Sindicato "coletivo’ x Sindicato "indivíduo’. A tensão permanente. Entrevista especial com Marisa Stedile

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20 Agosto 2007

"As ações coletivas, historicamente, sempre orientaram a ação sindical, porém crescem cada vez mais as reivindicações de caráter individual." A avaliação é da presidente do Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região Metropolitana, Marisa Stedile, em entrevista dada pessoalmente à IHU On-Line.  A entrevista foi feita pelos colegas do CEPAT. Para a sindicalista, o sindicato vive em uma permanente tensão. Por um lado, precisa encaminhar as lutas gerais da categoria e, por outro, se exige que ele dê resposta imediata às demandas particulares.

Segundo Marisa Stedile, a nova configuração do mundo do trabalho, resultante da reestruturação produtiva, e as políticas anti-sindicais do período neoliberal empurraram os sindicatos para a defensiva. Porém, a partir da eleição de Lula, a sindicalista enxerga um novo ascenso na luta sindical. Segundo ela, as empresas impõem uma agenda para os sindicatos, que ficam presos a ela. A eleição de Lula também "freou" o impulso oposicionista dos sindicatos. “O presidente da PreviSergio Rosa, é o presidente do Conselho de Administração da Vale do Rio Doce. Então, os interesses que circundam a Vale se vinculam à participação dos trabalhadores nos fundos de pensão”, explica Marisa sinalizando o motivo da distância ou pouco entusiasmo do movimento sindical para com temas como o plebiscito popular pela anulação do leilão da CVRD.

Marisa Stedile, na década de 1980, organizou, em Toledo (PR), o Sindicato dos Bancários, e foi presidente da Federação dos Trabalhadores de Empresas de Crédito do Paraná (FETEC). Atualmente, é presidente do Sindicato dos Bancários de Curitiba e região metropolitana.

Confira a entrevista.

IHU On-line - Qual é o motivo do desinteresse dos trabalhadores para com os sindicatos? Na década de 1980, havia disputa pela conquista das direções. Hoje, está difícil encontrar trabalhadores que desejem participar do sindicato. O que aconteceu?

Marisa Stedile - Eu avalio de duas formas. A primeira é que na década de 1980 havia uma geração muito jovem trabalhando no sistema financeiro. Refiro-me aos bancários, que compreendem a categoria que eu conheço de perto. Havia uma juventude que estava sufocada pela ditadura militar, olhava para o cenário político e via perspectivas de mudanças. Havia um grito reprimido que veio à tona e que era tratado pelas direções com grandes bandeiras, grande eixos de recuperação da democracia, dos direitos constitucionais, das liberdades.

Essa juventude amadureceu e a acompanhou, nos anos 1990, a reestruturação produtiva, assim chamada pela classe patronal, que foi impondo modelos de relacionamento de trabalho, acentuando o individualismo nas relações de trabalho. Isso acabou por fortalecer essa cisão de sociedade, em que é cada um por si e na qual o coletivo é colocado meio que em segundo plano. Paralelas a isso, também vieram as decisões políticas e legislativas de supressão de direitos à organização sindical. Um exemplo emblemático foi a greve dos petroleiros em 1995, que baixou uma ditadura violenta sobre o sindicato, uma intervenção federal, com o exército dentro da refinaria. Naquele momento, isso foi muito significativo para a classe trabalhadora, como que um recado do Governo FHC: “Olhem, daqui para frente vocês não façam greve; daqui para frente, a lei é outra”.

Esse recado está associado ao amadurecimento dos trabalhadores, que não estão mais na faixa dos 20 anos, mas que são pais e mães de família, com filhos para criar e que enfrentam  a posição do governo e das empresas que começaram a fazer planos de demissão voluntária, reestruturação produtiva, de reengenharia. Alguns métodos de organização do trabalho trouxeram à tona a individualidade que passou a se sobrepor ao coletivo. Nos anos 1990, essa característica do trabalho e da política teve reflexo imediato na organização sindical. Os sindicatos perderam muito do seu potencial de organização naqueles anos.

Agora, com a vitória de Lula em 2002, houve uma espécie de retomada de fôlego: “agora nós podemos novamente lutar”! O sindicalismo dos anos 1990 simplesmente ficou na resistência e na denúncia. Ele virou um sindicalismo de denúncia e de resistência contra a repressão que acontecia nos movimentos sociais e não foi um sindicalismo de formação política. Ele não dava sinais para os trabalhadores de que era bom se engajar politicamente, porque a idéia era a de que quem se comprometia poderia ficar na berlinda e, conseqüentemente, não evoluiria profissionalmente. Logo na seqüência, com a vitória de Lula, o sinal que chegou para a classe trabalhadora foi: “Se um sindicalista conseguiu chegar a ser presidente da República, é porque esse negócio pode ser bom”. Então, nós temos que novamente apostar no sindicato e foi aí que se retomaram as assembléias, em 2003, 2004, 2005... Nelas, tivemos muito mais gente participando.

