O novo está no fato de reconhecer a Terra como um ser vivo. Entrevista especial com Ivo Poletto

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01 Fevereiro 2009

Convidado a refletir sobre a posição de alguns analistas sobre os 25 anos do MST, o cientista social Ivo Poletto falou à IHU On-Line, por e-mail, sobre o movimento neste momento de aniversário e sobre como reage à opinião de José de Souza Martins, Antônio Cechin e Dom Tomás Balduíno, em textos disponíveis nesta página. Para Poletto, “a convivência e enfrentamento com governos comandados por José Sarney, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, necessariamente exigiu mudanças nas estratégias de ação e nas formas de organização. Mas isso não significa abandono dos objetivos norteadores de sua criação: a democratização da terra, através de um processo real de reforma agrária, e a transformação da sociedade brasileira, para que nela pudessem viver com dignidade todos os brasileiros e brasileiras. Estes objetivos foram clara e solenemente reassumidos no congresso celebrativo dos 25 anos”. Ele pensa que “o sentido do cultivo da terra, hoje, deve estar ligado ao direito universal à alimentação – e, portanto, comprometido com a derrota da fome -, e a uma alimentação que seja saudável para todas as pessoas e para a própria Terra”.

Ivo Poletto é assessor de pastorais e movimentos sociais. Trabalhou durante os dois primeiros anos do governo Lula como assessor do Programa Fome Zero e foi o primeiro secretário-executivo da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Autor, entre outros, do livro Brasil, oportunidades perdidas – Meus dois anos no governo Lula (Rio de Janeiro: Garamond, 2005), é filósofo, teólogo, cientista social e educador popular.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a avaliação geral que o senhor faz do MST hoje, considerando seus 25 anos de história? O movimento mudou muito? Ainda cumpre seu papel?

Ivo Poletto - É claro que o MST é diferente, se comparado com a forma de organização assumida em seu nascimento. Na época, havia ainda ditadura militar e uma real militarização da questão agrária, como adequadamente definia o professor José de Souza Martins. Havia, é verdade, o Movimento Diretas Já, mas, ao mesmo tempo, havia a migração oportunista de José Sarney do PDS para o PMDB, visando, como aconteceu, ser candidato a vice-presidente numa eleição indireta - medidas impostas pela ditadura em derrocada e aceitas pelo partido de tradicional oposição consentida. Eram tempos diferentes, e a luta pela terra e pela reforma agrária eram bandeiras ainda temidas como renascimento do comunismo, tanto que os grandes proprietários se organizaram e armaram, através da UDR, para impedir que o movimento dos empobrecidos forçasse o Estado a democratizar a estrutura da propriedade de terra.

Os 25 anos do MST quase coincidem com o período da Nova República, ou do processo de redemocratização que se seguiu aos 20 anos de ditadura. Tendo presente a complexa trajetória da sociedade brasileira nesse período, é importante não fazer um juízo superficial da fidelidade ou não do MST aos seus objetivos. A convivência e enfrentamento com governos comandados por José Sarney, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, necessariamente exigiu mudanças nas estratégias de ação e nas formas de organização. Mas isso não significa abandono dos objetivos norteadores de sua criação: a democratização da terra, através de um processo real de reforma agrária, e a transformação da sociedade brasileira, para que nela pudessem viver com dignidade todos os brasileiros e brasileiras. Estes objetivos foram clara e solenemente reassumidos no Congresso celebrativo dos 25 anos.

IHU On-Line - Como o senhor reage, de forma geral, diante das posições de José de Souza Martins, Antônio Cechin e Dom Tomás Balduíno em relação ao MST?

Ivo Poletto - Concordo com o amigo Antônio Cechin que seria muito importante o MST não esquecer do que ele considera os “tempos de profecia”. É sempre perigoso celebrar a história a partir dos atos de institucionalização: corre-se o risco de imaginar, no caso, que a luta pela terra tenha começado na data de nascimento da instituição MST. Na verdade, pode-se dizer que, não fosse a coragem dos Kaingang e, muito mais contraditoriamente, não fosse a construção da hidrelétrica de Itaipu, e, evidentemente, a resistência e as ações dos atingidos, não haveria o MST. Aliás, não fossem as já existentes e diversificadas lutas pela terra em todas as regiões, difícil seria sequer imaginar o enraizamento do MST em praticamente todo o território brasileiro. E se, nesses tempos, não existissem cristãos que dedicaram suas vidas em apoio aos camponeses, certamente teria sido mais difícil avançarem até a criação do MST. Por isso, se ele considerasse melhor a riqueza deste “tempo germinal”, provavelmente teria melhores condições de ser um “movimento de movimentos de Sem-Terra”, contribuindo mais para uma unidade em rede capaz de conquistar a transformação política que é a reforma agrária.

