
No entanto, por outro lado, talvez esta seja uma forma verdadeiramente apropriada de vivenciar a Páscoa. Assim como os primeiros discípulos, que viviam em um ambiente de medo, nós também seremos desafiados a experimentar os acontecimentos da Semana Santa – a cruz na Sexta-feira Santa, a deposição no túmulo no Sábado Santo e a ressurreição de Cristo na Páscoa – de maneira discreta e em espírito de oração. O maior desafio será vivenciar a realidade do túmulo vazio e a alegria do Cristo Ressuscitado em um mundo tão manifestamente exposto à violência, à morte e à destruição. Devemos ser o fermento na massa que contém a promessa evangélica de nova vida, mesmo onde a morte ainda reina.
IHU – Qual passagem bíblica tem meditado de modo especial neste momento em que emergem novos conflitos?
David Neuhaus – Nestes tempos, tenho lido e relido o pequeno livro de Habacuque. É uma verdadeira joia. Este profeta clama sua dor e a dor de seu povo a um Deus que ele percebe como silencioso. As grandes questões de “por quê?” e “até quando?” tornam este livro tão contemporâneo. E, ainda assim, em meio à dor, ao desgosto, às lágrimas, Habacuque é chamado a experimentar Deus como presente. De fato, como disse há poucos dias nosso arcebispo, o Patriarca Pierbattista Pizzaballa: “Se Deus está presente nesta guerra, Deus está entre aqueles que estão morrendo, que estão sofrendo, que estão em dor, que são oprimidos de várias maneiras em todo o Oriente Médio”.
IHU – O que a meditação da Paixão, morte e ressurreição de Jesus diz ao seu coração neste momento em que acompanha e assiste tantas pessoas em situações de sofrimento por causa dos efeitos das guerras?
David Neuhaus – Podemos nos identificar plenamente com a paixão e a morte de Cristo. Ao vermos nosso mundo cruelmente flagelado, sangrando, ferido, por causa da curta visão de nossos líderes políticos, cuja ganância e disputa patológica pelo poder criam um verdadeiro inferno na Terra, seguimos Jesus em seu sofrimento terreno.
No entanto, como sacerdote, sou chamado a tentar chamar a atenção para a semente do Evangelho, a boa notícia da ressurreição, a vitória da vida sobre a morte. Este é um enorme desafio ao tentar estar ao lado das famílias que perderam entes queridos, foram expulsas de suas casas, empobrecidas por causa de seus empregos, aquelas que estão em profunda depressão, vivendo em medo constante, tendo perdido a esperança, sonhando em estar em outro lugar. Em meio a tudo isso, sou chamado a lembrar... É ao lembrar que a esperança pode ser revigorada. Lembrando tanto os poderosos feitos de Deus no passado quanto a lição histórica de que impérios malignos vêm e vão, sou desafiado a continuar a ter esperança, apesar de tudo.
IHU – A Palavra de Deus tem sido invocada para legitimar as guerras e disputas políticas, fazendo com que muitos se afastem dela. Como anunciar a Revelação e o amor misericordioso de Deus neste contexto?
David Neuhaus – Líderes cruéis sempre usaram a religião para legitimar sua própria violência, sua sede de poder e guerra. Invocar Deus é uma legitimação aparentemente poderosa até mesmo dos piores males. Este, é claro, não é Deus, mas um deus criado por eles à sua própria imagem e semelhança. Este deus sanguinário deve ser denunciado por nossos líderes religiosos. Nós, que pregamos o Evangelho, somos desafiados a nos manifestar, proclamando um Evangelho de amor, vida, liberdade, justiça e igualdade, e um Deus que ama todos os filhos e filhas de Deus.
IHU – O senhor insiste na proposta de falarmos novas linguagens, que rejeitem o desprezo e o ódio pelo outro. Que linguagem comum poderia unir cristãos e não cristãos neste empenho? Como construir a paz e uma cultura de desarmamento?
David Neuhaus – A linguagem comum que devemos falar está fundamentada no reconhecimento de que todo ser humano, amigo ou inimigo, é um irmão ou uma irmã. Essa linguagem está enraizada em um ensinamento que devemos adotar em toda situação: Deus é nosso Pai, e nós somos filhos e filhas de Deus. Quaisquer que sejam as discordâncias que possamos ter sobre como nomear Deus, como compreender nossa vocação no mundo, como organizar a sociedade e regulá-la, nunca devemos nos esquecer de que todo ser humano está ligado a mim por vínculos que foram estabelecidos por Deus. Ao apagar muros, excluindo aqueles que definimos como inimigos, estamos desfigurando a criação que Deus estabeleceu e renova a cada geração. Toda guerra militar é uma guerra contra Deus, e devemos ser capazes de ouvir o choro de Deus, sentir a dor de Deus. Qualquer discurso que privilegie a palavra “inimigo” em detrimento de “irmão/irmã” é uma linguagem idólatra que não pode ser adotada por aqueles que verdadeiramente acreditam em um futuro melhor.
IHU – Qual é a oração mais apropriada para este momento da história?
David Neuhaus – Rezo constantemente a oração formulada pelo Papa Francisco quando reuniu nos Jardins do Vaticano, em junho de 2014, os Francisco comenta encontro com líderes da Palestina e Israel:
“Tentamos tantas vezes e durante tantos anos resolver os nossos conflitos com as nossas forças e também com as nossas armas; tantos momentos de hostilidade e escuridão; tanto sangue derramado; tantas vidas despedaçadas; tantas esperanças sepultadas... Mas os nossos esforços foram em vão.
Agora, Senhor, ajudai-nos Vós! Dai-nos Vós a paz, ensinai-nos Vós a paz, guiai-nos Vós para a paz. Abri os nossos olhos e os nossos corações e dai-nos a coragem de dizer: ‘nunca mais a guerra’; ‘com a guerra, tudo fica destruído!’ Infundi em nós a coragem de realizar gestos concretos para construir a paz.
Senhor, Deus de Abraão e dos Profetas, Deus Amor que nos criastes e chamais a viver como irmãos, dai-nos a força para sermos cada dia artesãos da paz; dai-nos a capacidade de olhar com benevolência todos os irmãos que encontramos no nosso caminho. Tornai-nos disponíveis para ouvir o grito dos nossos cidadãos que nos pedem para transformar as nossas armas em instrumentos de paz, os nossos medos em confiança e as nossas tensões em perdão.
Mantende acesa em nós a chama da esperança para efetuar, com paciente perseverança, opções de diálogo e reconciliação, para que vença finalmente a paz. E que do coração de todo o homem sejam banidas estas palavras: divisão, ódio, guerra! Senhor, desarmai a língua e as mãos, renovai os corações e as mentes, para que a palavra que nos faz encontrar seja sempre ‘irmão’, ‘irmã’, e o estilo da nossa vida se torne: shalom, paz, salam!”