11 Julho 2026
O governo japonês considera a indústria de mangá/anime a joia da coroa de sua projeção internacional e tenta protegê-la da Inteligência Artificial generativa, mas, ao mesmo tempo, mantém leis que favorecem a exploração trabalhista no setor e deixam os autores desprotegidos, tentando se apresentar como um país favorável a investimentos tecnológicos.
A informação é de Jaime Gracia e Jose A. Cano, publicada por El Salto, 09-07-2026.
Provavelmente nos últimos dois anos você leu algumas vezes a notícia que afirmava que o primeiro manga criado com inteligência artificial generativa havia revolucionado o mercado. Com vários mangas diferentes. Também deve ter se deparado com uma avalanche de memes que utilizam o estilo particular e reconhecível do Studio Ghibli, a marca do animador Hayao Miyazaki, e que já são usados para tudo: converter "em manga" uma foto de família, comentar a Copa do Mundo ou criticar o governo.
Um fenômeno que fala da morte por excesso de sucesso do imaginário do manga (o quadrinho japonês) e do anime (a animação japonesa, que industrialmente costuma bebendo do anterior). Duas peças-chave da imagem exterior e do "poder suave" da potência asiática que seu governo vem tentando proteger da pirataria há décadas e que agora enfrenta à inteligência artificial com contradições.
O Japão mais amigável à IA do mundo
Em 2025 foram aprovadas várias normas destinadas a converter o Japão no "país mais amigável do mundo para desenvolver a IA". Uma expressão extraída da Act on Promotion of Research, Development and Utilization of AI-Related Technologies (Lei de Promoção da IA), em vigor desde 1º de setembro do ano passado. Em dezembro seria a vez do Basic Plan for Artificial Intelligence (Plano Básico de IA), que se resumia em quatro linhas de atuação: adotar IA, criar IA, melhorar a confiança na IA e colaborar com a IA.
Um ambiente IA-friendly que se choca com polêmicas como o conflito do próprio governo do Japão com a OpenAI. Em outubro do ano passado, o ministro de Estado de Segurança Econômica, Minoru Kiuchi, repreendeu a empresa norte-americana por seu modelo de geração de vídeo, Sora 2, ter se alimentado de anime e manga japoneses sem permissão, e foram admitidas pressões diretas do Estado. O conflito se dissolveu em abril, quando a empresa retirou a aplicação não por nenhum motivo político, mas por sua incapacidade de torná-la rentável.
O artigo 16 da Lei de Promoção da IA, sobre a violação de direitos autorais, teria permitido a intervenção do governo nipônico. Ao mesmo tempo, sua atual Lei de Direitos Autorais possui desde 2018 um artigo que permite o uso de obras protegidas para análise de dados e mineração de textos, incluindo o treinamento de modelos de IA, sem necessidade de obter permissão prévia do titular dos direitos, tanto para fins comerciais quanto não comerciais.
Manga, pirataria e poder suave
Miguel Candelas, professor no Centro de Estudos de Geopolítica e Segurança (CEDEGYS) e analista especialista em geopolítica e propaganda, explica que parte da reação do governo japonês pode ser entendida como "a necessidade de proteger a joia da coroa do 'soft power' que vem desenvolvendo nos últimos anos. O próprio Estado japonês define o manganime como um 'tesouro cultural insubstituível' que deve ser preservado e protegido".
Candelas explica que o Japão é um dos países que melhor compreendeu o surgimento da "diplomacia pública" no século XXI que, graças à globalização e às novas tecnologias, permite a expansão das indústrias culturais e das redes sociais, "converte cidadãos estrangeiros em 'fãs' do próprio país e exército de embaixadores e propagandistas involuntários".
É aí que se situa a Cool Japan Strategy, aprovada em 2010, plano governamental nipônico com participação público-privada destinado a impulsionar a indústria do manga e do anime, assim como a gastronomia, a música, os videogames ou o patrimônio histórico. Para o analista, "um verdadeiro sucesso, que conseguiu que milhares de jovens de todo o mundo estudem japonês ou participem em programas de intercâmbio de todo tipo".
É aí que se enquadram polêmicas como as do Sora 2 ou determinadas atuações contra a pirataria. O sucesso da diplomacia do manganime é tal que seus designs são quase a forma de consumir certo tipo de imagens por padrão na internet — algo que se vê, por exemplo, com os memes de Ghibli —, o que prolifera em última instância em mais pirataria.
O crítico, divulgador e especialista em cultura japonesa Oriol Estrada aponta que em outros países a pirataria está relativamente normalizada, enquanto no Japão é vista como "uma autêntica praga". Apesar de ser precisamente a IA que facilita essa pirataria, por exemplo via traduções, são várias as ferramentas de inteligência artificial que o governo japonês ou as editoras estão utilizando para detectar sites piratas.
Ao mesmo tempo, as próprias empresas veem a IA como a resposta a uma necessidade estratégica: "Querem fazer chegar o mais rápido possível suas obras ao mercado internacional, e parece que acreditam que a tradução automática com IA é a resposta às suas necessidades", explica Estrada.
O próprio governo japonês quer aplicá-la no lançamento de um portal digital, em colaboração com as principais empresas da indústria do manga, a partir do qual seriam difundidas as obras mais populares — uma espécie de "Netflix do manga" ou versão literária da plataforma Crunchyroll, a maior especializada em anime.
Precariedade dos artistas no Japão
Onde Estrada vê mais difícil que ocorra um desdobramento da IA generativa imediato ou em médio prazo é na autoria em si das histórias: "Agora mesmo não está tendo um grande impacto além de obras anedóticas ou experimentos". Isso sim, alguns mangakas "já expressaram que percebem a IA como uma ferramenta que pode substituir os trabalhos mais rotineiros e mecânicos, ou seja, aqueles que muitas vezes ficam a cargo dos assistentes e não do autor principal. Portanto, é possível que em breve vejamos autores que fazem uma parte do trabalho com um agente de IA treinado com seus próprios desenhos".
Megumi Morisaki, diretora representante da associação Arts Workers Japan, que agrupa profissionais de diferentes âmbitos do manga e da ilustração entre outras especialidades, confirmou que estão constatando que "a IA já está afetando os artistas e criadores, tanto econômica quanto profissionalmente".
A autora deixa claro que, para sua organização, a IA em si mesma não é necessariamente o problema e que pode ser "útil como ferramenta sob regras justas". Sua crítica é que ela vem tornar mais precário um setor já de por si desigual. No Japão, acrescenta, "muitos artistas, ilustradores, mangakas e outros criadores trabalham como autônomos ou em condições instáveis".
A preocupação no setor "não é apenas que a IA possa substituir parte do trabalho, mas também que o valor do trabalho criativo humano diminua e os contratos se tornem mais desfavoráveis, com os artistas individuais sem poder de negociação frente às empresas ou plataformas que utilizam IA", aponta Morisaki.
A Arts Workers Japan pede uma regulação "mais clara e com maior transparência". Por exemplo, acreditam que a Lei de Promoção da IA tem boas intenções, mas não contempla sanções efetivas às suas infrações dos direitos de autoria.
Para Morisaki, o tema central é que "o desenvolvimento tecnológico não deve ser construído sobre o trabalho não remunerado e invisível dos artistas e criadores. A política de IA deveria proteger não só a inovação, mas também as pessoas cujo trabalho torna a cultura possível".
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