Nós chegamos a ter assembléias com mais de 1.200 pessoas, o que é um fato totalmente novo. Em 2006, não chegamos a ter tantas pessoas, mas também foram assembléias grandes. As campanhas salariais durante esse governo revelam assembléias mais participativas, com mais propensão à adesão aos movimentos grevistas. Percebe-se que os mais velhos estão cansados, mas também um pouco saudosistas da época dos grandes movimentos, e os mais novos estão com aquela mesma ansiedade de mudanças que nós tínhamos na década de 1980. Então, avalio que existe um caldo social muito bom dentro da categoria bancária para fazermos mobilizações.

IHU On-line - Mas, então, há, na sua avaliação, possibilidade de retomada das grandes mobilizações?

Marisa Stedile - Há uma retomada, sim. Nós temos, inclusive, uma pesquisa que aponta um quadro muito favorável ao movimento sindical, mostrando um reconhecimento do trabalho do sindicato e também o desejo de fortalecer a instituição "sindicato". A maioria dos sindicalizados está no sindicato não por vantagens pessoais, mas por acreditar que ele é um instrumento de recuperação dos direitos.

IHU On-line - Então, você não concorda que há desinteresse pelo sindicato?

Marisa Stedile - Não concordo. Vejo interesse, inclusive vindo de pessoas jovens, na faixa dos 20 anos que estão entrando nos bancos, tanto no Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, em bancos públicos. Eles participam e vão em nossas conferências, o que eu acho muito bom. É claro que é uma minoria ainda... Minoria diante do quadro geral, mas naqueles anos 1980 também não era a grande maioria que se expressava. As novas lideranças que surgiram nos anos 1980 eram poucas. O nome já diz tudo: lideranças. Não existe lugar para muita gente: acaba ficando mesmo quem tem muito interesse e quem tem essa predestinação de estar trabalhando as causas coletivas. De qualquer modo, eu acho que tem gente nova boa chegando e fico feliz com isso.

IHU On-line - É possível falar numa nova subjetividade operária? Uma subjetividade na qual ganha predominância os interesses do indivíduo e não mais da classe? Os trabalhadores ainda manifestam solidariedade a causas coletivas ou se recolheram ao seu mundo privado?

Marisa Stedile - A questão individual e do mundo privado é muito mais forte agora. Nós temos pessoas novas chegando, mas elas  vêm movidas pelos interesses individuais, por aquilo que percebem individualmente, relacionado a perdas no trabalho. É nesse caminho que elas vêm para a luta. Hoje, o trabalhador olha muito para as suas condições particulares. Para agravar, nós temos o problema da remuneração variável. Os sindicatos fazem uma contratação nacional da Convenção Coletiva da parcela vinculada a verbas salariais. As outras são comissões relacionadas a vendas, e nós não temos influência sobre isso. Há uma competição muito grande no local de trabalho para ver quem consegue o maior número de clientes e quem consegue colocar mais produtos.

IHU On-line - Existem também as metas?

Marisa Stedile - Sim, existem as metas. Na realidade, a disputa interna é muito individualista e acirrada. Então, o que acontece? Os problemas também são individuais. Quem acaba ficando doente, fica doente sozinho. Um dos grandes problemas dessa geração de agora é o número elevado de pessoas com doenças ocupacionais. E isso acontece por conta das metas que são estabelecidas individualmente. Com isso, o problema acaba também sendo trabalhado de maneira individual. Por mais que o sindicato elabore cartilhas informativas e realize seminários para tratar de questões relativas à saúde ocupacional, que faça reuniões com os bancos, que tenha uma mesa de negociação sobre o assunto... tudo isso ainda é um tabu muito grande, porque as pessoas não gostam de se mostrar frágeis.

