12 Agosto 2026
Liderança Guarani Mbya defende que eleições devem contemplar protagonismo dos povos originários na construção do futuro do país.
Cacica Alice Kerexu Takuá Silva de Oliveira Martins considera que começou sua estrada de militante aos 12 anos, acompanhando o pai em reuniões do Orçamento Participativo. Por isso, ela afirma que 32 dos seus 44 anos têm sido marcados pela militância. No caminho da luta popular que ela seguiu nos anos seguintes, reconhecendo-se como uma mulher indígena guarani que vive no meio urbano, conta que enfrentou muita resistência, mas também momentos de fortalecimento em espaços coletivos, sobretudo ao lado das suas parentas (como ela se refere a outras mulheres indígenas).
Liderança indígena com atuação reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), Alice atua como especialista na construção de pontes entre comunidades tradicionais, sociedade civil e gestão pública. Estudante de Pedagogia da UFRGS, poeta e escritora, ela atua como Conselheira de Cultura e é fundadora da comissão no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Coepir).
Há sete anos coordena o Centro de Referência Indígena do RS. A retomada do prédio na Rua Comendador Batista, 26, na Cidade Baixa, oferece um local de escuta e mobilização permanente a indígenas e quilombolas, além de ser um marcador territorial de resistência e espiritualidade. Desde 2024, também é um espaço reconhecido pelo Ministério da Cultura como Pontão de Cultura, o primeiro indígena do Rio Grande do Sul.
Nessa entrevista ao Sul21, alusiva ao Dia Internacional dos Povos Indígenas pela ONU, ela comenta o impacto de ser a primeira mulher guarani no Brasil a receber o título de cacica.
A entrevista é de Fernanda Bastos, publicada por Sul21, 09-08-2026.
Eis a entrevista.
A senhora foi a primeira Cacica Guarani reconhecida no Brasil. De que forma esse reconhecimento tem contribuído para o seu ativismo e das comunidades que representa?
Sempre quando fazemos uma luta é para existir, enquanto corpo-território indígena, preciso todos os dias mostrar que existo. Preciso gritar. Se a gente não gritar, eles passam por cima de nós. Eles nos matam, continuam nos matando diariamente. Então, eu não tinha essa pretensão, ainda mais no contexto em que vivo da cidade. Minhas lutas não são só pelos indígenas que estão na cidade, caminham junto com as das mulheres indígenas que estão nas zonas rurais, nas aldeias, trazendo a visibilidade também a elas e para a questão, em geral, da venda da arte ancestral, do artesanato.
Camaquã tem três aldeias e em uma delas vive minha comadre. Em 2019, estava aqui no território comigo e disse assim: “Tu é cacica da cidade. Porque estás sempre caminhando junto e buscando algo para nós também”. Então recebi delas uma tiara, porque não são todas as etnias que usam o cocar. Recebi essa benção. E, depois, em 2021, recebi também uma homenagem muito linda, dentro de um terreiro de Umbanda que tinha sido solicitado pelo cacique daquele terreiro. E houve uma cerimônia de coroação solicitada pelos meus ancestrais.
E eu dizia assim: “Nossa, mas esse negócio de ser cacica vai me trazer muitas mais complicações do que eu já tenho. Porque eu já era uma pessoa muito perseguida em função de toda a militância e de toda a luta que faço. Mas graças aos ancestrais e a quem me que rege, isso só colaborou para o protagonismo e o fortalecimento dessa luta coletiva cada vez mais ir se espalhando. E indígenas que estão na cidade, que nunca viveram num contexto de aldeia me procuraram para saber como é que a gente faz esse movimento e esse grande levante. Então, em um primeiro momento, fiquei receosa, mas depois entendi a grande responsabilidade que tenho e do que já vinha executando.
Como surgiu o Centro de Referência Indígena e como ele tem atuado?
O indígena que está na cidade está vivendo dentro do preconceito e com vários direitos sendo retirados. Porque dizem que o indígena que está na cidade ou aquele que está na aldeia que usa celular, que usa carro, já não é mais indígena. Você já deve ter ouvido falar sobre isso, quantas polêmicas, quantas coisas que enfrentamos. Então vimos a necessidade de organizar um movimento que acolhesse esses indígenas que estão em vários lugares. E não é acolhimento de casa.
É acolher na sua totalidade, fazer discussão de retomadas de territórios étnicos. Então pensamos: como ter um centro de referência? Como que se daria isso? O Estado não iria fazer isso para nós. E o Município menos ainda. Então fizemos uma grande ocupação em 2019, uma grande retomada e levante de buscar o que era invisibilizado e negado a esses corpos indígenas. Conseguimos, nesse mesmo movimento, fazer essa retomada trazendo as parentas que estavam nas aldeias, na zona rural. São muitas demandas. No mesmo momento em que a gente tem demandas para os indígenas que estão na cidade, também conseguimos dar visibilidade para as mulheres das aldeias que querem estar junto e fazer esse movimento também.
Porque elas também não tem visibilidade. A principal demanda delas era a insegurança alimentar e a não valorização da venda do artesanato. Quando vamos ao Centro da cidade ou na Redenção, tem as parentas vendendo sempre artesanatos com seus filhos.
