Reimaginar o futuro, para o teólogo nigeriano, está associado a uma inversão hermenêutica sobre a maneira como nosso tempo compreende os pobres. Essa conversão, assim como a de Agostinho, acontece no coração e não apenas no intelecto
A advertência de que é urgente reimaginar o futuro, propagada por teóricos dedicados a elaborar cenários para enfrentar os problemas da nossa era, também é feita pelo teólogo nigeriano Stan Chu Ilo. Crítico de uma sociedade que governa pela métrica, pela eficiência física e pela produtividade econômica, o professor da DePaul University, em Chicago, Illinois, nos Estados Unidos, encontra na Exortação Apostólica Dilexi te: sobre o amor para com os pobres, iniciada por Francisco e concluída por Leão XIV, uma série de afirmações contraculturais que podem inspirar um mundo novo.
Uma delas é que “os pobres não são um problema a ser resolvido, mas pessoas a serem encontradas. Não um obstáculo para o desenvolvimento, mas o sacramento da proximidade de Deus”. Este ensinamento, disse em videoconferência ministrada no Instituto Humanitas Unisinos – IHU em dezembro do ano passado, “está firmemente imbuído na grande tradição da doutrina social da Igreja”.
Analisando a Dilexi te à luz do pensamento de Santo Agostinho, Stan Chu Ilo compara a nossa era com a cidade dos homens, sobre a qual refletiu o bispo de Hipona em Cidade de Deus. Na cidade dos homens, diz, os pobres são administrados, estudados e “têm proporcionado empregos para guerreiros da pobreza: humanitários célebres, aqueles que estão buscando ajudar os pobres, em vez de os pobres se ajudarem”.
O humanitarismo, amplamente defendido em diversos círculos, alerta o teólogo, “quando divorciado da humildade, torna-se outra forma de império”. Segundo ele, particularmente na África, o humanitarismo foi transformado num “império de desigualdades”. “Eu já vi armazéns de assistência guardados por soldados enquanto os famintos esperavam lá fora. Eu já vi compaixão se transformar em burocracia. Já vi muitos projetos abandonados. (…) Concluí que algo está fundamentalmente errado com a ajuda atual e a missão de caridade na África”, relata.
A visão cristã dos pobres, esclarece o teólogo nigeriano, é contracultural. “Os pobres não são objeto de análise, nem são recursos para um avanço profissional. Na antropologia trinitária, os pobres são o próprio Cristo. Esta é a lógica. Os pobres não são marginais a Cristo. Eles são o próprio lugar onde a união de Cristo com a humanidade é mais manifesta. Os pobres são a carne de Cristo. Tocá-los é tocar Deus. Ignorá-los, ou pior, utilizá-los ou explorá-los, é negar o coração do evangelho – e, na minha própria teologia, é bastante herético”, declara.
A seguir, publicamos a conferência de Stan Chu Ilo, intitulada “‘Dilexi te’ através das lentes de Agostinho. Uma aproximação africana”, no formato de entrevista, juntamente com as questões dirigidas ao conferencista pelos participantes do evento.

Stan Chu Ilo (Foto: Reprodução)
Stan Chu Illo pesquisa temas relativos ao cristianismo, estudos africanos e saúde global na DePaul University, nos Estados Unidos. É professor honorário de Religião e Teologia na Universidade de Durham, na Inglaterra, e pesquisador visitante no Instituto de Estudos Africanos da Universidade da Nigéria. Coordena a Rede Pan-Africana de Teologia Católica e Pastoral (PACTPAN). É membro do Conselho Editorial da Revista Concilium e integra o conselho editorial de diversas outras revistas, incluindo o Journal of Global Catholicism, o Journal of African Christian Biography e o Journal of Christian Ethics.
É autor de, entre outros, Where is God in Africa? A Theology of Suffering and Smiling (2025); Journeying Together in Hope for a Synodal Church in Africa (2024); Daily Walk with Jesus: African Biblical Reflections 365 for a Good Christian Life (2023); Under the Palaver Tree: Post-Vatican II African Ecclesiology (2023); Ecological Ethics for Cosmic Flourishing (2022); Handbook of African Catholicism (2022); Someone Beautiful to God (2020); Pentecostalism, Catholicism, and the Spirit in the World (2019); A Poor and Merciful Church (2019); Wealth, Health and Hope in African Christian Religion (2018); Church and Development in Africa (2014); The Church as Salt and Light (2011).
IHU – A Dilexi te pode ser lida como uma continuação do desenvolvimento do ensino social católico?
Stan Chu Ilo – A Dilexi te nos oferece uma bússola moral para navegarmos o nosso caminho através da história, como fiéis na busca de condições para promover o florescimento humano e cósmico. Em Deus caritas est, o Papa Bento XVI nos lembra que a missão da Igreja começa não com uma ideia, mas, sim, com um encontro com o Deus que é amor. Dilexi nos aprofundou essa visão, mostrando que o amor divino não é sentimental, mas sacrificial, e faz um apelo ousado para a restauração da centralidade do coração: compaixão, ternura, profunda conexão com os sofrimentos do outro, ou seja, com a forma como nós vemos uns aos outros e o mundo ao redor de nós. O Papa Francisco fala, na Dilexi nos, do amor que edifica a Igreja como comunhão. Seguindo esta linha, o Papa Leão declara que as palavras “eu vos amei”, de Cristo, revelam o coração místico da missão da Igreja: a cabeça inclinando-se para lavar os pés do seu corpo, os pobres, os esquecidos e os marginalizados.
