"Mais mulheres dentro da Igreja; é preciso pôr um fim à época de abusos, escravidão e violências". Entrevista com Nathalie Becquart

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30 Junho 2026

Leão busca pôr um fim à disparidade de gênero na Igreja. "Uma mulher pode exercer responsabilidades com competência, fé e liberdade interior", afirma a Irmã Nathalie Becquart, Subsecretária do Sínodo dos Bispos, a primeira mulher na história com direito a voto na assembleia episcopal. Ontem, ela foi agraciada no Coliseu com o "Prêmio da Paz Bellisario 2026", como "mulher que faz a diferença", e recebida no Palácio do Governo por Sergio Mattarella. E acrescenta: "Devemos encontrar formas de enfrentar e viver a alteridade e a diferença entre homens e mulheres, de uma maneira distinta do modelo patriarcal de dominação masculina sobre o feminino. Como filhos e filhas de Deus, somos iguais, porém diferentes. Trabalhar juntos resulta em uma governança melhor. É uma jornada de conversão e reconciliação entre homens e mulheres dentro da Igreja".

A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 28-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Leão dá continuidade à reforma de Francisco, visando uma Cúria cada vez mais feminina. O que isso comporta na prática?

O que a Igreja vive repercute muito além de seus próprios muros. A participação das mulheres nos processos de tomada de decisão é crucial para a construção de uma sociedade mais justa e reconciliada. Muitos estudos mostram que a chave para uma paz duradoura é o envolvimento das mulheres nos processos de construção da paz. As mulheres não querem a guerra! Quando uma instituição tão antiga e estruturada como a Igreja avança nesse caminho, envia um sinal à sociedade como um todo: os obstáculos à plena participação das mulheres não são uma fatalidade, mas barreiras culturais que precisam ser superadas. É uma mensagem de esperança para todas as mulheres que ainda buscam o seu lugar de direito na Igreja e no mundo. E é também uma boa notícia para os homens que não têm nada a perder, muito pelo contrário, colaboram com as mulheres a serviço da paz e do bem comum.

Como se pode hoje realmente fazer a diferença no Vaticano?

Não se trata de impor uma visão feminina em oposição a uma masculina, mas sim de dedicar minha voz, experiência e carisma a uma missão compartilhada. O desafio dentro da Igreja, assim como em todas as instituições, é caminharmos juntos, homens e mulheres, em escuta e respeito mútuos. O Sínodo lançou um apelo urgente para envolver as mulheres ainda mais nos processos de tomada de decisão e nas responsabilidades. Isso significa implementar processos que permitam o exercício da corresponsabilidade entre homens e mulheres em um mundo complexo como o nosso. Ao reunir diferentes perspectivas, podemos analisar melhor as situações. E, dessa forma, enfrentamos melhor os desafios comuns.

Que tipo de líder é Leão?

Ele há muito tempo tem o hábito de trabalhar com as mulheres, particularmente em sua diocese de Chiclayo. Hoje, a tarefa é reconhecer que todos os batizados, homens e mulheres, são chamados a contribuir juntos, em espírito de reciprocidade, para a vida e a missão da Igreja. Isso implica uma participação mais ampla das mulheres nos processos de discernimento eclesial e em todas as fases dos processos de decisão. Significa maior acesso a cargos de responsabilidade também nas dioceses e nas instituições eclesiásticas, incluindo seminários, institutos religiosos e faculdades de teologia. E em outros lugares.

Sinal do método de engajamento de Prevost?

É o caminho indicado na encíclica Magnifica Humanitas. Compartilhamos a responsabilidade de traçar os caminhos necessários para preservar essa humanidade magnífica. Diante das imensas questões e dos riscos impostos pela IA e pelas mudanças climáticas, a resposta reside no discernimento comunitário que deve envolver tanto as mulheres quanto os homens. Fazer a diferença significa trabalhar para essa implementação, que está a serviço do diálogo e da paz. Significa contribuir para uma Igreja que aprende a caminhar valendo-se de todos os dons concedidos a cada pessoa, sem distinção do sexo. Significa incentivar outras mulheres, especialmente as mais jovens, por meio de um estilo colaborativo baseado na escuta e no diálogo. Estilo-cooperação.

Cada vez mais mulheres estão assumindo papéis-chave no Vaticano.

É um sinal forte. Mostra que a Igreja, sob o impulso dos dois últimos papas, reconhece a dignidade batismal de todas as mulheres e sua real capacidade de exercer responsabilidades de governo. A nomeação da nova Prefeita para a Comunicação junta-se às de outras mulheres que já ocupam cargos de responsabilidade no Vaticano, e é um forte sinal. Confiança autêntica nas competências e nos carismas das mulheres e fruto também de um caminho sinodal que reconheceu a experiência das mulheres na Igreja e os obstáculos culturais que ainda impediam a sua plena participação. É um passo rumo a uma Igreja mais fiel à sua vocação de amar e servir a todos.

Estamos indo para uma proporção de uma mulher para cada três pessoas na Cúria. O que muda?

É uma evolução animadora, mas o caminho continua. O desafio não é primordialmente canônico, mas cultural: transformar a mentalidades em todos os níveis da Igreja, não apenas no Vaticano, mas em cada diocese. A questão do lugar da mulher na Igreja e na sociedade já veio à tona: uma Igreja viva pode responder prestando atenção às reivindicações legítimas das mulheres que buscam maior justiça e igualdade. A história mostra um longo padrão de autoritarismo masculino, de submissão, de várias formas de escravidão, de abusos e violências perpetradas por homens. É daí que surgem as reivindicações por direitos e por uma maior reciprocidade entre homens e mulheres.

Que obstáculos ainda permanecem no caminho para a plena igualdade?

Continuam os esforços para combater todas as formas de discriminação e violência baseadas no gênero, conforme solicitado pelo Sínodo. Isso significa fortalecer a participação das mulheres na liderança da Igreja, implementando as oportunidades relacionadas aos papéis femininos já previstas pelo direito, particularmente onde ainda não foram concretizadas. Não há razões que impeçam as mulheres de assumir cargos de liderança na Igreja. E nada pode deter aquilo que provém do Espírito Santo. O desafio reside em estender essa dinâmica às Igrejas locais, especialmente em países e sociedades ainda fortemente dominados por uma cultura patriarcal, onde o caminho a percorrer continua sendo mais longo. Mudar a cultura é o desafio, a começar pela educação. No entanto, vemos mudanças por toda parte, com cada vez mais mulheres atuando em conselhos e em cargos de responsabilidade eclesial, e muitas mulheres pela primeira vez em funções anteriormente ocupadas por sacerdotes, como reitoras de universidades católicas, dirigentes de Cáritas diocesanas e nacionais, chanceleres, secretárias-gerais de uma conferências episcopais e diretoras de uma faculdades de teologia.

O que é o “gênio feminino”?

É uma riqueza singular que a Igreja deve acolher, sem clericalizar as mulheres nem as forçar a se encaixar em esquemas concebidos exclusivamente para os homens. A Igreja é chamada a tornar-se realmente ‘mais mulher’, assumindo o desafio de escutar e integrar as vozes e os dons das mulheres. Tanto Francisco quanto Leão experimentaram o quanto elas têm a oferecer.

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