Quando a crise representa um avanço. Entrevista especial com Paulo Brack

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25 Março 2009

Enquanto a crise econômica preocupa o mundo diante dos prejuízos financeiros e sociais que tem causado, uma crise mais antiga e com consequências ainda mais sérias está assolando o planeta: a crise ambiental gerada a partir das mudanças climáticas. Em 2007, o primeiro relatório do IPCC já apontava que as transformações que o clima do Planeta vem sofrendo são decorrentes da ação do homem. O professor Paulo Brack simplifica essa lógica e diz que, sendo originada pelas atividades do homem, significa que a crise ecológica foi gerada pelos interesses econômicos. “O nível de CO2 da atmosfera aumentou em cerca de 30% nos dois últimos séculos e isso estaria ligado a atividades industriais, queima de florestas e demais atividades que geram liberação de gases de efeito estufa”, relatou Brack em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail.

Durante a conversa que tivemos, Brack relacionou a crise financeira ao caos ambiental, fez uma previsão de como esses problemas irão se desenvolver e analisou as responsabilidades do Brasil diante desse cenário. “O Brasil, infelizmente, não existe como nação com uma identidade que pense no bem comum. Também não aprendemos a prezar por nossas particularidades ligadas à megadiversidade biológica e à enorme riqueza cultural e social existente no país”, afirmou.

Paulo Brack é biólogo graduado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde também obteve o título de mestre em Botânica. Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), realizou o doutorado em Ecologia e Recursos Naturais. É professor no Instituto de Biociências da UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que sentido as mudanças climáticas e o caos ambiental estão relacionados com a atividade econômica?

Paulo Brack – Isso já ficou claro no primeiro relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), onde foi destacado, com 90% de certeza, que as mudanças climáticas tinham origem das atividades humanas, leia-se "econômicas". O nível de CO2 da atmosfera aumentou em cerca de 30% nos dois últimos séculos e isso estaria ligado a atividades industriais, queima de florestas e demais atividades que geram liberação de gases de efeito estufa. O caos ambiental está ligado também à perda da biodiversidade, por exemplo, à extinção de 10 mil espécies tropicais a cada ano, segundo o biólogo Edward Wilson [1], e da qualidade de vida que faz as cidades como São Paulo e Rio de Janeiro tornarem-se insuportáveis. Os eventos climáticos, como tornados, tempestades etc., estão aumentando em frequência e intensidade. O que aconteceu na região nordeste de Santa Catarina, no ano passado, e em Turuçu (RS), este ano, são fenômenos que além de causarem muitas mortes também desalojaram milhares de pessoas. Assim, hoje temos não só os refugiados da poluição e violência das grandes cidades, como também os refugiados climáticos, que decorrem de um modo de vida que está em exaustão.

IHU On-Line – Para o senhor, a crise internacional representa um esgotamento dos recursos naturais e do próprio sistema econômico mundial. Que futuro vislumbra a partir dessas crises? Será possível pensar um novo modelo ambiental e econômico?

Paulo Brack – A crise financeira representa, pelo menos, o fim de um ciclo de neoliberalismo, o que já pode ser um avanço. Digo um avanço, pois as regras ambientais e trabalhistas estavam ruindo pelo processo do chamado Estado Mínimo criado pelo capitalismo moderno, ou seja, menor estrutura de controle possível e impossível por parte do Estado. E deu no que deu. Foram com "muita sede ao pote" e acabaram com parte do próprio pote. Isso é inerente do sistema capitalista, onde não são considerados os limites da natureza. Neste momento de crise econômica, o ritmo de crescimento, consumo e produção ilimitados acaba arrefecendo. Isso é bom. Agora vamos ver se os responsáveis pela atividade econômica hegemônica e degradadora, que infelizmente controlam o poder, não irão criar um clima de guerra para continuar derrubando as alegadas “travas ambientais” para que a economia volte a funcionar como na época mais perversa dos últimos tempos.

