O Super El Niño é um espelho do Brasil? sociologia, crise climática e desigualdades

Foto: Lauro Alves / Secom

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09 Junho 2026

"Se o Super El Niño é um espelho do Brasil, o que ele reflete não é apenas a força da natureza, mas decisões sociais, econômicas e políticas que se relacionam com nossas desigualdades e que também podem construir nossa capacidade de superá-las."

O artigo é de Sérgio Botton Barcellos, professor do Departamento de Ciências Sociais/CCHLA/UFPB e docente do Programa de Pós-graduação em Sociologia — UFPB.

Eis o artigo. 

Discutir o El Niño a partir da sociologia parece pertinente porque suas influências e efeitos não decorrem apenas de alterações climáticas, mas da forma como a sociedade brasileira pode produzir e distribuir recursos, solidariedade, danos ambientais, desigualdades e injustiças. O mesmo fenômeno que provocou as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, deslocando milhares de pessoas e causando prejuízos bilionários, também contribuiu para secas severas na Amazônia em 2023 e 2024, dificultando ou inviabilizando a navegação fluvial, o abastecimento de comunidades ribeirinhas e o acesso a serviços básicos. Esses efeitos não podem ser explicados apenas pela climatologia, pois estão relacionados à ocupação de áreas ecologicamente sensíveis, à insuficiência de infraestrutura urbana adequada, ao desmatamento de biomas estratégicos e às desigualdades sociais que determinam quem possui recursos para se proteger e quem permanece mais exposto às mudanças climáticas.

Assim, a proposta é iniciar uma conversa de como pela sociologia é possível compreender que enchentes, secas e ondas de calor não são apenas eventos naturais, mas processos sociais que produzem efeitos sobre a relação da sociedade com a natureza. Analisar a possibilidade concreta de que ocorra um fenômeno climático denominado Super El Niño significa analisar por que determinados grupos sociais, regiões e comunidades sofrem impactos muito maiores do que outros e como decisões econômicas e políticas tomadas ao longo de décadas tornam os eventos climáticos extremos em crises sociais de grande impacto.

O El Niño é um fenômeno climático associado ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, resultado do enfraquecimento dos ventos alísios e de alterações na Célula de Walker. No Brasil, o El Niño costuma provocar aumento das chuvas e do risco de enchentes na Região Sul, enquanto favorece secas no Norte e em partes do Nordeste. De acordo com a pesquisadora Luciana Gatti, quando esse aquecimento ultrapassa 2°C da média histórica do oceano, o fenômeno passa a ser denominado "Super El Niño" — uma versão muito mais intensa e rara do evento, capaz de amplificar significativamente seus efeitos sociais, econômicos e ambientais.

O El Niño de 2026 não deve ser tratado como um evento cíclico estatisticamente mapeável, mas como uma alteração climática severa catalisada pelo aquecimento global antropogênico. A atual "rampa de aquecimento" indica alterações térmicas entre 2,5°C e 4,0°C. Enquanto o IPCC projeta um aumento médio global de 2,8°C, a inércia térmica e a menor capacidade térmica continental resultam em um aquecimento real no Brasil de 3,5°C a 4,0°C. Os efeitos do Super El Niño tornam-se ainda mais preocupantes pois ocorrem em um planeta já mais quente, aumentando a frequência e intensidade de enchentes, secas, incêndios florestais, crises hídricas, perdas agrícolas e problemas de saúde pública.

O pesquisador George Monbiot, em artigo recente, critica o que denomina uma racionalidade econômica incapaz de reconhecer os limites biofísicos da Terra, desconsiderando a possibilidade de pontos de inflexão climática, como a savanização da Amazônia ou alterações na Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC). Em síntese, o Super El Niño traz à tona o que a sociologia ambiental a partir da ecologia política vêm argumentando há décadas: os eventos climáticos extremos não podem ser analisados separadamente dos modelos de desenvolvimento social e econômico, das emissões de carbono e das escolhas políticas dos governos.