Concordo com Dom Tomás sobre a importância estratégica do MST nos tantos anos de sua existência: é uma, e muito significativa, referência das lutas dos povos, classes e setores sociais desclassificados politicamente pelas elites dominantes e suas instituições, e mesmo pelos partidos políticos. São esses povos “condenados a cinco séculos de extermínio” – como repete o presidente Evo Morales em relação aos povos ancestrais de seu país e das Américas – que estão produzindo novidades políticas e culturais na América Latina; e estão forçando mudanças profundas no modo de “fazer economia”, abrindo caminhos que toda a humanidade deverá seguir se quiser evitar o estresse final do planeta Terra.

IHU On-Line - Acredita que a visão de reforma agrária do MST continua a mesma, ou realmente está mais voltada para o mercado do que para a terra?

Ivo Poletto - Não acho que a leitura de José de Souza Martins seja crítica no sentido que a ciência social se propõe fazer. Parece que, como o MST não quis ser o tipo de “movimento social” que o autor acha ser o correto, não valeria mais nada. Posso até questionar determinadas opções do MST e alguns de seus rituais de manifestação grupal, mas não consigo ver como se possa afirmar que sua referência seria, hoje, o mercado, e não mais a terra. O que se percebe, e positivamente, é que o MST se deu conta de que o desafio dos que conquistam terra é, hoje, mais complicado do que foi no período inicial. Para que alcançar terra: para repetir o que faz o agronegócio? Para provar que os “pequenos” sabem produzir mais? Não mais. O sentido do cultivo da terra, hoje, deve estar ligado ao direito universal à alimentação – e, portanto, comprometido com a derrota da fome -, e a uma alimentação que seja saudável para todas as pessoas e para a própria Terra. Esta é, hoje, a bandeira da Via Campesina mundial, e vai se tornando, cada dia mais, a bandeira do MST: o agronegócio e as empresas transnacionais de insumos químicos, de sementes transgênicas e de especulação com commodities agrícolas não servem à humanidade, porque não produzem alimentos, e sim lucro, e porque envenenam a Terra; as diferentes comunidades camponesas, desde que tenham terra garantida e seu trabalho seja reconhecido e apoiado, têm condições de produzir alimentos saudáveis para a humanidade e contribuir na recuperação da vitalidade da Terra. O que muda é o argumento político em favor da reforma agrária e da produção camponesa, mas não a urgência da reforma agrária e o sentido da terra. Aliás, essa nova visão dá força aos povos indígenas e ao mundo camponês tradicional como portadores de conhecimentos e modos de se relacionar com a Terra que são fundamentais se a humanidade não quer afundar-se em sua submissão ao que se impõe como ciência das empresas, cujo objetivo é fazer negócios controlando a vida no Planeta.

IHU On-Line - O senhor também pensa que a utopia socialista tem sido reafirmada pelo MST?

Ivo Poletto - Está cada dia mais difícil definir o que seja “utopia socialista”, mas se ela estiver ligada à construção de sociedades em que todas as pessoas tenham o necessário para viver com dignidade e simplicidade – sem consumismo e concentração de riquezas; em que as pessoas possam ser artistas – através do trabalho livre e da criação artística; em que todas as pessoas se governem através da prática da democracia participativa – também elegendo e controlando governantes; em que se promovem relações de cuidado, cultivo e cooperação com a Terra; em que se convive respeitosamente com povos e sociedades diferentes, enriquecendo-se com suas culturas; se o socialismo desejado tiver essas e outras qualidades, estou convencido que o MST continua comprometido com ele. É claro que, como todos os e as militantes que lutam por este socialismo, também os/as militantes do MST deverão estar abertos para avaliar suas práticas, visando corrigir o que não será semente dele e aprendendo novas formas de ser mais humano, para ser mais socialista.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a relação do MST hoje com o governo Lula e com o PT? Quais as consequências, para os rumos do movimento, de uma postura próxima ao rompimento com essas instituições?

