10 Setembro 2026
Um estudo analisa dez medidas fiscais específicas e o impacto que suas receitas poderiam ter caso compensassem a queda na ajuda à cooperação internacional.
A reportagem é de Yago Álvarez Barba, publicada por El Salto, 10-09-2026.
Desde que Donald Trump assumiu o cargo pela segunda vez, a política externa dos EUA não se concentrou apenas em assassinar ou capturar ilegalmente chefes de Estado ou bombardear países. O presidente republicano, juntamente com Elon Musk e sua agência criada para cortar gastos públicos (DOGE), tomou uma medida menos visível à opinião pública internacional, mas que está custando caro e causará milhões de mortes: o fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a maior agência governamental de ajuda humanitária do mundo, e a drástica redução da ajuda internacional aos países em desenvolvimento canalizada por meio dessa instituição. De acordo com um estudo publicado em julho de 2025 na revista The Lancet, os cortes da administração Trump na USAID causarão 14 milhões de mortes adicionais até 2030. Este não é um problema exclusivo dos EUA. O Reino Unido, a Alemanha, a França e o Japão também cortaram seus orçamentos de desenvolvimento pela primeira vez na história.
Diante desse futuro sombrio, que pode ser agravado pelas crises alimentares e energéticas que alguns países enfrentam devido aos efeitos diretos da Guerra Irã-EUA e ao fechamento do Estreito de Ormuz, bem como pela crise climática, muitas vozes e organizações internacionais têm proposto medidas fiscais para mitigar as consequências dessa redução nos fluxos de ajuda aos países que mais precisam. Agora, um estudo recente liderado pela organização catalã Instituto para a Saúde Global (ISGlobal), publicado em 7 de setembro na revista The Lancet sob o título "Políticas de redistribuição de riqueza para mitigar o impacto da redução do financiamento da ajuda ao desenvolvimento: uma avaliação retrospectiva e análise prospectiva até 2030", apresentou números concretos sobre as vidas que poderiam ser salvas com a implementação de dez medidas tributárias diferentes e como essa riqueza deveria ser distribuída para reduzir os efeitos mortais da redução da ajuda e da cooperação internacional.
Das dez opções analisadas, o imposto sobre a riqueza é a que poderia salvar mais vidas. A proposta tributária baseia-se numa ideia do economista francês Gabriel Zucman, atualmente em estudo e debate nas reuniões do G20 e em diversos parlamentos, que prevê a tributação de fortunas superiores a mil milhões de dólares. Seriam aplicadas percentagens mínimas e, caso esses bilionários já paguem tais impostos nos seus países de residência, não teriam de pagar este imposto adicional.
A análise mostra três possíveis resultados para três taxas de imposto diferentes. De acordo com o artigo publicado na revista The Lancet, um imposto de 1% arrecadaria aproximadamente US$ 90 bilhões anualmente e poderia evitar 15,1 milhões de mortes até 2030. Com uma taxa mais alta, de 2%, a receita aumentaria para US$ 217,5 bilhões e o número de vidas salvas para 23 milhões. Um imposto de 3% sobre apenas 3.000 milionários poderia gerar US$ 343,5 bilhões anualmente em receita tributária, evitando 29,5 milhões de mortes, das quais 3,5 milhões seriam de crianças menores de cinco anos.
A segunda opção que poderia salvar o maior número de vidas é o Imposto sobre Transações Financeiras (ITF), também conhecido como Imposto Tobin. Essa taxa, concebida como uma forma de desencorajar a especulação financeira de curto prazo, demonstra seu significativo poder de geração de receita e sua capacidade de salvar vidas em países que sofreram uma redução na ajuda internacional. De acordo com o estudo, um imposto sobre transações financeiras poderia arrecadar US$ 234 bilhões anualmente e evitar 24,5 milhões de mortes até 2030, incluindo 2,9 milhões de crianças menores de cinco anos.
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O terceiro imposto mais importante em termos de salvamento de vidas é outro que o próprio Trump já sabotou durante seu mandato: o imposto mínimo global sobre grandes empresas multinacionais com faturamento superior a € 750 milhões. Esse imposto mínimo já está em vigor em cerca de 45 países, após a assinatura do acordo por 147 países da OCDE. Mas Trump, logo após reassumir o controle da Casa Branca, tentou bloquear o acordo e enfraquecê-lo por meio de ameaças, até conseguir impedir que ele afetasse as empresas americanas. Segundo o estudo, sua implementação completa poderia gerar US$ 173,5 bilhões anualmente e está associada à prevenção de 20,1 milhões de mortes até 2030, das quais 2,3 milhões seriam de crianças menores de cinco anos.
Embora o imposto mínimo sobre empresas multinacionais esteja começando a ser implementado, a próxima medida analisada não visa gerar um novo tipo de receita, mas sim redirecionar os juros que os países mais pobres já pagam a seus credores para o desenvolvimento. Em outras palavras, o custo da dívida, que dobrou para muitos países do Sul Global na última década, não seria pago aos credores, mas sim reinvestido nos próprios países devedores. O estudo propõe dois cenários: alocar 100% dos juros pagos aos credores oficiais, o que representaria uma economia anual de US$ 74 bilhões e evitaria 12,8 milhões de mortes, ou combinar 50% desses pagamentos com 25% dos juros pagos a credores privados. Essa segunda opção poderia resultar em uma economia de US$ 120 bilhões e evitar 17,7 milhões de mortes, sendo 2,3 milhões de crianças menores de cinco anos.
Os impostos sobre o carbono também têm sido debatidos em muitos parlamentos há anos e já foram implementados na União Europeia. Além de desencorajar o uso de combustíveis fósseis, esse tipo de taxa ambiental poderia ter um enorme potencial de arrecadação se implementado globalmente e de forma coordenada. De acordo com o estudo, um imposto global sobre o carbono poderia arrecadar US$ 102,2 bilhões anualmente e evitar 16,6 milhões de mortes até 2030, incluindo 2,2 milhões de crianças menores de cinco anos.
O novo imposto visa um dos mercados mais promissores dos últimos anos, mas que, por sua própria natureza, tende a escapar da atenção das autoridades fiscais: as criptomoedas. O estudo avalia duas versões: um imposto de 3% aplicado exclusivamente aos 10.000 maiores detentores de criptomoedas arrecadaria US$ 32,6 bilhões e evitaria 6,6 milhões de mortes. Uma segunda proposta, mais abrangente, em linha com as estimativas do FMI, alcançaria US$ 100 bilhões anualmente e evitaria 16,4 milhões de mortes.
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