18 Setembro 2026
O relatório anual da ONU Mulheres alerta para o declínio da liderança feminina na política, na justiça e nos negócios em muitos países e adverte que, no ritmo atual, a igualdade de gênero não será alcançada antes de 2197.
A reportagem é de Andrea Minssart, publicada por El País, 17-09-2026.
2197. Não é o título de um filme de ficção científica, mas sim o ano em que a igualdade entre homens e mulheres será alcançada se nada mudar. Este é o alerta emitido pela ONU Mulheres em seu relatório anual, publicado nesta quinta-feira, que retrata um cenário de progresso insuficiente e persistentes desigualdades de gênero, revelando o quanto a promessa de alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável dedicado à igualdade de gênero até 2030 ficou para trás.
Segundo a organização, o progresso não só estagnou, como também regrediu em muitos países, em meio a uma onda reacionária de antifeminismo e um retrocesso democrático global. “As próprias instituições, o financiamento e os movimentos que foram construídos ao longo de muitas décadas para promover a igualdade de gênero estão sendo sistematicamente enfraquecidos”, afirma Sarah Hendriks, Diretora de Políticas e Programas da ONU Mulheres, em uma videoconferência com este jornal.
A violência política tornou-se uma das principais barreiras à participação das mulheres nos espaços de tomada de decisão. Em alguns países, oito em cada dez candidatas ao Parlamento e seis em cada dez candidatas a eleições locais relatam ter sofrido violência psicológica, sexual, econômica ou física. Esse risco é amplificado pela expansão das redes sociais e outros espaços digitais. "As mulheres não deveriam ter que escolher entre sua segurança e o trabalho na política ou na vida pública", lamenta Hendriks.
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O relatório dá especial ênfase ao retrocesso das mulheres na política e em posições de poder. Embora o número de chefes de Estado ou de governo mulheres tenha aumentado de 20 para 28 entre 2020 e janeiro de 2026, seis em cada sete países ainda são liderados por homens. A tendência é particularmente preocupante nos parlamentos: nos últimos cinco anos, a proporção de parlamentares mulheres caiu em 54 países, e o número de ministras diminuiu 20% globalmente. Além disso, esta é a primeira vez em 21 anos que o número de mulheres que atuam como presidentes ou porta-vozes parlamentares diminuiu. Desde 2015, um total de 36 países registrou uma redução na representação feminina nos parlamentos nacionais, 27 nos governos locais e 34 em cargos de liderança.
No entanto, ter mais mulheres em cargos de liderança política não é suficiente, pois isso não garante que elas tenham os recursos necessários para alcançar mudanças legislativas reais. De acordo com o relatório, 90% das ministras estão concentradas em áreas tradicionalmente associadas ao cuidado (família ou infância) e à igualdade, enquanto apenas 11% ocupam pastas do Interior e 12% da Defesa.
Nos últimos dois anos, o poder das mulheres que conseguem alcançar posições de liderança também diminuiu. O relatório inclui queixas de cortes de pessoal, eliminação ou rebaixamento de agências destinadas a combater a desigualdade e perda de poder e influência dessas instituições.
Mesmo no judiciário, onde há mais juízas do que juízes em todo o mundo (51,2%), as mulheres enfrentam maiores desafios para alcançar posições de poder. Globalmente, apenas uma em cada cinco presidências dos tribunais superiores nacionais é ocupada por uma mulher. E, apesar de haver mais mulheres do que nunca em cargos de liderança e gestão em empresas, elas continuam sendo minoria nos principais órgãos decisórios. Além disso, as executivas ganham menos por hora do que seus colegas homens em oito dos dez países com dados disponíveis.
A lacuna além dos escritórios
Essas disparidades se estendem ao mercado de trabalho como um todo. Embora a participação feminina tenha aumentado em muitos países na última década, em 2026 apenas 63,9% das mulheres entre 25 e 54 anos estavam empregadas, em comparação com 92% dos homens. Além disso, as mulheres continuam sendo sobrerrepresentadas em empregos informais e precários.
Mas as consequências da falta de liderança feminina vão muito além de escritórios, parlamentos ou salas de reuniões. De acordo com o relatório da ONU, mulheres e meninas continuam a suportar um fardo desproporcional de pobreza, violência e exclusão em praticamente todos os indicadores de desenvolvimento. A organização estima que, somente em 2025, 316 milhões de mulheres sofreram violência física ou sexual por parte de um parceiro íntimo. A insegurança alimentar e a pobreza extrema continuam a afetá-las mais do que os homens, e uma em cada cinco meninas se casa antes dos 18 anos.
As organizações de mulheres, responsáveis por grande parte do progresso alcançado na igualdade de gênero nas últimas décadas, também enfrentam uma grave crise de financiamento, em grande parte devido ao desmantelamento da USAID, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. Segundo a ONU Mulheres, esses grupos historicamente receberam “menos de 1% da ajuda oficial ao desenvolvimento”. Entre 2023 e 2024, esse financiamento caiu 28%, uma queda que deve continuar nos próximos anos.
Hendriks lamenta que a redução da ajuda internacional coincida com um período marcado por dois fenômenos: numerosos conflitos armados que causaram graves crises humanitárias e a ascensão global de movimentos reacionários contra a igualdade de gênero, que têm "claras ligações com a manosfera" (espaços online onde homens atacam e denigrem mulheres) e que, segundo o relatório, contam com membros cada vez mais jovens.
Para combater esses retrocessos e reduzir as desigualdades no acesso ao poder, Hendriks defende o fortalecimento das cotas de gênero como uma ferramenta eficaz para garantir maior representação feminina. Os dados corroboram seu argumento: países com sistemas de cotas robustos apresentam uma presença feminina muito maior, com mulheres ocupando 39,5% das cadeiras parlamentares e 42,4% dos cargos nos governos locais.
O relatório também pede maior financiamento para organizações que trabalham pela igualdade de gênero, legislação mais rigorosa contra a misoginia e a violência política contra as mulheres, e reformas para reduzir os altos custos econômicos e sociais que desencorajam uma maior participação feminina na política e na vida pública.
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