Trabalho plataformizado desafia a organização sindical

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Mais Lidos

  • “Jesus de Nazaré era uma pessoa vulnerável e frágil, não um herói, mas sim um fracasso”. Entrevista com Juan José Tamayo, teólogo

    LER MAIS
  • Pesquisa revela risco de apagão de professores na educação básica

    LER MAIS
  • A crise no STF e o impacto nas eleições de 2026. Destaques da Semana no IHUCast

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

09 Setembro 2026

Pesquisas mapeiam dificuldades de representação de profissionais do mundo virtual e identificam práticas de oposição à organização coletiva.

A reportagem é de César Fraga, publicada por ExtraClasse, 08-09-2026.

A expansão de aplicativos e plataformas digitais está mudando não apenas o jeito de trabalhar, mas também a maneira como os trabalhadores se organizam para reivindicar direitos. Duas pesquisas realizadas no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostram que motoristas, entregadores e trabalhadores do comércio eletrônico enfrentam dificuldades para se encaixar nas estruturas tradicionais de representação sindical.

Os estudos foram desenvolvidos por Eduardo Pereira, que pesquisou motoristas e entregadores de aplicativos, e Mateus dos Santos, autor de uma dissertação sobre trabalhadores do Mercado Livre. Orientadas pela professora Andréia Galvão, as pesquisas identificam a emergência de formatos autônomos de organização, ao mesmo tempo em que sindicatos tradicionais tentam disputar a representação dessas categorias.

No caso dos trabalhadores de aplicativos, Pereira identificou oito organizações classificadas como “extraoficiais”. Uma delas é o Sindicato dos Trabalhadores com Aplicativos de Transporte Terrestre do Estado de São Paulo. Como a categoria de motoristas por aplicativo ainda não é reconhecida pela legislação sindical, essas entidades não conseguem obter a carta sindical, documento necessário para a representação formal.

A informalidade e a instabilidade do trabalho também dificultam a aproximação com os sindicatos existentes. “A organização sindical se mistura com tipos de organização não sindical, nas quais sindicatos oficiais sofrem concorrência ou entram em conflito com formas autônomas e de auto-organização dos próprios trabalhadores”, explica Andréia Galvão.

Para Pereira, a própria reivindicação do nome “sindicato” revela a importância dessa espécie de organização na luta por direitos. Concomitantemente, a expansão do trabalho por plataformas abriu uma disputa entre diferentes centrais sindicais. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) procura aproximar-se dos novos sindicatos que surgem fora da estrutura oficial. Já a Força Sindical e a União Geral dos Trabalhadores (UGT), que possuem presença histórica entre trabalhadores do motofrete, buscam ampliar a representação dessas entidades.

As pesquisas mostram, assim, um cenário em que a organização coletiva não desaparece diante das novas modalidades de trabalho. Ela se transforma e passa a disputar espaços entre estruturas sindicais tradicionais, novas entidades e movimentos autônomos. O desafio é fazer com que trabalhadores submetidos a relações cada vez mais mediadas por plataformas consigam converter reivindicações individuais em direitos coletivos.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Regulação

A disputa também ocorre no campo legislativo. A tese de Eduardo Pereira analisou propostas de regulamentação do trabalho por aplicativos, entre elas o Projeto de Lei Complementar (PLP) 12/2024, apresentado pelo governo federal.

A proposta cria a figura do “autônomo com direito”, classificação criticada pelo pesquisador por manter os trabalhadores em uma espécie de zona intermediária entre autonomia e emprego com carteira assinada.

Conforme Pereira, o problema está em não reconhecer a relação de subordinação existente entre trabalhadores e plataformas. Motoristas e entregadores, segundo a pesquisa, não controlam elementos fundamentais da atividade, como preços, trajetos e condições de trabalho, além de estarem sujeitos a punições aplicadas pelas empresas.

Pressão

A dissertação de Mateus dos Santos analisou trabalhadores de dois setores do Mercado Livre: logística e tecnologia da informação (TI). Nos galpões de distribuição, a atividade manual é controlada por algoritmos e submetida a metas que precisam ser cumpridas minuto a minuto. A mão de obra é majoritariamente composta por mulheres, pessoas negras e jovens em seu primeiro emprego, geralmente contratadas por empresas terceirizadas.

No setor de TI, os trabalhadores são, em sua maioria, contratados pela CLT. Segundo Santos, os sindicatos estavam ausentes dos locais de trabalho pesquisados.

A pesquisa identifica ainda o que o autor chama de “antissindicalismo escalonado”, com diferentes mecanismos de contenção da organização coletiva. Entre eles, estão o monitoramento de assembleias e e-mails, acordos negociados com sindicatos distantes das bases, cartas de oposição à contribuição sindical entregues no momento da contratação e demissões justificadas por suposto “desalinhamento cultural”.

A estratégia empresarial também passa pela construção de uma cultura baseada no individualismo, na competição interna e na meritocracia

Leia mais