Esses três documentos papais constituem um tríptico no desenvolvimento da doutrina social católica ao redor do mandamento central do Senhor Jesus Cristo: amar. Ao emitir essa exortação e escolher o tema sobre o amor para os pobres no início do seu pontificado, Leão sinaliza sua intenção de caminhar nos passos do seu venerável predecessor, o Papa Francisco.
Francisco já havia iniciado a elaboração do documento como uma continuação da Dilexi nos, a encíclica sobre o Sagrado Coração de Jesus, e como uma meditação do inseparável vínculo entre o amor divino e o cuidado da Igreja com os pobres. Na introdução, o Papa Leão torna essa continuidade do papado de Francisco clara e direta.
IHU – Como lê a Dilexi te numa chave agostiniana?
Stan Chu Ilo – Através da lente da teologia luminosa de Agostinho, do Totus Christus, Cristo Total, cabeça e corpo. Eu tiro isso do comentário de Agostinho sobre o Evangelho de João. Para Agostinho, Cristo e a Igreja não são duas realidades separadas, mas um mistério de amor, um organismo vivo de graça.
No Tractatus in Iohannis Evangelium (n. 21,8), Agostinho escreve: “Vamos nos alegrar e dar graças. Nós nos tornamos não apenas cristãos, mas o próprio Cristo, porque ele é a cabeça, nós somos os membros. Ele e nós juntos somos o homem completo”.
Essa profunda afirmação na leitura de Agostinho do Evangelho de João, particularmente do capítulo 5 – no qual ele primeiro contempla a unidade entre o Pai e o Filho e, depois, descobre nessa comunhão divina o modelo da unidade de Cristo com o seu corpo, a Igreja –, diz com uma clareza incrível que Cristo “desejou não se separar, mas dignou-se unir-se a nós”.
Para entender o quão profundamente Cristo uniu-se à humanidade, Agostinho nos remete ao prólogo de João. No Tractatus (n. 1), ele insiste que o Verbo eterno entrou não apenas na história humana, mas na plena pobreza da nossa condição. Ele tomou para si a nossa mortalidade, aceitou a nossa fraqueza, tomou para si a nossa pobreza. Pobreza aqui não é meramente privação material; é toda a vulnerabilidade do ser humano: carne, sofrimento, humilhação, morte. A encarnação, para Agostinho, é a grande troca na qual Deus pega o lugar mais baixo, de modo que a humanidade possa ser elevada para a vida divina.
Esse movimento descendente do amor divino, ou seja, a condescendência divina, é descrito lindamente no capítulo dois do Tractatus. O médico desceu até o doente. O Senhor se humilhou para o escravo, o criador para a criatura. A humildade de Cristo não é uma abstração, mas uma descida concreta para os espaços frágeis, feridos e pecaminosos da vida humana. O Totus Christus começa nessa surpreendente solidariedade na qual Deus se inclina para estar conosco no nosso sofrimento. Ele se inclina para nós.
A partir dessa encarnação através da pobreza, surge o que considero a visão eclesiológica central de Agostinho: Cristo está unido não apenas com a humanidade em geral, mas com os pobres, os fracos e todos os que sofrem. No Tractatus (n. 50), Agostinho escreve: “Nosso Senhor Jesus Cristo, único filho de Deus, nos fez um com ele. Ele é a cabeça; nós somos os membros. Ele nos assumiu. Ele carregou as nossas enfermidades”. Para Agostinho, os membros que sofrem do corpo não são periféricos. Eles não devem ser abandonados. Eles não estão fora deste corpo que é a Igreja. Eles pertencem à própria plenitude de Cristo, porque a cabeça não pode ser separada dos membros feridos. A identidade da Igreja flui a partir desta unidade mística. Cristo, nessa dinâmica, está para ser encontrado onde estão os pobres e os que sofrem.
Agostinho diz nos Sermões: “Vocês amariam Cristo? Então, estenda sua mão para os pobres, porque Cristo está ali. Cuidem de Cristo enquanto está no poder de vocês fazer isso. É Cristo que tem fome, que tem necessidade”. Os pobres, portanto, não são objetos do desafio da Igreja; eles são o sujeito da vida da Igreja. Eles são o lugar vivo onde Cristo tem que ser amado, encontrado e servido. Não é simplesmente uma orientação pastoral ou uma obrigação; é cristológico. Não é nada menos que a continuação da encarnação de Cristo. Este é o marco teológico a partir do qual faço a leitura dos cinco capítulos da Dilexi te.
Outra chave agostiniana que surge na Dilexi te é a noção de Agostinho entre desfrutar e usar. Somente Deus deve ser desfrutado por si mesmo, enquanto todas as coisas criadas devem ser usadas como meio para a comunhão com Deus. O pecado, para Agostinho, é o amor desordenado que inverte a ordem: desfrutar o que deve ser usado e usar o que deve ser desfrutado. É isto que encontramos na cidade terrena: o amor desordenado, que objetifica, que torna dispensável o que deve ser amado como um fim em si: Deus e todos os seres humanos. Na cidade do homem há um desprezo do outro em função do egoísmo do indivíduo. Isso pode ser visto não apenas no nível individual, mas também nas instituições e sistemas que utilizam os pobres para avançar o fim egoísta de alguns indivíduos, enquanto o restante sofre.
