Fábricas recuperadas pelos trabalhadores e a Economia Solidária na América Latina. Entrevista especial com Henrique Tahan Novaes

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16 Março 2008

“Os anos 1990 foram extremamente difíceis para os trabalhadores na América Latina, com perda do emprego, crescimento do subemprego, entrega da nação pela elite, dilaceramento social etc. Neste contexto, as fábricas recuperadas cumpriram um papel primordial ao permitir a uma parcela de trabalhadores a sua sobrevivência neste contexto de avanço da barbárie social”, afirma o professor Henrique Tahan Novaes. Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Novaes faz uma interessante análise sobre o estado das fábricas recuperadas tanto brasileiras quanto de alguns países vizinhos e sobre a economia solidária (Veja todas as edições da Revista IHU On-Line sobre o texto na seção Leia Mais desta entrevista) e sobre o cooperativismo latinoamericano. “O Brasil é mais complexo, muito mais difícil de entender. Tudo aqui é muito lento, demorado. Deste ponto de vista, podemos dizer que as fábricas recuperadas caminham, mas a passos lentos”, criticou.

Henrique Tahan Novaes é economista, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). É, também, mestre e doutor em Política Científica e Tecnológica, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde é professor. É autor de Fetiche da Tecnologia: a experiência das fábricas recuperadas (São Paulo: Expressão Popular, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que tipo de enfoque tecnológico as organizações ligadas à Economia Solidária tanto necessitam hoje?

Henrique Tahan Novaes – Um enfoque tecnológico que derrube o senso comum sobre a tecnologia e dê às forças produtivas o verdadeiro papel que ela merece na Economia Solidária. Nos congressos de que participei no campo da Economia Solidária, há inúmeros debates sobre diversos temas. No entanto, o “acesso à tecnologia” e a “assistência técnica” parecem ser os pontos que causam pouca polêmica. Não se questiona a tecnologia capitalista e raramente o tipo de assistência técnica necessária para o desenvolvimento do cooperativismo. Para mim, há um falso consenso que devemos averiguar as suas origens. Como sempre nos lembra o professor Renato Dagnino (1), o tema da tecnologia permanece blindado. A tecnologia é sempre a solução e nunca um problema que mereceria uma política científica e tecnológica alternativa.

Eu diria que o enfoque tecnológico que a Economia Solidária necessita deve ter três pilares que podem ser esquematicamente elaborados através das seguintes perguntas: o que produzir, como produzir e para quem produzir. Os arquitetos revolucionários parecem estar à frente nesse debate, pois fazem uma crítica radical a tecnologia capitalista. Primeiro, ao questionar a divisão do trabalho entre operários, engenheiros e arquitetos no canteiro de obras. Mais do que isso, reconhecem o conhecimento operário acumulado nas mãos dos pedreiros. Segundo, questionam o tipo de material que deve ser usado na construção de casas etc. Terceiro: questionam se devemos construir arranha-céus que tenham como propósito a acumulação de capital e a especulação imobiliária ou resolver os grandes problemas nacionais em termos de habitação e obras públicas. Quarto: questionam qual deve ser o papel do arquiteto formado em universidades públicas: ser um explorado numa corporação ou ser um intelectual compromissado com os interesses dos trabalhadores. Para resumir, o enfoque tecnológico que a Economia Solidária necessita deve questionar a organização do processo de trabalho, a tecnologia hardware, a produção de bens socialmente úteis e o papel da universidade, isso para não ir mais longe.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a história das fábricas recuperadas na América Latina?

Henrique Tahan Novaes – É, antes de tudo, a história de muita resistência operária num contexto de crise avassaladora. Os anos 1990 foram extremamente difíceis para os trabalhadores na América Latina, com a perda do emprego, crescimento do subemprego, entrega da nação pela elite, dilaceramento social etc. Neste contexto, as fábricas recuperadas cumpriram um papel primordial ao permitir a uma parcela de trabalhadores a sua sobrevivência neste contexto de avanço da barbárie social. Num patamar superior, há diversas fábricas que questionaram a divisão de salários da antiga empresa, passaram a decidir democraticamente os rumos da empresa e tentaram humanizar o espaço de trabalho. As fábricas mais à esquerda, extremamente politizadas, tentaram atrelar suas lutas a outras reivindicações dos movimentos sociais. Aqui temos poucas.

