05 Setembro 2026
"Não se pode ser uma pessoa religiosa que leva a sério a sua fé em Deus sem falar sobre Deus e, também, sem discutir sobre as mais variadas questões da vida – incluindo as sociais e políticas – a partir da perspectiva do que podemos chamar de “revelação” ou das doutrinas da sua igreja ou da religião. Sendo assim, no âmbito da relação entre religião e política nos tempos atuais, o problema não seria usar ou não usar o nome de Deus, mas sim, “tomar o nome de Deus... em vão”. A noção de “em vão” é a chave", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
É mais do que evidente que, nas últimas décadas, a direita e a extrema-direita têm usado com frequência o nome de Deus e os mitos e valores religiosos da tradição cristã na sua luta política. Diante ao que muitos consideram como uma manipulação indevida da religião na esfera política, não basta dizer que a religião não deveria ser misturada com questões políticas e partidárias. Essa afirmação “não deveria” pressupõe um critério de o que é certo e errado, critério esse que foi construído no mundo moderno – baseada na secularização que separou a esfera da política da religião – e agora claramente entrou em crise.
Aliás, a discussão do uso ou não do nome de Deus – seja no mundo antigo ou contemporâneo; e na vida privada e na pública – é muito antiga. Por exemplo, nos dez mandamentos da Bíblia encontramos a proibição: “Não tome o nome do Senhor, seu Deus, em vão” (Ex 20,7); enquanto que no evangelho de Lucas, Jesus explicitamente diz, “vá e anuncie o Reino de Deus” (Lc 9,60).
Não se pode ser uma pessoa religiosa que leva a sério a sua fé em Deus sem falar sobre Deus e, também, sem discutir sobre as mais variadas questões da vida – incluindo as sociais e políticas – a partir da perspectiva do que podemos chamar de “revelação” ou das doutrinas da sua igreja ou da religião. Sendo assim, no âmbito da relação entre religião e política nos tempos atuais, o problema não seria usar ou não usar o nome de Deus, mas sim, “tomar o nome de Deus... em vão”. A noção de “em vão” é a chave.
Isto é, ao invés de discutir se pode ou não usar o nome de Deus, a tradição bíblica introduziu uma questão ético-teológica de o que é usar o nome de Deus em vão ou de forma apropriada. De outra forma podemos dizer que a Bíblia introduziu o tema da idolatria ou a adoração de um Deus que parece Deus, mas é um ídolo ou um Deus falso. No discernimento sobre Deus e ídolo, devemos nos lembrar que, para todos que adoram o seu Deus – seja na forma pessoal ou de forma impessoal que surge no mundo moderno –, esse é o verdadeiro e o de outros povos ou religiões são ídolos. Assim, é preciso de um outro critério que não seja somente ser “o meu ou o nosso Deus”.
Esse problema, que é prático-político e ao mesmo tempo teológico, foi muito discutido nos profetas de Israel e essa reflexão chegou ao ápice em Jesus, quando afirmou, “Ninguém pode servir a dois senhores; [...] Vocês não podem servir a Deus e a Mamom (riqueza)” (Mt 6,24). Jesus vê que em Israel muitos adoram, na verdade, à riqueza, só que ritualmente e em seus discursos sempre nomeiam a Deus. Por isso, ele desvela esse uso do nome de Deus em vão, isto é, o nome de Deus é usado para mascarar e justificar a exploração do povo e acumulação de riqueza nas mãos de poucos em quanto o povo passa fome. Um processo sócio político e teológico que é muito semelhante do atual capitalismo como religião.
É frente a essa situação que Papa Francisco criticou duramente a “idolatria do dinheiro”. (Para aprofundar o tema, vide por ex., SUNG, Jung Mo. A idolatria do dinheiro e os direitos humanos, Paulus.)
Com o processo de secularização e do conflito entre os defensores da razão moderna e os apologetas da fé e religião, infelizmente essa sabedoria foi perdida ou quase desapareceu nas discussões. Com isso, a disputa ficou entre os apologetas da fé e religião e os defensores do iluminismo e da razão moderna, que por definição nega à noção de Deus nenhum espaço positivo. Com a vitória do iluminismo e da razão moderna, o tema da religião e do nome de Deus foram deslocados para o âmbito da discussão sobre alienação e ignorância.
