Teilhard de Chardin. A mística do fogo que vê na ciência a presença de Deus. Conferência com Carlos James dos Santos

Em evento promovido pelo Cepat, o Centro de Promoção de Agentes de Transformação, parceiro do IHU, o jesuíta destaca que esse é o momento para falar de Teilhard, pois sua mística é a da esperança

Arte: Cepat

Por: Transcrição: João Vitor Santos e Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos | 21 Mai 2022

 

Houve um tempo que a Igreja torcia o nariz para a Ciência e via nela uma ameaça à mística do Mistério de Deus. Mas veio o Concílio Vaticano II e, desde então, vem se tentando colocar a Igreja Católica Apostólica Romana diante dos clamores do mundo moderno. Muito antes disso, Teilhard de Chardin já ensaiava uma compreensão que não refutava a ciência em nome de uma Teologia. Pelo contrário, via na investigação científica um caminho para não só se aproximar do Mistério de Deus, mas também para assegurar a evolução da humanidade segundo o plano Divino. É assim que o jesuíta Carlos James dos Santos compreende esse que foi um místico duramente perseguido. “Essa espiritualidade é uma mística do ver e da visão. É preciso mudar o modo de ver para chegar na visão”, pontua.

 

Carlos James revisitou o pensamento de Teilhard de Chardin em evento promovido pelo Centro de Promoção de Agentes de Transformação – Cepat, no último dia 30 de abril. Para o religioso, esse é um momento propício para revisar o pensador, pois “a espiritualidade mística de Teilhard de Chardin é profundamente uma espiritualidade mística da esperança”. E na gênese de seu pensamento está uma aproximação com a ciência, por compreender que é no seu interior que reside a potência da força de Deus. “Conhecer o mundo, o universo e a matéria é o caminho verdadeiro para se encontrar com o mistério de Deus”, aponta.

 

Por isso, nesse tempo em que estamos mergulhados em um estado de crises e guerras, reproduzimos em texto parte dessas reflexões com o desejo de animar nossa esperança. Aliás, uma esperança que se faz no coletivo das relações humanas, apesar dos desafios de nosso mundo concreto. Como observa Carlos James, “Teilhard é muito crítico de uma espiritualidade de renúncia ao mundo, fuga do mundo, saída do mundo, uma espiritualidade que alimenta a culpa, que esteja focada no pecado, que esteja focada numa espiritualidade individualista. Penso que hoje ele fica ainda mais relevante”.

 

Carlos dos Santos (Foto: Reprodução | Cepat)

Carlos James dos Santos é religioso, jesuíta, possui formação em Antropologia Social. Tem, ainda, experiência como educador popular e atua como orientador de retiros espirituais. 

 

Eis a transcrição dos principais pontos da conferência:

 

O título dessa palestra, “Do fogo é a sua energia e celeste é a sua origem”, foi retirado do brasão da família de Teilhard de Chardin que, de alguma forma, parece que antecipa a vocação dele. No fim, vai realizar o que diz esse brasão de sua família.

 

O primeiro contato que tive com Teilhard de Chardin foi por meio do grande admirador, o nosso grande filósofo padre Henrique de Lima Vaz. Só que, na época, era muito jovem para conseguir captar a dimensão sistêmica do pensamento de Teilhard. Isso equivale à capacidade máxima de enxergar algumas árvores, mas não a floresta. Essa apreensão da visão da floresta me ocorreu como uma necessidade dentro do curso de Educadores Populares, pois as pessoas que chegavam até nós no curso vinham de práticas bem exaustivas. Algo muito difícil, alguns até ameaçados de morte. Eram professores da rede pública da periferia do Distrito Federal que, na prática educativa, tinham de conviver com adolescentes que os ameaçavam diretamente ou tinham relações com o narcotráfico e, quando diziam “eu mando matar você”, não era apenas uma ameaça. Também havia agentes de saúde, membros e militantes de ONGs com compromisso social.

A motivação de buscar e trabalhar com Teilhard com eles foi como dar razões à esperança. Um dos motivos pelos quais aceitei falar aqui é justamente esse de dar razões à esperança. Por quê? Porque a espiritualidade mística de Teilhard de Chardin é profundamente uma espiritualidade mística da esperança. Vamos lembrar que o Papa Francisco fala que a esperança se ancora na eternidade e ela tem um rosto e esse rosto é Jesus Cristo. Então, quando falamos de esperança, estamos falando na ancoragem na vida eterna, ou em Deus, ou na Trindade Santa, e quando falamos de Trindade, nós falamos de encarnação. Essa perspectiva encarnatória é que faz com que Teilhard de Chardin, principalmente nos tempos de hoje, se torne muito relevante.

Ele perdeu a relevância nos anos de 1970 porque a sua compreensão e visão de mundo integrava muito a perspectiva cósmica e cosmológica, e, quando entrou a perspectiva da práxis, a transformação da realidade ficou tão urgente que a dimensão cristã deixou um pouco de lado essa visão mais holística, sistêmica que Teilhard de Chardin traz. Hoje, se pensarmos as encíclicas do Papa Francisco, Laudato Sì' e Fratelli tutti, veremos que ambas estão em perfeita sintonia com a visão de Teilhard de Chardin. Talvez, Teilhard de Chardin ficaria extremamente feliz se pudesse se deparar com esses documentos pontifícios que expressam muito o pensamento dele e, em algumas dimensões, até avançam. Teilhard de Chardin sempre é importante para ampliar nosso pensamento e nos tirar do quadrado, que é a zona de conforto, dimensão mais insuportável da recusa do ser humano de ir além, ir avante. São duas direções que, para Teilhard, são seu encantamento: para o alto e para adiante.

 

Teilhard de Chardin já na maturidade | Foto: Flickr CC

 

Intuição

 

Antes, vamos a um Salmo que gosto demais, o Salmo 150, porque considero que ele traz uma intuição que tem tudo a ver com o que encontramos em Teilhard de Chardin:

Aleluia! Louvai a Deus no seu santuário, louvai-o no firmamento de seu poder, louvai-o por suas grandes obras, louvai-o pela sua imensa grandeza, louvai-o tocando trombetas, louvai-o com lira e cítara, louvai-o com tímpanos e dança, louvai-o com harpa e flauta, nas rodas e nas faltas, louvai-o com símbolos sonoros, louvai-o com símbolos retumbantes, todo o ser vivo louve ao Senhor, Aleluia!” Salmo 150

Há um movimento aqui no salmista em que o seu louvor é da percussão, da música, e com muitos instrumentos de percussão. Mas, quando ele conclui com “com todo ser, louve ao senhor”, há um silenciamento de alguém que escuta a natureza. É uma atitude que não é somente uma escuta de ausência de ruído, porque a natureza produz seus próprios ruídos, mas é de entrar nesse mistério de que tudo que vive e respira louva o Senhor. É a dimensão mistérica que está dentro e intuída aqui, algo profundo e que Teilhard de Chardin vai destrinchar.

