27 Agosto 2026
A 5.100 metros acima do nível do mar, é possível ver a ferida deixada pelo colapso da geleira. Ela tem 600 metros de largura, 400 metros de comprimento e parece ter cerca de 50 metros de espessura. A língua glacial caiu 1.400 metros antes de desabar no vale abaixo. As estimativas iniciais sugerem que ela continha pelo menos 10 milhões de metros cúbicos de gelo. Giovanni Crosta, professor de geologia aplicada da Universidade de Milão-Bicocca, analisa as primeiras imagens de satélite do Nepal e não esconde seu choque com a magnitude do colapso. Ele participou de um projeto pós-terremoto naquela região com a ONG Asia.
A entrevista é de Elena Dusi, publicada por La Repubblica, 27-08-2026.
Eis a entrevista.
O colapso da geleira causou a inundação?
A princípio, pensei que fosse o transbordamento catastrófico de um lago glacial. Esses fenômenos são bastante comuns no Himalaia e têm potencial para serem devastadores. Um simples deslizamento de terra ou uma forte chuva não explicariam uma vazão tão grande. Ao longo do estreito desfiladeiro, o nível da água subiu dezenas de metros. A água avançava a dezenas de metros por segundo. Imagens de satélite, no entanto, não mostram nenhum lago na área, mas sim a extremidade de uma língua glacial. Até ontem, ela era visível; hoje, desapareceu.
O mundo está muito louco. E essa enchente relâmpago no Nepal com um céu azul desses? 😥 pic.twitter.com/Pvm7p0IFLz
— George Marques 🇧🇷 (@GeorgMarques) August 26, 2026
Uma geleira é sólida. Como ela se transformou em uma inundação tão rapidamente?
O gelo rachou e derreteu parcialmente devido ao atrito. Os fragmentos caíram no vale, continuando a derreter à medida que desciam, incorporando rochas e detritos.
Naquele instante, foi registrado um terremoto de magnitude 5,2. Isso poderia ter causado o desprendimento?
Pelo contrário, trata-se de um sinal sísmico muito forte causado pelo colapso da geleira. Isso não é surpreendente para colapsos dessa magnitude. Na Itália, no verão passado, um deslizamento de rochas do Cima Falkner, nas Dolomitas de Brenta, causou um sinal sísmico com magnitude entre 2 e 3. Hoje, sismógrafos também são usados para localizar deslizamentos de terra em locais remotos.
Ainda estamos em um vale de alta montanha. Por que os danos e as mortes foram tão extensos?
Água, gelo, rochas e detritos invadiram repentinamente um vale estreito. Um rio que sobe dezenas de metros em encostas tão íngremes leva dezenas de quilômetros para dissipar sua cheia, arrastando tudo. E nas altas montanhas, estradas, vilarejos e habitantes se concentram no fundo do vale, bem perto das margens do rio. Vinte quilômetros rio abaixo, do ponto onde a geleira se desprendeu, fica a fronteira entre a China e o Tibete.
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Em dez anos, o Himalaia perdeu 40% de seu gelo. Será que as mudanças climáticas estão contribuindo para o colapso de ontem?
O aumento das temperaturas é mais acentuado nas altas montanhas do que no resto do país. Avalanches e deslizamentos de terra podem ser mais frequentes justamente por causa das temperaturas sazonais mais elevadas, que fazem com que o permafrost ceda em altitudes elevadas e acelere o derretimento do gelo.
O triângulo vermelho indica a área onde a geleira desabou.
Existem riscos semelhantes aqui também?
Nossas geleiras também estão sofrendo muito com o aquecimento global. Nos Alpes, temos muitas situações de instabilidade. Todos nos lembramos do colapso da Marmolada em 2022. No ano passado, na Suíça, um deslizamento de rochas provocou o desprendimento de uma geleira, que caiu sobre a vila de Blatten. A situação vinha sendo monitorada há algum tempo e os moradores foram evacuados rapidamente. Hoje, uma ameaça semelhante paira sobre a geleira suspensa Weisshorn, no cantão de Valais. E no Vale de Aosta, a instável geleira Planpincieux, em Val Ferret, vem sendo monitorada há anos.
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