Norte do RS revive drama das enchentes e expõe vulnerabilidade de famílias e produtores rurais

Foto: Diogo Zanatta/Sul21

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23 Julho 2026

Perdas na agricultura, comunidades alagadas e pontes interditadas, impactos de um dia em que choveu 70% da média prevista para todo o mês.

A reportagem é de Rosangela Borges, publicada por Sul21, 22-07-2026.

A chuva intensa que atingiu o Norte do Rio Grande do Sul nos últimos dias deixou um rastro de destruição em dezenas de municípios, interrompeu rodovias, derrubou pontes, desalojou famílias e provocou perdas expressivas na agricultura. Em Passo Fundo, principal cidade da região, dois casos simbolizam a dimensão da tragédia: uma família perdeu toda a produção de hortaliças cultivada em cinco estufas e moradores de uma ocupação convivem, há anos, com enchentes que voltaram a invadir residências.

Os efeitos do temporal se espalharam por praticamente toda a macrorregião. Marau prepara decreto de situação de emergência, Vila Maria teve uma ponte destruída, cidades registraram pessoas resgatadas pela correnteza e dezenas de comunidades ficaram isoladas.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), entre a madrugada de terça-feira (21) e a manhã de quarta-feira (22), Passo Fundo registrou 218 milímetros de chuva, cerca de 70% de todo o volume esperado para o mês de julho, estimado em 311 milímetros.

Produção destruída em poucas horas

No Loteamento Maggi De Cesaro, pertencente à zona urbana de Passo Fundo, o casal Jonatas Dutra, 38 anos, e Djessicka Pinto Arbigaus Dutra, 31, viu o trabalho de meses desaparecer em poucas horas.

Há seis anos eles produzem hortaliças, atividade que sustenta a família e os três filhos. Agora, estimam prejuízo superior a R$ 60 mil. “Perdemos toda a produção de cinco estufas. As bombas queimaram, a água contaminou as caixas d’água e toda a lavoura precisou ser descartada”, relata Djessicka.

A família mora na propriedade há quatro décadas e afirma que os prejuízos passaram a ser frequentes. “Nos últimos quatro anos nossa família teve perdas causadas pelos alagamentos. A intensidade das chuvas aumentou muito”, conta.

“Cada vez que chove, alaga tudo”

O drama também se repete dentro da cidade. Na Ocupação Pinheirinho Toledo, no bairro Petrópolis, Elisa Gonçalves de Araújo, 36 anos, já não consegue mais morar na própria casa. Mãe de três filhos, ela precisou alugar outro imóvel depois das sucessivas enchentes. “Moro no bairro há 13 anos e há pelo menos quatro anos sofremos com alagamentos. Cada vez que chove, alaga tudo”, afirma.

Ela relata que muitos moradores idosos permanecem nas casas por não terem para onde ir. “Há vizinhos que se recusam a sair porque não têm alternativa. Famílias já precisaram deixar suas casas e não receberam aluguel social nem outro tipo de apoio.”

Segundo Elisa, nove famílias vivem atualmente em situação considerada crítica na comunidade.

Falta de política habitacional

Para o advogado do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Leandro Scalabrin, as enchentes evidenciam um problema estrutural.

Segundo ele, levantamento do Serviço Geológico Brasileiro identificou, ainda em 2025, 25 áreas de risco em Passo Fundo, onde vivem aproximadamente 600 famílias. Além disso, cerca de duas mil famílias residem em ocupações que carecem de infraestrutura básica de drenagem e urbanização.

“O município conhece esse diagnóstico há anos. Em 2024, famílias foram retiradas de áreas de risco com recursos federais, mas, dois anos depois, nenhuma moradia foi construída. Também havia previsão de 240 apartamentos do Minha Casa Minha Vida, mas o projeto acabou não avançando”, afirma.

Passo Fundo registrou um dos maiores volumes de chuva da história

A Defesa Civil considera o episódio um dos maiores eventos extremos já registrados no município.

Entre segunda e terça-feira, foram contabilizados 218 milímetros de chuva em apenas 24 horas. O Rio Passo Fundo atingiu 3,59 metros e obrigou a retirada de 98 pessoas de suas residências. Ao menos 19 moradores precisaram ser acolhidos em abrigos públicos, enquanto equipes resgataram cerca de 60 animais. Onze bairros registraram ocorrências de alagamentos, entre eles Entre Rios, Vila Ipiranga, Bela Vista, Victor Issler, Santa Marta, Integração e Parque Farroupilha.

Região enfrenta destruição em diferentes municípios

Os reflexos do temporal atingiram praticamente toda a região Norte do Estado.

Marau

O município deverá decretar situação de emergência após registrar acumulados entre 200 e quase 300 milímetros de chuva. Houve alagamentos em bairros urbanos, bloqueios de estradas rurais, interdição de ponte e suspensão das aulas da rede estadual.

Vila Maria

A ponte do Rio Porongo que fica no centro da cidade, na ligação das ruas Getúlio Vargas com Santo Antônio, cedeu e está interditada. O Rio Porongo deságua no Tarimba.

Ibiraiaras

Um ônibus utilizado no transporte de trabalhadores de frigoríficos foi arrastado pela correnteza. O veículo estava vazio. Cerca de 35 residências ficaram alagadas e comunidades permaneceram isoladas.

Ciríaco

Um idoso de 86 anos foi resgatado depois que seu carro foi arrastado pela força da água. Ele permaneceu preso dentro do veículo por aproximadamente duas horas até ser salvo por moradores.

Não-Me-Toque

O transbordamento de rios interrompeu o acesso às comunidades de São José do Centro, Posse São Miguel e Bom Sucesso, obrigando moradores a utilizarem rotas alternativas.

Carazinho

A chuva provocou o desabamento de muros, alagamentos em residências e bloqueio parcial da BR-285 devido à queda de barreira.

Lagoa Vermelha

Um motorista ficou ilhado após tentar atravessar trecho alagado. O veículo foi levado pela correnteza e a vítima precisou aguardar sobre árvores até o resgate do Corpo de Bombeiros. A ponte da BR-470 permanecia interditada até a manhã desta quarta-feira.

Erechim e Nonoai

As cidades registraram quedas de postes, áreas de risco, alagamentos e mobilização das equipes de emergência para atendimento às famílias atingidas.

Emergência climática exige respostas permanentes

Os eventos desta semana reforçam um cenário que especialistas vêm alertando desde as enchentes históricas de 2024: episódios extremos deixaram de ser exceção.

Enquanto produtores contabilizam perdas, famílias tentam reconstruir suas casas e municípios decretam emergência, cresce o desafio de adaptar as cidades a um novo padrão climático, marcado por chuvas intensas, alagamentos frequentes e ocupação de áreas vulneráveis.

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