 

Na experiência de vida, o sentido de sua mística

 

Essa apresentação da biografia segue as quatro etapas da vida de Teilhard de Chardin, apresentada pelo padre Vaz numa obra de introdução ao seu pensamento [Universo científico e visão cristã em Teilhard de Chardin – questões abertas], publicada no ano de 1967 pela Editora Vozes e que mereceria uma reedição atualizada, sobretudo pelas ilustrações que essa obra merece.

 

Universo científico e visão cristã em Teilhard de Chardin – questões abertas, de Lima Vaz (Petrópolis: Vozes, 197) | Foto: divulgação

 

Como o padre Vaz observa nessa obra, é impossível compreender o pensamento de Teilhard de Chardin, o que ele viu e inaugurou, sem a trajetória biográfica dele, sem considerar o homem e sua experiência vital.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Há uma primeira etapa que é de sua origem familiar. Ele é o quarto de 11 filhos de uma família da aristocracia do centro da França. Seus pais têm uma importância imensa. Sua mãe, Berthe-Adéle de Dompierre d’Hornoy, era neta de Voltaire, que reproduziu na França as teorias de Isaac Newton. O pai, Alexandre-Victor-Emmanuel Teilhard de Chardin, era um naturalista apaixonado que ensina o filho a ter gosto por pedras, insetos, plantas, desde criancinha, pois essa era também sua paixão. Isso é importante porque o próprio Teilhard compartilha que aos seis ou sete anos de idade já tinha uma devoção pela matéria, sobretudo por pedaços de ferro, cartuchos de espingarda que ele colecionava.

E já tinha um olhar, uma intuição, um desejo de estar em comunhão com o todo por meio daquele que permanece, daquele que dura para sempre. Mas ele descobre que o ferro não dura para sempre, oxida. Foi aluno dos jesuítas e depois que ingressou no noviciado da Companhia de Jesus teve que deixar a França por causa da perseguição de Waldeck-Rousseau, com sua perspectiva republicana, laicista de expulsar as ordens religiosas. Com isso, Teilhard vai estudar na ilha de Jersey, onde ele faz Filosofia.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Desde o início ele manifesta uma paixão, uma grande habilidade intelectual. Isso é que gera nele uma angústia e um conflito entre as coisas de Deus e a espiritualidade, a sensibilidade religiosa e devoção ao Sagrado Coração de Jesus, uma piedade muito familiar e que vivia com a mãe, e a paixão que ele tem pela terra e pelas coisas da matéria. A matéria é um centro gravitacional da sua interioridade e vai gerar um conflito entre o elevar-se para Deus e, ao mesmo tempo, estar seduzido por essa matéria.

O mestre de noviço vai apoiá-lo para que estude, que siga sua vocação. Ele faz magistério no colégio jesuíta da Sagrada Família no Cairo, Egito. Aliás, essa foi uma experiência importante. Pelo que parece, ele aprendeu a prática da meditação. Ainda no tempo que esteve no Cairo foi professor de Química e de Física. Depois, volta para fazer Teologia em Hastings, Inglaterra, sendo ordenado padre em 24 de agosto de 1911. É, então, orientado para fazer seus estudos como cientista principalmente na área da Geologia e, mais tarde, na Paleontologia.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Segunda fase

 

A segunda fase tem uma experiência importantíssima que vai mudar a percepção do mundo por Teilhard, porque até então ele estava numa realidade muito favorável, muito protegida, desde sua infância e na Companhia de Jesus. Essa experiência se deu quando ele foi cabo padioleiro na I Guerra Mundial. Foi uma grande experiência, primeiro de multidão, também de sofrimento e numa perspectiva ecumênica porque ele atuava como capelão de outros soldados que não eram cristãos e muito menos católicos.

Isso dá uma dimensão extremamente importante a sua espiritualidade, que é a perspectiva da unidade e do movimento em união. Quando a tropa avançava, se modernizava, mexia com a percepção mais profunda dele. É nesse período que vêm os escritos do tempo de guerra, em que começa a amadurecer e dá início à gênese de seu pensamento.

 

Escritos de tempos de guerra, de Teilhard de Chardin | Foto: divulgação

 

Em 1916, ele conclui A Vida Cósmica e começa aí a integração de uma visão que é fantástica.

 

Em 1917, nessa segunda fase do pós-guerra, ele termina uma obra chamada Meio Místico, em que fala de ciclos, do amadurecimento na experiência do mistério. É como ele percebe a própria jornada interior. Nesse momento, fala dos ciclos da alma que vão mostrando o aprofundamento da experiência do mistério.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Ainda não é a obra mais conhecida, como é o Meio Divino, que é um pensamento espiritual testemunha da experiência que viveu da graça e do amor de Deus.

 

Meio Divino, Teilhard de Chardin (Patrópolis: Vozez, 2º ed, 2014) | Foto: divulgação

 

Terceira fase

 

Na terceira fase, a dos anos parisienses, ele faz licenciatura e depois doutorado em Geologia. Só que, quando começa a ensinar, no que busca a integração entre a perspectiva científica da evolução e a integração desta visão com a fé em Deus e na criação, começa a incomodar, gerar um grande mal-estar.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Esse mal-estar vai se dar primeiro na Santa Sé, que pressiona os superiores da Companhia de Jesus sobre esse incômodo de ele fazer essa aproximação da evolução, até então não integrada no magistério da Igreja, e essa perspectiva que tem de integrar a fé do cristianismo atualizando o diálogo com as ciências modernas. Teilhard é convidado a se retirar para ir à China, onde já havia outros jesuítas que também trabalhavam na pesquisa arqueológica e paleontológica.

Passa mais de 20 anos na China, e foi algo providencial também para ele, pela sua atuação como cientista. É onde também vai produzir vários escritos. Em 1927, a redação do Meio Divino, em 1938, O Fenômeno Humano. Essas duas obras permitem compreender a espiritualidade e a perspectiva do mistério de Teilhard de Chardin.