O sujeito às vezes trabalha doente e fica quieto. No entanto, chega um momento em que a corda arrebenta e ele não agüenta mais esconder a sua doença.  Quando isso acontece, ele vem para o sindicato. O sindicato hoje não consegue trabalhar só as grandes causas. Ele precisa trabalhar a campanha salarial, os grandes projetos, a intervenção nas questões políticas, como foi a Emenda 3, mas, paralelamente a isso, nós temos que olhar o indivíduo, coisas que na década de 1980 não existiam com a mesma necessidade e demanda. A demanda do sujeito era dispersa no coletivo. Ao fazer uma reivindicação de reajuste salarial, ou de um novo benefício, como o vale-alimentação, você atingia a todos coletivamente.

Hoje, é o indivíduo que está se sobrepondo e é preciso trabalhar as demandas coletivas. No entanto, cada indivíduo tem necessidades específicas e pessoais. Na hora em que o bicho pega, ele vem para o sindicato e acredita que seu problema será resolvido, porque, mesmo que secretamente, ainda vê o sindicato como a tábua de salvação, aquilo com que se pode contar na hora do aperto. Eu acredito que essa questão do imaginário, da subjetividade, tem esses elementos. As pessoas acreditam que vão conseguir chegar a um determinado ponto, que irão superar todas as metas, que irão vencer tudo que é proposto para elas. Entretanto, como elas são seres humanos, acabam, no meio do caminho, despertando para a realidade. Muitas, inclusive, percebem que foram usadas como laranjas e depois, quando ficam doentes, são descartadas.

IHU On-line - O capital fala na exigência de um trabalhador participativo, criativo, plurifuncional, que saiba trabalhar em equipe. Você considera que esse discurso da conquista das “mentes e corações” foi assimilado pelos trabalhadores, ou eles manifestam resistência?

Marisa Stedile - Manifestam resistência. Tudo o que eles fazem é por obrigação. O trabalhador resiste. Vou dar um exemplo: o HSBC fala: “Olhem: tantos funcionários vão fazer um trabalho de coleta de brinquedos, para presentear as crianças”. O banco pode até acreditar que eles estão fazendo voluntariamente aquela coleta de brinquedos, mas, se você for falar com o funcionário pessoalmente ao “pé do ouvido”, o sujeito vai dizer que está fazendo aquilo porque é o que a empresa espera dele, mas não é uma questão de coração. Isto significa que ele não foi conquistado para fazer aquilo.

IHU On-line - Mas faz o que a empresa espera dele?

Marisa Stedile - Sim. E a mesma coisa acontece, por exemplo, com a ginástica laboral, que deveria ser entendida como boa, porque a pessoa vai lá para aqueles minutos, faz a ginástica e depois volta ao trabalho. Mas, no ritmo tão intenso de trabalho, quando a pessoa pára de trabalhar para fazer ginástica, ela acha que está perdendo um tempo em que poderia estar trabalhando, vendendo um produto, angariando clientes e ganhando mais. Ela até faz o exercício porque há uma equipe esperando que compareça para fazer a ginástica laboral. No entanto, muitas vezes, ela não vê aquilo como uma coisa boa. É uma imposição da empresa, que faz isso justamente para justificar que, quando o trabalhador ficar doente, não é culpa dela. A empresa justifica que ofereceu a ginástica laboral ao funcionário.

Então, se observa que há uma série de elementos sutis no mundo do trabalho. Há também a questão da qualificação profissional, que sempre agrega. A pessoa vai para uma universidade, e, por pior que seja a faculdade ou o curso, ela sempre irá crescer. Essa exigência conquista os trabalhadores porque eles se olham e se enxergam bem, à medida que o mundo universitário é muito cativante, sempre apresentando coisas novas. Lá os trabalhadores acabam sempre crescendo.

Nesse aspecto, eu acredito que as pessoas se deixam realmente levar. A empresa usa esse discurso para mostrar estatisticamente que 90% dos empregados têm curso superior, mostrando isso no balanço social que realizam. Na essência, o mundo do trabalho de hoje é a competitividade e a apresentação dos resultados e dos lucros.

IHU On-line - Mas como o trabalhador demonstra essa resistência hoje?

Marisa Stedile - Ele faz denúncias, encaminha denúncias para o sindicato e diz que em tal setor está acontecendo uma determinada coisa errada e que é preciso que se mande um fiscal lá. Afirma, por exemplo, que a ginástica laboral está fora da jornada de trabalho, que a empresa está pedindo para ir 15 minutos antes, por conta disso ou daquilo. Essa resistência não se dá organizadamente; ela é também individual. Ela não tem consistência, mas tem resistência, até mesmo psicológica, própria de cada pessoa. A pessoa resiste até certo ponto, mas tal resistência pode se transformar, inclusive, em uma doença psicológica. O indivíduo acaba ficando com uma certa amargura de ter que fazer uma coisa na qual não vê resultados, e acaba somatizando diversos problemas, o que pode resultar em muitos casos de depressão.

