17 Julho 2026
Agressões e sabotagens que incidem com mais força sobre parlamentares e candidaturas negras e de esquerda agora proliferam sem pudor também dentro da própria extrema direita.
A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 16-07-2026.
A violência política contra as mulheres no Brasil não é novidade. Em geral, ela tem cor, rosto e lado: atinge sobretudo mulheres negras e parlamentares de esquerda, que respondem pela maior parte dos quase 40% de casos registrados no país. Mas o período pré-eleitoral de 2026 escancara uma inflexão. A prática, antes denunciada quase como uma exclusividade do campo progressista, agora ganha visibilidade também dentro da extrema direita, onde episódios recentes expuseram o mesmo padrão de silenciamento e sabotagem contra figuras femininas do próprio espectro conservador.
O cenário ficou evidente após uma sequência de atritos e agressões ocorridos recentemente em Brasília. O estopim foi quando a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro relatou hostilidades nos bastidores de sua própria base, recuando temporariamente de articulações nacionais.
Na mesma semana, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) tornou-se alvo de ameaças à integridade de sua família disparadas por aliados de seu campo político ao manifestar solidariedade a Michelle. Quase simultaneamente, uma transmissão do influenciador Paulo Figueiredo desqualificou publicamente o voto das mulheres, alegando que elas “votam muito mal” e deveriam seguir seus maridos.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que as mulheres representam cerca de 53% do eleitorado ativo no país. Ou seja, são maioria entre os que votam. A distância entre essa maioria numérica e a sub-representação nos cargos eletivos não é apenas uma ironia estatística, mas a evidência de que a violência política pode estar operando como uma estratégia deliberada de esvaziamento de poder feminino.
Os episódios chamam a atenção para um fenômeno que combina intimidação, campanhas de desinformação, ameaças e tentativas de deslegitimar a presença feminina nos espaços de poder.
Na avaliação de pesquisadores, a fala de Paulo Figueiredo não representa um episódio isolado. Ela se soma a uma sequência de casos que marcaram a política brasileira nas últimas décadas: das ofensas dirigidas pelo então deputado Jair Bolsonaro à deputada Maria do Rosário (PT/RS) às campanhas de desqualificação contra Marielle Franco antes e depois de seu assassinato; dos deepfakes produzidos contra Tabata Amaral às ameaças de estupro dirigidas a deputadas estaduais de São Paulo. Em comum, todos carregam uma tentativa de reduzir a legitimidade da presença feminina nos espaços de decisão.
Paulo Figueiredo (dir.), ao lado de Flávio e Eduardo Bolsonaro em audiência com o presidente Donald Trump, dos EUA. (Foto: Casa Branca)
O cenário ajuda a explicar por que 59,6% dos brasileiros afirmam ter medo de sofrer agressões por causa de suas posições políticas, segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgada em maio. Entre as mulheres, esse percentual sobe para 65,5%. O receio tem alterado o comportamento da população: praticamente seis em cada dez brasileiros dizem evitar conversar sobre política para não se expor.
Talíria Petrone é deputada federal pelo PSOL do Rio de Janeiro e convive há anos com ameaças de morte, injúrias raciais e necessidade de proteção policial. Ela afirma que a violência política tem afastado mulheres negras dos espaços de poder e comprometido o exercício de seus mandatos. Desabafando em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, Talíria disse que nunca conseguiu “fazer política em paz”, em uma década na vida pública. “Não basta garantir o direito de votar e ser votada; é preciso garantir condições para que as mulheres permaneçam na política e exerçam seus mandatos com segurança”, pontuou a deputada.
A deputada Talíria Petrone (PSOL /RJ) convive há anos com ameaças de morte, injúrias raciais e necessidade de proteção policial. (Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados)
Mulheres sofreram 40% dos casos de violência eleitoral
Os números refletem um ambiente de crescente hostilidade. Levantamento produzido pelas organizações de direitos humanos Justiça Global e Terra de Direitos, que monitoram casos de violência política desde 2016, identificou 714 ocorrências entre novembro de 2022 e outubro de 2024, o maior registro da série histórica.
