24 Agosto 2026
O novo bispo de Münster e presidente da Conferência Episcopal Alemã, Heiner Wilmer, fala sobre a crise na Igreja, as reformas, o papel dos leigos e as tensões com Roma, e alerta para a ascensão do AfD e a fragilidade da paz na Europa.
A reportagem é de Martin Scheuch, publicada por Religión Digital, 23-08-2026.
Heiner Wilmer assumiu a liderança do catolicismo alemão em um de seus momentos mais delicados. Desde fevereiro de 2026, ele preside a Conferência Episcopal Alemã (DBK), órgão que reúne os bispos católicos do país, e desde o final de junho, também é bispo de Münster, uma das dioceses mais importantes da Alemanha. Sua dupla responsabilidade o coloca no centro de alguns dos debates mais difíceis que a Igreja alemã enfrenta atualmente: o declínio do número de fiéis, a redução do número de padres e paróquias, as reformas internas, o papel dos leigos, as relações com Roma e a resposta à ascensão da extrema direita.
Em uma extensa entrevista publicada em 21 de agosto pela Kirche+Leben , uma revista católica e portal online especializado em informações sobre a Igreja na Alemanha, Wilmer oferece um diagnóstico que combina preocupação e otimismo. A Igreja está perdendo fiéis, recursos, pessoal e presença social, mas o bispo não acredita que esse declínio institucional implique necessariamente o desaparecimento da dimensão religiosa. Pelo contrário, ele considera possível que a religião recupere sua relevância em uma sociedade cada vez mais secularizada, embora provavelmente o faça de maneiras diferentes do passado.
Wilmer, portanto, traça uma distinção entre a crise das estruturas eclesiásticas e o desaparecimento da busca espiritual. Em sua visão, o interesse pelo sentido da existência, pela dimensão transcendente da vida e pela relação entre religião e sociedade não desapareceu. Numa Alemanha onde cada vez menos pessoas se identificam com uma igreja, a religião poderia até mesmo reconquistar terreno precisamente porque a ciência, a tecnologia e a política não oferecem respostas para todas as questões humanas.
Uma Igreja que precisa aprender a caminhar junta
Um dos conceitos centrais no pensamento de Wilmer é a "sinodalidade", palavra que adquiriu especial importância durante o pontificado de Francisco. Refere-se a uma forma de compreender a Igreja na qual bispos, sacerdotes e leigos participam juntos no discernimento e na vida da Igreja.
A questão é particularmente relevante na Alemanha. O Caminho Sinodal, iniciado em 2019, abriu um amplo debate sobre o exercício do poder na Igreja, a participação dos leigos, o celibato sacerdotal, o estatuto da mulher e a moral sexual. Algumas de suas propostas provocaram fortes tensões com o Vaticano e evidenciaram as diferenças entre uma parcela do catolicismo alemão e a Cúria Romana.
Wilmer não considera esse processo encerrado. Em sua visão, as questões levantadas pelos alemães permanecem presentes no debate da Igreja universal por meio do processo sinodal iniciado em Roma. Questões relacionadas à sexualidade, aos relacionamentos humanos, à participação dos fiéis e às estruturas eclesiais continuarão a fazer parte da discussão.
Para explicar sua compreensão da sinodalidade, o bispo se refere ao episódio evangélico dos discípulos a caminho de Emaús. Duas pessoas caminham juntas após a morte de Jesus, compartilham suas dúvidas e, por fim, acolhem um estranho que se junta a elas em sua jornada. Para Wilmer, essa cena representa uma Igreja que não pretende ter todas as respostas de antemão, que sabe ouvir e que está disposta a se mover do centro para as periferias.
A sinodalidade, portanto, não seria uma simples reforma administrativa. Envolveria uma mudança na forma como a Igreja ouve, decide e se relaciona com aqueles que estão dentro e fora dela.
O impasse com Roma sobre a pregação leiga
Essa concepção também explica sua posição sobre uma das questões que têm causado as maiores tensões recentes entre a Igreja alemã e o Vaticano: a pregação de leigos durante a missa.
Em março, Wilmer, em nome da Conferência Episcopal Alemã, solicitou permissão especial em Roma para que leigos com formação teológica proferissem a homilia. O Vaticano rejeitou o pedido em junho.
A questão tem consequências práticas. Em muitas comunidades alemãs, mulheres e homens com formação teológica desempenham um papel fundamental no cuidado pastoral há anos. No entanto, as normas litúrgicas reservam a homilia na missa aos ministros ordenados.
A recusa romana gerou frustração em alguns setores da Igreja alemã. Além disso, em algumas dioceses, a participação de leigos na pregação tornou-se uma prática tão comum que é difícil imaginar um simples retorno à situação anterior.
Wilmer mantém uma postura cautelosa. Ele não questiona abertamente a decisão de Roma, mas também não pretende desacreditar a tradição pastoral desenvolvida ao longo dos anos em Münster. Ele confia que os agentes pastorais encontrarão maneiras adequadas de continuar seu trabalho.
O episódio resume uma das tensões fundamentais do catolicismo alemão: uma Igreja que tenta ampliar a participação dos leigos e que, ao mesmo tempo, precisa operar dentro dos limites estabelecidos por Roma.
Um forte alerta contra o AfD
Wilmer é muito mais direto quando aborda a política e, especialmente, a ascensão do partido Alternativa para a Alemanha (AfD).
O AfD é um partido populista de direita que tem experimentado um forte crescimento eleitoral nos últimos anos. Sua influência é particularmente notável em vários estados federais da antiga Alemanha Oriental. Na Saxônia-Anhalt, onde as eleições regionais serão realizadas em 6 de setembro, as pesquisas colocam o AfD como o partido líder, dando-lhe uma vantagem considerável sobre os demais partidos. Além disso, o Escritório de Proteção da Constituição do estado, órgão alemão responsável por monitorar ameaças à ordem democrática, classificou-o oficialmente como uma organização de extrema-direita.