No número 45 da Dilexi te, o Papa Leão cita Agostinho no Sermão (n. 86). Ao refletir sobre o propósito das posses materiais à luz da caridade divina, ele ensina que os bens temporais não são maus em si, mas devem ser ordenados corretamente para o amor de Deus e do próximo. Baseando-se na teologia agostiniana, Leão explica que a riqueza, o cuidado aos pobres e o trabalho humano devem servir à comunhão e não ao domínio.
Quando separados do amor, esses bens se tornam instrumentos de injustiça. Quando ordenados para a caridade, se tornam meios de graça e participação na providência de Deus. O Papa Leão escreve que Cristo transforma a ordem dos bens temporais, ligando-os à economia da salvação. Nessas palavras, o pão dado para o pobre se torna o pão da vida. A hospitalidade oferecida para o forasteiro se torna uma morada na casa do Pai. O cuidado mostrado para os doentes e aprisionados se torna a cura e a liberdade do Reino. Então, ele conclui que a administração cristã implica uma orientação eucarística de todos os bens, de modo que o mundo em si se torne um altar de amor.
O parágrafo n. 45, portanto, capta uma das visões centrais do documento, ou seja, a ordenação dos bens temporais para a caridade eterna, onde os pobres se tornam os mediadores, através dos quais as realidades temporais são transformadas em sinais sacramentais da divina graça. Através desse marco agostiniano, Dilexi te pode ser lida como um convite do Papa Leão para reordenarmos o amor num mundo desfigurado pela fragmentação e excesso econômico pós-liberal.
A crítica cultural pós-liberal do Papa Leão desmascara as devastadoras consequências das políticas institucionais das nações e estados modernos, as desigualdades da ordem global, os paradigmas de desenvolvimento distorcidos e as idolatrias do capitalismo desenfreado para reduzir as pessoas a meros instrumentos de uso útil, em vez de sujeitos do desfrute divino.
À luz disso, a Igreja é convocada, pelo Papa Leão, a se inclinar para romper as novas correntes que prendem os pobres, como um sinal pascal que dê esperança para muitas pessoas que são pegas em novas formas de pobreza e formas modernas de escravidão, como o tráfico humano, a mão de obra forçada, a exploração sexual e várias formas de dependência.
Ao fazer isso, o Papa Leão aprofunda o ensino da doutrina social católica, proporcionando novas ferramentas para uma hermenêutica estrutural e teológica crítica da pobreza, que possa discernir, com os olhos de fé, como o amor divino opera dentro das fraturas da história. Ele convida todos a participarem de uma análise encarnada e histórica do que significa a pobreza. Então, não podemos desistoricizar a pobreza. Isso nos ajuda a entender por que as pessoas são pobres e como os nossos sistemas, instituições, políticas e programas, em diferentes níveis, produzem a pobreza, objetificando os pobres e impossibilitando o desmantelamento da pobreza.
IHU – Como a identidade, missão e credibilidade da Igreja são abordadas na Dilexi te?
Stan Chu Ilo – Fiquei impressionado com o que a Dilexi te afirma quanto a alguns elementos sobre a identidade, a missão e a credibilidade da Igreja. Quanto à identidade, a Dilexi te convida a Igreja a redescobrir a si mesma como Igreja para os pobres e Igreja com os pobres. Isso se desenvolve no capítulo três.
Em segundo lugar, destaca-se o compromisso da solidariedade. Os fiéis são chamados a um compromisso renovado com a caridade e a justiça para com todos aqueles que habitam nas periferias existenciais da vida. Isso porque a medida da fidelidade da Igreja é a sua proximidade com as feridas da humanidade, de acordo com o Papa Leão. Posteriormente, o Papa oferece uma síntese profunda, ou seja, o que vai dar credibilidade à Igreja hoje precisa ser encontrado nos fundamentos cristológicos, antropológicos, escatológicos, eclesiais e na práxis, que refletem o amor pelos pobres. Esta é a única forma de dar credibilidade à Igreja. O bom Senhor diz aos seus seguidores: as pessoas sabem que vocês pertencem a mim se se amarem uns aos outros.
IHU – Qual é o fundamento antropológico da Dilexi te?
Stan Chu Ilo – O fundamento antropológico da Dilexi te aparece com clareza luminosa entre os números 24 e 27 e, novamente, entre os números 109 e 111, onde a dignidade humana está fundamentada não na função de status, eficiência ou produtividade, mas na capacidade humana de amar como Deus ama. O Papa Leão (n. 24) ecoa a primeira carta de João: “O Apóstolo João escreve: ‘Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê’ (1 Jo 4, 20)”. Esta não é uma mera recomendação, mas, sim, uma verdade antropológica. Amar os pobres é tocar o rosto ferido de Jesus Cristo. Recusar os pobres é recusar Deus.