 

Em Chou-khou-Tien [Pequim, China], ele participa da descoberta do fóssil do “Homem de Piltdown”. Foram uma pesquisa e uma descoberta muito importantes.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

No Coração da Matéria e no centro da polêmica

 

Ele ainda vai fazer várias viagens como cientista e, em 1950, depois de ter retornado a Paris em 1946, ele escreve “O Coração da Matéria”. Sua tese principal é de que a matéria tem um centro e esse é um centro de convergência e atração. Pio XII publica a carta encíclica Humani generis, que é exatamente contra o evolucionismo. Mas essa não é uma questão de fé, é uma questão antropológica, pela visão cultural e de mundo que está inerente na base dessa compreensão. É como se o evolucionismo negasse a necessidade de um Deus criador. A outra questão implícita era a dimensão do pecado original.

Teilhard foi, ainda, nomeado membro da Academia de Ciências da França e, também, homenageado por ela. Mas não pode participar dessa homenagem porque os superiores o forçam a retornar da França para Nova Iorque.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Quarta fase


Essa quarta e última fase de sua vida é quando também o seu pensamento começa a ficar efervescente e ganha circularidade, inclusive com cópias mimeografadas. Teilhard foi proibido de ensinar e de publicar. Mas foi muito criativo em sua produção e com isso percebe, no final da vida, que não poderia esperar ser compreendido para poder publicar. Então, ele entrega todo seu material para uma amiga que vai, logo após sua morte, publicar à revelia da permissão oficial da Igreja.

 

Observo que ele foi muito humilde como cientista, filósofo e teólogo para compreender e aceitar a dificuldade em seguirem e compreenderem seu pensamento. Vinham com categorias aristotélicas-tomistas para compreender um pensamento que dialoga com as ciências, mas ele criou categorias próprias porque entendia que as categorias tradicionais não deram conta de compreender seu pensamento.

 

Teilhard morre em Nova Iorque exatamente no dia que dizia que era perfeito para morrer: o Domingo de Páscoa. E, assim, morre num Domingo de Páscoa em 10 de abril de 1955. Sua sepultura é simples, como se fosse apenas um jesuíta, discreto e esquecido no seu bonito trabalho. Ele tinha um profundo amor com a Igreja Católica, profundo respeito pelas autoridades, lamentava que não conseguia se fazer entender em sua visão. Um fato curioso é que os luteranos propuseram a ele se tornar um pastor e, se o fizesse, teria toda a liberdade para ensinar e publicar. Mas Teilhard não conseguia se ver fora dessa comunhão eclesial católica e da Companhia de Jesus. Isso revela uma profunda humildade, amor, paciência e confiança em Deus.

 

Esse itinerário mostra que é de grande densidade a experiência interior dele. Isso vai dar sentido a tudo que vamos abordar de forma mais explícita.

 

Espiritualidade em Teilhard de Chardin: uma espiritualidade do fogo

 

Chamo atenção para essa perspectiva, ao falar de espiritualidade em Teilhard de Chardin: toda espiritualidade é uma espiritualidade mística ou uma espiritualidade do mistério. Muitas espiritualidades cristãs católicas, sobretudo no tempo de Teilhard, eram devocionais, piedosas. Nada contra; ele recebeu muito disso, inclusive. Mas não entra de fato na essência, fica como que na periferia do ser. Por isso, a imagem que vamos seguir é a de uma espiritualidade do fogo.

 

Para citar o mesmo Teilhard, compreendemos o fogo como algo que permanece nele.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Essa diafania [na citação da imagem acima] é a transparência. A matéria se torna transparente diante da presença de Deus. É contemplar a matéria pelo olhar de um cientista e ao mesmo tempo de um homem de fé, que se encontrou com o mistério e foi tocado por ele. Esse é o sentido de um fogo que arde dentro. Mas que arde dentro dele porque é, também, um fogo que arde fora.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Significa que a espiritualidade de Teilhard é mistérica e do fogo, porque é uma espiritualidade que, ao acolher o que a matéria se revela a ele, ela é da energia, do amor, do calor, da luz e da visão. Isso mostra o quanto a experiência pessoal do mistério de Deus também se ancora na experiência que ele faz espiritual da matéria. Então a matéria vem carregada de presença com essas dimensões que ele percebe, da energia, do amor, do calor, da luz e da visão.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Assim, essa espiritualidade é uma mística do ver e da visão. É preciso mudar o modo de ver para chegar na visão. Talvez vocês já tenham feito a experiência com uma imagem que é um conjunto de pontos na superfície, mas, se você conseguir separar o olho esquerdo do direito para vê-la, percebe que ela vira 3D, ganha profundidade. Isso é uma outra maneira de ver. Enxergar numa imagem que é imediatamente plana e superficial para ver uma imagem composta na terceira dimensão é ensinar o cérebro a ver diferente. Quando não se consegue fazer a síntese entre o olho esquerdo e o olho direito para o cérebro, está se vendo a mesma coisa com os dois olhos.

Essa analogia é importante para compreender o que significa uma mística do ver, do ver novo e da visão. Esse ver novo permite ver a realidade de uma outra maneira. Também é uma mística da unidade porque ela é uma mística da energia. E a energia na terra e o próprio planeta possui complexidade, expansão e atração que vai levar, na perspectiva de Teilhard, à harmonização do ser humano.

 

Recusa a mística para o ego

 

É, ainda, uma mística da ação, porque Teilhard é avesso a uma contemplação apenas para satisfazer a demanda do ego do indivíduo. Na perspectiva dele, quando alguém perde tempo apenas numa contemplação para satisfazer seu próprio ego, está retendo, diminuindo o ritmo da evolução do universo de ir a Deus. E nós somos chamados para levar adiante a evolução do universo.

 

Então, uma mística que seja só para satisfazer nossa subjetividade é alvo de profundas críticas dele. Logo, a sua mística é da ação. E entre as duas dimensões, da atividade e da passividade. Na passividade, trabalhada por ele no Meio Divino, reflete que mutas vezes nós sofremos o impacto, danos ambientais, intolerância, ódio, do mal do mundo. Então, não apenas estamos em atividade como também sofremos.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Mística da esperança

 

Eu diria, sobre uma quarta dimensão da mística de Teilhard, que essa é uma mística da esperança, porque ele vai mostrar que, desde a origem do Big Bang, dois tipos de energia fizeram o universo evoluir. Uma energia, como ele a chama, é a tangencial ou física, e organiza a matéria. Organiza a matéria do átomo até os planetas, galáxias, a vida e até o cérebro humano. Mas existe outra energia que ele chama de radial, que dá sentido do centro da matéria. É a energia psíquica que é a que permite a complexidade.

