O novo e inesperado mapa do Oriente Médio. Artigo de Lluís Bassets

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10 Junho 2026

Apesar das vitórias militares israelenses, a guerra está fortalecendo a posição de Teerã e alterando o equilíbrio de poder na região.

O artigo é de Lluís Bassets, jornalista espanhol, publicado por El País, 07-06-2026.

Eis o artigo.

Contrariando toda a intuição e desmentindo as vitórias militares das guerras em curso, não é Israel que está remodelando o mapa do Oriente Médio, como anunciou seu primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, mas sim a República Islâmica do Irã, graças ao seu controle do Estreito de Ormuz. Com esse controle, o Irã conseguiu desestabilizar a economia global e alterar todo o equilíbrio de poder regional. Donald Trump pretendia eliminar decisivamente a ameaça representada por um regime radical e hostil como o do Irã, entregando assim a hegemonia do Oriente Médio a uma aliança de monarquias árabes com Israel, semelhante à OTAN. Mas o cenário que começa a surgir é justamente o oposto: um Israel fortemente militarizado, porém desacreditado e isolado, e um Irã que explora a destruição para renovar suas estruturas de poder, consolidar sua ditadura e se afirmar como uma potência regional.

As guerras, sempre imprevisíveis, frequentemente trazem surpresas desagradáveis ​​para aqueles que as declaram, confiantes em sua superioridade e na inferioridade do inimigo. Isso é especialmente verdadeiro se não definiram seus objetivos ou demonstraram uma disposição leviana para alterá-los. Esse foi o caso de Trump, que cometeu inúmeros erros estratégicos, aos quais agora acrescenta uma gafe incrível nas negociações com o Irã. E esse também foi o caso de Netanyahu, o instigador da beligerância trumpiana. Aproveitando-se de guerras intermináveis ​​para manter seu governo, evadir-se da responsabilidade política pelas falhas de segurança que permitiram os ataques do Hamas e evitar processos por corrupção, ele espera adiar indefinidamente, pela força das armas, a inevitável resolução da questão palestina — essencial para que os países árabes vizinhos finalizem o reconhecimento diplomático previsto pelos Acordos de Abraão sob os auspícios de Trump.

Muito já se falou sobre o papel do primeiro-ministro na destruição do prestígio de Israel. Menos óbvio é que, na verdade, é o inimigo existencial, o Irã, que está levando a melhor. A ditadura não só não caiu como Trump e Netanyahu desejavam, como também aproveitou a destituição de sua liderança para se reorganizar e se renovar, segundo uma análise perspicaz de dois renomados acadêmicos, Vali Nasr e Narges Bajoghli.

O regime emergiu fortalecido das duas guerras de junho de 2026 e fevereiro de 2026, agora sob uma liderança mais jovem, nacionalista, pragmática e até mesmo tecnocrata. A ditadura não afrouxou seu controle repressivo, nem a hostilidade dos iranianos em relação ao regime desapareceu, mas as ameaças apocalípticas vindas de Washington e Jerusalém contribuíram para a unificação de uma população atormentada por bombardeios e ansiosa quanto ao futuro do país.

Os novos líderes, sobreviventes de duas guerras consecutivas, ativaram uma formidável arma geopolítica: o controle do Estreito de Ormuz. Eles conseguiram neutralizar o bloqueio naval imposto pela principal superpotência mundial. Sua guerra assimétrica expandiu o campo de batalha para abranger todo o Golfo Pérsico, semeando discórdia entre os aliados de Israel e os Estados Unidos. É evidente que a proteção de Washington beneficia apenas Israel e que suas bases em países árabes vizinhos não só são extremamente vulneráveis, como também tornam vulneráveis ​​aqueles que as abrigam.

Nas negociações de cessar-fogo, a nova liderança iraniana também demonstrou notável resolução estratégica diante das exigências de rendição incondicional, mantendo, ao mesmo tempo, flexibilidade suficiente para manter a comunicação aberta sem fazer concessões substanciais. O controle do Estreito de Ormuz, com ou sem pedágio, tornou-se dogma para Teerã. O mesmo se aplica ao direito a uma indústria nuclear civil, embora acompanhado de um compromisso com o limite militar. O mesmo princípio se aplica à defesa antimíssil balística, que outros países possuem. O regime também não reconhece o abandono do Hezbollah, exigido por Washington, como evidenciado por sua insistência em um cessar-fogo efetivo no Líbano para que as negociações permaneçam viáveis.

Segundo uma famosa avaliação de Henry Kissinger, feita em 2006 no início das negociações sobre o desarmamento nuclear, o regime islâmico teve que escolher entre “representar uma causa ou uma nação”. Se essas análises otimistas e recentes se confirmassem, haveria, pela primeira vez, um governo disposto a colocar os interesses nacionais acima de causas ideológicas, caminhando rumo a um “Irã moderno, forte e pacífico, capaz de se tornar um pilar de estabilidade e progresso na região”, como idealizado pelo arquiteto da abertura da China, o próprio Kissinger. Em nenhum momento o maquiavélico diplomata americano mencionou a democracia como requisito para a modernização pragmática da China e do Irã. Assim, como consequência da guerra, a teocracia revolucionária estaria se transformando em um regime nacionalista autoritário, como muitos outros na região.

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