As vertentes críticas da sociologia ambiental discutem que desastres climáticos não são eventos naturais ao acaso, pois seus efeitos são profundamente condicionados pelas estruturas sociais, econômicas e políticas. Como argumenta Ulrich Beck, os riscos ambientais na atualidade são produzidos pela própria modernização fabricada pela ação humana ao longo dos últimos séculos. Autores da ecologia política, como Enrique Leff, Vandana Shiva e Rob Nixon, mostram que os impactos ambientais não atingem todos os grupos da mesma forma, mas tendem a recair desproporcionalmente sobre populações historicamente marginalizadas. O conceito de justiça ambiental, formulado por Robert Bullard, evidencia que comunidades pobres e populações negras costumam estar mais expostas a enchentes, secas, contaminações e desastres, ao mesmo tempo em que possuem menor acesso aos recursos necessários para proteção e adaptação.

No caso brasileiro, pesquisadores como Carlos Walter Porto-Gonçalves e Henri Acselrad denominam justiça ambiental a distribuição desigual dos danos ecológicos segundo critérios de classe, raça e território. Quando um Super El Niño provoca enchentes no Sul, secas na Amazônia ou crises hídricas no Semiárido, expõe as consequências de décadas de urbanização desigual, concentração fundiária, desmatamento, ausência de planejamento territorial e exclusão social. Os eventos climáticos extremos tornam visíveis processos de racismo ambiental pelos quais determinados grupos sociais são sistematicamente mais expostos aos riscos climáticos e menos atendidos pelas políticas públicas.

E as políticas públicas?

Conforme já apontei em análise anterior, entendo que o governo federal, por meio de Lula 3, precisa abandonar a lógica predominantemente reativa que historicamente marca a gestão dos desastres ambientais no Brasil e assumir de fato política nacional de adaptação climática baseada em planejamento de longo prazo, coordenação federativa e justiça ambiental. Isso implicaria em fortalecer de fato instituições científicas e de monitoramento climático, ampliar investimentos em infraestrutura resiliente, recuperar biomas estratégicos como Amazônia e Cerrado, combater o desmatamento e as queimadas ilegais, bem como integrar as políticas ambiental, agrícola, energética, urbana e de desenvolvimento regional.

Recentemente foi anunciada a criação de uma sala de situação e de um grupo permanente de especialistas para acompanhar semanalmente a evolução do El Niño e seus possíveis impactos. A iniciativa reúne representantes do Ministério do Meio Ambiente, do CEMADEN, do INPE, de universidades e de outros órgãos federais. Junto a isso, o governo retomou a Sala de Situação sobre Incêndios Florestais, sinalizando uma tentativa de avançar em relação à lógica reativa.

Em nível regional seria necessário ampliar mecanismos de proteção social capazes de reduzir a vulnerabilidade de populações expostas às secas, enchentes e ondas de calor. Mais do que uma "super" agenda ambiental, para dar conta de um "Super El Niño" trata-se de uma política de segurança nacional, uma vez que os impactos podem comprometer a produção de alimentos, o abastecimento de água, a geração de energia e a estabilidade econômica do país. Embora o Rio Grande do Sul tenha estabelecido um acúmulo de experiência com o desastre em 2024, as projeções para o próximo trimestre de 2026 concentram os maiores riscos no Paraná.

Os governos municipais constituem a linha de frente da adaptação climática e seria necessário revisar os modelos de gestão urbana, restringir a ocupação de áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, ampliar investimentos em drenagem, saneamento e infraestrutura verde, além de fortalecer sistemas locais de alerta e resposta rápida. A capacidade dos municípios de planejar o território, proteger populações vulneráveis e construir cidades mais resilientes seria decisiva para reduzir perdas humanas, sociais e econômicas.

Diante dessa situação, nenhuma dessas medidas terá efetividade se o Brasil não conseguir pôr em prática o seu pacto federativo e superar a cultura política de tomada de decisão Garbage can (lata do lixo) que historicamente caracteriza grande parte da gestão pública nacional. A emergência climática exige políticas de Estado com coordenação permanente entre União, estados e municípios, compartilhamento de informações e definição de responsabilidades.

