O Brasil abrirá, enfim, os olhos para a China? Artigo de Antonio Martins

Lula com Xi Jinping. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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30 Julho 2026

Pressionado por Trump, Lula inicia novo diálogo com Xi Jinping. Surge a possibilidade de uma parceria estratégica, que pode estender-se da reindustrialização à Defesa. Mas é preciso que o Brasil deixe de se comportar como nação colonizada diante de Beijing.

O artigo é de Antonio Martins, publicado por Outras Palavras, 28-07-2026.

Antonio Martins é editor de Outras Palavras.

Eis o artigo.

Poderão China e Brasil — os dois maiores e mais relevantes países do Sul Global, em seus respectivos hemisférios — estabelecer colaboração mais intensa e construir alternativas, num mundo em crise civilizatória profunda? Esta possibilidade, que tem sido desperdiçada há anos, apesar dos acenos chineses, voltou a tornar-se possível no último domingo (26/7). Acossado por pressões crescentes dos EUA, Lula tomou a iniciativa de abrir diálogo com o presidente chinês, Xi Jinping.

Ambos conversaram, ao telefone, por cerca de uma hora. Nenhum dos lados revelou o teor completo da conversa. Mas, dado o contexto em que se deu o diálogo, é possível ter esperanças de que o governo brasileiro supere, ao menos em parte, a frieza com que tem tratado as possibilidades de uma colaboração de alto nível — de governo a governo — entre Brasília e Beijing.

Significaria ir muito além da relação atual, que se dá essencialmente no terreno do comércio. Neste terreno, a China é, há mais de uma década, a principal parceira do Brasil. As trocas bilaterais entre os dois países superaram, em 2025, os 171 bilhões de dólares, com superávit de US$ 29 bi para o Brasil. Os EUA, nosso segundo maior parceiro, movimentaram US$ 82 bilhões, menos da metade. Mas por trás deste aparente sucesso, há uma assimetria.

O Brasil exporta para a China, essencialmente, bens primários — com destaque para soja, petróleo e minério de ferro. Importa produtos e serviços de alta tecnologia. O caso da soja é o mais emblemático. Metade das 180 milhões de toneladas colhidas no país — como se sabe, com ataque permanente aos biomas do Cerrado, Caatinga e Amazônia — é destinada a compradores chineses.

Nesse caso, quem determina a colonialidade da relação é a vítima — ou, melhor dizendo, suas classes dominantes. O governo chinês tem insistido há anos numa relação numa relação mais complexa e mutuamente favorável. O Brasil foi convidado por diversas vezes a participar da Iniciativa do Cinturão e Rota (“Novas Rotas da Seda”). A adesão não compromete de nenhum modo a independência do país, e abre portas para colaboração não-mercantil. Amplia as possibilidades de investimentos maciços em infraestrutura e políticas públicas.

Os chineses não estabelecem a relação por benevolência. Têm sofrido ataques alfandegários crescentes nos EUA e Europa. Temem que os mercados do Ocidente possam se fechar, em breve, a seus produtos. Querem ter alternativas no Sul Global. E se dizem abertos à colaboração de mútuo benefício.

A amplitude que este movimento poderia alcançar foi desenhada em outro artigo. Reindustrialização brasileira, com transferência de tecnologia. Ultrapassagem do modelo do agronegócio, aproveitando a experiência chinesa de estímulo às pequenas e micropropriedades. Uso de automação e IA soberana na Saúde. Desmatamento zero na Amazônia, com aproveitamento da floresta em pé, de sua biodiversidade e saberes dos povos tradicionais. Alternativa às big techs norte-americanas. Livrar as forças armadas brasileiras da dependência tecnológica diante dos EUA (navios e aviões orientados pelos radares norte-americanos…). Superação da dependência em relação ao dólar, nas transações internacionais. Etc etc etc. A agenda é ampla.

A China tem lançado sucessivos apelos a uma parceria política. O Brasil os rejeitou até agora. Em 2023, ao visitar Beijing, Lula evitou comprometer-se com a Iniciativa do Cinturão e Rota. É possível que os compromissos firmados com o então presidente dos EUA, Joe Biden, nos preparativos para as eleições brasileiras de 2022, tenham limitado seus movimentos.

O cenário agora é outro, e os atos e pressões de Trump contra o Brasil podem estimular uma virada. Nas últimas semanas, o governo brasileiro permaneceu firme, diante de um novo tarifaço da Casa Branca (contrariando, por exemplo, a posição da Federação das Indústrias de São PauloFiesp –, que propunha recuos). Adotou postura ainda mais confrontativa ao não conceder vistos de entrada a dois integrantes do governo norte-americano que desejavam entrar no país para “averiguar a lisura do voto eletrônico”.

Falta ainda um passo mais decidido. Nesta segunda-feira, após o diálogo Lula-Xi ao telefone, o jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista Chinês, destacou a conversa em sua manchete central. Frisou que seu país “permanece pronto a fortalecer a coordenação estratégica com o Brasil”. A imprensa brasileira foi mais discreta e defensiva. Preferiu destacar a oposição dos dois governantes a interferências estrangeiras – como se lhes bastasse emitir declarações retóricas contra os ataques dos EUA.

Ainda assim, registrou a novidade. Acossados pelas contradições do país, e pela força das classes dominantes, a diplomacia e o governo brasileiro são muito lentos em dar-se conta do novo e suas oportunidades, na cena internacional. Em sua biografia de Getúlio Vargas, o jornalista Lira Neto relata as hesitações do então presidente diante de Hitler e Mussolini. Partidários dos dois regimes fascistas estavam presentes e atuantes no próprio ministério de Getúlio. Até que a ruptura tornou-se inevitável, em 1942, e o Brasil aliou-se aos EUA de Franklin Roosevelt, que liderava, no Ocidente, a luta contra a ultradireita.

Oxalá o telefonema de Lula indique que, assim como Getúlio em relação à Alemanha e Itália, o presidente tenha percebido que é preciso afastar-se dos EUA — e enxergue as possibilidades de uma relação autônoma e construtiva com a China.

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