29 Mai 2026
Lideranças afirmam que comunidades próximas ao Pedral do Lourenço foram invisibilizadas nos estudos oficiais do projeto.
A reportagem é publicada por Climainfo, 29-05-2026.
Para ribeirinhos cujas famílias vivem há gerações no Pedral do Lourenço, em Itupiranga (PA), não restam dúvidas: as obras para abrir uma nova hidrovia no rio Tocantins irão “matar o peixe e o pescador”. A hidrovia ainda afetará os 61 mil quilombolas que moram perto do rio Tocantins.
Lideranças ouvidas pela Mongabay Brasil afirmam que muitas comunidades foram classificadas como “não impactadas” e, por isso, não foram ouvidas. Outras foram invisibilizadas nos estudos, porque, de acordo com a avaliação socioambiental do projeto, 69% dos entrevistados eram do núcleo urbano de Itupiranga.
O “Lourenção” – apelido dado aos pedregosos cânions subaquáticos do rio Tocantins que chegam a atingir 80 metros de profundidade – não é apenas um meio de renda e de alimentação. É também uma rota de navegação tradicional e fonte espiritual.
O projeto de explodir o leito rochoso está sendo executado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) – o mesmo órgão que está licitando o asfaltamento da BR-319 sem licenças ambientais. A obra pretende aumentar a navegabilidade do rio Tocantins a fim de ampliar as exportações de grãos, minerais e gado.
A detonação de rochas (derrocamento) recebeu licença ambiental, embora as explosões tenham sido contestadas na Justiça. Segundo o DNIT, o campo de obras será instalado no segundo semestre, e as detonações estão previstas para 2027, relata a Agência iNFRA.
O governo, como de costume, promete rigor ambiental. Mas Ronaldo Macena, pescador e liderança comunitária, não acredita que medidas de mitigação impedirão a morte de peixes. Quando começarem as explosões, alertou, os peixes vão se esconder nas profundezas do Pedral e serão mortos. “Temos conhecimento de que esses peixes fazem isso”, e a empresa ignorou, disse.
“O Pedral do Lourenço tem uma importância extrema para a reprodução dos peixes no rio Tocantins. Em seus 40 quilômetros de extensão, muitas espécies fazem a sua reprodução ali, e existem algumas que só existem nessa região”, afirmou a advogada e integrante da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Jaqueline Damasceno, no Um Só Planeta.
Em março, ribeirinhos, pescadores artesanais e movimentos sociais protestaram contra o projeto fechando parte da Rodovia Transamazônica, informam Revista Cenarium e g1. No mesmo mês, cerca de 300 manifestantes ocuparam o prédio do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT), em Marabá (PA) contra a hidrovia.
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