Essa antropologia teológica atinge o seu cume na Dilexi te, quando o Papa escreve que os pobres nos levam ao coração da nossa fé. “Para os cristãos, os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo” (n. 110). Essa antropologia, já lindamente antecipada ou prevista na Dilexi nos e também em Deus caritas est, do Papa Bento, está fundamentada na encarnação. Deus assume a nossa pobreza no Cristo, de modo que ninguém pode ser tratado como descartável. Toda pessoa humana é um ícone do Deus encarnado, cuja semelhança é revelada unicamente nas feridas, na fragilidade e nas esperanças dos pobres.
No mundo governado cada vez mais pelas métricas da eficiência física e da produtividade econômica, essa afirmação é contracultural. Ela proclama que os pobres não são um problema a ser resolvido, mas pessoas a serem encontradas. Não um obstáculo para o desenvolvimento, mas o sacramento da proximidade de Deus. Este ensinamento está firmemente imbuído na grande tradição da doutrina social da Igreja.
A Gaudium et Spes (n. 2), fundamenta a dignidade de cada vida humana no mistério da encarnação de Cristo porque, pela sua encarnação, o filho de Deus uniu a si, de alguma forma, todo ser humano. Isso significa que nenhuma vida humana, especialmente a marginalizada, daqueles que sofrem, os pobres, pode ser reduzida à utilidade.
A autoentrega de Cristo une a Igreja com todas as pessoas em amor, tornando a exploração dos pobres não apenas uma falha moral, mas uma negação da verdade da união de Cristo com a humanidade. É herético negar os pobres e recusar identificar, através deles, o Deus que não podemos ver.
A Gaudium et Spes (n. 21), acrescenta que a pessoa humana só pode realmente se encontrar através de um uma doação sincera de si mesma, revelando que o amor, não o uso das pessoas, é a apropriada gramática da relação humana que reflete o amor de Deus. A própria lógica da antropologia cristã, portanto, repudia todo e qualquer sistema que utiliza pessoas, tratando-as como meios em vez de fins.
É precisamente aqui que as visões de Herbert Gans [sociólogo norte-americano], no seu ensaio clássico sobre os usos da pobreza, contribuem para a reflexão sobre a objetificação dos pobres. De acordo com ele, a sociedade moderna frequentemente utiliza os pobres para seus próprios fins funcionais, sustentando a pobreza deles, porque a existência dos pobres serve para interesses identificáveis em toda a sociedade.
Gans observa que a presença dos pobres torna possível a existência ou a expansão de profissões e ocupações respeitadas, como penologia, estudo das prisões, criminologia, assistência social, saúde pública, além das ONGs. Tudo isso se multiplica entre os pobres, nos países pobres. Nesse sentido, os pobres estão preenchendo uma função para os ricos. Os pobres, portanto, sustentam indústrias inteiras construídas ao redor do gerenciamento, estudo ou pesquisa sobre eles.
É isso o que vemos em algumas das políticas norte-americanas: como conter os imigrantes, como mantê-los fora. As instituições globais nos EUA são pegas nessa prática destrutiva que o Papa Leão condena. Trata-se, novamente, de administrar os pobres, estudar os pobres ou conter as suas condições em vez de mudar os sistemas e instituições.
Os pobres, de acordo com Gans, têm proporcionado empregos para os guerreiros da pobreza: humanitários célebres, aqueles que estão buscando ajudar os pobres, em vez de os pobres se ajudarem. Os pobres não precisam da nossa ajuda; eles precisam de libertação dessas correntes, dessas instituições, de modo que eles possam ser protagonistas da sua própria história.
Essa tese perturbadora, digamos, expõe um escândalo moral e teológico quando a sociedade se beneficia dos pobres. Tem pouco incentivo para eliminar a pobreza. Os pobres se tornam instrumentalizados, reduzidos a funções num ecossistema econômico e profissional. O sofrimento deles se torna dados, suas vidas são transformadas em estudos de caso, a dor deles vira matéria-prima para carreiras, burocracias e agendas de pesquisa. Esse raciocínio pode explicar por que a ajuda está fracassando na África, por exemplo, onde a indústria de auxílios se tornou um negócio próprio que está se construindo em cima de um sistema econômico global neoliberal que produz mortes, guerras e armas, com a ajuda de indústrias ou da religião. O desenvolvimento decepcionou os pobres e sustenta a corrupção, a decepção, a dependência e a manipulação. Até mesmo os melhores sistemas humanitários, quaisquer que sejam, até os administrados pelas Igrejas na África, frequentemente reproduzem as desigualdades que buscam curar.
O humanitarismo, quando divorciado da humildade, torna-se outra forma de império. Eu tenho visto, especialmente na África, onde fiz minha pesquisa, como o humanitarismo se tornou um império de desigualdades; não um império de eventos de vida. Eu já vi armazéns de assistência guardados por soldados enquanto os famintos esperavam lá fora. Eu já vi compaixão se transformar em burocracia. Já vi muitos projetos abandonados na África: escolas e projetos agrícolas construídos sem o input da comunidade serem abandonados, centros de habilidades que são administrados e largados para comunidades como dons de um doador. Concluí que algo está fundamentalmente errado com a ajuda atual e a missão de caridade na África. Contra essa lógica utilitária, a Dilexi te é um indiciamento profético.
