O monge católico e escritor Anselm Grün nega ter favorecido um padre abusador

Foto: Wikimedia Commons

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09 Setembro 2026

Anselm Grün nega as acusações de que teria intervindo em favor de um padre que abusou sexualmente de um menor, enquanto o Conselho das Vítimas da Conferência Episcopal Alemã exige esclarecimentos sobre se a Recollectio-Haus, o abrigo cuja direção espiritual está a cargo do monge, facilitou o retorno ao trabalho pastoral de clérigos acusados de abuso em outros casos.

A reportagem é de Martin Scheuch, publicada por Religión Digital, 08-09-2026.

O renomado monge beneditino e escritor espiritual Anselm Grün, uma das figuras católicas mais populares da Alemanha e autor de livros com uma circulação combinada de cerca de 20 milhões de exemplares, nega as acusações de que teria ajudado um abusador sexual confesso a retornar às suas funções pastorais na década de 1990. O Conselho das Vítimas da Conferência Episcopal Alemã, contudo, exige uma explicação completa do caso e uma investigação independente sobre o centro que Grün supervisiona.

Anselm Grün, de 81 anos, é monge na Abadia de Münsterschwarzach, na Baviera. Lá, ele dirige espiritualmente a Recollectio-Haus, casa de retiro que oferece apoio psicoterapêutico e espiritual a padres, religiosos e funcionários da Igreja que estejam passando por crises, esgotamento profissional ou outras dificuldades pessoais.

A acusação de Paderborn

Segundo o site katholisch.de, em 4 de setembro de 2026, a Comissão Independente para a Investigação de abuso Sexual na Arquidiocese de Paderborn declarou, em seu quarto relatório anual, que, na década de 1990, Grün interveio em favor de um vigário daquela diocese. O padre havia abusado sexualmente de um menino de 16 anos e se declarado culpado durante o processo criminal. Após uma estada na Recollectio-Haus, Grün teria expressado às autoridades de Paderborn sua disposição de levar o clérigo para a Abadia de Münsterschwarzach e proposto que, enquanto isso, ele continuasse trabalhando em uma paróquia na Diocese de Würzburg. Essa diocese aceitou a transferência em setembro de 1992. O padre então serviu em Würzburg até 2009 e, posteriormente, mudou-se para a Diocese de Erfurt.

O relatório também afirma que Grün garantiu que o padre não era homossexual, um argumento que, segundo o Conselho das Vítimas, reflete uma mentalidade que existia na época, e que, em certa medida, ainda existe hoje, segundo a qual a homossexualidade de um padre poderia ser considerada um problema maior do que o próprio abuso. Na visão do Conselho, essa abordagem colocava as características ou a conduta do padre acima do sofrimento e da proteção das vítimas.

Resposta de Grün e pedido de investigação

Em declarações à agência de notícias católica Katholische Nachrichten-Agentur (KNA), Grün rejeitou categoricamente as acusações em 4 de setembro de 2026. "Não me lembro do caso e o descarto", afirmou. O monge beneditino acrescentou que nunca emitiu endossos, recomendações ou relatórios favoráveis às pessoas que procuraram a Recollectio-Haus em busca de ajuda. Sua versão, portanto, contradiz a intervenção que lhe é atribuída no relatório de Paderborn.

O Conselho das Vítimas expressou surpresa com a resposta e exigiu uma explicação completa. Em um comunicado divulgado em 6 de setembro de 2026, também solicitou uma investigação independente para determinar se a Recollectio-Haus facilitou o retorno ao trabalho pastoral de padres acusados ou condenados por abuso sexual em outros casos. O pedido, portanto, não se limita a determinar o que aconteceu com o padre transferido para Würzburg em 1992, mas busca estabelecer se existia uma prática mais disseminada.

O contexto da Recollectio-Haus

Para entender o contexto do caso, o depoimento de Wunibald Müller, teólogo e psicoterapeuta que dirigiu a Recollectio-Haus entre 1991 e 2016, é especialmente relevante. Em entrevista publicada pelo katholisch.de em 28 de junho de 2024, Müller confirmou que o centro também abrigou padres e religiosos acusados de abuso sexual, embora tenha rejeitado a ideia de que pudesse ser considerado um local destinado a concentrar padres abusadores.

Como explicou, esses clérigos eram enviados ao centro por seus superiores diocesanos ou religiosos. A Recollectio-Haus podia oferecer tratamento e avaliação psicológica, mas a decisão sobre um possível retorno à atividade pastoral cabia às dioceses ou às ordens religiosas responsáveis, e não à equipe terapêutica. Müller também enfatizou que uma orientação pedófila não podia ser "curada" e que o objetivo da terapia nesses casos era o controle dos impulsos.

Müller, que já havia alertado publicamente sobre a extensão dos abusos sexuais na Igreja alemã na década de 1990, reconheceu ter pago um alto preço pessoal por seu compromisso. Como relatou em 2024, ele enfrentou resistência dentro da Igreja e, por vezes, sentiu-se sozinho diante do sofrimento das vítimas e da falta de sensibilidade da hierarquia. Ele também explicou que ofereceu terapia a vítimas de abuso e que essa experiência lhe permitiu compreender em primeira mão as consequências psicológicas desses crimes.

Um caso dentro de uma crise mais ampla

O caso de Anselm Grün faz parte do longo processo de esclarecimento dos abusos sexuais dentro da Igreja Católica Alemã, que assumiu uma nova dimensão após 2010 e resultou em inúmeros relatórios diocesanos, comissões independentes e denúncias de vítimas. Um dos principais marcos desse processo foi a apresentação, em 25 de setembro de 2018, do estudo do MHG, encomendado pela Conferência Episcopal Alemã para investigar casos de abuso sexual registrados entre 1946 e 2014.

Nesse contexto, a controvérsia sobre o papel de Grün e da Recollectio-Haus levanta uma questão que somente uma investigação independente pode resolver: se a transferência do padre para Würzburg em 1992 foi um caso isolado ou se houve outros episódios em que clérigos que cometeram abusos puderam retornar ao trabalho pastoral.

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