Somente durante as eleições municipais de 2024 foram contabilizados 558 episódios, entre assassinatos, atentados, ameaças, agressões físicas e ofensas. As mulheres apareceram como vítimas em quase quatro de cada dez casos (40%). A ameaça foi a forma mais frequente de violência, incluindo registros de ameaça de estupro. Boa parte dos ataques ocorreu no ambiente digital, onde a velocidade de circulação de conteúdos falsos, montagens e mensagens misóginas amplia o alcance da intimidação.
Invisibilizar para dominar
Para Miguel Papa Carnevale, coordenador do Observatório da Violência Política e Eleitoral (OVPE), grupo de pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) que acompanha o fenômeno desde 2018, existe uma diferença fundamental entre a violência dirigida aos homens e aquela destinada às mulheres.
“Os homens entre si usam violência porque se veem como adversários que precisam ser eliminados. As mulheres estão sujeitas a uma violência de apagamento, de silenciamento, de afastamento do meio político, como se não pertencessem a esse espaço.”
A cientista política Beatriz Carvalho Teixeira de Oliveira, pesquisadora do mesmo Observatório e doutoranda pela Rutgers University, afirma que esse padrão pode ser identificado em episódios que antecedem o atual ciclo eleitoral.
“O objetivo é impedir a presença de mulheres na vida pública e nos espaços de tomada de decisão”, resume.
Subordinação como projeto
Apesar de não chegar ao extremo da frase “Jamais iria estuprar você porque você não merece”, dirigida pelo então deputado federal Jair Bolsonaro à Maria do Rosário, em 2003, é possível enxergar na recente declaração de Paulo Figueiredo a mesma lógica de se tentar invisibilizar as mulheres na política.
Ao afirmar que mulheres “votam muito mal” e sugerir que as casadas tendem a escolher melhor seus candidatos porque seguem a orientação dos maridos, o influenciador e aliado de Eduardo Bolsonaro reacendeu um debate antigo: o de que a participação feminina na política dependeria da tutela masculina.
Para Carnevale, ainda que o comentário tenha sido direcionado às eleitoras, seus efeitos extrapolam o momento eleitoral e atingem todas as mulheres que ocupam – ou pretendem ocupar – espaços de poder.
“É um tipo de manifestação que retira legitimidade da participação feminina. Ela reforça a ideia de que a mulher chega à política por intermédio do marido, do pai ou de uma herança familiar, e não por mérito próprio.”
Beatriz acrescenta que esse tipo de discurso revela a dificuldade de parte da política brasileira em reconhecer a mulher como sujeito político autônomo.
“A mulher aparece como extensão da figura masculina, quando o comportamento eleitoral mostra justamente o contrário. O voto feminino tem dinâmica própria e se tornou decisivo para qualquer projeto de poder.”
Gilead da vida real
A repercussão da declaração levou muitos usuários das redes sociais a estabelecer paralelos com O Conto da Aia, romance de Margaret Atwood posteriormente adaptado para a televisão. Na obra – que se passa da ficcional República de Gilead – mulheres são privadas de autonomia política, econômica e civil e submetidas a uma rígida estrutura de poder masculina.
Embora a comparação pertença ao campo simbólico, os pesquisadores ouvidos pela reportagem observam que discursos que colocam em dúvida a capacidade de decisão das mulheres ajudam a naturalizar relações de subordinação e enfraquecem sua legitimidade como agentes políticos.
Divergências que se encontram na dor
Presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Damares Alves também condena a declaração do influenciador, mas rejeita a ideia de que ela represente o pensamento predominante entre conservadores. (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)
O avanço da hostilidade contra as mulheres na política tem provocado um fenômeno raro de convergência de diagnóstico entre figuras que ocupam lados opostos no espectro político. Sobre o tema, a senadora Damares Alves (Republicanos/DF) e a deputada Maria do Rosário (PT/RS), de seus gabinetes em Brasília conversaram com o Extra Classe.