O documento declara que todo e qualquer uso dos pobres é uma agressão a Deus, cuja imagem eles carregam. Na visão cristã, os pobres não são objeto de análise, nem são recursos para um avanço profissional. Na antropologia trinitária, os pobres são o próprio Cristo. Esta é a lógica. Os pobres não são marginais a Cristo. Eles são o próprio lugar onde a união de Cristo com a humanidade é mais manifesta. Os pobres são a carne de Cristo. Tocá-los é tocar Deus. Ignorá-los, ou pior, utilizá-los ou explorá-los, é negar o coração do evangelho – e, na minha própria teologia, é bastante herético.
IHU – Que interpelações emergem da leitura da Dilexi te?
Stan Chu Ilo – Vocês podem encontrar algumas perguntas bastante desafiadoras. O capítulo um pode ser lido de uma forma cristológica. O capítulo dois é uma leitura antropológica da pobreza, da missão da Igreja, do nosso compromisso. O capítulo três é uma leitura sociológica porque apresenta um quadro do mundo de hoje, não apenas uma análise teológica de estruturas e sistemas, mas também uma teoria social para entendermos por que os pobres são pobres. Não é apenas uma condição natural. Precisamos entender a dinâmica de poder que cria essa correlação assimétrica, onde alguns indivíduos estão florescendo, mas a maioria das nações está sofrendo globalmente. O capítulo três da Dilexi te oferece, então, uma teoria crítica e também uma análise crítica do poder e das patologias do poder que se beneficiam de estruturas e sistemas.
O capítulo quatro se aprofunda no entendimento eclesiológico: Como a Igreja pode desenvolver solidariedade pragmática, incorporar as narrativas dos pobres hoje? E, finalmente, o capítulo cinco é uma leitura escatológica: onde está a esperança para os pobres? Não pode haver esperança para os pobres e para o mundo se não fizermos uma inversão hermenêutica de passar de um sistema de escolhas e indivíduos para tratar as pessoas como um fim em si mesmas. No quarto capítulo os fundamentos da antropologia social começam aparecer, emergindo do fundamento cristológico.
Como o Papa Leão lida com a dignidade de cada pessoa, os pobres não meramente recebem a atenção da Igreja; eles revelam a identidade da Igreja, a carne de Cristo. Então, a mulher que unge se torna um arquétipo. Como isso flui em solidariedade? Numa teologia autêntica, flui para encontrarmos o amor de Jesus Cristo.
A África é um continente com a população cristã que mais cresce no mundo e deve alcançar 1,2 bilhão em 2050. Entretanto, a África pertence à população que mais cresce em termos de pobreza extrema. Quase 430 milhões de pessoas representando mais de 60% da pobreza extrema do mundo. Por quanto tempo? Novamente, isto não é uma condição natural. Podemos voltar à escravidão, ao colonialismo, ao neocolonialismo, à globalização, ao Fundo Monetário Internacional (FMI), ao Banco Mundial e ver quem tem culpa nisso. Mas, por que o cristianismo está crescendo tanto lá? Por que o cristianismo está se expandindo mais rapidamente e permanece na África, onde a pobreza se aprofunda mais drasticamente?
Como os teólogos africanos interpretam esse paradoxo à luz da Dilexi te? Como a boa nova para os pobres pode ser realizada? Esse é um desafio para a teologia, para nós africanos. Como vocês pregam esse relato para uma população que está presa na armadilha da pobreza?
Vocês têm colonizadores locais, líderes religiosos corruptos que atuam com políticos. E aí eu tenho uma pergunta: no capítulo dois, começamos a ver um fundamento antropológico mais profundo, que chamo de privilegium pauperum (privilégio dos pobres). Bom, então, como a opção pelos pobres pode surgir? Nas bem-aventuranças, aqueles da misericórdia se tornam a medida. Aqueles que veem Cristo entre os mais desprovidos, os seus irmãos e irmãs, e que acompanham os pobres de formas concretas, participam na vindicação final [justificação completa] do amor divino. Assim, a misericórdia se torna a missão hermenêutica e a missão da Igreja. A pobreza, a injustiça, o sofrimento no mundo de hoje, é resultado do amor desordenado. Então, o Papa Leão, no capítulo dois, nos pede para abraçar a misericórdia e a compaixão.
A questão que levanto, especialmente para os pesquisadores brasileiros e, por extensão, às comunidades eclesiais do Sul Global, é: na Igreja no Brasil, como se manifesta o rosto de Cristo? Acelerando a degradação ambiental, por exemplo, o desmatamento na Amazônia? Como a Igreja, os teólogos e os ativistas podem defender um Brasil melhor, uma América Latina melhor e um mundo melhor? Como podemos abordar o que o Papa Francisco já disse na Fratelli tutti? Como podemos enfrentar a polarização intensificada na sociedade diante da atração por um populismo autocrático? Muitas pessoas, nas comunidades católicas, acham que as questões da Teologia da Libertação para melhorar a América Latina parecem dissipadas.
IHU – Qual é a genealogia da Igreja dos pobres segundo a Dilexi te? Em quais documentos ministeriais esta temática já foi abordada?
Stan Chu Ilo – O capítulo três, uma Igreja para os pobres, um dos principais pilares da Dilexi te, reconstitui a genealogia da Igreja dos pobres, começando com o pacto das catacumbas, no Concílio Vaticano II, e expandindo-o através dos desenvolvimentos pastorais e teológicos dos últimos 60 anos.
