Em quatro anos planeta deve atingir 1,5ºC de aquecimento, alerta estudo

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11 Junho 2026

Atividades humanas elevaram temperatura global para 1,37ºC em 2025; Ritmo em que Terra acumula calor continua acelerado.

A informação é de Priscila Pacheco, publicada por Observatório do Clima, 10-06-2026. 

O ano de 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado e, se continuar no ritmo atual de aquecimento, a Terra deve atingir o limite de 1,5ºC recomendado pelo Acordo de Paris já em 2030. O alerta consta na última edição do relatório “Indicadores de Mudanças Climáticas Globais”, lançado no final da tarde desta quarta-feira (10).

O documento, que compila o que há de mais atual na ciência e nas medições climáticas em nível global, mostra que a Terra continua acumulando calor em ritmo acelerado, impulsionada pelas emissões globais de gases de efeito estufa, que atingiram novo recorde nos últimos anos: 56,8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2024 (o último ano com dados disponíveis).

De acordo com o relatório, conhecido por sua sigla em inglês ICGG, as concentrações dos três principais gases de efeito estufa – dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) – vêm aumentando desde 2019: CO₂ e metano tiveram crescimento de 3,8% cada e o óxido nitroso de 2,2%, no período.

Em 2025, as concentrações atmosféricas do CO2 atingiram 425,6 partes por milhão (ppm), o metano alcançou 1.936,3 partes por bilhão (ppb) e o óxido nitroso, 339,4 ppb.

Com isso, o orçamento de carbono remanescente – a quantidade total de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C — é estimado em apenas 130 Gt de CO₂. Caso os níveis atuais de emissões de gases estufa sejam mantidos, esse orçamento será esgotado até 2030.

“Tudo se resume a um princípio simples: estamos emitindo mais gases de efeito estufa do que nunca, causando o aumento dos níveis desses gases, que por sua vez retêm cada vez mais calor na atmosfera e desequilibram o planeta”, diz Matt Palmer, pesquisador no Met Office do Reino Unido.

A maior parte das emissões vem do uso de combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás. O desmatamento, a agropecuária e a indústria também têm uma participação relevante no problema.

Desequilíbrio energético

Piers Forster, principal autor do relatório, explica que um indicador fundamental para entender o que está acontecendo é o desequilíbrio energético da Terra, que mais do que dobrou desde a década de 1970.

O desequilíbrio ocorre porque o planeta absorve mais energia do que libera para o espaço, principalmente devido ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa, que retêm calor e alteram o balanço energético natural do planeta.

“Sem a influência humana, esse desequilíbrio deveria ser próximo de zero, mas vem crescendo desde a década de 1970 e agora está em um nível recorde”, diz Forster.

A taxa de aquecimento induzido pela ação humana permanece em nível elevado, com média de 0,27°C por década. Os anos entre 2016 e 2025, por exemplo, foram 0,32ºC mais quentes que a década anterior, entre os anos de 2006 e 2015.

“O desequilíbrio energético da Terra está crescendo rapidamente, provocando mudanças em todos os componentes do sistema climático, incluindo o aquecimento dos oceanos e continentes, o degelo do permafrost [solo permanentemente congelado], a perda de gelo e a elevação do nível do mar”, completa Karina Von Schuckmann, assessora sênior de ciência oceânica para políticas na Mercator Ocean International.

Ações insuficientes

Damon Matthews, professor do departamento de geografia, planejamento e meio ambiente da Universidade Concordia, no Canadá, critica que os esforços nacionais para a mitigação das mudanças climáticas estão falhando, pois as políticas atuais não são suficientes para limitar o aquecimento à meta principal do Acordo de Paris, bem abaixo de 2°C. O especialista lembra que há países que estão enfraquecendo as ações climáticas, caso do Canadá.

“Aqui no Canadá, o governo federal revogou ou enfraqueceu importantes políticas climáticas, ao mesmo tempo que busca acelerar a construção de novas infraestruturas de combustíveis fósseis”, afirma. O Canadá é o quarto maior produtor de petróleo do mundo. O Brasil também planeja expandir investimentos em combustíveis fósseis, apesar dos alertas científicos sobre a necessidade de reduzir rapidamente as emissões globais.

William Lamb, pesquisador sênior no Instituto Potsdam, na Alemanha, reforça que existem ações que podem barrar o aquecimento global. “A boa notícia é que já existem soluções disponíveis. Ao investir em energias renováveis ​​e eletrificação, os governos podem reduzir as emissões e, ao mesmo tempo, construir sistemas de energia mais limpos, confiáveis ​​e seguros”, argumenta.

A pesquisa, que está na quarta edição, incluiu pela primeira vez um indicador sobre ondas de calor nos oceanos. Em 2025, os oceanos registraram 65 dias de ondas de calor marinhas. Os dias de aquecimento extremo nos oceanos mais que triplicaram entre 1991 e 2025.

“As ondas de calor marinhas estão se tornando mais frequentes, em consonância com o aquecimento contínuo da superfície do oceano. Esses eventos prejudicam os ecossistemas marinhos, ameaçando a produção de alimentos, as economias e a proteção costeira. Eles também perturbam as trocas de carbono entre o oceano e a atmosfera, a acidez e os níveis de oxigênio nos oceanos, e podem intensificar eventos climáticos extremos em terra”, explica June-Yi Lee, professora no Centro de Pesquisa em Ciências Climáticas da Universidade Nacional de Pusan, na Coreia do Sul.

Ameaças em curso

No artigo, os pesquisadores alertam que o futuro dos dados utilizados está ameaçado por decisões geopolíticas e de financiamento público. Diversos programas de satélite, incluindo missões-chave dos Estados Unidos, estão em risco. Programas de dados de balões meteorológicos diminuíram em muitos países.

“Precisamos de ação e coordenação internacional concertadas para garantir a continuidade das observações climáticas. Sem isso, as avaliações futuras serão muito mais difíceis em um momento em que ações climáticas urgentes são necessárias”, diz Chris Smith, pesquisador sênior do Instituto Internacional de Análises de Sistemas Aplicados.

“Justamente quando mais precisamos monitorar o sistema terrestre, as observações e os programas globais que as coordenam estão em perigo. É imprescindível que os países aumentem urgentemente seu apoio tanto aos programas de observação da Terra quanto aos mecanismos de coordenação que os sustentam”, reforça Peter Thorne, professor de geografia física na Universidade de Maynooth, na Irlanda.

Para esta edição do IGCC, como é conhecido o relatório, contribuíram mais de 70 cientistas, de 56 instituições em 17 países.

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