IHU On-Line – Como funciona a filosofia da política cooperativista na Venezuela de Hugo Chávez?

Henrique Tahan Novaes – Para entender a filosofia da política cooperativista na Venezuela, vale a pena falar sobre a filosofia cooperativista do governo Lula. Escrevi, junto com o professor Paulo Lima Filho (2), um artigo dizendo que a Senaes (Secretaria Nacional de Economia Solidária – que tem Paul Singer (3) à sua frente) é uma pedra proto-socialista num colar pro-capital, principalmente pro-capital financeiro. O cooperativismo na Venezuela parece ter outro propósito. Até pouco tempo atrás, o cooperativismo era um dos pilares do desenvolvimento endógeno. Dessa proposta, surgiram os núcleos de desenvolvimento endógeno que vêem no cooperativismo uma política de geração de trabalho e renda fortemente conectada com o desenvolvimento local.

Com o acirramento da luta de classes, o cooperativismo vem ganhando uma nova função, ainda mais à esquerda, como pilar na construção do “socialismo do século XXI”. No entanto, é preciso fazer duas ponderações. Em algumas entrevistas, Chávez parece ignorar ou subestimar a dificuldade de construção de cooperativas. No começo, acreditavam que o mesmo surgiria num passe de mágicas, somente em função do oferecimento de crédito. A outra é que os venezuelanos ainda não definiram com precisão o papel do cooperativismo na sociedade. Para algumas vertentes social-democratas, os setores estratégicos devem ficar nas mãos do Estado ou sob a forma de co-gestão. Outras vertentes prestam mais atenção no controle dos meios de produção pelos trabalhadores e não tanto na questão da propriedade. Além disso, assim como no Brasil, há uma vertente do velho cooperativismo de classe dominante que só quer o crescimento do cooperativismo que não altera as relações sociais de produção. E aqui os “capitalistas se tornam marxistas”.

IHU On-Line – Você estudou as fábricas recuperadas da Argentina e Uruguai também. Como compara os acontecimentos em torno dessas organizações em outros países da América Latina e no Brasil?

Henrique Tahan Novaes – Depois de falar um pouco sobre as linhas comuns que atingiram de forma muito parecida a América Latina (a continuidade dos grupos de poder que vinham na inércia das ditaduras militares, abertura comercial, aprofundamento da financeirização da economia etc.), é preciso dizer que as fábricas recuperadas argentinas se inseriram num processo mais radical que no Brasil. Primeiro porque os ventos do neoliberalismo sopraram com mais força neste país. Em dezembro de 2001 a Argentina passou por uma convulsão social que serve como marco das lutas operárias no século XXI. A classe média também estava ali pagando o preço do neoliberalismo. Em menor medida, isso também aconteceu no Uruguai, um país com tradição de lutas operárias similar à Argentina. O Brasil é mais complexo, muito mais difícil de entender. Tudo aqui é muito lento, demorado. Deste ponto de vista, podemos dizer que as fábricas recuperadas caminham, mas a passos lentos.

Na Argentina e Uruguai, as fábricas recuperadas questionaram a antiga divisão dos salários bem mais que no Brasil. No entanto, nesses três países saímos de um tsunami para uma marola. Em parte porque os movimentos sociais estão perdidos, fragmentados, lutando por bandeiras difusas e pouco conectadas mas também porque houve um aumento da repressão aos mesmos. A face repressora do Estado continua viva, freando e impedindo o florescimento e a unificação dos movimentos sociais.

IHU On-Line – Para o senhor, quais são os principais desafios, neste século XXI, para o cooperativismo?

