O impacto da midiatização na sociedade latino-americana. Entrevista especial com Pedro Gilberto Gomes

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30 Agosto 2008

A um ano de ocorrer o Mutirão da Comunicação da América Latina e Caribe, os organizadores já começam a articular os debates que serão feitos durante o evento. A IHU On-Line conversou pessoalmente com o professor e pró-reitor acadêmico da Unisinos, Pedro Gilberto Gomes, que faz parte da Equipe Acadêmica do encontro. Ele nos conta sobre as mobilizações que já estão sendo articuladas para organização do Mutirão, além de refletir sobre como pensar a comunicação a partir de uma cultura da solidariedade e dos processos em que ela está se desenvolvendo na América Latina. Pe. Pedro fala também sobre a formação em jornalismo e a obrigatoriedade do diploma e, por fim, enfatiza que precisamos refletir sobre o atual momento da comunicação e diz que esse é o momento ideal para realização do Mutirão. “A Igreja está utilizando esses novos dispositivos tecnológicos. Eu não preciso perguntar o que a Igreja vai fazer com esses dispositivos, e sim me indagar sobre qual religião está surgindo dessa realidade. Eu não tenho de dizer: ‘A sociedade latino-americana vai trabalhar e assumir toda a questão da midiatização’, mas fazer a seguinte pergunta: ‘Que sociedade latino-americana está surgindo a partir da midiatização?’”.

Pedro Gilberto Gomes é graduado em Filosofia, pela PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e especialista em Teologia, pela Universidade Católica de Santiago, no Chile. Mestre e doutor em Comunicação, pela Universidade de São Paulo (USP), atualmente é professor e pesquisador do PPG em Comunicação da Unisinos, onde também atua como pró-reitor acadêmico. Além disso, é autor de diversas obras, das quais destacamos Filosofia e ética da comunicação na midiatização da sociedade (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2006), Comunicação e governabilidade na América Latina (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2008) e Midiatização e processos sociais na América Latina (São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor pode nos contar um pouco sobre as mobilizações que estão sendo feitas para o Mutirão da Comunicação, que acontecerá no próximo ano?

Pedro Gilberto Gomes – Pela primeira vez, teremos um mutirão preparado com muita antecedência e com um apoio institucional muito forte, porque aqui no Rio Grande do Sul o regional da CNBB e as 18 dioceses assumiram isso como uma tarefa e nomearam e liberaram o Padre Marcelino Sivinski [1] para coordenar todo o trabalho. Já estamos nos organizando desde o ano passado para o mutirão. Essa é uma vantagem que temos. O Mutirão de Comunicação, que aqui no Brasil será o sexto, reúne pessoas das bases, das igrejas, dos movimentos populares. Dessa vez, ele conseguiu transcender a fronteira do Brasil e juntou-se com a necessidade das Organizações Católicas de Comunicação da América Latina e Caribe (OCLAC), que queria realizar o seu quarto congresso. Dessa junção muito grande, nasceu o Mutirão Latino-americano de Comunicação. Contamos ainda com o apoio do Conselho Episcopal Latino-americano - CELAM - a partir do seu departamento de comunicação. Assim sendo, existe uma mobilização muito grande para realizar o evento.

O tema desta edição é Processos de Comunicação e Cultura Solidária. Aqui no Rio Grande do Sul, o regional pretende fazer algo de tamanha envergadura como foi o Fórum da Igreja Católica, que ocorreu em 2007. Esperamos reunir mais de quatro mil pessoas. Todo o projeto está sendo feito para atender uma grande massa que vem das igrejas e outras organizações que querem refletir sobre comunicação, principalmente a partir da perspectiva de uma cultura solidária.

IHU On-Line – A comunicação vem sofrendo inúmeras mudanças com o avanço das novas tecnologias. Como podemos pensar a comunicação a partir da cultura da solidariedade e para a construção de uma sociedade melhor?

