Falha nas previsões: Por que o RS foi pego de surpresa por inundações mais uma vez?

Região central de Lajeado na quarta-feira (22); cidade tem o maior número de pessoas acolhidas em abrigos no estado | Foto: Prefeitura de Lajeado | Órion Filmes

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24 Julho 2026

Previsão errada e problemas em alertas prejudicaram resposta à inundação do Rio Taquari em Lajeado.

A reportagem é de Lucas Azeredo, publicada por Sul21, 23-07-2026.

Em um vídeo agora apagado das redes sociais, o governador Eduardo Leite, no final da noite de terça-feira (21), apresentava a projeção dos sistemas de alerta hidrológicos do Rio Grande do Sul. O governador dedicou sua publicação a um rio: o Taquari. Segundo Leite, as informações apontavam para a superação da cota de alerta, mas sem projeção de ultrapassar a cota de inundação. “É claro que essas informações ainda podem alterar, mas é importante mencionar que, neste momento, não há previsão de cota de inundação para o Taquari”, alertou. Nas primeiras horas da manhã de quarta-feira (22), o Vale do Taquari inundou mais uma vez.

Esse é o quarto ano consecutivo com eventos similares na região. Contudo, a mudança repentina entre previsões chamou a atenção. O Sul21 procurou especialistas do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul e a Prefeitura de Lajeado para entender: por que, mais uma vez, o Estado foi pego de surpresa com a cheia do Taquari e a inundação das cidades do Vale?

A previsão meteorológica e hidrológica é realizada por dois órgãos. O Centro de Monitoramento da Defesa Civil Estadual (CMDEC) faz a avaliação para o Governo do Estado e o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), junto com o IPH, faz uma segunda análise das duas previsões.

Em contato com a reportagem, a Defesa Civil do RS indicou que o CMDEC observou o andamento das chuvas no território gaúcho e que, no início da noite de terça, foi publicado alerta laranja para elevação do rio Taquari, no trecho de Encantado até Taquari. De acordo com as equipes do Centro, essa elevação começou a ser percebida quando modelos hidrológicos analisados pela Defesa Civil e por outros órgãos oficiais convergiam para essa tendência.

Com a persistência das chuvas nas cabeceiras da bacia do Taquari-Antas, ao final da noite e início da madrugada de quarta, identificou-se que as cotas estimadas seriam alcançadas antes do previsto pelos modelos hidrológicos. Na manhã de quarta, foram emitidos outros oito alertas para os municípios de Estrela, Muçum, Cruzeiro do Sul, Roca Sales, Santa Tereza, Lajeado, Arroio do Meio e Encantado, em razão do risco de inundação do rio Taquari. Todos os avisos foram classificados como de risco Muito Alto (Vermelho) e permaneceram vigentes até o início da manhã de quinta-feira (23).

Questionada sobre o que explicaria o sistema não ter identificado a situação de inundação antes e qual seria a diferença no planejamento caso já se soubesse que o rio Taquari iria superar a cota, a Defesa Civil do RS não respondeu até a veiculação da reportagem.

Já os professores do IPH, Fernando Meirelles e Fernando Dornelles, explicam que são duas as previsões que o IPH têm: meteorológicas e hidrológicas. As duas partes constroem a previsão do nível das águas, com uma matriz numérica sendo aplicada para cada ponto do território. “Nós partimos de um dado observado de vazão de nível de chuva”, comenta Meirelles. “Pega qualquer modelo hidrológico para eventos extremos e é assim. Assim que se calcula a elevação de um rio”.

Contudo, o professor entende que o modelo tem um “calcanhar de Aquiles” nessa projeção, que é a incerteza meteorológica. “É uma previsão e não uma certeza. Todo modelo tem um grau de incerteza”, reitera Meirelles.

A base para a previsão são os modelos alemão e estadunidense que fazem uma previsão global. A projeção meteorológica, entretanto, mudou, tanto a quanto a localização da chuva. “Aí que está a incerteza”, pontua Dornelles, que diz que essas são as duas áreas em que o sistema padece de certeza.

Dornelles explica que a previsão hidrológica não apontava chuva em duas sub-bacias da bacia Taquari-Antas, onde choveram entre 60 mm e 70 mm. “Se a chuva tivesse acontecido 50 km para o norte, poderia não ter superado a cota de inundação”, comenta o professor. Dornelles questiona qual é o aprendizado deste último evento: “será que a gente não faz alguma manipulação da previsão meteorológica para alimentar a previsão hidrológica?”.

Para Fernando Meirelles, a solução “sempre vai ser monitoramento”. “Isso é um problemaço para nós, é um problema grande para o Rio Grande do Sul”, avalia. Para ele, falta uma rede de monitoramento gaúcha para não sermos surpreendidos, demandando um grande adensamento para uma melhor cobertura.

Fernando Dornelles, do outro lado, entende que “não tem ganho muito grande” em fazer o downscale, isto é, aplicar um modelo regional de monitoramento, o que inclusive existe no Brasil. “Melhora um pouco, mas não existe uma solução em vista para se fazer uma previsão do tempo”, compreende. “O que nos resta é a gente ter menos população exposta. Deixar os rios subirem, mas não deixar que atinjam estruturas ou alguma população”, observa Dornelles.