De acordo com Paulo Artacho (IPCC/USP), a elevação da temperatura entre 2,8ºC e até 4ºC pode ser um gatilho de instabilidade social e econômica. A possível inação dos governos irá afetar pelo menos dois pilares críticos da economia capitalista no Brasil: o agronegócio, dependente da estabilidade pluviométrica, e a segurança energética, ancorada na hidrografia. O Brasil ainda poderá enfrentar uma crise demográfica diante dos Refugiados do Clima internos, com a desertificação da região do Rio São Francisco e a transformação do Nordeste semiárido em uma zona árida inabitável.

O negacionismo ambiental e climático?

O negacionismo climático compromete a compreensão do El Niño ao dissociar seus impactos do contexto mais amplo das mudanças climáticas causadas pela sociedade. Ao apresentar eventos extremos como episódios isolados ou inevitáveis, obscurece a relação entre emissões de gases de efeito estufa, danos ambientais e vulnerabilidade social. Como demonstram Naomi Oreskes e Erik M. Conway, no livro Mercadores da Dúvida, a produção organizada da dúvida científica frequentemente atende a interesses econômicos e políticos que buscam evitar regulações ambientais e favorecer modelos de desenvolvimento intensivos predatórios.

Sob uma perspectiva sociológica, os efeitos do negacionismo vão além da esfera discursiva, produzindo consequências concretas sobre políticas públicas e capacidades institucionais. O negacionismo climático atua como um mecanismo de reprodução e ampliação das injustiças socioambientais, pois os custos da inação recaem de forma desproporcional sobre comunidades pobres, periféricas, indígenas, quilombolas e populações expostas a riscos climáticos.

E o povo o que pode fazer?

Preparar-se para um possível Super El Niño não é alarmismo. O alerta para 2026 e parte de 2027 deve ser compreendido como uma oportunidade de antecipação e planejamento. A crise climática não será enfrentada apenas por tecnologias ou obras de infraestrutura — será necessária solidariedade e construção de laços comunitários robustos, ao contrário do individualismo exacerbado estimulado pelo ideário neoliberal. Em um país marcado por profundas desigualdades, a resiliência climática dependerá tanto da preparação material quanto da capacidade de construir formas de proteção social e cooperação entre as comunidades e as instituições.

A preparação da população exige acompanhar informações de fontes públicas com base científica, conhecer os riscos específicos da região onde se vive e elaborar planos familiares de emergência. Nos municípios sujeitos a enchentes e deslizamentos é fundamental evitar a ocupação de áreas de risco e cobrar dos governos investimentos em drenagem, saneamento e prevenção de desastres. A experiência internacional mostra que comunidades organizadas respondem melhor às crises do que indivíduos isolados. Associações de bairro, cooperativas, organizações comunitárias, universidades, sindicatos e movimentos sociais podem desempenhar papel fundamental na disseminação de informações, na construção de redes de solidariedade e na pressão por políticas públicas adequadas.

A sociologia e as ciências sociais em um mundo de mudanças climáticas

O possível Super El Niño de 2026-2027 deve ser encarado não apenas como um fenômeno climático, mas como um teste da capacidade da sociedade brasileira de se adaptar a um mundo marcado pelas mudanças climáticas. Como também demonstra a sociologia ambiental, os maiores riscos não decorrem apenas das forças da natureza, mas dos danos produzidos pela sociedade por décadas de desmatamento, urbanização desordenada, desigualdades sociais e insuficiência de planejamento estatal.

Os desafios colocados pelas mudanças climáticas convidam as Ciências Sociais a avançarem em diálogos cada vez mais amplos com a ecologia, a geografia, a antropologia e as ciências da Terra. Ganha relevância o estudo das relações entre humanos e não humanos, das interdependências ecológicas e das relações interespécies a exemplo de Donna Haraway e Anna Tsing. Em um contexto de crise climática global, compreender como humanos, animais, florestas, rios, oceanos e demais formas de vida compartilham vidas em comum torna-se não apenas um desafio intelectual, mas uma necessidade prática.

Se o Super El Niño é um espelho do Brasil, o que ele reflete não é apenas a força da natureza, mas decisões sociais, econômicas e políticas que se relacionam com nossas desigualdades e que também podem construir nossa capacidade de superá-las.

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