Pedro Gilberto Gomes – Todo o desenvolvimento tecnológico só tem sentido se ele for em favor da pessoa humana. Hoje a comunicação está querendo uma nova sociedade, criando uma “nova ecologia”. Nós devemos transformar essa ecologia num ambiente de cultura para a solidariedade, ou seja, o futuro da humanidade passa necessariamente pela solidariedade humana. Se não formos solidários, nossos processos de comunicação ficarão capengas.

IHU On-Line – E é aí que entra a religião nesta relação?

Pedro Gilberto Gomes – Também a religião, porque, de um lado ela entra enquanto grande substrato informador dos grandes princípios da humanidade e, de outro, se insere nesse contexto porque não pode deixar de trabalhar com todos esses meios de comunicação, pois eles potencializam a sua ação. O que as igrejas devem fazer é uma reflexão que transcenda o mero uso dos dispositivos tecnológicos, ou seja, ver esse fenômeno como uma nova ideologia, como uma nova cultura que está surgindo.

IHU On-Line – Como podemos pensar os novos cenários políticos e sociais dentro desse cenário de constante transformação dos processos de comunicação?

Pedro Gilberto Gomes – Não sei se novos cenários políticos. Eu penso que devemos salvar a cultura democrática. Precisamos, assim, estabelecer políticas de comunicação que sejam a favor de um bem comum em função da sociedade e da solidariedade. Não podemos deixar o desenvolvimento de todas essas tecnologias de comunicação ao sabor das forças do mercado apenas. O mercado é importante, mas o Estado precisa assumir seu papel de regulador de políticas, para que todas as pessoas possam usufruir e sejam privilegiadas por essas novas dimensões tecnológicas também. O Estado é o Estado de todos e não de uma classe ou de um grupo privilegiado, portanto ele deve ter a visão do todo.

IHU On-Line – Como o senhor avalia o debate acerca da mídia a partir das construções teóricas que levaram alguns autores a compreender nossa sociedade como a sociedade da informação?

Pedro Gilberto Gomes – Eu penso que esse debate é crucial. Estamos numa sociedade da informação não porque temos mais possibilidades de informação – ou seja, se eu tenho pessoas excluídas elas não participarão da sociedade de informação. O que vejo é que esta sociedade, que está dentro de um sistema complexo, dentro de um sistema de rede, como diz Castell [2], está por isso dentro de um grande processo chamado midiatização da sociedade. Não é a sociedade da mídia, mas é a midiatização da sociedade, ou seja, é a criação de uma nova realidade, da transformação de um processo criando algo novo mudando de patamar. Isso é completamente novo, só comparado à invenção da escrita, no meu entender.

Não voltaremos mais à fase midiática da sociedade, ou seja, a fase anterior à tecnologia digital. Assim como existiu todo o desenvolvimento da escrita, agora nós vamos cada vez mais desenvolver as tecnologias que temos. O que devemos pensar como sociedade e como Igreja? Devemos pensar em como vamos trabalhar, interpretar e formar as pessoas para que possam conviver nessa nova ambiência que está se criando aqui. Todos os jovens, que são chamados de nativos digitais, não colocam este problema que estamos discutindo. Uma criança quando nasce já encontra uma sociedade e para ela tudo é novo. Ela tem de aprender a nadar, ler, escrever, comer com garfo e faca, controlar suas próprias necessidades, ou seja, tudo é novo para ela, inclusive o MP4, o computador, o celular etc. Minha geração tem outro tipo de cultura, pois foi formada na linearidade do pensamento e, por isso, temos dificuldade de nos adaptar as mudanças que estão acontecendo hoje. Essa é a grande transformação da sociedade.

IHU On-Line – Saímos, portanto, de uma sociedade midiática e passamos a conviver com uma sociedade midiatizada...

Pedro Gilberto Gomes – Sim, e as crianças já nascem nessa sociedade midiatizada. Essa é a diferença.

IHU On-Line – E as pessoas que são excluídas dessa sociedade midiatizada, que têm problemas econômicos e de acesso às tecnologias?