Para compreendermos melhor como essa “guerra”, que parecia terminada, voltou ao cenário político no nosso tempo, precisamos reconhecer que a batalha principal hoje não é o do debate lógico, epistemológico ou metafísico (Deus existe ou não) entre a razão moderna e a fé. Mas, no meu modo de pensar, um problema que tem a ver com a questão de identidade.
Uma boa parte de lideranças de movimentos sociais e políticos chamados de “progressistas” ou de “esquerda” se identifica ou foi formados com filosofias e teorias sociais provenientes do iluminismo, que gerou tanto os pensamentos liberais quanto marxistas. Mesmo que muitas dessas lideranças estão ou entraram nessas lutas por motivos religiosos ou espirituais contra as injustiças sociais e ambientais, as identidades de boa parte estão marcadas ou influenciadas pelo ambiente do iluminismo e/ou dos movimentos progressistas e/ou de esquerda que, mesmo inconscientemente, menosprezam pessoas que “ainda” creem em Deus.
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Faz parte da identidade da maioria dos grupos “progressistas” sentir-se intelectualmente “superior” em relação às pessoas que creem em Deus e usam ainda linguagens religiosas pré-modernas, por ex., falar de milagres. Há situações em que cristãos que se identificam como progressista ou de esquerda, e estando no ambiente da igreja, usam uma linguagem religiosa de teologia liberal ou de libertação para falar da importância de Deus e de suas experiências religiosas na sua vida. Porém, quando em um ambiente mais “profano” ou político, tendem a não usar linguagem religiosas para falar das suas motivações e opções sócio políticas e privilegiar uma linguagem sócio política sem conotação religiosa.
Por outro lado, para cristãos na linha conservadora o nome de Deus é importante e a palavra Deus é muito usado como o sujeito das frases mais significativas e importantes, seja no âmbito da igreja ou no mundo político. Além disso, um aspecto importante da identidade desse grupo é a pertença ao “povo de Deus” ou à comunidade de “escolhidos por Deus”. É como se dissessem, somos importantes porque somos membros do povo de Deus. Essa imagem de povo de Deus não é necessariamente excludente, mas pode ser. Podemos dizer que é uma postura e uma identidade marcada pela centralidade de Deus na vida e na história e por uma cosmovisão e uma linguagem religiosa pré-moderna.
Nesse sentido, podemos dizer que o cristianismo conservador quer uma revanche na guerra que perdeu contra o iluminismo e a razão moderna. Seria a volta de Deus contra o homem moderno. Isso fica mais claro em uma parte da Igreja Católica que nega o Concílio Vaticano II e sua “atualização” que dialoga com o mundo moderno e nas igrejas evangélicas, pentecostais e protestantes com tendência fundamentalista.
O que a direita e a extrema-direita contemporâneas fazem é aproveitar politicamente essa confusão que surgiu da passagem do mundo pré-moderno ao moderno e identificar os progressistas e os de esquerda críticos do capitalismo como os inimigos de Deus, da fé e desprezadores da “verdadeira” religião.
Para enfraquecer essa aliança, devemos distinguir dois grupos no interior desse cristianismo conservador. Um grupo que, como disse Jesus, adora o Mamom e busca a acumulação de riqueza e é insensível frente aos sofrimentos dos pequenos e oprimidos. A sua insensibilidade social mostra a sua idolatria. Nesse sentido, usam o nome de Deus ou de Jesus “em vão”.
O segundo é composto de pessoas que são sensíveis aos sofrimentos dos “pequenos” e fazem opções e ações sócio-políticas em favor deles. Muitas vezes, essas opções e ações entram em contradição ou em conflito com o discurso religioso conservador e opressivo das suas igrejas. O mais importante não é o discurso religioso, mas sim as ações concretas que mostram o verdadeiro sentido da sua fé. Ao interpretar o discurso religioso pré-moderno desse grupo, é preciso ter cuidado para não fazer uma leitura fundamentalista da linguagem deles.
Em resumo, na relação entre a religião e política e – para facilitar – entre “a direita e a esquerda”, precisamos diferenciar o nível das linguagens, em que aparece o conflito entre a linguagem iluminista-moderna e a pré-moderna, e o nível mais profundo que é o da opção ético-espiritual entre os insensíveis e os sensíveis frente aos sofrimentos dos fracos.
E para enfraquecer a aliança entre a direita e o cristianismo conservador, o primeiro passo e estabelecer um dialogar, com “respeito e humildade”, com pessoas de visão e linguagem religiosa diferente, conservadora, mas semelhantes ou iguais na solidariedade com quem sofre.
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