"Não podemos mais fingir que temos um planeta de reserva", afirma Michel Tognini, ex-astronauta da Agência Espacial Europeia

Foto: NASA | Unsplash

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24 Julho 2026

"Partimos para explorar a Lua, mas foi a Terra que descobrimos", afirma Michel Tognini, ex-astronauta da Agência Espacial Europeia em artigo publicado pelo portal We Demain, 23-07-2026. 

Foto tirada pelo astronauta William Anders, da Apollo 8, mostra a imagem da Terra vista do superfície da Lua (Foto: NASA | Wikimedia Commons)

Eis o artigo.

Frequentemente nos referimos à fotografia tirada pela tripulação da Apollo 8: uma das primeiras imagens a mostrar a Terra em sua totalidade, minúscula, isolada na imensidão do espaço negro. Pela primeira vez, a humanidade pôde contemplar seu lar comum como um todo. Um planeta sem fronteiras visíveis, sem territórios privilegiados, sem um planeta reserva. "Partimos para explorar a Lua, mas foi a Terra que descobrimos." Essa imagem deveria ter sido suficiente para nos convencer de que vivemos em um bem raro: um mundo habitável, finito e profundamente frágil.

No entanto, levamos mais meio século para perceber que essa fragilidade não era apenas cósmica. Agora, ela é climática.

A onda de calor de junho de 2026 permanecerá um marco. Não por ter sido a primeira, mas porque torna impossível qualquer forma de negação. Ela confirma que não estamos mais diante de eventos excepcionais: entramos em uma nova normalidade. Uma normalidade em que as ondas de calor estão se tornando mais frequentes, mais longas e mais intensas; em que as noites não oferecem mais alívio; em que a infraestrutura, os ecossistemas e os organismos humanos estão atingindo seus limites.

Recusamo-nos a permitir que este evento seja tratado como apenas mais um incidente relacionado com o clima, comentado por alguns dias antes de desaparecer das notícias. Toda onda de calor é um aviso. Ao banalizá-las, corremos o risco de banalizar o inaceitável.

A verdadeira questão agora é tanto política quanto climática: depois de junho de 2026, o que não nos será mais permitido continuar fazendo como antes?

Não temos mais o direito de planejar nossas cidades como se os verões de ontem ainda fossem nossa referência. Não temos mais o direito de pavimentar solos que absorvem calor e retêm água. Não temos mais o direito de adiar a adaptação de nossos edifícios, nossas escolas, nossos hospitais, nossos sistemas de transporte e nossas redes. Não temos mais o direito de considerar a água como um recurso cuja abundância é garantida.

Também não temos o direito de contrapor a adaptação à redução das emissões de gases de efeito estufa. Uma jamais substituirá a outra. Devemos, simultaneamente, limitar o aquecimento futuro e proteger as populações das consequências já presentes.

Mas, fundamentalmente, não temos mais o direito de governar o clima do século XXI com os reflexos do século XX. Nossas instituições, nossas regras orçamentárias, nossos investimentos, nossas prioridades territoriais devem agora integrar essa realidade como um fato estruturante, no mesmo nível que segurança, saúde ou educação.

O verdadeiro ponto de virada não é meteorológico. É cultural e político. Aceitar que o clima mudou não significa ceder ao catastrofismo. Significa reconhecer que nossa responsabilidade coletiva agora reside em organizar um país capaz de viver neste novo contexto, fazendo todo o possível para evitar que a situação piore.

As gerações anteriores nos legaram esta fotografia da Terra vista do espaço. Nossa geração, no entanto, recebe uma imagem diferente: a de um continente sufocando sob o calor.

A primeira nos lembrou da nossa união. A segunda nos lembra da nossa responsabilidade. Agora sabemos. E quando se sabe, continuar como antes deixa de ser uma opção.

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