Pedro Gilberto Gomes – Eles também fazem parte da sociedade midiática. Não significa que não estejam excluídos. Nas sociedades anteriores, nem todo mundo foi incluído. Hoje, por exemplo, as pessoas que estão excluídas estão fora de tudo, de uma vida digna, de moradia, da saúde, da universidade etc, e também estão excluídas das tecnologias digitais, embora você vá a uma favela e muitos tenham telefone celular. Nesse processo de desenvolvimento da sociedade, alguns avançam e outros ficam pelo caminho. Não estou dizendo que isso é bom. Nós temos de fazer com que todo mundo esteja dentro do processo, mas para isso eu tenho uma série de outras coisas para resolver também. É aí que entra o papel do Estado como regulador.

IHU On-Line – Qual é o papel das universidades dentro desse processo de “repensar a comunicação”?

Pedro Gilberto Gomes – Eu acho que ela é fundamental em termos de pesquisa e reflexão. Aqui no nosso Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, temos como áreas de concentração Processos Midiáticos e dentro das quatro linhas de pesquisa uma delas diz respeito exatamente à midiatização e aos processos sociais. Então, o trabalho que nós estamos fazendo dentro dessa linha é para tentar pensar a globalidade dos grandes processos midiáticos da comunicação.

IHU On-Line – O senhor acredita que a população latino-americana esteja preparada para receber as novas tecnologias digitais quando ainda vive situações políticas e sociais tão adversas?

Pedro Gilberto Gomes – O problema não é estar preparado, porque nunca estamos preparados para algo novo. Isso porque as tecnologias digitais avançarão com as pessoas ou sem as pessoas. Eu posso fazer o seguinte questionamento: “Se elas não estão preparadas, quem é que vai usufruir da tecnologia digital?”. Esse discurso da preparação me parece o mesmo discurso que o ex-ministro Delfim Netto fazia na ditadura militar. Eu tenho de distribuir o bolo, mas primeiro temos que fazê-lo crescer. No entanto, o bolo do Brasil cresceu e nada foi distribuído. Não há bolo suficiente e algumas pessoas ficaram sem comer? Isso é porque quem comia mais continuou comendo mais e quem não comia continuou não comendo.

O grande problema não é a chegada das tecnologias digitais e as pessoas terem ou não acesso a ela, mas sim refletirmos para compreender e interpretar corretamente a gramática dessa nova realidade. Isso é importante. Todo mundo está usando os novos dispositivos tecnológicos de alguma forma, inclusive a Igreja. Eu não preciso perguntar o que a Igreja vai fazer com esses dispositivos, e sim me indagar sobre qual religião está surgindo dessa realidade. Eu não tenho de dizer: “A sociedade latino-americana vai trabalhar e assumir toda a questão da midiatização”, mas fazer a seguinte pergunta: “Que sociedade latino-americana está surgindo a partir da midiatização?”. É diferente, entende?

IHU On-Line – É complexo...

Pedro Gilberto Gomes – Claro que é complexo. Esse é o grande problema que precisa ser debatido para ser compreendido e interpretado da melhor forma.

IHU On-Line – Uma das discussões vigentes dentro da comunicação é acerca do diploma de jornalismo. Estamos passando por inúmeras mudanças no campo jornalístico, onde o papel do jornalista está sendo repensado dentro dos processos tradicionais. Inclusive, Ignácio Ramonet escreveu recentemente que os jornalistas estão em vias de extinção porque o sistema já não quer mais jornalistas. Qual é a sua opinião acerca do diploma de jornalismo e do papel dos jornalistas hoje na sociedade da informação?