IHU On-line - Quais são as principais reivindicações dos trabalhadores hoje? É verdade que a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) suscita maior interesse do que a reposição salarial?

Marisa Stedile - Veja, a nossa pesquisa mostrou essas coisas meio que combinando. Em primeiro lugar, uma grande reivindicação hoje é o cumprimento da jornada de trabalho. As pessoas estão interessadas em fazer estritamente a jornada de trabalho. Essa é uma demanda sindical: fiscalizar e exigir que a jornada seja cumprida, porque tem muita gente fazendo dupla jornada. Eu até li um artigo recentemente que falava sobre o stress tecnológico. O que é isso? É o fato de o indivíduo estar constantemente trabalhando. Ele carrega o seu celular e seu chefe pode localizá-lo na hora em que quiser. Um cliente também pode localizar o trabalhador para pedir informações da conta corrente a qualquer momento, mesmo que se esteja na academia, no supermercado, na igreja. A tecnologia, ao invés de libertar o ser humano, o escraviza. A jornada de trabalho já não se resume mais às 6 horas regulamentares da CLT [no caso dos bancários]. Ela vai muito mais além.

A PLR todo mundo quer. Por quê? Porque representa aquele dinheiro que vem no momento que desafoga a situação. Você está ali, devendo, a conta corrente negativa, compromisso com a escola etc., e o que acontece? Vai entrar um dinheiro e te salva naquele momento. Mas isso é resultado das metas. É o círculo vicioso.  Cumprir a meta para dar mais lucro para o banco. Conseqüentemente, você vai ganhar uma PLR maior, mas a que preço? Ao preço de stress e de outros problemas.

O reajuste salarial vem ganhando importância à medida que as pessoas conseguem visualizar que os reajustes, por menores que sejam, agregam valor. Há todo um trabalho de convencimento do sindicato sobre a importância do reajuste e do aumento real do salário. Muitas pessoas podem imaginar que 1% de aumento real no salário é muito pouco, mas, na realidade, se você computar ano após ano da sua vida profissional e os reflexos disso na aposentadoria, no Fundo de Garantia, irá perceber a importância de qualquer tipo de aumento real agregado ao salário. A PLR é passageira, não agrega nada. Em determinada época os trabalhadores queriam abono. O abono era a primeira reivindicação que vinha e nós conseguimos derrubar esse mito do abono. Hoje, nós temos a PLR e temos o aumento salarial, mas eles não competem: são direitos que se buscam sem competirem entre si.

IHU On-line - Os sindicatos estão mais corporativistas do que já foram?

Marisa Stedile - Estão sim. As demandas são muito maiores. Eu, que convivi todas essas décadas militando no movimento, consigo perceber que, a cada dia que passa, somos engolidos pela realidade das empresas. As empresas impõem uma agenda para os sindicatos e nós não conseguimos fugir dela.

IHU On-line - Para muitos, o movimento sindical brasileiro está atrelado demais ao Governo Lula. Um dos exemplos é a posição da CUT em condicionar a sua participação no plebiscito sobre a Vale desde que não se aborde os temas do pagamento dos juros da dívida e da reforma previdenciária. O que lhe parece?

Marisa Stedile - É sabido que quem está no controle da Vale hoje são os fundos de pensão. E quem são os grandes fundos de pensão brasileiros hoje? A Previ, do Banco do Brasil, a Funcef e a Petros e essas categorias desempenham qual papel dentro da CUT? São categorias muito influentes dentro da direção da CUT. Quando o Governo Lula assumiu, a Previ tinha um patrimônio de 43 bilhões de reais. Em 2006, o patrimônio foi de de 104 bilhões, sendo o maior fundo de pensão da América Latina. E o presidente da PreviSergio Rosa, é o presidente do Conselho de Administração da Vale do Rio Doce. Então, os interesses que circundam a Vale se vinculam à participação dos trabalhadores nos fundos de pensão.

Todo mundo acha bom quando a Previ dá lucros, mas ninguém acha bom o questionamento de onde vêm esses lucros. Eles, obviamente, vêm das privatizações. Eu, particularmente, já fui cobrada pelo meu sindicato por estar defendendo a reestatização da Vale. Nisso, como fica a situação da Previ? Eu digo que se a Previ cometeu alguma irregularidade no passado, em outras gestões que não a do Sergio Rosa, ao fazer parte do consórcio que comprou a Vale, a história precisará ser explicada. Particularmente, sempre fui contra a privatização, pois sou a favor do patrimônio público. Se alguém praticou alguma ilegalidade ou se não praticou, terá que se provar juridicamente que não aconteceu nada de ilegal.

