"A crise vocacional católica no Rio Grande do Sul não pode ser compreendida apenas como diminuição de fé ou enfraquecimento moral das novas gerações. Os dados analisados indicam um fenômeno mais amplo, situado no cruzamento entre transformações sociais, mudanças familiares, pluralização religiosa, individualização das escolhas e tensões internas das instituições religiosas."
O artigo é de Ivan Tomczak Junior, Ana Raquel Telles Alves Avila e Eduardo Rafael Santos, estudantes da disciplina Fundamentos Antropológicos e Sociológicos, da Faculdade Estácio do Rio Grande do Sul.
A diminuição das vocações religiosas católicas tem sido frequentemente interpretada, no interior das próprias comunidades e instituições eclesiais, como uma crise de fé, de compromisso ou de disposição das novas gerações para assumir formas de vida marcadas pela renúncia, pela obediência e pela dedicação integral à missão religiosa. Embora tais dimensões não possam ser desconsideradas, uma leitura exclusivamente moral ou pastoral do fenômeno tende a reduzir sua complexidade. A crise vocacional não diz respeito apenas ao número menor de jovens que ingressam em seminários, conventos ou casas de formação. Ela expressa transformações mais amplas na relação entre indivíduo, instituição, família, religião e sociedade.
No Brasil, a Igreja Católica ocupou historicamente posição central na formação cultural, política e simbólica do país. Contudo, os dados censitários das últimas décadas mostram a perda gradual de sua hegemonia. O Censo Demográfico 2022 indica que os católicos apostólicos romanos passaram de 65,0% da população brasileira em 2010 para 56,7% em 2022. No mesmo período, os evangélicos passaram de 21,7% para 26,9%, enquanto os que se declararam sem religião também cresceram (IBGE, 2025). A Região Sul ainda apresenta percentual católico superior à média nacional, com 62,4%, e o Rio Grande do Sul mantém municípios de forte predominância católica, sobretudo em áreas marcadas pela imigração italiana e polonesa. Esses dados revelam uma situação paradoxal: mesmo em regiões onde o catolicismo permanece culturalmente forte, a reprodução institucional da vida religiosa enfrenta dificuldades.
Este artigo parte desse paradoxo para investigar a seguinte questão: de que modo as transformações sociais contemporâneas — especialmente a secularização, a pluralização religiosa, o individualismo e a mudança nas estruturas familiares — afetam a decisão de ingresso, permanência ou saída da vida religiosa católica no Rio Grande do Sul?
O objetivo geral é analisar a diminuição das vocações religiosas católicas como fenômeno sociológico e antropológico, compreendendo-a não apenas como problema interno da Igreja, mas como sintoma de mudanças na forma como os sujeitos constroem identidade, projeto de vida e pertencimento institucional. De modo específico, busca-se: contextualizar o cenário religioso brasileiro e gaúcho a partir dos dados do Censo 2022; caracterizar o perfil dos respondentes vinculados à vida religiosa; identificar motivações de ingresso, permanência, dúvida e saída; e discutir as tensões entre vida religiosa institucional e subjetividade moderna.
A hipótese que orienta esta análise é que a crise vocacional não pode ser explicada apenas pela perda de crença religiosa. O que os dados sugerem é um deslocamento mais complexo: a fé permanece significativa para muitos sujeitos, mas sua vivência passa a ser negociada a partir de exigências de autenticidade, realização pessoal, liberdade afetiva, saúde emocional e coerência entre vocação e projeto de vida. Nesse sentido, a crise vocacional aparece menos como desaparecimento da espiritualidade e mais como dificuldade das instituições religiosas tradicionais em dialogar com novos modos de subjetivação.
O conceito de secularização é central para compreender as mudanças contemporâneas no campo religioso. Em uma acepção clássica, associada à modernidade ocidental, a secularização aponta para a diferenciação progressiva entre religião e outras esferas sociais, como política, economia, ciência, educação e direito. Com isso, a religião deixa de organizar de modo totalizante a vida coletiva e passa a ocupar um lugar mais restrito, frequentemente associado à escolha privada, à identidade pessoal ou à pertença comunitária voluntária.
