O material foi traduzido e desenvolvido pelo antropólogo Thiago Novaes
A relação de cada objeto com o ser humano é mecânica, materialista e palpável a partir da própria construção humana das coisas, mas também é construtiva por meio do que descobrimos a partir dela. A máquina não pode dominar ou controlar o ser humano, porém, isso não significa que ela seja nossa escrava. Nós as criamos, desvendamos e até mesmo conversamos com elas, falando especificamente das IAs e robôs que temos na atualidade.
Guilbert Simondon, filósofo francês pensador do século XX, era especialista em mecânica e já naquela época dizia, ao refletir sobre a técnica, que a máquina não é um autômato, ou seja, não é um dispositivo que funciona de forma autônoma.
Simondon usava a prática como um instrumento para o estudo dos objetos, sempre motivando seus alunos a explorar cada detalhe por trás do mecânico. Como professor, o filósofo ensinava crianças a arte de desmontar coisas como rádios, telefones e televisões, mostrando cada parte dos objetos técnicos e como manuseá-los.
Thiago Novaes, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), é especialista na obra do autor e explica que o exercício incentivado por Simondon "não se reduz à identificação da arquitetura técnica por trás de um objeto, mas busca refletir sobre as condições em que a técnica é desenvolvida e seus impactos socioambientais".
Tal prática de ensino é algo muito mais profundo. O exercício incentivado trazia consciência para os alunos de Simondon sobre o que estava por trás de cada funcionalidade das máquinas. Naquelas aulas, os alunos aprendiam a identificar metais de difícil acesso, como os componentes de terras raras, na qual sua extração traz prejuízos imensuráveis a natureza pelas mãos da poluição. O filósofo exemplificava como os metais podem fragilizar o ambiente e como certas situações de descarte podem ser fatais para a população.
Portanto, Simondon trazia a reflexão de que em nossa cultura a máquina não poderia ser um autômato que funciona por conta própria e logo que pare de funcionar deve ser descartada. Ao contrário, é importante reutilizá-las de alguma forma, para que possamos nos desvincular das práticas consumistas de nosso tempo.
O Instituto Humanitas Unisinos – IHU publicou um caderno especial, com três textos inéditos de Gilbert Simondon traduzidos para o português pelo antropólogo Thiago Novaes.
No artigo "Os limites do progresso humano", Simondon destaca que "se a técnica, tornada indústria, refugia-se defensivamente em uma nova feudalidade dos técnicos, pesquisadores e administradores, ela evoluirá como a linguagem e a religião, rumo ao fechamento, concentrando-se em torno de si mesma, em vez de continuar a formar com o homem um conjunto em devir".
Nessa perspectiva, o filósofo crítico a técnica que traz progresso apenas para poucos, trazendo-o apenas para si e fomentando desigualdades como a qual se desenvolveu a partir da revolução industrial e da implementação do capitalismo seguindo de uma visão elitista e neoliberal.
A partir do texto "O conhecimento da terra e ação sobre ela pelos grandes trabalhos", o pensador francês explica que "o instrumento é mediador entre o homem e o objeto; com isso, ele é com frequência esquecido, ainda que, contudo, para os objetos manipuláveis e para nossos semelhantes, ele é com frequência, mas não sempre, o que modula as possibilidades de comunicação".
Por fim, no caderno especial há um dos textos desenvolvidos por Simondon para desenvolver o curso de psicologia geral entre 1974 e 1975. Intitulado como "O homem e o Objeto", o documento não traz exatamente uma síntese geral sobre os objetos, mas esclarece que "a relação do homem com o objeto varia em função da distância que os separa; é em função então das ordens de grandeza, os aspectos de atividade, de percepção e de memória, de impacto afetivo ou de iniciativa motivacional que podem ser buscados de acordo com as eras".
Para Simondon, manusear um objeto é muito mais do que apenas usá-lo. É preciso saber sua importância principalmente na evolução de nossos tempos, em prol do bem comum, sem que haja sua movimentação baseada na ideia de consumismo mercadológico e exploração predatória.
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