"O mundo precisa de revoluções espirituais". Entrevista com Nemonte Nenquimo

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14 Agosto 2026

"Monito ime goronte enamai": nosso território não está à venda. "E se estamos dizendo não, é não". Cabelos negros e brilhantes, olhos grandes marcados por henna vermelha, uma voz firme e suave. Sete anos após a batalha que a colocou sob os holofotes mundiais, Nemo, "a estrela" – isso significa seu nome na língua de seu povo, os Waorani, continua a luta pela vida: dos povos indígenas da Amazônia e da própria humanidade. Para isso, em 2012, Nemonte Nenquimo mobilizou sua comunidade contra a extração de petróleo na região equatoriana de Pastaza. Alternou entre protestos e recursos judiciais.

Então, em 26 de abril de 2019, conseguiu uma ordem judicial formal para interromper as operações de perfuração: uma sentença histórica e sem precedentes. "Foi difícil; tivemos que viajar até Quito, para um ambiente completamente diferente. Não foi fácil não ceder ao desânimo e voltar atrás. Mas conseguimos". Com essa mesma força, ela agora convoca o mundo a seguir o exemplo e iniciar a transição energética dos combustíveis fósseis. Um empenho que, na realidade, a comunidade internacional assumiu na Conferência da ONU sobre as mudanças climáticas de 2023, em Dubai, mas não realizou desde então. A crise no Estreito de Ormuz relançou a urgência dessa decisão, talvez mais do que nunca.

A entrevista é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 12-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

"O fato é que para escapar da armadilha desse modelo social e político, baseado na exploração selvagem de recursos e no consumismo, é preciso, em primeiro lugar, uma 'revolução espiritual'. Somente um despertar das consciências pode nos levar a uma saída", afirma a ativista de 41 anos, ganhadora do Prêmio Goldman, o Nobel dos ambientalistas. Assim, Nemo passou dos documentos jurídicos para a caneta, ou melhor, para o computador, registrando sua história-manifesto no livro Un giorno saremo giaguari (Um dia seremos onças, em tradução livre, 416 páginas, € 22,00), publicado na Itália pela editora Sonda.

Eis a entrevista.

O que significa ser onças?

Para nós, Waorani, a onça é a mensageira divina. Ela nos alerta - basicamente por meio dos sonhos dos xamãs - sobre ameaças, emboscadas inimigas, epidemias e catástrofes. Acolhe nossos espíritos após a morte, permitindo-nos continuar a nos comunicar com a comunidade e a protegê-la. Nossa tarefa como povos indígenas, agora mais do que nunca, é ser onças. Transmitir ao mundo a mensagem de perigo, mas também da possibilidade de salvação.

Como despertar as consciências para salvar o planeta e a nós mesmos?

Não precisamos salvar a Mãe Terra; é o contrário. Ela nos infunde vida, oxigênio e alimento. Nossa função é respeitá-la. É preciso esforço, resiliência, esperança e intuição para não desanimar e para continuar mostrando a profunda conexão entre os seres humanos e a natureza. Os seres humanos não podem existir sem a natureza. Todos – os habitantes das cidades, os governantes, os proprietários das empresas petrolíferas - sofrem os efeitos do aquecimento global. Somente quando compreendermos isso realmente, na mente e no coração, modificaremos a nossa forma de agir. O primeiro passo é cultivar o nosso lado interior e o contato com a Mãe Terra.

O que aprendeu com sua luta para impedir a extração de petróleo no território Waorani?

A vitória judicial foi uma ferramenta preciosa, pois representa um precedente para outros povos indígenas. Mas continua sendo apenas uma ferramenta. O trabalho mais difícil e importante é aquele da construção da comunidade: tecer laços entre jovens e idosos, crianças, mulheres e homens. Juntos. Somente assim podemos ser protagonistas da nossa própria história, sem esperar que o governo venha nos impor ou nos dizer o que fazer. Primeiro a colonização e agora o neoliberalismo fizeram de tudo para nos dividir. Como líder, tentei me inspirar no estilo de nossos ancestrais, que dedicavam muito tempo à escuta. Apenas de um diálogo sincero e atento podem nascer as decisões coletivas, as únicas que realmente perduram. Vemos isso também em nosso território: por meio da cooperação, estamos implementando com sucesso projetos para a produção de energia com painéis solares, a captação de água da chuva, o monitoramento da floresta.

No entanto, hoje em dia, parece prevalecer um modelo de liderança oposto, baseado no homem sozinho no comando...

E vemos as consequências. Acredito que os chamados ‘grandes do planeta’ estão plenamente cientes dos efeitos de suas políticas. Eles não as modificam porque são sedentos de poder, dinheiro e ego. No fundo, porém, acredito que eles não sabem amar nem aos outros nem a si mesmos, pois, do contrário, não condenariam, nem a nós nem a si mesmos, à autodestruição. No entanto, quando você morre, não leva consigo nada do que acumulou.

Como convencer os líderes a mudar?

Estou mais interessada em convencer as pessoas. Tenho confiança nos jovens, na sociedade civil, nos povos indígenas. Tenho confiança nas mulheres, que têm um vínculo especial com a floresta. A Mãe Terra é energia feminina. É, justamente, mãe. É por isso que as mulheres sofrem os impactos da devastação ambiental com maior intensidade. Elas percebem por dentro o desequilíbrio.

Qual é a mensagem das mulheres da Amazônia para o mundo?

É a mensagem que aprendemos da Mãe Terra, caminhando na floresta, banhando-nos no grande rio, contemplando o céu e olhando para as estrelas. A única maneira de viver é compartilhar, sentir empatia e colaborar. Nossos ancestrais choravam e riam juntos, dançavam ao mesmo ritmo e ajudavam uns aos outros. Precisamos resgatar essa sabedoria ancestral antes que seja tarde demais. Estamos andando irresponsavelmente à beira do abismo. Mas ainda não caímos nele. Ainda podemos conseguir.

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