Outra questão é a relacionada ao Governo Lula. Não podemos negar que alguns expoentes do movimento sindical, principalmente os da década de 1980, foram para o governo. Não há como dizer que o movimento sindical está isento. Não está, porque sempre vai estar sob a influência desses companheiros. E os trabalhadores também olham para essa situação e dizem: “O fulano de tal era do movimento sindical; será que ele não pode ajudar a gente nessa hora?”. No movimento sindical, mesmo as novas gerações olham e pensam que eles deveriam estar nos respaldando nessa luta. Isso é uma coisa muito presente, e assistimos a isso cotidianamente. Surge um problema e as pessoas dizem: “Marisa, você não pode ligar lá para o Paulo Bernardo [ministro do planejamento] resolver esse problema para mim?”.

Sobre o movimento sindical estar atrelado ao Governo Lula, eu penso que há essa crítica no que se refere à política econômica. Pessoas oriundas do movimento sindical, que estão no governo, fazem essa ponte com o movimento ainda hoje e por isso dá essa impressão sempre de atrelamento. Há também um reconhecimento que faz com que a gente também se sinta atrelado. E por quê? É quando o governo Lula diz: “Olha, nós vamos recuperar o salário mínimo e o prazo nosso é de tantos anos...”. Isso para nós é muito importante porque nenhum governo fez isso. E nós temos que reconhecer que existe diálogo com o movimento sindical, reconhecimento das centrais sindicais e tal. É pouco, mas já é alguma coisa. Mas o governo vive uma contradição violenta, que é querer estar de bem com Deus e o diabo. Trata-se de uma situação em que alguém acaba levando vantagem e geralmente é o lado mais forte, ou seja, não somos nós.

IHU On-line - E a questão de gênero no movimento sindical? Houve mudanças?

Marisa Stedile - Eu avalio que não mudou muita coisa, porque algumas poucas abnegadas mulheres que enfrentam condições muito difíceis continuam resistindo. E, quando surge uma nova, é porque a mais antiga já está entregando os pontos. As diretorias se mantêm com as tais cotas de 30%, mas é muito difícil agregar mulheres nas direções sindicais e os motivos são vários. O primeiro diz respeito à intolerância familiar em relação à participação da mulher na vida política e na vida sindical. Pior ainda, porque a vida sindical é encarada como o mundo dos machos. Então, as mulheres que estão no movimento sindical já enfrentam uma primeira barreira na família. O segundo motivo é porque sendo o movimento sindical o mundo dos homens, este se fecha para a entrada de novas pessoas: para as mulheres e para os jovens também. Afinal, para haver renovação, alguém precisa sair de determinado cargo.

Normalmente, a pessoa sai porque se aposenta ou vai para outra categoria profissional, para outra instância política. É muito difícil alguém abrir mão do seu mandato sindical para voltar a fazer o que ele fazia dentro do seu local de trabalho. Não existe espaço dado, mas conquistado. A juventude precisa batalhar para entrar. Podemos até oferecer algumas vagas, mas os jovens precisam querer entrar. Com as mulheres, acontece a mesma coisa. Elas precisam ter muita energia e muita garra, porque aqui é um terreno muito inóspito, está cheio de desafios, e precisam provar que têm coragem e palavra. Porque uma mulher não pode blefar; o homem pode. Se a mulher não mantiver a palavra, fica desmoralizada. Precisa ter coração de mãe e perceber o que os outros desejam da gente.

O movimento sindical é muito mais duro que o movimento político. O movimento político é um teatro: os parlamentares fazem jogo de cena, apresentam seus projetos, é aquela loucura. No movimento sindical, não. Nele, é preciso aliar a palavra com a ação e a coragem de estar peitando os que têm poder. E, para as mulheres que desde pequeninas não foram treinadas para esse mundo da competição, os desafios são maiores. E o sistema de cota por si só não resolve o problema. Não foi por conta desse sistema que as mulheres aumentaram sua participação no movimento sindical. O movimento sindical é um mundo onde elas se masculinizam muito.

IHU On-line - Na sua definição, ser dirigente sindical hoje é...

Marisa Stedile - Ser Dom Quixote... brigando com os moinhos de vento. Eu me vejo assim: brigando, brigando, e não consigo ver o inimigo, porque estamos diante de um mundo excessivamente virtual.

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