Estamos diante de um impressionante paradoxo. A crise, no seu todo, é fundamental para a
mudança. Agora, se não compreendida como uma doença grave, poderá receber somente “aspirina” para continuar mantendo o estado do crescimento doentio que implica em degradação. Exemplo disso é o investimento em grandes obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), altamente impactantes como as hidrelétricas do rio Madeira e hidrovias para o agronegócio exportador. Também é o caso do recorrente investimento governamental no setor automobilístico moribundo, para evitar a crise de vendas de veículos particulares, enquanto as cidades estão ficando entupidas de automóveis.

Os modelos necessários de desenvolvimento, com a verdadeira sustentabilidade, só serão construídos depois um diagnóstico real, entendido pela maioria. Depois, esta maioria esteja disposta a enfrentar a doença econômica do crescimento e acumulação sem fins, com as rupturas fundamentais para salvar a vida no Planeta. Ainda temos tempo para alertar a todos que a crise sistêmica reflete uma doença grave que requer esforço conjunto.

IHU On-Line – O Brasil  terá poder de barganha nessa crise, considerando a riqueza de recursos naturais disponível no país e o caos ambiental que se configura no Planeta?

Paulo Brack – O Brasil, infelizmente, não existe como uma nação com uma identidade que pense no bem comum. Também não aprendemos a prezar por nossas particularidades ligadas à megadiversidade biológica e à enorme riqueza cultural e social existente no país. Nossos recursos naturais e nosso patrimônio cultural estão em processo de aceleradas perdas pelo imediatismo de um modelo autofágico entranhado no poder. Se tivermos consciência de nossas riquezas, e de um mínimo de sentimento comum de nação que quer avançar com seu povo, poderemos enfrentar esta e outras tantas crises. Mas, para isso, a consciência de nação, ligada principalmente por parte dos pequenos que não têm o apego doentio ao capital e à propriedade como os grandes, lutar pela sustentabilidade via nosso patrimônio natural e social é fundamental. Os governantes, reféns ou cúmplices deste modelo, mantêm a insustentabilidade que alimenta o imediatismo das grandes corporações e da minoria bilionária e milionária que os financia. Estes, em seu conjunto, são os grandes responsáveis pela crise sistêmica.

A barganha, infelizmente, continua entre governo brasileiro e chefes de estado das grandes nações desenvolvidas para manter a histórica subserviência de países riquíssimos em recursos naturais como o nosso. O etanol para exportação, baseado em monoculturas inviáveis do ponto de vista socioambiental, é uma das falsas saídas. Outra saída “aspirina” para a crise continua sendo aumentar o consumo interno, independentemente de que se refira a produtos descartáveis ou supérfluos, com grande carga ambiental, com incremento da exportação de commodities e outras matérias primas, como a soja, para suprir a demanda que deve aumentar nos países ricos, pelo menos a médio prazo. Estamos longe de uma saída verdadeira para a crise, pois grande parte da sociedade e dos governantes não despertou para as verdadeiras causas de tudo isso.

IHU On-Line – Nesse momento de crise econômica, muitos especialistas reafirmam as teorias de Keynes [2] e defendem a atuação do Estado. Ocorre que as mesmas empresas que geraram essa crise, agora serão beneficiadas pelo Estado. A interferência do Estado ainda é a melhor opção?

Paulo Brack – Primeiro, o Estado deveria ser reflexo da maioria dos anseios e direitos da sociedade. O Estado também está doente, como a economia. Agora, enquanto nós temos o ente Estado como mecanismo de regulação, manutenção de direitos mínimos e de políticas públicas, ele deveria, sim, ser controlado pela sociedade e, por sua vez, responder à crise com o necessário controle. A natureza é um bem comum das atuais e futuras gerações. Não é um bem privado. Neste sentido, não resta outra alternativa que o controle necessário do uso da natureza para suprir não só as demandas dos atuais habitantes da Terra mas também os futuros, incluindo os outros seres vivos.