 

As ciências, segundo Teilhard, captam apenas o externo, o lado de fora do fenômeno. Conseguem captar o universo, as leis e tudo mais, mas não entram na dimensão necessária, que é a da energia psíquica. É ela que vai dar o salto para a consciência e que vai gerar o sentido mais profundo da evolução do “para quê” e “para onde”. Na perspectiva espiritual, dizia o padre Ulpiano [Ulpiano Vásquez, professor de Teologia da FAJE, falecido em 2017], é fundamental o “para quê” e o “para onde” da vida da pessoa. Para Teilhard de Chardin, isso é algo fundamental para a evolução do universo.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Ver e a visão

 

Do que se trata o “ver” e a “visão” em Teilhard? Ele tem uma grande paixão do absoluto, é um sentido de Deus, é o amor a Deus, a experiência de Deus e por isso, para ele – e sigo com ele nisso – é preciso recuperar a vocação para a adoração, pois esse é o gesto essência de todo o ser humano. Por isso que as liturgias são importantes e, numa sociedade materialista, secularista e
até ateísta no sentido pragmático, também não consegue aniquilar o sentido a adoração e se cria liturgias sem um Deus verdadeiro.

 

Por exemplo, nas olimpíadas, no carnaval, na Copa do Mundo existem rituais litúrgicos que revelam que é uma vocação não realizada, o que seria para adorar o Deus vivo e verdadeiro. Teilhard quer conciliar a importância da adoração, mas para um Deus que seja aceito pelo homem moderno que hoje tem a ciência diante de si e, também, a técnica.

 

Como trazer esse sentido para a adoração? Ele vai incluir nesse desafio a pesquisa, e a pesquisa que é a verdadeira adoração. Nesse sentido, conhecer o mundo, o universo, a matéria é o caminho verdadeiro para se encontrar com o mistério de Deus. E o caminho da revelação de Deus pela palavra e pela encarnação de Jesus Cristo é que é o verdadeiro caminho. Então, é preciso haver uma leitura única e Teilhard consegue fazer isso.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

A pesquisa: evolução num sentido profundo

 

A dimensão da pesquisa não se refere somente à pesquisa científica, mas é toda a pesquisa que signifique realizar algum tipo de síntese do conhecimento, em qualquer área que for, pois, assim, nós estamos levando adiante a evolução e ela tem um sentido profundo. E isso, para Teilhard, é fazer com que o ser humano dê continuidade à evolução, como um “autoevoluir”. É expandir a pesquisa para encontrar o mistério dentro. Não pelo conhecimento, a inciativa humana que vai conhecer o mistério pela sua própria força, mas porque o mistério é presença.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Veja que nesse texto (acima) ele faz uma paráfrase da pregação de Paulo em Atenas. Teilhard termina com um chamado: “o que falta, então, para que vos possais abraçá-lo?”, abraçar esse Deus criador, esse Deus que torna possível a evolução da matéria para que surja a vida e o pensamento. Para isso, Teilhard coloca o “ver”, e ver de modo que integra as duas dimensões, da fé das ciências.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Ir para o alto, na direção da evolução

 

Eu gosto demais dessa frase [da imagem acima]; é um contrapondo à “noite escura” de São João da Cruz, com quem Teilhard não se identificava. Ele não se identificava nem com a mística da graça de Deus que desce e ilumina o intelecto, a alma, e nem no sentido da ascensão, da alma e do pensamento para Deus. Para ele, o ir para a direção do alto é ir adiante na direção da evolução.
Por isso que o culto é compreendido num sentido profundo e espiritual. É o culto da matéria, mas também da vida e da energia. Deus não sai da noite, mas pousa na luz. É a frase muito importante.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Teilhard é muito crítico de uma espiritualidade de renúncia ao mundo, fuga do mundo, saída do mundo, uma espiritualidade que alimenta a culpa, que esteja focada no pecado, que esteja focada numa espiritualidade individualista. Penso que hoje ele fica ainda mais relevante do que em seu tempo, porque no seu tempo essa perspectiva era única.

 

Se tinha esse espírito muito devocional porque não havia algo novo acontecendo. A novidade vai explodir no Concílio Vaticano II. E as mudanças que Teilhard estava sentido que precisavam ocorrer na Igreja eram porque a prática do cristianismo, tal como ela era oferecida no seu tempo, sonegava o mais rico e importante do cristianismo para o mundo. Esse fundamental do cristianismo para Teilhard de Chardin vai ser o fato de que Jesus não só é plenamente homem e plenamente Deus, pois Ele é plenamente cósmico. É cósmico no sentido que há uma presença do Cristo Glorioso no universo. É uma inspiração que Teilhard tira de alguns textos de São Paulo e passam a ser seu insight interior para fazer uma síntese entre fé em Deus e na Criação e na perspectiva evolucionista.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Paixão pelo absoluto

 

Eu falava sobre o que move Teilhard nessa busca: é justamente a paixão do Absoluto, numa expressão dele. É a paixão de Deus e por Deus, é o único suficiente e necessário. Algo muito lindo, algo central para entender mesmo como cientista.

 

O método científico que Teilhard de Chardin conhece bem, e vai trabalhar com ele, será expandido na compreensão da evolução da matéria e que é colocado dentro do coração do místico que é. Logo, o pressuposto é mesmo sua fé e seu amor a Deus, um amor a Cristo, mas um Cristo cósmico, glorioso. Significa pouca atenção ao Jesus de Nazaré e menos a questão da cruz, o que talvez seja um ponto fraco em sua espiritualidade.