Pedro Gilberto Gomes – Eu considero que a comunicação, a partir de todo o processo de midiatização, faz parte de um processo bem mais amplo. Por outro lado, também considero que a comunicação é realmente uma ciência e possui uma racionalidade própria. Assim, o jornalismo comporta uma carreira universitária e uma formação. Mas é preciso entender que a formação jornalística não significa simplesmente aprender as técnicas. Quando eu dava aula no jornalismo, eu dizia para os alunos: “Se for para vocês saírem daqui apenas sabendo aplicar e não refletir sobre o que aprendem, não seria preciso cursar a faculdade. Um cursinho ou um tutorial permitiria isso”. É muito caro fazer a faculdade para aprender apenas a técnica. É preciso usar a faculdade para construir a sua personalidade, o seu conhecimento para que o jornalista tenha mais qualidade. O jornalismo é hoje uma forma de intervenção social, portanto também é uma forma de conhecimento. E para isso é preciso ir além do que uma coisa manuseável. Precisamos começar a construir o nosso perfil no mundo.

Como jornalista, eu não sou um sociólogo nem um filósofo... Eu sou um jornalista que interpreta e trabalha com o singular. Isso é fundamental. Por esse motivo eu preciso ter formação. Outro dia eu disse ao representante do sindicato dos jornalistas do Rio Grande do Sul [3], que esteve aqui na universidade, que sempre apoiei o diploma. Porém, estou convencido de que o diploma de jornalista não pode ser o guarda-chuva para abrigar a mediocridade, ou seja, ele não pode ser simplesmente uma reserva de mercado em que o medíocre possa dizer e fazer besteira. Existem muitos jornalistas sérios, há os que não têm o diploma e exercem a profissão e também muitos novatos que saíram da recentemente da faculdade, mas são realmente incompetentes. E aí a culpa é nossa. Eu defendo o diploma, mas com qualidade, com seriedade acadêmica, com pesquisa. Vamos deixar de brincar de jornalista e vamos começar a pensar um estudo sério. Isso vale para o aluno e para o professor. Tirar o diploma nesse momento seria excluir uma articulação da categoria. Só que a categoria precisa começar a pensar em solidariedade e ser um pouco menos corporativa, porque do contrário estaremos muito mal.

IHU On-Line – O senhor enfatiza que devemos repensar a comunicação. Então, o Mutirão vem no momento ideal para essa reflexão...

Pedro Gilberto Gomes – Vem no momento certo mesmo. E mais: o mutirão vem nesse momento importante e trazendo contribuições necessárias para essa reflexão. Antes do evento, entre os dias 09 e 11 de julho, haverá aqui na Unisinos, por exemplo, um pré-evento com tema Educomunicação, ou seja, a relação comunicação e educação, e Cultura Solidária. Assuntos extremamente relevantes neste momento. O mutirão representa ainda o salto que as igrejas precisam dar para além dos dispositivos midiáticos. Elas devem começar a pensar os processos de comunicação e a cultura solidária e, portanto, precisa ter em mente quais e o que são eles. A cultura solidária não é simplesmente ficar numa posição de defesa, mas fazer com que as pessoas sejam incluídas e que haja solidariedade no acesso aos próprios dispositivos e a própria realidade. Devemos começar a pensar nisso.

Notas:

 

[1] Padre Marcelino Sivinski é coordenador geral do Mutirão da Comunicação da América Latina e Caribe. Foi assessor nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia e secretário executivo do Fórum da Igreja Católica do Rio Grande do Sul.

 

 

 

[2] Manuel Castells é um sociólogo espanhol. Durante a década de 1970, Castells teve um importante papel no desenvolvimento da sociologia urbana marxista. Enfatizou o papel dos movimentos sociais na transformação conflitiva da paisagem urbana. Introduziu o conceito de "consumo coletivo" para compor um amplo alcance dos esforços sociais, deslocado do campo econômico para o campo político pela intervenção do Estado. Ao abandonar as estruturas marxistas no início da década de 80, começou a se concentrar no papel das novas tecnologias de informação e comunicação na reestruturação econômica. Nos meados da década de 90, juntou os lados de sua pesquisa em um sólido estudo, chamado A era da Informação, publicado como uma trilogia entre 1996 e 1998, em que mapeia um cenário mediado pelas novas tecnlogias de informação e comunicação como estas interferem nas estruturas sociais.

[3] O atual presidente do Sindicato do Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul é o senhor José Maria Rodrigues Nunes.

 

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