Ivo Poletto - Há militantes do MST que são membros do PT e de outros partidos políticos; isso é opção livre de cidadãos. Como movimento, o MST procura manter sua autonomia, não permitindo que partidos e governos determinem o que deve fazer e como deve agir e organizar-se. Mas é evidente que, numa luta em que se enfrenta com o latifúndio tradicional e a moderna grande propriedade capitalista, articulados com o agronegócio, com as multinacionais de grãos e com especuladores de todo tipo, é normal que o MST procure agir no sentido de que forças sociais, bem como partidos políticos, se posicionem favoravelmente a suas propostas e lutas; é normal também que, diante de governos assentados sobre a ilusão da convivência pacífica entre as classes e comprometidos com o crescimento econômico capitalista, estabeleça relações com áreas governamentais abertas às suas reivindicações. Isto significa submissão ao governo ou a partidos? Não vejo assim. São relações de ordem tática, necessárias dentro das condições políticas existentes. Minha percepção vai no sentido de que, se houvesse uma articulação de forças sociais capaz de exigir dos governos que assumam as propostas dos movimentos sociais, o MST seria parte importante dela. Portanto, o desafio que está posto é a construção desta força, deste poder popular democratizante.

IHU On-Line - Compartilha da visão de Dom Tomás Balduíno, de que o MST está mais voltado para suas atividades internas, está mais “para dentro”? Isso é bom ou ruim?

Ivo Poletto - Todos reconhecem a contribuição do MST no campo da educação, da superação do analfabetismo, bem como destacam a capacidade de organização e a geração de novas lideranças, e ainda a capacidade de recuperar áreas esgotadas, de produzir sementes crioulas, de organizar frentes de comercialização para dar viabilidade aos assentamentos conquistados. É fácil realizar tudo isso? E se não for feito, não ganha alento a acusação de que os assentamentos conquistados não passam de “favelas rurais”? E fazer tudo isso com que recursos? Alguém poderia contrapor: mais isso é “papel” de um movimento social de luta pela terra? Não devia ser parte da responsabilidade do governo, ao promover a reforma agrária? É claro que é bom sonhar com esse tipo de governo, mas nunca houve. Como diz Dom Tomás, mesmo Lula tem sido uma decepção em relação a isto.

O MST vive e sofre os efeitos dessa decepção, mas ele precisa, ao mesmo tempo, suprir o que o governo não garante em relação aos assentados e manter a luta pela terra, com propostas de áreas desapropriáveis, com pressões, com ocupações, com acampamentos, com mobilizações amplas... É possível que, na hora em que faltam recursos para fazer tudo, seja necessário salvar o essencial – como acontece no corpo agredido por algo estranho, que orienta o sangue a salvar o coração, os pulmões, o cérebro, o fígado, os rins, mesmo com o risco de necrose nos pés, nas mãos, nas orelhas... Em outras palavras, quem deseja que o MST mantenha igual ou maior capacidade de luta direta pela terra e, ao mesmo tempo, prove que “seus” assentados estão indo bem, produzindo alimentos saudáveis e cuidando da Terra, precisa estar, como Dom Tomás, disposto a apoiá-lo, com recursos e/ou com cidadania militante. O movimento social não substitui a sociedade; cabe a ele mobilizá-la para alcançar o que é do interesse dela.

IHU On-Line - O que o senhor entende pela “luta pela terra como um novo modo de ser”?

Ivo Poletto - Acho que o exemplo da Bolívia nos ajuda: as forças sociais que desejam e decidiram, com uma Constituinte e com o Referendo à nova Constituição, refundar a Bolívia, querem que as pessoas e os povos se relacionem com a terra de um modo diferente, que assumam um novo modo de ser; ao contrário, as forças que combatem a nova constituição defendem o modo de ser padrão no mundo ocidental: a terra dividida em propriedade privadas, pois a Terra não passa de um depósito de minerais, madeiras, fósseis, e de um espaço em que se pode produzir mercadorias por meio de uso de técnicas. A luta pela terra, hoje, não pode visar apenas substituir os grandes proprietários por muitos outros, menores, mas com a mesma mentalidade; o que se busca é um novo modo de ser, que já está presente nos povos indígenas ancestrais, nos quilombolas e em outras comunidades tradicionais, e que pode ser reinventado em formas cooperativas de trabalho na terra. O novo está no fato de reconhecer a Terra como um ser vivo, de quem os seres vivos vieram e dependem para continuar com vida; por isso, trata-se de conviver com ela, e não de explorá-la, de cultivá-la com cuidado e respeito, e não de agredi-la. Nesse sentido, terra não é só o solo; é solo e água, é subsolo e atmosfera, é vegetação e animais, é diversidade de berços de vida, de biomas, em que vivem diferentes povos com diferentes histórias, culturas, religiões, valores. Lutar pela terra é lutar para que ela seja reencantada como mãe de tudo que é vivo e de todos os povos que constituem a humanidade.

