25 anos da Batalha de Gênova

Protestos de Gênova durante a cúpula do G8 na Itália. (Foto: Ares Ferrari/Wikimedia Commons)

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21 Julho 2026

A reunião do G-8, realizada em Gênova, Itália, entre 20 e 22 de julho de 2001, foi território de um dos episódios mais marcantes da história do movimento altermundialização: a “Batalha de Gênova” (1).

Foto: Contropiano. Giornale Comunista On-Line.

O artigo é de Cesar Sanson, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.

Eis o artigo.

Vinte e cinco anos atrás em Gênova travou-se uma disputa política e simbólica entre dois projetos de globalização. De um lado, a globalização neoliberal, representada pelos chefes de Estado das principais economias mundiais; de outro, um conjunto de movimentos sociais que defendia formas alternativas de organização econômica, política e social, sintetizadas no lema "Outro mundo é possível" que meses antes, no mês de janeiro, ecoou fortemente no 1º encontro do Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre-RS.

Antes mesmo do início da reunião, Gênova foi transformada em uma cidade fortemente militarizada. O centro urbano foi dividido em zonas de segurança, cercado por barreiras metálicas e submetido a rigorosos controles de circulação. Milhares de policiais e militares foram mobilizados, navios de guerra patrulhavam o litoral e aviões monitoravam o espaço aéreo. A dimensão do aparato de segurança revelava a expectativa de grandes mobilizações populares e a preocupação das autoridades italianas com possíveis confrontos.

Enquanto isso, milhares de ativistas provenientes de diversos países chegavam à cidade para participar das atividades do Fórum Social de Gênova. O encontro reunia uma ampla diversidade de organizações: sindicatos, movimentos estudantis, organizações não governamentais, grupos ambientalistas, coletivos feministas, entidades religiosas, associações de direitos humanos, movimentos de trabalhadores, organizações camponesas e representantes de diferentes correntes da esquerda internacional. A pluralidade de participantes evidenciava a constituição de uma rede internacional de contestação às políticas neoliberais e às instituições responsáveis pela governança econômica global.

Entre os grupos mais combativos, destacava-se os Tute Bianche, movimento italiano que defendia formas de enfrentamento não violento, utilizando equipamentos de proteção e estratégias de resistência física para romper os bloqueios policiais sem recorrer ao uso de armas. Paralelamente, entraram em ação também os Black Bloc, cujas ações incluíram depredação de bancos, grandes empresas e edifícios públicos, intensificando-se os confrontos.

À medida que as manifestações avançavam, os conflitos entre manifestantes e forças policiais tornavam-se cada vez mais intensos. Bombas de gás lacrimogêneo, jatos de água, balas de borracha e cargas policiais passaram a fazer parte do cotidiano das ruas de Gênova. O episódio mais dramático ocorreu em 20 de julho, quando o jovem manifestante Carlo Giuliani de 23 anos foi morto durante um confronto com a polícia. Sua morte rapidamente ganhou repercussão internacional, tornando-se o primeiro mártir antiglobalização e símbolo da violência empregada pelo Estado contra os protestos do movimento altermundialista.

Foto: Mural em Gênova

Nos dias seguintes, novos acontecimentos escalaram a crise. Assistiram-se a operações policiais consideradas desproporcionais, incluindo invasões ao centro de imprensa independente e à escola Diaz, utilizada como alojamento por manifestantes e jornalistas. As ações resultaram em dezenas de feridos, centenas de detenções e inúmeras denúncias de espancamentos, torturas, prisões arbitrárias e violações de direitos fundamentais. Posteriormente, esses acontecimentos motivaram investigações, condenações e forte repercussão internacional sobre a atuação das autoridades italianas.

Apesar da violência, as mobilizações continuaram. A grande marcha de encerramento reuniu centenas de milhares de pessoas em uma das maiores manifestações internacionais contra a globalização neoliberal até então registradas. Embora o G-8 tenha mantido sua agenda política e econômica, os protestos demonstraram a capacidade de articulação global dos movimentos sociais e conferiram grande visibilidade às críticas dirigidas às desigualdades produzidas pelo modelo econômico dominante.

A chamada "Batalha de Gênova" ultrapassou a dimensão de um confronto de rua. Ela representou um marco na consolidação do movimento altermundialista, fortalecendo redes internacionais de mobilização e aproximando organizações de diferentes países em torno de pautas comuns, como democracia, justiça social, direitos humanos, sustentabilidade ambiental e controle democrático da economia global. O episódio revelou também os limites da resposta estatal baseada na militarização e na repressão diante de movimentos sociais amplos e internacionalizados. A “Batalha de Gênova” à época consolidou-se como um símbolo da resistência à globalização neoliberal e como um ponto de inflexão na história dos movimentos sociais internacionais.

Nota

1 - O artigo toma como referência o texto “A Batalha de Gênova: Uma breve crônica” publicada pelo boletim CEPAT Informa, julho de 2001.

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