Maria do Rosário e Damares Alves (Republicanos/DF) concordam até certo ponto sobre a vitimização de mulheres por meio de intimidação, humilhação e tentativas de silenciamento por exercerem atividade política. A convergência, porém, termina quando procuram explicar as causas desse fenômeno e identificar seus principais responsáveis.
Maria do Rosário afirma que mulheres de todos os campos políticos podem sofrer violência e reconhece que esse tipo de prática também ocorre à esquerda. A diferença, segundo ela, está na forma como cada grupo reage quando esses episódios acontecem.
“Existe violência política praticada por parlamentares e lideranças de diferentes campos políticos. Nós sabemos disso. Mas não tenho dúvida de que os partidos de esquerda procuram retirar dos seus quadros quem pratica esse tipo de violência. Já a extrema direita faz da violência política e da submissão da mulher uma plataforma.”
Na avaliação da deputada, a declaração de Paulo Figueiredo não constitui um episódio isolado, mas a manifestação de uma visão de mundo que procura reduzir a autonomia feminina e desencorajar sua participação nos espaços de poder.
“A tentativa de nos diminuir, criar uma hierarquia, nos retirar da vida pública, nos eliminar e nos humilhar em público faz parte da violência política que cresce com a extrema direita”, afirma a deputada que foi protagonista do emblemático ataque do patriarca do clã Bolsonaro há 23 anos.
Presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Damares Alves também condena a declaração do influenciador, mas rejeita a ideia de que ela represente o pensamento predominante entre conservadores.
“A declaração é absurda e eu a repudio veementemente. Ela não representa o pensamento da média do eleitorado de direita”, fala a senadora.
Damares afirma que mulheres conservadoras também convivem com ataques misóginos e relata que, recentemente, passou a ser alvo de agressões vindas de pessoas identificadas com o próprio campo político.
“Recentemente, passei a ser alvo de agressões vindas de pessoas que se dizem de direita. Ameaçar a família e a integridade de uma filha não é fazer política; é banditismo.”
A referência diz respeito às ameaças dirigidas à filha da senadora durante a crise envolvendo Michelle Bolsonaro e integrantes do entorno político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Damares tornou públicos os ataques depois que mensagens passaram a ameaçar sua família em meio às disputas internas do campo conservador.
Maria do Rosário, que é alvo há décadas intimidações, ameaças e fake news, manifesta solidariedade à senadora e defende investigação rigorosa do caso. “Essas ameaças precisam ser investigadas com toda dedicação. É impossível calar diante disso.”
A lei que ainda não alcança e o digital como trincheira
Segundo a deputada federal Maria do Rosário (PT/RS), as mulheres da extrema direita conheciam havia anos a existência da violência política de gênero, mas permaneceram em silêncio enquanto as principais vítimas pertenciam ao campo político adversário. Na imagem, de 2016, um dos vários ataques sofridos pelo então colega de Parlamento Jair Bolsonaro. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
As leituras de Maria do Rosário e Damares Alves não são necessariamente excludentes. Para Beatriz Carvalho, elas refletem dimensões distintas de um mesmo problema.
Embora mulheres de esquerda, especialmente negras, apareçam com maior frequência entre as vítimas registradas pelas pesquisas sobre violência política, isso não significa que mulheres conservadoras estejam protegidas.
“Elas (as conservadoras) também podem sofrer constrangimento, humilhação e tentativas de silenciamento por disputarem espaço em um ambiente historicamente dominado por homens.”
Maria do Rosário, contudo, faz uma ressalva. Segundo a deputada, mulheres da extrema direita conheciam havia anos a existência da violência política de gênero, mas permaneceram em silêncio enquanto as principais vítimas pertenciam ao campo político adversário.
Miguel Papa Carnevale amplia a discussão ao observar que mecanismos de exclusão das mulheres atravessam diferentes estruturas partidárias.