O capítulo três faz um resumo do desenvolvimento dos ensinos, e a pobreza se torna um espaço teológico no qual a Igreja reconhece a sua identidade como sacramento da humildade de Cristo no mundo. Esse capítulo se torna mais incisivo quando o Papa convida a Igreja a examinar suas estruturas, orçamentos, planos pastorais, os processos de tomada de decisão eclesiais, assim como o Banco Mundial, o FMI, as ONGs. O Papa nos pede para olharmos para as estruturas da nossa própria Igreja: quais são as nossas prioridades pastorais? Como nós tomamos decisões?
Falando como um padre negro e teólogo negro, por que a supremacia é um problema na Igreja? Há uma objetificação das pessoas. Os pobres, aqueles que estão sofrendo, são reduzidos a descarte. Então, Leão XIV nos pergunta: Nós vemos os pobres como ativos a serem abraçados ou acolhidos, em vez de serem vistos como pessoas que vão ser simplesmente descartadas? Ou práticas esvaziadas de caridade e ajuda, em vez de abordar os fatores subjacentes que os tornam pobres?
O documento menciona o tráfico humano, o deslocamento forçado, a crise de imigração, o desaparecimento de jovens, especialmente na América Latina. Estive no México, na fronteira com os Estados Unidos, em El Paso, e não me esqueço quando me encontrei com mais de 500 famílias fugindo de casa de diferentes partes da América Central. Não posso esquecer esse dia, quando eles estavam contando as suas histórias. Quase todas essas pessoas estavam lá, apertadas, todo mundo estava chorando. Eram lágrimas de mulheres, crianças e jovens que foram forçados por redes criminosas, redes de narcotraficantes que exploram os pobres.
O Papa nos ensina que os pobres não são meramente a preocupação da Igreja; eles são os educadores da Igreja. Nós estamos aprendendo com essas pessoas pobres que são resilientes, que caem e levantam todos os dias.
Não podemos alegar progresso no mundo de hoje. A questão que levanto é a seguinte: o que os pobres estão ensinando à Igreja hoje através das realidades crescentes do tráfico humano, do movimento em massa de imigrantes que estão fugindo da violência, da devastação climática e do comovente desaparecimento de jovens na América Latina? O que estamos aprendendo com a expansão da nossa presença? Como essas feridas reformulam a imaginação pastoral da Igreja?
O Papa Leão começa a falar da Igreja a partir do fundamento eclesiológico que encontramos na Dilexi te. Ele chama à conversão. Ele realmente aponta clara e corretamente as fontes do sofrimento, da pobreza e da injustiça no mundo, e volta a Agostinho novamente. Agostinho distingue entre as duas cidades: a cidade de Deus e a cidade do homem. A cidade do homem é a cidade da desordem, da injustiça, do sofrimento, da pobreza. A cidade de Deus é o esquecimento de si mesmo. Você ama a Deus, ama aos seus próximos e se esquece de si.
O mundo está mantido em cativeiro em função da sua ganância, do orgulho próprio, do orgulho das nações. Nações que querem destruir outras nações, outros povos, são nações sem lei, que fazem o que quiserem em função do militarismo. É isto que Leão aponta: a conversão dessa estrutura. Essas estruturas são políticas, econômicas, epistemológicas e eclesiais. Exemplos são as estruturas de injustiça, a supremacia branca, a concorrência geopolítica entre Estados Unidos e China, na qual muitos, no Sul Global, estamos presos. Ou seja, estamos presos em guerras que não têm nada a ver conosco: guerras tarifárias globais, iniciadas entre o governo americano e outros países, greves nos Estados Unidos, violência contínua e sofrimento da humanidade em Gaza, guerra na Ucrânia.
Como o nacionalismo econômico ressurgente e a epidemia dessas guerras violentas podem ser confrontadas teologicamente? Como a Igreja pode defender os pobres, cujas vidas são desproporcionalmente afetadas por essas novas desordens?
IHU – A dimensão escatológica pode ajudar a responder essas questões?
Stan Chu Ilo – O pilar escatológico tem a ver com a ética, as escolhas que nós fazemos. A revelação final. Nós somos chamados pelo Papa Leão a participar desse mundo em reconstrução, a reordenar as nossas vidas, as nossas instituições e a economia. A advertência do Papa é muito importante para o mundo de hoje.
Quais são os ídolos que o mundo está venerando hoje? Para enfrentá-los, precisamos de uma nova reimaginação para criarmos um mundo melhor. Precisamos reimaginar, precisamos reverter o nosso pensamento. É necessário repensar nosso amor desordenado. A questão é como o amor divino pode se tornar uma inversão hermenêutica que reorganiza os amores desordenados na Igreja, na sociedade.
IHU – Quais são suas principais conclusões sobre a Dilexi te?
Stan Chu Ilo – Primeiro, Dilexi te é um exemplo convincente de como o ensino social católico deveria ser feito. Ele une a memória e a missão, baseando-se profundamente no passado da Igreja, para iluminar os desafios do presente. Leão XIV modela uma tradição viva, dinâmica, mais do que nostálgica, utilizando os recursos espirituais, intelectuais, pastorais e proféticos do tesouro da Igreja para interpretar os sinais dos tempos e responder às exigências evangélicas atuais. A integração de herança e horizonte, contemplação e engajamento, torna a Dilexi te uma instância paradigmática daquilo que o Papa Francisco chamou de poliedro da verdade, onde perspectivas diversas convergem a serviço do evangelho.