 

Fundamentos da espiritualidade mística de Teilhard de Chardin no movimento de “ver”

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

O ver para Teilhard de Chardin é o ver de uma fenomenologia.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

A fenomenologia é, de um lado, um método científico para chegar ao conhecimento do sentido total da evolução. Para ele, a evolução não é só um acontecimento que a ciência vai desvendando desde as origens. Há um sentido, uma direção, uma convergência, há um centro, a matéria possui um centro par onde converge. E, para Teilhard, o surgimento da consciência e da energia psíquica é algo central para compreender a evolução.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

A metáfora da concepção da vida

 

Gostaria também de partilhar algumas imagens, justamente do nascimento e da gestação de uma criança.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Desde a elação sexual, existe a ejaculação e milhões de espermatozoides vão para o ventre da mulher. E são milhões, pois se não forem, a probabilidade de que o óvulo seja fecundado cai para praticamente zero. Todos morrerão, menos um.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

É uma aventura e uma longa jornada que todos realizam para atingir a meta. Mas, como disse, muitos morrerão, com a própria acidez da vagina, com o útero e sua bifurcação etc. Os mais frágeis e vagarosos vão morrer ou desistir. Não há só a energia, mas, como diz o filme do qual reproduzo essas imagens, há outra dimensão que é a sorte. Só que, do ponto de vista espiritual, não é uma questão de acaso.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Há a afirmação, da qual eu não duvido, de que a distância que o espermatozoide percorre para chegar ao óvulo é quase o equivalente da Terra à lua. Algo imenso, para termos essa dimensão. Há uma força da vida que empurra até chegar à estrela misteriosa.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Gosto da palavra misteriosa, trazendo aqui o sentido da presença do mistério. E, assim, mais ou menos 100 espermatozoides chegam ao óvulo, até que um consegue entrar e ele se fecha, sem dar acesso aos demais.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

O espermatozoide penetra, perde seu flagelo e se prepara para transmitir a herança genética, juntando o DNA do marido com o da esposa, Manu e Barbara, descritos na imagem.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Aqui, isso [imagem acima] é fundamental para entender o que Teilhard vai falar. Temos aqui uma célula e ela contém um saber intrínseco que vai desenvolver agora as etapas seguintes. Mas é importante guardar isso: uma máxima dispersão lá no início, são milhões de espermatozoides e um que chega, numa improbabilidade imensa, e agora temos uma célula.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

É muito veloz o ritmo de reprodução das células após a fecundação, e cada célula sabe o que tem que fazer, como fazer. E todas em rede; todas estão interligadas e todas sabem o que cada uma está fazendo. Vai do ovo para o embrião e começam as transformações.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Vemos [na imagem acima] a formação do sistema nervoso, a futura espinha dorsal, as protuberâncias dos dois hemisférios do cérebro. O embrião se dobra, começa a formar um coração, os vasos sanguíneos, até que começam a parecer as fases da evolução que pressupõem a chegada até o hominídeo, que vai dar o salto para a consciência. Aqui, somos semelhantes a nossos ancestrais.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

E em quatro semanas o ovo passou de uma célula para milhões dela, cada uma sabendo o que tem que fazer.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Isso é algo importante [imagem acima]. Um minúsculo organismo é arquiteto de sua própria construção. É interessante, porque, se você vai construir um prédio, precisa do projeto do arquiteto, os cálculos do engenheiro, a mediação do mestre de obras e depois os operários para executar a obra. E sempre será preciso revisitar com o arquiteto, engenheiro e mestre de obras para saber se o que está sendo construído é aquilo que foi projetado. Então, quando se diz que o arquiteto é o próprio sujeito dessa construção, temos nesse organismo aí [imagem acima] o saber de si que vai realizar a obra.

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

Temos [na imagem acima] as células do coração. Todas batem em ritmo diferente, mas quando uma entra em contato com a outra, todas passam a bater em uníssono. É isso que vai fazer pulsar o coração.

 

A ciência sabe o que contém a célula, do ponto de vista da genética. Veja que já terminamos de mapear o genoma, uma coisa quase que impensável. Só que, para Teilhard de Chardin, desde o início da origem do universo, há dois tipos de energia que estão presentes: uma, que ele chama de energia radial e que é essa que organiza a matéria até chegar ao cérebro. O cérebro humano é a arquitetura mais complexa que o universo já construiu e que nós temos conhecimento. Logo, nós somos o fio de cabelo da longa evolução do universo até onde esta tem chegado e vai continuar. Por isso, para Teilhard, não é cosmos, mas sim cosmogênese, porque é um processo e o processo não se fecha. Tem um centro e esse centro é uma convergência. Essa convergência aparece da máxima dispersão: lembremos dos milhões de espermatozoides, para chegar ao máximo de complexidade, que é o nascimento da criança.

 

E a outra energia ele chama de energia radial, porque ela que é o centro do universo, é uma energia psíquica. E esse é o salto qualitativo que Teilhard de Chardin dá, pois, quando vai investigar com os critérios da ciência, ele introduz na perspectiva científica, em compreensão da evolução, a energia psíquica. Esta é considerada por ele a mais poderosa que há no universo. É mais poderosa que a energia nuclear, que pode ser tanto usada para gerar energia elétrica como para fazer bombas e jogá-las na cabeça de civis inocentes. Mas essa não é a mais potente energia; é a psíquica, porque ela fez com que o universo evoluísse da matéria para o orgânico, do orgânico para a vida, que tem origem nas bactérias e vírus e chega nos vertebrados, para os mamíferos, e dentre eles os hominídeos e o que dá salto para a consciência.

 

Presença de Deus na matéria

 

Essa é a energia radial ou psíquica é o modo como Deus é presença na matéria, na vida e no ser humano. Teilhard de Chardin vai chamar de panteísmo, mas é um panteísmo muito suavizado, pois o panteísmo significa que tudo está na mesma substância divina. Só que o sentido que ele traz é o que está na prática da espiritualidade inaciana: Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus. A palavra melhor para isso é panenteísmo, que significa a presença de Deus em tudo.

 

Assista ao vídeo [abaixo] como forma de mostrar que essa energia radial é o critério para compreender por que para Teilhard a matéria é carregada de fogo, fogo interno que ele conseguiu visualizar quando diz que para compreender o sentido da evolução é preciso compreender o espírito da terra, o sentido da terra. Significa que esse sentido não pode ser buscado infinitamente no grande, na astrofísica, na formação das galáxias e expansão do universo, e nem no infinitamente pequeno da mecânica quântica das subpartículas atômicas, mas num infinitamente complexo porque é aqui o verdadeiro eixo da evolução.

 

Assim, para Teilhard, as ciências explicam o passado e como o ato criador de Deus ocorre por meio de uma energia, que é um modo como Deus é presença, e essa presença é que faz com que a evolução tenha chegado até onde ela chegou. Digo isso para destacar que o que vamos visualizar é como se fosse apenas a energia tangencial ou física para ver como é o olhar de Teilhard de Chardin. É ver a comunhão da vida com o divino, com Deus. É o nascimento de um ser espiritual, pois o bebê já nasce espiritual porque essa dimensão está na comunhão íntima e profunda com Deus na sua gestação.