“A distribuição de recursos, espaço e poder frequentemente reproduz formas de apagamento das lideranças femininas. Isso acontece na esquerda e também na direita. O que varia são a intensidade, a forma como isso se manifesta e, muitas vezes, a disposição para reconhecer o problema.”
Os dados ajudam a dimensionar essa realidade. Estudo do Instituto Alziras, organização dedicada ao fortalecimento da liderança política feminina, mostra que 85% dos autores identificados em ações penais relacionadas à violência política de gênero são homens. Em seis de cada dez casos, os investigados ocupam cargos públicos — principalmente o de vereador.
As vítimas concentram-se, sobretudo, nas câmaras municipais, indicando que a violência política se manifesta com força justamente na esfera institucional mais próxima da população.
Apesar da Lei nº 14.192, de 2021, que tipificou a violência política contra a mulher, a resposta do sistema de Justiça ainda avança lentamente. Grande parte das investigações é arquivada antes mesmo de chegar aos tribunais e, segundo o levantamento do Instituto Alziras, nenhuma das ações analisadas havia resultado, até recentemente, em condenação definitiva.
Se a legislação ainda encontra dificuldades para produzir respostas efetivas, o ambiente digital tornou-se o principal acelerador dessa violência.
Redes sociais concentram campanhas de desinformação, ameaças, deepfakes, montagens e ataques misóginos capazes de destruir reputações em poucas horas e desencorajar candidaturas antes mesmo do início oficial da disputa eleitoral. Em ano de eleições, alertam os pesquisadores, essas estratégias tendem a se intensificar.
Mais do que proteger parlamentares ou candidatas individualmente, concluem os especialistas, enfrentar a violência política de gênero significa preservar a própria qualidade da democracia. Quando mulheres são intimidadas, desacreditadas ou afastadas da vida pública por sua condição de gênero, não é apenas um grupo que perde espaço: é a representação política que se torna menos plural.
Em um país onde quase 60% da população afirma evitar falar de política por medo de represálias, garantir que mulheres possam disputar eleições e exercer mandatos em condições de igualdade deixou de ser apenas uma pauta de direitos humanos. Tornou-se um dos principais desafios da democracia brasileira às vésperas das eleições de 2026.
Leia mais
- Discriminações e linguagem violenta. A política é assunto de homens. Artigo de Francesca Polizzi
- “A paridade de gênero não é um favor, é condição para a democracia existir”. Entrevista com Juliana Alice Fernandes Gonçalves
- O que ainda emperra a candidatura de mulheres?
- Combate à violência contra as mulheres: “Essa luta ainda é urgente”. Entrevista especial com Cristiani Gentil Ricordi
- Ministra da Mulher diz que há resistência para política nacional de combate à violência. Entrevista com Márcia Lopes
- O que diferencia a radicalização misógina online da cultura machista histórica no Brasil? Artigo de Letícia Cesarino
- Bolsonaro e a violência contra a mulher na política
- Terceira edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil aponta recorde de casos no ano de 2024
- Brasil registra 7 casos de violência política por dia no 1º turno
- Precisamos de uma mudança estrutural que vá além da gestão da violência de gênero
- ‘Penso em desistir todos os dias’: Violência política de gênero se agrava em período eleitoral
- A violência contra as mulheres como um teste decisivo para as democracias contemporâneas. Artigo de Márcia Lopes
- Gênero, poder e feminismo na era da internet. Entrevista com Judith Butler
- A equidade de gênero ainda está longe de chegar a um ponto de equilíbrio
- A ONU alerta que levará 300 anos para as mulheres alcançarem a igualdade
- Pesquisadoras falam sobre o futuro da sociedade brasileira a partir da equidade de gênero
- Mais que a cereja do bolo: um chamado à equidade de gênero
- O Dia Internacional da Mulher e o Índice de Desigualdade de Gênero. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
- Ausência de políticas públicas e desigualdade de gênero estão no centro do aumento dos casos de feminicídio. Entrevista especial com Fernanda Vasconcellos