Em segundo lugar, a exortação convida para um fundamento teológico mais profundo do ministério da caridade. A contemplação teológica do Senhor crucificado nos pobres e do nosso mundo ferido e quebrado permanece indispensável para renovar o ensino social católico. Frequentemente, os debates contemporâneos polarizam o amor cristão em ortodoxia versus caridade, como se a fidelidade à doutrina pudesse existir sem a misericórdia ou a misericórdia existir sem verdade.
O Papa Leão aborda essa falsa dicotomia com clareza, nos lembrando que a caridade e a ortodoxia não são rivais, mas, sim, duas dimensões da mesma fé. Então, a teologia de Agostinho, do Totus Christus, oferece uma chave hermenêutica para superar essa divisão, nos permitindo ver como Leão se baseia na justiça social e no amor espiritual.
No entanto, falando como teólogo africano eu não encontro referência para a África na Dilexi te. Mesmo assim, por que esse material é rico? Porque a omissão de vozes africanas e asiáticas representa uma oportunidade perdida para uma articulação mais genuinamente católica da visão social da Igreja. Então, nós devemos trazer, na nossa teologia, especialmente sob a perspectiva antropológica da encarnação, o ministério pascal para completar essa jornada. Vemos muito sobre a cruz e isso é importante para entender o horizonte escatológico, de modo que não é apenas a encarnação, a descida, que é importante, mas também a ascensão.
Finalmente, eu gostaria de destacar uma questão como conclusão. É algo que toca as pessoas no meu próprio trabalho. Frequentemente, nós moralizamos a pobreza e o tratamento dos pobres. O Papa Leão XIV adverte, no primeiro e no quarto capítulos, números 1 e 114, contra a moralização da pobreza, a objetificação e culpabilização dos pobres. O que precisamos é de uma conversão radical do que vemos. Precisamos de uma inversão hermenêutica, não apenas uma conversão hermenêutica, mas uma inversão, onde aquilo que o mundo despreza é realmente o que Deus abençoa. Precisamos sair da culpabilização dos pobres para aprender com eles sobre ajuda, comunhão, condescendência para justiça, piedade para parceria, assistência para o desmantelamento das estruturas que produzem a miséria no mundo.
A questão não é apenas o que nós fazemos para os pobres, mas o que nós achamos ou pensamos deles. Nós os vemos como fardos ou como professores, como família, como Igreja, como rosto de Deus? Agostinho relembra que nos pobres é Cristo quem recebe para dar. Na Dilexi te, o Papa Leão convida a Igreja para uma nova hermenêutica da pobreza, transformando o ensino social católico em espiritualidade de comunhão.
Somente uma Igreja assim, que não tem limite do que é o amor, que não tem inimigos para combater, mas, sim, homens e mulheres para amar, como Papa Leão escreve no número 120, incorpora os rostos dos pobres como a iluminação de Deus no mundo.
Somente uma Igreja assim pode revelar a abundância do reino de Deus nas vidas diárias. Somente uma Igreja assim reside na resiliência e não na contaminação. Somente uma Igreja assim merece o nome de Igreja e se torna uma Igreja onde os pobres não mais imploram por pão, mas compartilham o banquete da justiça e da misericórdia. Eu rezo, como Igreja, para que possamos agir, todos os dias, através do nosso esforço coletivo.
IHU – Qual a principal contribuição de Santo Agostinho para o ensino social da Igreja?
Stan Chu Ilo – Quando Agostinho fala do Totus Christus, nós podemos ver três coisas: toda pessoa pertence a Jesus; todos nós temos uma família; e quando as pessoas estão sofrendo, não estão nessa situação simplesmente para serem objetificadas por hierarquias sociais que as empilham e colocam nelas rótulos individuais. O Papa Francisco disse em Lisboa em 2023: “Todos, todos, todos”. Falar em todos nós é possível pelo fato de que em Jesus nós nos tornamos um. A pobreza tende a criar classes, barreiras e tende a colocar outros em situações inferiores.
Agostinho diz que temos que ser administradores das coisas temporais. Não devemos ser consumidos pelo dinheiro, pela riqueza, pelos sistemas econômicos e sociais. A luz de Agostinho que vejo na Dilexi te é a análise estrutural que precisamos fazer entre cidade de Deus, uma cidade de amor e luz, e a cidade do homem, uma cidade de injustiça, violência e ganância. A exortação nos pede para fazer uma inversão – ou uma conversão – hermenêutica. Com isso, nos faz ver claramente que precisamos respeitar e tratar de forma ética e com discrição o que Deus nos deu.
IHU – Com as implicações do sistema capitalista, é possível a Igreja declinar das estruturas de poder para acolher e favorecer os pobres?
Stan Chu Ilo – Sim, a Igreja sempre se deparou com o desafio de como lidar com a sociedade da política. Falando como padre, o que gosto do catolicismo é que ele nunca se permitiu entrar num sistema econômico ou político. A Igreja transcende esses sistemas ou estruturas temporais. A questão é que, nos Estados Unidos, por exemplo, em função do presidente e dos evangélicos, às vezes nós encontramos a Igreja alinhando-se a grupos políticos e sistemas econômicos. Quando a Igreja faz isso, talvez ganhe um poder temporário, mas, no fim das contas, a Igreja perde porque o interesse dos sistemas econômicos e políticos variam, os políticos mudam, mas a missão dada à Igreja não acaba.