IHU On-Line – O senhor diz que, num momento como esse, pequenos agricultores devem receber apoio do Estado para driblar a crise, e ao mesmo tempo critica as monoculturas. O governo brasileiro tem liberado financiamentos para os agricultores, mas continua apostando na monocultura. Isso é uma contradição? Nesse sentido, o apoio à agricultura familiar não representará efetivas mudanças?

Paulo Brack – O governo brasileiro e a quase totalidade dos governantes – permitidos pelo atual sistema econômico imediatista – não aprenderam o que é sustentabilidade e que a biodiversidade é imprescindível para a manutenção da vida. Assim, mantêm o investimento na agricultura industrial de exportação, na grande escala de um produtivismo padronizado no valor imediato máximo, independente da escala de esgotamento. O produtivismo da atual agricultura químico-dependente empobrece nossos recursos naturais, comprometendo a água (agrotóxicos, destruição de mananciais hídricos etc.), o solo (compactação do solo, erosão, morte da biota do solo etc.), a biodiversidade (flora, fauna, processos ecológicos elementares para o equilíbrio ecológico etc.) e, ao final, traz retorno econômico apenas para uma minoria, gerando mais e mais êxodo rural. A agricultura moderna das monoculturas é um verdadeiro desastre socioambiental. As gerações futuras não fazem parte dos cálculos do PIB gerados pelo grande agronegócio. Isso é doentio.

IHU On-Line – O que a opção do governo brasileiro pelo milho transgênico significa nesse momento?

Paulo Brack – O milho, a soja e outras culturas transgênicas entram para favorecer um suposto aumento de produção, mas na realidade irão favorecer as corporações que controlam as sementes no mundo, neste caso principalmente a Monsanto. O aumento da produção ou a economia de produtos químicos com o uso de OGMs é uma ilusão. Já foi comprovado. O agricultor não terá opção por outras sementes que não seja adquirir as sementes geneticamente modificadas. Isso já ocorre com a soja, onde plantar sementes convencionais torna-se muito difícil, pois toda a cadeia de produção, escoamento e comercialização acaba se moldando para as sementes GMs. Não existem garantias de segregação. Falta estrutura do Estado para garantir a produção da semente convencional à comercialização deste produto, inclusive o que geraria mais renda pelo valor agregado deste produto, muito procurado na Europa.

O modelo de produção baseado em OGMs acaba dando sobrevida a essa agricultura industrial que já demonstrou que é inviável ecologicamente, socialmente e economicamente. O governo brasileiro, com exceção do Ministro do Desenvolvimento Agrário, está a favor deste modelo “moderno” de agricultura. O Ministro do Meio Ambiente, até agora, ficou em cima do muro neste assunto. Estamos sendo dirigidos por pilotos que sofrem de autismo ecológico, que navegam na contramão da sustentabilidade, e com a velocidade máxima. Estamos retrocedendo décadas em nossa agricultura.

IHU On-Line – Empresas brasileiras anunciaram muitas demissões nos últimos meses. Como o senhor percebe nesse sentido a atuação de instituições como Aracruz, Votorantim, Sadia?

Paulo Brack – Estas empresas que tiveram perdas enormes pela própria especulação exagerada, por meio dos investimentos nos chamados derivativos, demonstraram a ganância extrema do sistema econômico que estava ganhando espaço até o desencadear da crise. É no mínimo imoral o que estas empresas fizeram. O mais triste é que, ainda por cima, recebem financiamentos públicos, por meio do BNDES ou incentivos fiscais para se instalarem onde quer que queiram. A população não cobra os danos que estas empresas causaram.

IHU On-Line – Ao analisar as crises atuais, o senhor diz o processo se agravou inclusive pela perda de paradigmas nas sociedades modernas. Isso quer dizer que a uma mudança transformadora só virá com uma mudança de pensamento da sociedade?

Paulo Brack – Podemos considerar que a mudança depende da crise, ou das crises. Porém, resta-nos uma grande dúvida. Quem ganhará esta batalha parcial? Ou melhor, que setor tem mais chance de avançar com a crise? Aqueles que questionam o paradigma do crescimento econômico ou aqueles que encaram o ambiente como um entrave para o crescimento econômico? Qualquer resposta talvez seja prematura.