 

A experiência humana vê como se existisse só a mãe, mas, na verdade, esse amor incondicional que o bebê vai procurar e espera encontrar no brilho do olhar da mãe está na verdade na presença de Deus. E essa presença não vai embora. Vamos, então, revisitar nossa origem, e ao revisitar nosso processo, mesmo que socialmente, culturalmente e familiarmente tenhamos passado por atribulações, há algo muito profundo e interno, que é o psíquico e que está sendo formado. Esse psíquico é o espiritual, o mais profundo do humano. Falar do psíquico e do espiritual é falar da presença de Deus.

 

Necessidade de unidade para humanidade

 

Em Teilhard de Chardin, tudo isso é algo muito concreto, é uma energia, a energia do amor. Para ele, o indivíduo é o que menos vale; quando a pessoa busca tudo para si, não é levada à evolução. É uma vocação espiritual e social e profundamente humana. Levar adiante a evolução é provocar a unidade na humanidade, coisa que o Papa Francisco se faz como grande voz com coragem para dizer. O ponto de partida é unidade na humanidade.

 

Da mesma forma que o cérebro está organizado por neurônios e eles são a unidade do sistema nervoso central, cada ser humano é uma célula viva do sistema da civilização, e por isso a vocação da humanidade é se unir. Se unir, primeiro, para pensar nos problemas que tem que enfrentar; veja que o Papa Francisco coloca o dedo nisso lá em Laudato Sì' e todas as questões ambientais, e mais a Fratelli tutti, a questão da unidade. Tudo isso é muito teilhardiano.

 

Quando termina um parto, podemos dizer que nasceu uma criaturinha, fruto do processo de evolução e profundamente espiritual. E é espiritual porque a energia e presença do Divino é que fizeram com que esse processo chegasse até o fim, assim como a evolução do universo.

 

Vamos aos vídeos.

 

 

 

 

O convívio avançaria para o bebezinho nascendo e, eu diria, quando o bebê está no braço da mãe, nasceu um ser místico espiritual, porque foi gestado na presença de Deus. Não é uma presença apenas na linguagem teológica, mas evolutiva, uma presença que faz com que o improvável chegue à sua realidade. É isso que o Teilhard vai dizer entre o infinitamente grande da astrofísica e o infinitamente pequeno da mecânica quântica ao infinitamente complexo.

 

Aqui está o sentido da evolução, um sentido convergente. A dimensão de compreensão da totalidade da evolução é na verdade o cristianismo, pois o cristianismo é o que possui o sentido mais profundo para falar do conteúdo da realidade que se revela em sua transparência total. É o sentido da criação por Deus e o sentido do Mistério da Encarnação, a Trindade, porque há o mistério da encarnação. Deus não é só presença por meio de energia, mas Deus é presença, pois, por meio do útero da Virgem Maria, faz um mergulho na mais total gratuidade do seu amor à nossa condição.

 

Por isso Messias é Messias desde a fecundação por uma obra única exclusiva do Espírito Santo, que fazia esse itinerário. O que acontece com Jesus – e José e Maria farão um trabalho espetacular – é permitir que esse menino cresça em consciência, no aprendizado da língua, da cultura, dos costumes, para receber a fé e a ressignificar na sua vida pública. Teilhard descobre o que é toda síntese que o ser humano vai fazer, por isso pesquisa e adoração não se separam para ele, é um modo de avançar na atração do sentido da evolução.

 

Mística da esperança, mística da evolução

 

Veja o que diz esse slide [abaixo].

 

Imagem: reprodução da apresentação elaborada pelo palestrante

 

O fascínio, para mim, é que se trata de uma mística da esperança. Uma mística de uma visão da evolução da importância da terra, do meio ambiente, da diversidade humana, das culturas. Trata-se de uma perspectiva dialogal que precisa do outro e dialogar com o outro. O Papa Francisco tem se mantido nessa perspectiva, sem ser arrogante, sem se achar o dono da verdade. Uma atitude humilde e de grande encantamento, já que estamos o tempo todo na presença de Deus.

 

Uma vez Teilhard de Chardin pegou uma pedra e chorou. Por que ele pegou um pedaço de rocha e chorou? Porque ele sabe que essa rocha não foi feita na Terra, que ela tinha vindo do espaço e tinha 150 milhões de anos. O processo que está nesta rocha é o mesmo que o nosso, que vimos no nascimento de uma célula, desde a fecundação até o nascimento. Isso é muito inspirador e muito atual e vale a pena revisitá-lo, como diz o Pe. Vaz. Teilhard de Chardin se tornou um clássico e, como todo clássico, merece ser revisitado com seriedade.

 

Questionamentos

 

Ao fim da conferência, foram apresentados questionamentos a Carlos James dos Santos. Confira algumas das questões:

 

O senhor trouxe aqui um aspecto da adoração, diferente da ideia muito rasa que temos. Em Teilhard de Chardin temos uma dimensão muito profunda do que é a adoração. Pensando nas palavras de Jesus para Samaritana, “virão dias em que vocês vão me adorar em espírito e verdade”, como podemos compreender e aprofundar mais o que é essa adoração em espírito e verdade para Teilhard de Chardin?

 

É o que ele fala do sentido do absoluto, o que é bíblico e cristão. Esse absoluto é único e necessário, como ele diz, para todas as decisões humanas. Significa que a adoração é entrar em comunhão de ser com Deus. É abrir-se, porque já é presença e já está em nós, nunca nos abandonou, nunca foi embora. Isso que é o bonito.

Quando a Bíblia diz que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, na visão cristã fomos criados à imagem da Trindade. A Trindade permanece em nós, já somos. O dom da fé é que vai fazer com que nós nos apropriemos daquilo que nós somos. Nós somos criados à imagem e semelhança de Deus e nos tornamos. O bonito da evolução é que de um lado ela entrega e, de outro, há um tornar-se, vir a ser. É como bebezinho: já é, ele está aí, nasce místico. Nasceu um ser espiritual porque Deus é presença nessa gestação na forma de uma energia. Mas ele tem que se tornar, tornar-se humano, tem que se humanizar. Esse humanizar-se, para Teilhard, é se unir num propósito de socialização.

É o ser humano aprender a resolver os problemas juntos, pensar juntos. Isso vai ampliar, inclusive, o volume do cérebro, a capacidade cerebral e, por isso também, de experimentar o divino. A grande vocação humana é estar em comunhão com o Divino, esse é o sentido da adoração.

