29 Mai 2026
Governo tenta associar recuperação da rodovia a modelo de controle ambiental, enquanto especialistas alertam para riscos de grilagem e avanço do desmatamento na Amazônia.
A reportagem é de Karina Pinheiro, publicada por ((oeco)), 28-05-2026.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender na última quinta-feira (28) a pavimentação da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho, ao afirmar que a estrada será “ambientalmente a mais moderna do mundo”. A declaração ocorreu durante agenda no Amazonas, onde o governo federal apresentou um conjunto de medidas ambientais associadas às obras da rodovia, considerada uma das mais controversas da Amazônia.
A fala ocorre em meio ao avanço das discussões sobre a recuperação do chamado “trecho do meio” da BR-319, área de cerca de 400 quilômetros que corta uma das regiões mais preservadas da floresta amazônica e concentra preocupações de pesquisadores, organizações indígenas e ambientalistas.
Segundo Lula, a proposta do governo é combinar infraestrutura logística com controle territorial e monitoramento ambiental. O presidente afirmou que a reconstrução da estrada será acompanhada por ações de fiscalização, presença permanente do Estado e mecanismos de proteção da floresta.
O pacote anunciado prevê bases de monitoramento, fortalecimento da fiscalização ambiental, regularização fundiária e medidas de controle em uma faixa ao longo da rodovia. O governo também anunciou investimentos voltados à prevenção do desmatamento e ao combate à ocupação irregular da região.
A BR-319 se tornou prioridade política após os eventos extremos de seca registrados na Amazônia nos últimos anos, que afetaram o transporte fluvial e o abastecimento do Amazonas. Defensores da obra argumentam que a estrada é estratégica para reduzir o isolamento logístico de Manaus e garantir alternativas de transporte durante as crises climáticas.
Em análise publicada pelo Observatório do Clima, como resposta ao governo federal, organizações da sociedade civil avaliam que as medidas anunciadas chegam de forma tardia e não resolvem o risco imediato de explosão do desmatamento associado à pavimentação da rodovia. O documento aponta que a região da BR-319 já registra aumento da pressão fundiária, expansão de ramais ilegais e avanço da grilagem mesmo antes da conclusão das obras.
“O governo apresenta medidas importantes, mas elas não estão implementadas antes da pavimentação. Esse é o principal problema”, afirma a análise do Observatório do Clima. O documento destaca ainda que experiências anteriores na Amazônia mostram que a abertura e pavimentação de estradas costuma acelerar ocupações irregulares, retirada ilegal de madeira e conversão da floresta em áreas de pastagem.
O Observatório do Clima também critica o fato de o governo avançar simultaneamente com licitações e obras enquanto parte das estruturas prometidas de proteção ambiental ainda não foi implementada.
“Qualquer plano para a região precisa ser detalhado, discutido com a sociedade e formalmente protocolado para análise tanto na ação judicial que está tramitando desde 2024 quanto no processo de licenciamento ambiental em curso no Ibama. Necessita incluir claramente, também, garantia concreta de recursos para sua implementação”, afirma Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do OC.
Outro ponto de tensão envolve o licenciamento ambiental da rodovia. Organizações socioambientais questionam a viabilidade da pavimentação sem a consolidação prévia de um sistema robusto de governança territorial. Há também críticas sobre os impactos climáticos da obra e sobre os efeitos para povos indígenas e comunidades tradicionais da região.
Leia mais
- BR-319: Asfalto agora; proteção do coração da Amazônia depois
- Empresa investigada por corrupção vence edital para asfaltar a BR-319
- BR-319: a pavimentação do colapso civilizacional da Amazônia e do Brasil. Entrevista especial com Lucas Ferrante
- Aprovação de PL da Devastação e acordo do governo impulsionam projeto da BR-319
- Lula desagrada cientistas e indígenas ao anunciar obra na BR-319
- BR-319: uma rodovia para o caos climático no coração da Amazônia
- Uma BR-319 no meio do caminho
- Governo fecha acordo para construção da BR-319
- Desembargador ignora ciência e usa informação falsa para liberar obras da BR-319. Artigo de Lucas Ferrante
- A seca na Amazônia e o bioma no limite. Artigo de Lucas Ferrante
- Depredação ambiental e criação de animais confinados: a receita de bolo para produzir uma pandemia na Amazônia. Entrevista especial com Lucas Ferrante
- Rede de estradas espalha “artérias de destruição” por 41% da Amazônia brasileira
- Novas áreas para exploração de petróleo previstas para 2025 impactam nove terras indígenas na Amazônia
- Brasil precisa cortar emissões em 92% até 2035, afirma o Observatório do Clima
- 70% das queimadas no Brasil em 2024 destruíram vegetação nativa
- Incêndios e queimadas fazem da Amazônia região que mais emite carbono no planeta
- Amazônia sofreu uma perda de florestas quase equivalente ao tamanho da Colômbia, revela análise do MapBiomas
- Cidades da BR-319 concentraram 40% das queimadas no Amazonas no auge da seca
- Fumaça impõe “experimento natural” na Amazônia
- Seca na Amazônia: vazante dos rios se aproxima da pior marca histórica
- Plataforma apresenta mapa interativo com informações socioambientais sobre a rodovia BR-319
- Justiça Federal derruba liminar que suspendia licença prévia para asfaltamento da BR-319
- "Carretas com comida estão paradas na BR-319, há três dias"
- Mais uma manobra do DNIT para sua obra desastrosa na BR-319: a tentativa de ressuscitar a Licença Prévia. Artigo de Philip Martin Fearnside
- Não, presidente Lula, não queremos a BR-319. Artigo de Txai Suruí