29 Junho 2026
Um dos nossos poucos recursos diante da dor é procurar alguém para culpar, mas quando a natureza nos atinge, não temos nem mesmo o consolo de poder responsabilizar alguém.
O artigo é de Diego S. Garrocho, professor titular de Filosofia Moral na Universidade Autónoma de Madrid – UNAM, publicado por El País, 29-06-2026.
Eis o artigo.
Um dos nossos poucos recursos diante da dor é procurar alguém para culpar, mas quando a natureza nos atinge, não temos nem mesmo o consolo de poder responsabilizar alguém.
A Terra, como quase tudo que é vivo, ou como aquele anjo no poema de Rilke, pode ser terrível. Os dois terremotos que devastaram a Venezuela nos confrontam mais uma vez com um tipo de catástrofe em que a dor da perda humana é multiplicada pela injustiça agravada que o incompreensível traz consigo. Um dos poucos recursos que temos diante da dor é sempre procurar alguém para culpar, mas quando é a natureza que ataca, convulsionando como as costas de um monstro se esticando, não temos nem sequer o consolo de poder responsabilizar alguém.
É verdade que o regime bolivariano, eficiente em reprimir, torturar e perseguir, demonstra uma insuportável incapacidade de auxiliar os afetados. Mas a origem da tragédia, o epicentro da dor, coloca-nos mais uma vez diante de um desafio trágico incompreensível. A natureza ataca com uma fúria cega e uma violência contra a qual o esforço humano é inútil. E quando o sofrimento, os mortos e os desaparecidos se somam aos milhares, as pessoas não sabem a qual Deus rezar ou contra qual Deus se rebelar.
Nada na história é novo, muito menos catástrofes como esta. Em 1755, o terremoto de Lisboa devastou quase toda a cidade e ceifou a vida de quase 50 mil pessoas. O número, por mais clínico e frio que seja agora, esquece que cada uma dessas vítimas representa uma pessoa com afetos, sonhos, família, medos e alegrias. A transição do ser para o nada pode ser tão abrupta e repentina que chega a ser aterradora. A angústia daqueles que erguem os escombros com as próprias mãos é o sinal mais claro e devastador de impotência.
No século XVIII, as grandes perucas empoadas da época não só se comoveram, como também ficaram perplexas e questionadas pela inexplicável maldade da tragédia de Lisboa. Voltaire questionou a bondade de Deus e do mundo, enquanto Rousseau não hesitou em atribuir também alguma responsabilidade à humanidade. Mais tarde, Kant defenderia o estudo de um fenômeno natural através de uma ciência rigorosa da qual, infelizmente, pouco significado poderia ser extraído.
Anos, até séculos, passam, e tudo o que é fundamental permanece inalterado. De Lisboa até hoje, aprendemos a construir edifícios melhores, pisamos na Lua e até conseguimos conceber democracias funcionais, apenas para as destruir mais tarde. Infelizmente, porém, tanto então como agora, ainda não sabemos o que fazer com a dor.
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