 

 

Caderno IHU Ideias Nº 45 que tratou do pensamento de Teilhard de Chardin

 

As ideias ou as obras de Teilhard de Chardin tiveram influência durante o Concílio Vaticano II?

 

Tiveram sim, na Gaudium et Spes do Vaticano II, as expressões, as alegrias, as esperanças, as dores e as tristezas são quase citações literais de Teilhard de Chardin, porque ele tinha esse sentido muito profundo do humano e isso toca imensamente. Ainda mais para quem primeiro experimentou essa vocação de ver a matéria transparecida da presença de Deus.

 

Então Deus não vem de fora. Vem de dentro, é o que torna possível a natureza, sem fazer com que a natureza seja Deus, pois ele é presença numa energia que respeita a nossa liberdade. O grande desafio entre a liberdade humana, o livre arbítrio, o que o ser humano vai fazer com o planeta e a expectativa dessa consciência do universo de levar adiante a evolução é humanizar o ser humano para o dar a vida divina. Esse é o sentido único e é o cristianismo que tem essa proclamação.

 

Em resumo, repercutiu muito no Vaticano II esse espírito de reconhecimento da autonomia do mundo moderno, dessa identificação da comunidade eclesial com as dores, as alegrias do mundo; é muito teilhardiano. Mas há muito mais de Teilhard nos documentos papais de Francisco, a Laudato Sì' e a Fratelli tutti e outros textos do papa que vão nessa mesma direção.

 

O Vaticano II foi a abertura da Igreja para o mundo moderno, e Teilhard de Chardin é o diálogo muito profundo e sério com esse mundo moderno que demove a visão estática que se tinha de Deus. Se colamos, nessa visão estática, Deus lá no alto, quando varremos esse mundo aqui, Deus também é varrido. Teilhard vê que é preciso recuperar o sentido que a ciência dá para a evolução, mas também a fé num Deus criador e que cria por amor. Isso está latente nos avanços que o Concílio Vaticano II trouxe.

 

Porém, ainda oficialmente, o magistério da Igreja não integrou totalmente Teilhard. Embora o papa João Paulo II, falando sobre Eucaristia, mesmo celebrada lá no altar no lugar mais distante, está em comunhão com todo o cosmos, todo o universo. Isso é Teilhard de Chardin. Então, ele está citando a missa sobre o mundo sem citar a missa sobre o mundo.

 

O senhor pode explorar mais a visão cósmica que Teilhard de Chardin tem do Cristo? Quais consequências isso tem para a cristologia?

 

Nas últimas décadas, principalmente depois do Concílio Vaticano II, na América Latina, e principalmente depois da obra de Jürgen MoltmannO Deus Crucificado, que tem impacto maravilhoso na Teologia da América Latina, se pensa parte da realidade para fazer uma reflexão teológica sobre o que significa crer a partir dessa realidade que ilumina a cristologia no sentido de voltar ao Jesus de Nazaré.

 


O Deus Crucificado, de Jürgen Moltmann (Academia Cristã, 2011)

 

 

E há uma coisa curiosa nessa pergunta, pois Teilhard de Chardin tem dificuldade de se identificar com esse Jesus de Nazaré. Ele condenava essa visão de alguém distante no espaço-tempo sem o poder convocatório e inflamatório em Jesus de Nazaré, mas no Cristo Glorioso, na sua ressurreição e na sua presença universal. No entanto, na América Latina, a cristologia volta a sua origem.

 

São duas as possibilidades de você começar uma cristologia. Uma é partir do Jesus de Nazaré, portanto do Jesus histórico, porque esse Jesus é normativo para a comunidade eclesial, para a vida de fé da comunidade. E ele é acessível pelo Novo Testamento, especialmente pelos Evangelhos. Então, a volta às fontes visou recuperar o sentido de Jesus de Nazaré, o que deu sentido à sua vida e missão, que é o Reino de Deus e os conflitos que ele enfrentou e que o levaram à morte. Somente o discurso teológico piedoso, de que é o pecado que leva à morte, não leva em conta o conflito que está na vida e morte de Jesus, pois ele morreu expulso do templo e expulso do Império Romano. Como diz Moltmann, a condição de Jesus era pior que dos outros dois [condenados] que haviam sido expulsos do Império Romano, mas não do templo. Jesus morreu expulso do poder religioso e do império.

 

No tempo do Teilhard, ficou muito impregnada a questão da imitação de Cristo. Cristo era uma pessoa para ser imitada no seu testemunho, na sua humildade, na sua bondade, no seu amor, mas não era uma cristologia de Jesus de Nazaré, é muito mais uma cristologia do Cristo mesmo. Aqui era bom lembrar que Cristo é um título de fé, uma profissão de fé. Jesus é o Cristo de Deus. E o Cristo de Deus é o filho de Deus, que morreu na cruz e ressuscitou.

 

Cristo Glorioso

 

A outra cristologia que pode haver parte do Cristo Glorioso, que se manifestou e assumiu Jesus de Nazaré. O resultado será outro. Nessa visão cósmica, Teilhard inaugura a necessidade de uma visão sistêmica e holística da realidade para salvar a humanidade. E, também, para salvar o meio ambiente e a dignidade humana, é muito importante enxergar esse sentido.

 

Porém, precisa dialogar com uma cristologia desenvolvida na América Latina, que recupera do Jesus de Nazaré, o Jesus histórico e que ele não valorizava tanto. Para mim, é muito claro que o Cristo Glorioso é a encarnação e a encarnação é Jesus de Nazaré; ele é normativo, porque Cristo Glorioso é um título. É o fundamental, o mais importante, mas é uma profissão de fé. Aliás, profissão de fé em cima de uma pessoa, pessoa histórica de Jesus. São dimensões complementares.

 

Unidade da humanidade, segundo o Papa

 

Falar da relevância de Teilhard é a mesma coisa que falar da relevância de Laudato Sì' e Fratelli tutti do Papa Francisco, porque elas traduzem esse sentido da beleza e da grandeza da evolução como Teilhard percebe. A unidade da humanidade é fundamental, é ponto de partida para o Papa. É mais corajoso o Papa do que a Organização das Nações Unidas – ONU, pois ela está aquém do Papa, abandou as questões de resolver a miséria e a fome do mundo enquanto ele se lança ao dizer “ninguém para fora, nenhum ser para fora”.