Wilmer rejeita qualquer tentativa de reconciliar o cristianismo com o nacionalismo baseado em critérios étnicos. Para ele, o chamado nacionalismo völkisch — uma concepção de nação baseada em uma suposta comunidade étnica ou de sangue — é incompatível com a concepção cristã de dignidade humana.
Seu raciocínio deriva de um princípio que ele considera inalienável: todos os seres humanos possuem a mesma dignidade e o mesmo direito à vida. Daí também deriva sua defesa da mídia independente e de uma cultura política baseada na verdade.
A preocupação do bispo vai além dos resultados eleitorais da AfD. Ele teme um clima político em que o medo, a desconfiança nas instituições e o desprezo sistemático por aqueles que ocupam cargos públicos possam, em última análise, enfraquecer a democracia.
Por isso, ele também critica o chamado "politiker-bashing" , a constante difamação dos políticos. Ele não pretende retratá-los como infalíveis. Seu argumento é mais simples: uma democracia precisa de cidadãos críticos, mas também de pessoas dispostas a assumir responsabilidades sem serem constantemente alvo de suspeitas e desprezo.
Fale com todos, mas não se torne instrumento de ninguém
A posição de Wilmer contém uma tensão deliberada. Ele defende o diálogo com todas as pessoas, mas acredita que a Igreja deve evitar tornar-se, mesmo que involuntariamente, uma plataforma para a legitimação política de posições xenófobas ou antissemitas.
O debate é particularmente sensível na Alemanha, onde a memória do nazismo continua a pesar muito sobre a cultura política. A discussão sobre como lidar com o AfD oscila entre dois riscos opostos: excluir os cidadãos que votam no partido ou normalizar uma retórica que uma parcela significativa da sociedade considera incompatível com os princípios democráticos.
Wilmer defende a manutenção do diálogo sem confundi-lo com legitimação. A Igreja deve dialogar com todos, mas não deve se tornar um instrumento eleitoral para aqueles que defendem posições contrárias à dignidade humana.
Ele acredita que a sociedade alemã terá que demonstrar maior resiliência diante do avanço da extrema-direita. Protestos e vozes críticas já existem, afirma, mas é necessária ainda mais coragem.
Uma paz que já não pode ser dada como certa
Outra grande preocupação de Wilmer é a situação internacional.
Durante décadas, a Alemanha viveu num ambiente de paz que, para grande parte da população, parecia praticamente irreversível. A invasão russa da Ucrânia alterou radicalmente essa percepção. A guerra trouxe de volta ao centro do debate europeu temas que, durante muito tempo, pareceram pertencer ao passado: defesa, rearmamento, dissuasão militar, alianças e a possibilidade de uma escalada do conflito.
Wilmer considera a paz europeia frágil e rejeita a ideia de que o medo deva se tornar o principal critério para a ação. Em sua visão, seria um erro responder à insegurança sacrificando liberdades em nome de uma segurança cada vez maior.
Sua posição em relação à OTAN está alinhada com a doutrina católica tradicional sobre autodefesa. A Aliança Atlântica receberá o Prêmio da Paz de Vestfália em 1º de outubro em Münster, uma decisão que gerou críticas, inclusive de grupos pacifistas como a Pax Christi.
O bispo considera essas objeções legítimas, mas sustenta que uma comunidade ameaçada tem o direito de se defender. A questão fundamental, em sua visão, é que os meios empregados sejam proporcionais e que as sociedades democráticas mantenham sua capacidade de permanecerem unidas.
Uma igreja que está perdendo fiéis, mas se recusa a desistir
O paradoxo que permeia o discurso de Wilmer é evidente. Ele lidera uma igreja que está perdendo membros, recursos e influência social, mas se recusa a interpretar esse declínio como uma sentença de morte para o cristianismo.
O desafio reside em distinguir entre o desaparecimento de certas formas históricas de pertencimento e o desaparecimento da busca religiosa. As igrejas alemãs estão perdendo membros a um ritmo considerável, o número de padres está diminuindo e muitas paróquias estão tendo que se reorganizar. Mas Wilmer acredita que as questões religiosas podem ressurgir em novas formas em uma sociedade que não aceita mais automaticamente as respostas tradicionais.
Para alcançar esse objetivo, a Igreja terá que abandonar alguns de seus hábitos arraigados. A participação dos leigos, a sinodalidade e a capacidade de dialogar com uma sociedade pluralista fazem parte desse processo.
Wilmer chega a Münster com uma missão dupla. Ele deve liderar uma das dioceses mais importantes da Alemanha e, ao mesmo tempo, representar os bispos católicos perante o Estado, a sociedade alemã e o Vaticano. Seu discurso combina a lealdade a Roma com um claro desejo de preservar algumas das reformas e experiências desenvolvidas no seio da Igreja alemã.
Na arena política, porém, sua posição é inequívoca. Diante do nacionalismo excludente, da xenofobia e do antissemitismo, a Igreja não pode permanecer neutra.
Sua mensagem pode ser resumida em uma palavra que se aplica tanto à situação política quanto ao futuro do cristianismo alemão: coragem . Uma Igreja que está perdendo poder social, mas que deseja permanecer relevante, não pode simplesmente administrar seu próprio declínio. Ela terá que aprender a caminhar ao lado dos outros, aceitar a incerteza e, quando acreditar que a dignidade humana e a democracia estão em jogo, ousar se manifestar.
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