Em junho chamou a atenção um protesto pela mudança de local de comércio da Rua dos Andradas para a Avenida Borges de Medeiros após a Prefeitura concluir a revitalização da região.
Eu falo artesanato, porque vocês falam. Para mim, é arte ancestral Guarani Mbya. E tem um decreto que protege as mulheres indígenas Guarani Mbya, que fazem isso há muito tempo, de ofertar o artesanato, na volta do Mercado Público, na Andradas e na Redenção. Então esse decreto não está sendo cumprido. E quando acontece esse processo de revitalização do Centro Histórico, novamente é uma forma de exclusão.
Porque levar para a Borges não vai funcionar. É mais uma maneira de violação e violência. É violência e violação contra esses corpos que dali nunca saíram. Uma anciã me disse uma vez: ficamos na volta do Mercado Público porque antes, quando nem era Mercado Público, as mulheres Guarani Mbya já faziam troca lá.
E como está a defesa das culturas e da visibilidade pelo Levante Indígena Urbano do Rio Grande do Sul?
O Levante Indígena Urbano do Rio Grande do Sul tem cumprido um papel importante ao evidenciar que os povos indígenas também vivem nas cidades e que seus direitos não se restringem aos territórios tradicionalmente demarcados. Nossa atuação busca enfrentar o apagamento histórico da presença indígena nos espaços urbanos, fortalecendo a identidade, a cultura, a participação política e o acesso às políticas públicas. Defender a cultura indígena hoje também significa disputar narrativas, combater o racismo estrutural e garantir que os povos originários sejam reconhecidos como sujeitos de direitos em qualquer território onde estejam.
Na sua avaliação, nessas eleições, quais devem ser os temas prioritários para os brasileiros?
As eleições precisam recolocar no centro do debate o compromisso com a democracia, os direitos humanos e a Constituição Federal. É indispensável que candidatas e candidatos apresentem propostas concretas para a proteção dos territórios indígenas, o enfrentamento da crise climática, a segurança alimentar, a saúde e a educação intercultural, além do combate ao racismo e às desigualdades sociais. Também é essencial fortalecer mecanismos de participação social, respeitar a Convenção nº 169 da OIT, garantindo a consulta prévia, livre e informada, e assegurar que os povos indígenas participem da formulação das políticas públicas que impactam diretamente seus territórios e modos de vida. O fortalecimento da democracia passa necessariamente pelo reconhecimento dos povos originários como protagonistas na construção do futuro do país.
Como avalia o cumprimento da Lei nº 11.645/2008, de obrigatoriedade do ensino da cultura indígena em todo o país, mas especialmente na região Sul, onde nasceu?
A Lei nº 11.645 representa uma conquista histórica, mas sua implementação ainda está muito distante do que foi proposto. Em grande parte do país, e especialmente na região Sul, ainda predominam abordagens superficiais e estereotipadas sobre os povos indígenas. A educação continua reproduzindo uma narrativa colonial que invisibiliza a diversidade dos povos originários e suas contribuições para a formação do Brasil. É fundamental que a lei seja acompanhada de investimento em formação de professores, produção de materiais elaborados com protagonismo indígena e participação efetiva das comunidades na construção dos currículos escolares.
É possível pensar em uma unidade de lutas indígenas no Brasil? Como está a luta indígena na região Sul e de que forma ela tem se conectado com as pautas de povos vinculados a outros estados brasileiros?
A diversidade dos povos indígenas é enorme, mas existe uma unidade construída em torno da defesa dos direitos constitucionais, dos territórios, da autodeterminação e do bem viver. No Sul, os povos enfrentam desafios específicos relacionados à disputa territorial, ao racismo institucional e à invisibilização histórica, mas essas lutas dialogam diretamente com as agendas nacionais conduzidas pelo movimento indígena. Hoje há uma articulação cada vez maior entre organizações de diferentes regiões para enfrentar ameaças comuns, fortalecer mecanismos de consulta prévia, livre e informada, defender os direitos territoriais e ampliar a participação indígena nos espaços de decisão política.
Leia mais
- Câmara faz ofensiva contra direitos indígenas em meio a julgamento decisivo sobre demarcações no STF
- Julgamento no STF pode consolidar “grave esvaziamento” dos direitos territoriais indígenas
- PEC do Marco Temporal reacende reação de organizações indígenas no Congresso
- Marco temporal é continuidade dos crimes da ditadura militar, afirma relator da ONU
- Indígenas Munduruku liberam rodovia BR-163 após duas semanas de protestos no Pará
- Marco temporal: Câmara de Conciliação do STF atropela Direitos Indígenas
- Para substituir Marco Temporal, Gilmar Mendes propõe mineração em terras indígenas até contra vontade dos povos
- Proposta no STF abre caminho para mineração em terras indígenas
- Povos indígenas e as ameaças pré-COP30 aos seus territórios ancestrais. Artigo de Gabriel Vilardi
- ONU recomenda ao STF prioridade no julgamento da Lei do Marco Temporal e ao governo federal urgência nas demarcações
- Sem presença indígena, STF segue com conciliação sobre marco temporal e organizações criticam falta de clareza
- Indígenas protestam em todo o país contra PEC do marco temporal