 

 

“Não se pode desprezar ninguém.” Desse ponto de vista da evolução, Teilhard é simples assim: no corpo de cada ser humano está a evolução de todo o universo, são os mais de 13 bilhões de anos. Por isso que uma só célula sabe entregar uma criança. Sabe, porque há uma energia, ou dois tipos de energia, uma que organiza a matéria, porque há outra energia que torna o improvável realizável. É dar essa complexidade como energia psíquica que une tudo. Por isso cada ser humano importa, é destinatário do amor, precisa ser cuidado, abraçado, ninguém a menos. O Papa, nesse sentido, é muito teilhardiano. É muito jesuítico e inaciano, mas também teilhardiano.

 

 

 

Como explicaria o pecado original?

 

Isso foi uma das grandes razões pelas quais a Santa Sé bateu em Teilhard, porque há um problema exegético. A ordem lógica dos livros da Bíblia não é a ordem da experiência bíblica. Assumir que a ordem lógica já é a ordem da Revelação não é bem assim, pois a exegese vai mostrar o contrário, e vai mostrar a ordem histórica da experiência. É que o Deus de Abrahão, El Shaday, é o Deus da montanha, do clã, que admite a existência de outros deuses.

 

O Deus que se revela a Abrahão, que o conduz de fora de sua terra para uma terra prometida, se encontra com a dimensão do Deus que se revela a Moisés, que é Javé. Javé significa aquele que é, mas tem um conteúdo de relação e de encontro. El Shaday já é um Deus do encontro, é um Deus que se faz tu, se faz pessoal, que se mostra como tu para Abrahão. Porém, Javé se revela como o Deus que é vós, é um Deus favorável.

 

O ser favorável significa que Deus desce para participar da história da libertação do povo da escravidão, conduzido pelo mar, pelo deserto a uma terra prometida. Isso é a Páscoa, é ela que dá a identidade do povo, é o sentido abrahamico do pertencimento e é o sentido de Moises e de Javé de um Deus libertador e salvador.

 

Quando o povo conquista a terra, surge a pergunta: nós devemos adorar aos deuses pagãos, sobretudo o deus da fertilidade, ou o Deus de Abrahão, El Shaday e Javé, são também compreensões de Deus, o mesmo deus que se revela, o Deus da terra prometida? E, então, a reflexão teológica traz a perspectiva de que é uma revelação, mas é também uma elaboração que vai trazer a ideia de que não só o Deus é salvador, para ser cultuado e amado na terra conquistada porque ela é uma doação desse Deus, mas toda a terra é doação de um Deus criador, que cria do nada, que cria o ser humano soprando do barro.

 

É muito lindo isso, gosto demais dessa imagem do Deus que cria do barro porque o ser humano tem dupla origem. Adão é criado do barro, Deus o molda e depois o sopra, ele contém o sopro vital. Eva é tirada da costela de Adão, mas é para ser igual. Por isso o ser humano tem dupla origem, uma da natureza, da história da terra e da evolução e ainda tem a origem de outro ser humano, é filho da cultura. Mas em tudo se tem a origem em Deus.

 

O mal

 

E nessa reflexão, despois da terra conquistada, vai surgir a pergunta: por que Deus, sendo salvador, bom, misericordioso, permitiu que o mal, o sofrimento, a morte e o pecado entrassem no mundo? A narrativa da queda é para dizer que do coração de Deus não pode vir o mal; Deus não é o criador do mal, não é o criador do pecado, mas o pecado surge por causa do livre arbítrio humano, e nesse aprendizado, de um lado, se sente que há um desejo de encontrar a felicidade, mas que busca nas criaturas essa realização e é preciso buscar na fonte da sua paz, que já está dentro dele pelo sopro vital (na perspectiva criadora) e na energia psíquica (na visão de Teilhard), que é essa energia que faz com que o complexo surja nas condições favoráveis.

 

Vejam que o sopro vital se alia com a ideia de energia psíquica, que molda toda a realidade. Pecado original é uma expressão criado por Agostinho, mas que não é a expressão bíblica. A expressão bíblica é a queda, numa ordem idealizada por Deus no sentido que Ele tem um sonho para o ser humano, e esse sonho fica difícil para corresponder por causa do livre arbítrio e das decisões equivocadas que o ser humano vai tomando ao longo da história.

 

Os autores bíblicos olham para a realidade presente e fazem a narrativa olhando para o passado e dizendo que o Deus criador, o Deus salvador não é responsável pela origem do mal e esta permanece como sendo um mistério divino e por mais que exploremos a questão, seja na perspectiva da filosofia ou da teologia, permanecerá uma questão sem resposta definitiva.

 

Assim, é preciso substituir por uma outra pergunta: quem é Deus diante da realidade do mundo atravessada pelo pecado? Então, Deus se revela como Deus do encontro, seja na dimensão profética, que também é a nossa, porque cremos na palavra encarnada, que é Jesus de Nazaré, seja nessa perspectiva de um Deus salvador que age na realidade para a libertar e fazer aquilo que Deus sonhou.

 

Então, Deus tem um sonho. Teilhard de Chardin enxerga esse sonho na história da evolução e vê dentro dela um sentido, que ele acredita ter desdobrado. O pecado, assim, significa que não nascemos fora de uma realidade marcada por ele. Todo ser humano está marcado pelo pecado, essa negação do amor que, infelizmente, há em toda a humanidade. São questões bem sérias para desdobrarmos.

 

Palavras finais

 

Trouxe uma visão de Teilhard de Chardin dos educadores populares, pois é essa uma teologia da espera. Temos o maior pastor da esperança que é o Papa Francisco. Temos que ter esperança também na perspectiva de Rubem Alves, que já fazia a distinção entre esta e otimismo. Otimismo é quando os fatos lhe são favoráveis. A esperança é de uma outra ordem, ela se ancora na eternidade. O Papa Francisco vai na mesma direção.

 

 

Nó temos o universo inteiro a nosso favor, o planeta, a terra inteira ao nosso favor, e com todo sofrimento que há, há beleza de toda a criação. A energia que fez com que tudo que é improvável surgisse vai levar adiante o processo, porém, contando com o ser humano; e aí vem a grande questão das forças do mal, do pecado, da injustiça que nós vamos precisar superar. Para Teilhard, não tem como superar essa energia. Ela chegou até aqui e vai adiante. Mas é realidade que existe uma resistência a ela, como uma energia de “antiamor” e isso é o próprio pecado.

 

Assista a íntegra do vídeo da conferência:

 

 

 

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