IHU On-Line - Como o senhor interpreta a crescente redução do número de assentamentos e de famílias militantes?

Ivo Poletto - Há muitas causas para isso. Provavelmente a principal está na experiência conhecida de que o governo federal atual não prioriza a reforma agrária, nem mesmo para assentar quem está acampado em luta por um pedaço de chão. Na verdade, ele não se envergonha nem de deixar pessoas humanas durante anos vivendo em barracas, não cumprindo com compromissos publicamente assumidos. É claro que ele tem sempre desculpas para tentar justificar-se, mas o fato é que a geração de dólares pelo agronegócio o encantou mais do que a produção de alimentos através da multiplicação de assentamentos, mesmo sabendo que isso seria uma política séria de enfrentamento da miséria e da pobreza e de desmonte de uma das bases do poder oligárquico. Pior: em vez de garantir e promover o direito à alimentação de milhões de pessoas reduzidas à miséria com um programa educativo e mobilizador de suas capacidades, a política implementada acaba desmotivando e desmobilizando muita gente a lutar diretamente pela terra. Por outro lado, a diminuição de recursos de apoio para a luta direta pela terra completa o que já estaria sendo mais difícil. Resta torcer para que o MST consiga colocar em prática o que assumiu como compromisso para 2009: aumentar a luta direta pela terra, pressionando o presidente que prefere “ser amigos dos inimigos do MST”, segundo um de seus coordenadores. E com o desemprego em expansão, certamente aumentará o número de candidatos à luta direta por terra para viver, trabalhar, gerar renda.

IHU On-Line - Como avalia a presença da Igreja dentro do MST, da Teologia da Libertação e o próprio trabalho da Pastoral da Terra?

Ivo Poletto - Há relações de cooperação e há tensões entre setores das igrejas cristãs e o MST. No geral, mesmo que se anuncie o apoio à luta pela reforma agrária, há um refluxo na disposição de apoiar iniciativas diretas dos Sem-Terra. A CPT, como serviço evangélico ecumênico, continua comprometida com a luta pela terra, mas creio que deixa a desejar em sua atuação no campo de sua origem: as igrejas. Na verdade, já é tempo de retomar o embate teológico e pastoral com os setores que propõem uma religião cristã de acomodação, intimista, sem compromisso com a prática da justiça, da solidariedade libertadora de todas as formas de opressão – portanto, uma vida religiosa que pouco ou nada tem a ver com a prática e o evangelho de Jesus Cristo.

Junto com o apoio e a cooperação com o MST e com outros movimentos de luta pela terra, que pode e deve também passar pela crítica construtiva, quando necessária; junto com uma presença realmente evangelizadora nos acampamentos e assentamentos, alimentando uma espiritualidade cristã que contribua para dar profundidade à mística da luta pela terra; junto com isso, é urgente ocupar o espaço aberto para o debate sobre o sentido e a importância insubstituível da luta popular e democratizante pela terra: ela é uma das formas de amar a Terra, que é Criação amorosa de Deus, destinada a todos os seres vivos e ao ser humano, sua imagem e semelhança, mas que foi e continua sendo maltratada, explorada até o ponto de levá-la ao estresse, a um desequilíbrio que a impede de continuar sendo um ambiente favorável à vida. Ligar a vida cristã ao enfrentamento do aquecimento do planeta e ligar a luta libertadora da Terra e de seus filhos como uma forma de amar ao Criador são duas frentes de debate, de meditação, de motivação pastoral e de mobilização dos seguidores e seguidoras de Jesus Cristo a serviço da vida, realizando a missão de Jesus: “eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jô,10,10).

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