19 Junho 2026
Enquanto os Estados negociam uma transição justa em Bonn, os combustíveis fósseis continuam sendo o pilar material que sustenta a ocupação e o genocídio na Palestina. É hora de regulamentá-los, assim como o comércio de armas é regulamentado.
O artigo é de Ana Sánchez Mera, coordenadora da Global Energy Embargo for Palestine, publicado por El Salto, 19-06-2026.
Eis o artigo.
Nas últimas duas semanas, os Estados Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) reuniram-se em Bonn para definir a agenda climática global. Encontramo-nos num momento crítico: a emergência climática torna-se cada vez mais urgente e uma transição justa que não deixe ninguém para trás é uma questão de vida ou morte para inúmeras pessoas em todo o mundo. As políticas energéticas são um ponto crucial neste processo. Mas nenhum roteiro merecerá o nome de transição justa se permitir que a energia continue a ser usada como arma.
A crise energética desencadeada pela agressão dos EUA e de Israel contra o Irã, e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz, destacaram mais uma vez a fragilidade do capitalismo baseado em combustíveis fósseis e as consequências gravíssimas de continuar tratando a energia como uma mercadoria comercial em vez de um bem comum.
A energia é fundamental para a manutenção da vida: para iluminar nossas casas, cozinhar, dessalinizar e purificar a água, abastecer hospitais e sistemas de telecomunicações. Ao mesmo tempo, o atual modelo de capitalismo fóssil, baseado no extrativismo desenfreado que prioriza o lucro corporativo em detrimento dos direitos humanos, representa uma das principais ameaças à vida em todas as suas formas.
A soberania energética é fundamental para garantir o direito à autodeterminação dos povos, um dos pilares sobre os quais se constrói o nosso sistema de governança global, e, no entanto, constatamos que a opressão energética é uma constante cada vez mais disseminada.
Falamos de opressão energética quando a energia é usada como instrumento de poder ou controle, quando são impostos “embargos energéticos”, como no caso de Cuba, e toda a população é privada do seu direito de acesso à energia como forma de pressão política, o que constitui uma clara forma de punição coletiva. Falamos também de opressão energética quando os recursos energéticos, especialmente os combustíveis fósseis, são usados para sustentar crimes de guerra ou crimes contra a humanidade, como no caso da Palestina. Israel não seria capaz de manter seu regime de colonialismo, ocupação ilegal, apartheid e genocídio sem a cumplicidade material de Estados e corporações: sem o combustível que alimenta os aviões que bombardeiam Gaza ou os tanques que invadem a Cisjordânia, sem o carvão que ilumina os assentamentos na Palestina ocupada ou eletrifica o muro do apartheid. Sem o petróleo bruto do Azerbaijão e do Cazaquistão que chega via Turquia, sem o carvão sul-africano ou sem o combustível militar dos EUA, o genocídio é materialmente impossível.
E tudo isso acontece porque uma rede logística e uma arquitetura financeira permitem que o comércio de combustíveis fósseis opere com regulamentação mínima e ainda menos transparência. Se esses recursos têm a capacidade de sustentar a vida ou destruí-la, se possuem essa dupla função, por que não são regulamentados de acordo?
Os combustíveis fósseis são um pilar fundamental da indústria militar: um não pode ser compreendido sem o outro. Sem combustível, tanques não podem devastar terras, jatos militares não podem lançar bombas; sem combustível para abastecê-los, não há guerras nem genocídios.
Na campanha "Embargo Energético para a Palestina", defendemos um novo modelo regulatório que exija que o comércio de combustíveis fósseis seja regido pela mesma estrutura do comércio de armas, com processos obrigatórios de diligência prévia e certificados de uso final para garantir que esses recursos não sejam utilizados para financiar crimes de guerra ou crimes contra a humanidade. Exigimos uma definição clara de quando os embargos energéticos constituem uma obrigação decorrente do dever de terceiros Estados de não fornecer apoio material a atos internacionalmente injustos, como o genocídio contra o povo palestino, e quando se configuram como uma forma de punição coletiva. Negar energia é negar a possibilidade de uma vida digna.
Até agora, aqueles que defenderam esses princípios foram a sociedade civil, os estivadores e as comunidades afetadas pela mineração, que não apenas lideram o caminho rumo a uma transição justa, mas também organizam ações para bloquear o fornecimento de energia para esse genocídio. Exigimos proteção para aqueles que exercem seu direito à objeção de consciência, para aqueles que estão construindo, desde a base, o que os Estados deveriam estar fazendo de cima para baixo: garantir energia para a vida, não para a guerra.
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