O vice-prefeito de Lajeado, Guilherme Cé (Novo), entretanto, afirma que houve erro dos sistemas de previsão. O vice-prefeito conta que o município “foi dormir” com uma informação que descartava a superação da cota de inundação do Taquari em Lajeado, mas diz que a equipe municipal estava achando “estranho” a certeza de descartar inundação.

Na madrugada, por volta de 1h da manhã, o Serviço Geológico Brasileiro publicou uma atualização com uma projeção de que o rio iria bater 20 metros no município por volta das 6h. Diante do novo cenário, a prefeitura de Lajeado, junto com a Defesa Civil municipal, acionou o plano de contingência.

“Claro que tu mobilizar um plano de contingência no meio da madrugada, quando as pessoas estavam contando com a ultima atualização e que os prestadores de serviços não estavam de sobreaviso, a gente teve uma dificuldade de mobilização”, avalia . Às 3h, caminhões estavam acordando os moradores das cotas de 19 a 25 metros para levá-los a abrigos. Foram 150 famílias retiradas até o fim da noite de quarta.

“Quando a gente fala de remoção de famílias, não é só as famílias. tem os pertences. Cada uma dessas retiradas é uma tarefa complexa”, explica o vice-prefeito. “Se nós tivéssemos tido uma sinalização, nós teríamos mantido as equipes mobilizadas e as pessoas informadas”.

Sobre a previsão anterior — a qual descartava a elevação do Taquari além da cota de inundação de 19 metros — e a mudança rápida de prognóstico, entende que o que houve foi “uma falha, pois haviam descartado a cheia, não considerável qualquer hipótese”. “Foi, de fato, um erro”, opina. “Passamos de uma afirmação de que não teria cheia para 25 metros [de elevação]”.

“Passado o evento, cabe aos órgãos e ao Governo do Estado, em especial, analisar qual foi a origem da falha. Tudo que os municípios pedem é maior previsibilidade do que vai acontecer, mas sabemos das dificuldades das variáveis”, diz Guilherme Cé, que destaca que o SGB, a partir da atualização da 1h da manhã, passou a publicar projeções mais certeiras.

Outro problema foram os alertas da Defesa Civil estadual. Cé descreve a atuação do órgão como “genérica” e entende que chegou atrasada. Segundo Guilherme, os alertas cell broadcast para a região — que bloqueiam todos os telefones com um informativo urgente da Defesa Civil — foram feitos às 7h da manhã, quando o rio já tinha superado a cota da inundação e o trabalho de retirada da população estava em andamento há horas.

Na avaliação da Prefeitura de Lajeado e de seu vice-prefeito, o Governo do Estado cometeu dois erros ao tentar prever uma cheia com muita antecedência e “descartar completamente” um evento na véspera, e que faltou “conservadorismo” por projetar para menos e acabar pecando pela falta. Contudo, entende que há um risco em ser conservador “em excesso”, pois, se a cada cheia as famílias forem retiradas, vai se criar um sentimento contrário à saída quando ela for realmente necessária.

“Nós precisamos que os modelos sejam aprimorados”, define Guilherme Cé. Ao longo desta quinta, o Taquari vem baixando consistentemente. entende que esse tipo de cheia, que não causa destruição de imóveis como foi em 2023 e 2024, é “comum no Vale”, com as pessoas voltadas às suas casas a medida que o rio volta ao seu lugar. “O complexo agora é a limpeza e a retomada das pessoas”, comenta o vice-prefeito.

Os próximos dias

Os próximos dias no Rio Grande do Sul devem ser de maior estabilidade no tempo. Os olhos, agora, se voltam à Porto Alegre. Fernando Dornelles, do IPH, aponta que a vazão da água do Taquari e demais bacias afetadas pelas fortes chuvas deve chegar no Guaíba no sábado.

A previsão é que o nível da água fique em torno de 2,50 e 2,70 metros na régua do Cais Mauá. Para a região do Vale do Taquari, o professor explica que em dois a três dias o rio deve retornar à sua condição normal.

Contudo, há uma nova previsão de chuvas fortes no horizonte para os dias 27 e 28. Segundo Dornelles, os modelos apontam uma projeção de 100 mm de precipitação se acumulando nas bacias, que ainda pode variar de intensidade e localização. “É a ‘grande incerteza’ da previsão meteorológica”, comenta Fernando Dornelles. Mas ele alerta que essa projeção, com o agravante dos rios que subiram e deixaram o solo encharcado, indica um potencial de causar elevação maior das águas, definindo o momento como de “atenção”.

Em razão do cenário previsto, a Defesa Civil de Porto Alegre informa que intensificou o contato com moradores das Ilhas e do Extremo Sul para orientar sobre as medidas preventivas e organizar, se necessário, o acolhimento de famílias. Também estão preparados dois abrigos de retaguarda: um no bairro Petrópolis, para atendimento às comunidades das ilhas, e outro na Restinga, destinado aos moradores da região do Extremo Sul, caso haja necessidade.

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