IHU On-Line – Que ideias devem fazer parte de uma reflexão ampla sobre os paradigmas que ameaçam o Planeta?  Quais suas propostas para mudarmos a realidade de hoje?

Paulo Brack – Creio que teoricamente as respostas são muito simples. Na prática, quase inviáveis. Para começar, devemos dizer que esta globalização econômica e o neoliberalismo mostraram seu limite e sua perversidade inerentes. Negar este sistema significa investir no local, na descentralização, como Ernst Schumacher [3] já falava em 1973, no seu livro “Small is beautiful”. Lutzenberger [4] reafirmou brilhantemente os ensinamentos de Schumacher. Para isso, no caso brasileiro, temos de rechaçar a gigantesca infraestrutura do PAC, que tenta copiar o “desenvolvimento” do milagre econômico da década de 1970. Não é possível que um ministro ou um governante qualquer, ou uma megaempresa, venham dizer para todos que eles é que sabem o que é desenvolvimento e nós sejamos apenas objeto e não sujeitos. É obrigação cívica resgatar a democracia no processo, no que poderíamos chamar de desenvolvimento local participativo.

Para isso também, deveríamos buscar dialogar com os pequenos como Paulo Freire [5] nos ensinou. Ademais, buscaríamos refletir e discutir isso tudo com a sociedade moderna, como Leonardo Boff [6] faz. Caberia, também, resgatar os textos sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento, de Celso Furtado [7] e outros tantos brasileiros preocupados com nosso futuro. Iríamos buscar aprender, ou reaprender, com os pequenos agricultores, com os povos tradicionais a sustentabilidade milenar da agricultura tradicional e biodiversa. Outro compromisso seria subverter a lógica do elitismo acadêmico que encastela o conhecimento e se submete à mercantilização do saber. Temos muitas saídas para a crise, se ela for vista de forma sistêmica.

Notas:
[1] Edward Osborne Wilson é um entomologista americano e biólogo conhecido por seu trabalho com ecologia, evolução e sociobiologia. Wilson é especialista em formigas, em particular seu uso de feromônios para comunicação. Ele também é famoso por iniciar o debate da sociobiologia, uma das maiores controvérsias científicas do final do século XX, quando ele sugeriu em seu livro Sociobiology: the new synthesis (1975) que o comportamento animal (e por extensão, humano) pode ser estudado utilizando-se uma abordagem de trabalho evolutiva.

 

[2] John Maynard Keynes foi um economista britânico. Suas ideias inovadoras chocaram-se com as doutrinas econômicas vigentes em sua época, além de ter enorme impacto sobre a teoria política e a política fiscal de muitos governos. Foi um dos mais influentes economistas do século XX.

 

 

[3] Ernst Friedrich Schumacher foi um intelectual e economista que teve influência a nível internacional.

 

 

 

[4] José Antônio Lutzenberger foi um agrônomo e ecologista brasileiro que participou ativamente na luta pela conservação e preservação ambiental.

 

 

 

[5] Paulo Freire foi um educador brasileiro. Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. A edição 281 da Revista IHU On-Line tratou sobre seu trabalho.

 

 

[6] Leonardo Boff é um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores. Foi professor de Teologia e Espiritualidade em vários institutos do Brasil e exterior. Concedeu entrevistas à revista IHU On-Line no. 209 intitulada Por que ainda ser cristão?, à edição no. 214 sobre Teologia da Libertação e também à edição no. 238 cujo título é Francisco. O santo. Ao sítio do IHU, concedeu a entrevista Os leigos devem salvaguardar a herança de Jesus.

 

[7] Celso Monteiro Furtado foi um importante economista brasileiro e um dos mais destacados intelectuais do país ao longo do século XX. Suas ideias sobre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento divergiram das doutrinas econômicas dominantes em sua época e estimularam a adoção de políticas intervencionistas sobre o funcionamento da economia.