Henrique Tahan Novaes – O desafio continua sendo a retomada do projeto marxista, centrado na emancipação do trabalho. Isso significa superar o trabalho alienado, sem sentido social, desprovido de conteúdo. Nesse sentido, o cooperativismo cumpre uma dupla função. Na defensiva, como “cooperativismo de resistência”, é uma das formas de luta operária que questiona desde já a divisão do trabalho capitalista, a separação de concepção e de execução, os salários, a vida individualista etc. Num momento ofensivo, se esse movimento cooperativista conseguir atrelar suas lutas a de outros movimentos sociais, eles deveriam apontar para uma sociedade totalmente desmercantilizada, não produtora de mercadorias, acumuladora de capital e exploradora, e sim de uma sociedade voltada para a satisfação das necessidades humanas, materiais e imateriais. Junto a isso, Marx falava sobre o “autogoverno pelos produtores associados”.

IHU On-Line – Qual é visão dos partidários da Economia Solidária sobre as forças produtivas?

Henrique Tahan Novaes – Creio que a Economia Solidária caminha razoavelmente bem na crítica à organização do processo de trabalho capitalista, a crítica ao taylorismo (4) e ao toyotismo (5). Eles conseguem ver que a autogestão se diferencia radicalmente tanto em natureza como em grau de participação do modelo japonês e do taylorismo. Se a participação no toyotismo tem como propósito extrair o conhecimento operário e hiperexplorá-lo, na autogestão o propósito da participação e da nova divisão do trabalho é a construção de um espaço coletivo que subverta a exploração na fábrica e num patamar superior, a participação do trabalhador na sociedade tem como propósito o controle consciente das esferas fundamentais. O problema é que a Economia Solidária não vê nem a tecnologia hardware nem a ciência capitalista como problemas. Há um senso comum muito forte no marxismo que vê as forças produtivas como neutras. Para esta corrente do marxismo, a tecnologia evolui, ou seja, a última é sempre a melhor. E assim, o problema seria somente a “tomada do poder” e nunca o radical reprojetamento das forças produtivas. A Economia Solidária não pensa exatamente assim, mas converge com essa visão em muitos pontos.

Notas:

(1) Renato Peixoto Dagnino é engenheiro metalúrgico, pela Universidade Federal do Rio Grande do sul (UFRGS), e em Economia, pela Universidad de Concepción, no Chile. É mestre e doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Obteve livre docência em 1993 pela Unicamp. Atualmente, é professor da Universidade da Bahia e da Universidade de Buenos Aires. É autor de inúmeras obras, tais como Ciência e Tecnologia no Brasil: o processo decisório e a comunidade de pesquisa (Campinas: Editora da Unicamp, 2007).

(2) Paulo Alves de Lima Filho é mestre em Economia, pela Universidade Amizade dos Povos Patrice Lumumba, na Rússia. É doutor em Ciências Sociais, pela USP, e pós-doutor, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Atualmente, é professor da Fundação Astrogildo Pereira, em Brasília.

(3) Paul Israel Singer nasceu na Áustria e é economista. Estudou Economia na Universidade de São Paulo (USP), onde doutorou-se em Sociologia, com uma tese sobre Demografia. Ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores e foi o grande conciliador nos tempos do Cebrap. É amigo de Fernando Henrique Cardoso, mesmo divergindo fortemente dos projetos econômicos por ele adotados. Trabalhando recentemente com o tema da Economia Solidária, o professor Paul Singer assumiu a tarefa de implementar, desde junho de 2003, a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), constituída pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego.

(4) Taylorismo ou Administração científica é o modelo de administração desenvolvido pelo engenheiro estadunidense Frederick Winslow Taylor, considerado o pai da administração científica. Taylor iniciou o seu estudo observando o trabalho dos operários. Sua teoria seguiu um caminho de baixo para cima, e das partes para o todo, dando ênfase à tarefa. Para ele, a administração precisava ser tratada como ciência. Desta forma, ele buscava ter um maior rendimento do serviço do operariado da época, o qual era desqualificado e tratado com desleixo pelas empresas.

(5) O toyotismo é um modo de organização da produção capitalista que se desenvolveu a partir da globalização do capitalismo na década de 1950. Surgiu na fábrica da Toyota no Japão após a II Guerra Mundial, e foi elaborado por Taiichi Ohno, mas só a partir da crise capitalista da década de 1970 foi caracterizado como filosofia orgânica da produção industrial (modelo japonês), adquirindo uma projeção global.

 

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