Nós vamos pelo mundo proclamando a boa nova. O espírito do Senhor foi dado a mim. Ele me enviou para anunciar a boa nova para os pobres. Isso nunca muda. Mas concordo que há uma maior necessidade para o discernimento, especialmente no mundo de hoje, que está se tornando tão complexo para o discernimento crítico da própria Igreja em todas as nações.
IHU – A América Latina trouxe grandes contribuições para o ensino social da Igreja, especialmente com a Teologia da Libertação. Como percebe o atual desenvolvimento da teologia africana nesse sentido?
Stan Chu Ilo – Há duas formas de teologia na África. Uma é a teologia latino-americana e a outra, a teologia africana da vida abundante. Nós, de fato, precisamos fazer uma maior parceria e convergência, porque enfrentamos os mesmos desafios da descolonização: descolonizar a Igreja, descolonizar o mundo e nossa educação.
No meu trabalho com pesquisadores latino-americanos e com agências humanitárias na América Latina, não vejo muita diferença em relação aos problemas com os quais estamos lidando. As forças europeias vieram com uma agência destrutiva para as nossas regiões. O cristianismo também veio com ela. Nesse sentido, nosso povo abraçou e acolheu o cristianismo com todas as suas promessas, mas também com suas limitações. A África está fazendo determinadas parcerias depois de 50, 60 anos de prática democrática.
Olhando para o Brasil, vemos uma tensão entre aqueles que defendem Bolsonaro e aqueles que defendam Lula. Nós achamos isso bom porque é um sinal, é um crescimento. Nesse sentido, a teologia africana pode aprender com a teologia do protesto da América Latina. Na América Latina, quando as pessoas não estão contentes, elas protestam, elas marcham. Em algumas partes da África, quando as pessoas não gostam de algo, elas oram.
Da África, os teólogos latino-americanos e a Igreja latino-americana têm que abraçar e aprender algo sobre a vida: toda teologia ou religião tem que ter mais dessa vida abundante. Na África o valor-chave da nossa fé antiga como religião tradicional africana é a vida: a vida dos seres humanos, a vida da terra, a vida do clima, a vida da criação. Isso está aumentando a fé. Nós precisamos aprender como a nossa teologia pode nos dar vida. Gutiérrez apontou isso. Não podemos continuar vivendo nesses sistemas que levam à morte, que continuam a fazer promessas, dão um passo adiante e dois para trás. Temos que romper esse ciclo. Como podemos criar uma sinergia para aprendermos uns com os outros e construir a cidade de Deus?
IHU – Comumente, Santo Agostinho é utilizado por grupos conservadores para justificar as posições deles. Qual a melhor chave interpretativa para entendê-lo segundo o espírito do Concílio Vaticano II?
Stan Chu Ilo – Essa é uma pergunta muito boa. A melhor forma de estudar Agostinho, na minha opinião, é a validação subjetiva do que Agostinho escreve em sua vida pessoal. Sim, nós podemos ver diferentes partes de Agostinho em seus textos. Se lemos A Trindade, vemos diferentes nuanças, assim como também nos Comentários. Há diferentes Agostinhos no texto, mas ninguém pode negar a confissão dele, o que Agostinho diz sobre a sua vida.
Para nós, Agostinho se torna um exemplo do que a graça pode fazer na vida de alguém. Ele se torna um modelo de esperança no sentido de que qualquer condição que um de nós possa viver na vida não deve ser vista como a última; sempre há uma segunda chance. Mesmo para as pessoas que são pegas na armadilha da pobreza. Não podemos entrar em desespero porque temos esperança – e a esperança tem fé.
Agostinho enfatiza a liberdade humana. Essa ideia de que somos irremediáveis à predestinação. Agostinho abraçou a perfectibilidade. Para ele, a resposta ao pecado humano e à queda humana tem que ser encontrada no fato de que Deus está mais próximo de mim do que eu sou de mim mesmo. Deus está dentro, ou seja, a solução está dentro de nós e isso se reflete na vida dele.
Quando falo de Agostinho, eu gosto de enfatizar que a conversão dele não se deu simplesmente em função da conversão intelectual; ela veio do coração. Não é só que ele foi totalmente convencido acerca de algumas alegações sobre o maniqueísmo ou algumas de suas dúvidas sobre religião ou práticas religiosas. Foi mais do que isso. Uma conversão o iluminou quando ele foi para Milão e Ambrósio estava ocupado, escrevendo as palavras de Deus, mas olhou para cima e o viu. Agostinho disse: um homem de Deus vem a mim e eu começo a amá-lo não por qualquer outra coisa, mas, sim, porque foi alguém que me tratou com o amor que eu mereço.
Então, acho que essa ideia de amizade, de como nós tratamos as pessoas, os pobres, os jovens, os nossos colegas, é a melhor forma de aplicar o ensino de Agostinho. Ou seja, aplicar isso na própria vida. Nós não devemos renunciar aos outros. Deus não vai nos renunciar porque cada um de nós carrega a luz.