Max Weber contribui para essa reflexão ao pensar o processo de racionalização e desencantamento do mundo. O desencantamento não significa necessariamente o desaparecimento da religião, mas a perda de sua função como explicação única e incontestável da realidade. A modernidade amplia explicações científicas, burocráticas e técnicas, ao mesmo tempo em que transforma o modo como os sujeitos se relacionam com tradições religiosas herdadas (WEBER, 2004; PIERUCCI, 2003).
No caso brasileiro, a secularização assume características próprias. O catolicismo não desaparece, mas deixa gradativamente de ser uma identidade religiosa automática. A pertença católica, antes profundamente associada à família, à comunidade local e à cultura nacional, passa a competir com outras denominações religiosas, com formas não institucionais de espiritualidade e com a possibilidade de não declarar religião. Assim, mais do que uma sociedade sem religião, observa-se uma sociedade religiosamente plural, na qual o indivíduo se percebe autorizado a escolher, transitar, aderir parcialmente ou se afastar de instituições.
Essa pluralização altera também o campo das vocações. Quando a religião católica ocupava posição de maior centralidade social, a vida religiosa podia representar prestígio, mobilidade social, acesso à educação, reconhecimento comunitário e continuidade de uma tradição familiar. Em um cenário plural e individualizado, o ingresso em uma congregação ou seminário deixa de ser uma possibilidade socialmente esperada e passa a ser uma escolha altamente específica, que precisa fazer sentido para o sujeito diante de muitas outras possibilidades de vida.
A sociologia da vocação religiosa permite deslocar o olhar de uma compreensão puramente individual do chamado vocacional para uma análise das condições sociais que tornam uma vocação possível. A vocação não nasce apenas de uma experiência interior isolada. Ela é cultivada por famílias, comunidades, paróquias, escolas, movimentos juvenis, congregações e figuras de referência. Em outras palavras, há uma produção social da vocação.
Seidl (2012), ao analisar a vocação religiosa no Rio Grande do Sul, destaca a importância da reprodução familiar e comunitária na formação de quadros religiosos. Em contextos rurais ou semirrurais, marcados por forte presença católica, famílias numerosas, escolas confessionais e prestígio social da vida consagrada, a vocação podia ser compreendida como caminho possível e desejável. O chamado religioso, ainda que vivido subjetivamente, era socialmente reconhecido, incentivado e institucionalmente conduzido.
Esse cenário se altera quando a família muda de tamanho, quando as expectativas profissionais se ampliam, quando os filhos deixam de representar uma espécie de "reserva vocacional" e quando a religião deixa de ocupar o centro da sociabilidade local. A diminuição do número de filhos, a escolarização mais ampla, a mobilidade urbana, o acesso a diferentes profissões e a possibilidade de construção de projetos individuais reduzem a força dos mecanismos familiares e comunitários que, em outros períodos, contribuíam para a reprodução das vocações religiosas.
A modernidade também altera a forma como os sujeitos compreendem suas escolhas. Berger (1985) contribui para pensar a religião em uma sociedade marcada pelo pluralismo e pela necessidade de legitimação. Quando o indivíduo passa a se perceber diante de múltiplas possibilidades de vida, a adesão a uma instituição religiosa deixa de ser apenas herança e passa a depender de convencimento, experiência e sentido.
Bauman (2001), ao caracterizar a modernidade líquida, descreve um contexto no qual vínculos duradouros, identidades fixas e instituições estáveis passam a ser tensionados por relações mais flexíveis e revisáveis. Ainda que a vida religiosa católica se baseie em compromissos de longa duração e em uma gramática de entrega, renúncia e obediência, o sujeito contemporâneo tende a avaliar suas escolhas a partir da realização pessoal, do bem-estar, da autenticidade e da possibilidade de revisão de trajetórias.
Goffman (1974), por sua vez, ajuda a refletir sobre instituições que organizam intensamente a rotina, o corpo, o tempo e as relações dos indivíduos. A vida religiosa não deve ser reduzida automaticamente a uma "instituição total", pois suas formas são diversas e podem ser vividas com liberdade, fraternidade e sentido. Contudo, alguns elementos formativos — como separação parcial do mundo externo, forte controle de horários, hierarquia, disciplina da afetividade e dependência comunitária — podem aproximar certas experiências religiosas de modelos institucionais intensivos. A crise surge quando esses mecanismos, antes compreendidos como necessários à formação, passam a ser percebidos como obstáculos à construção de uma subjetividade autêntica.
A pesquisa possui caráter exploratório e abordagem quali-quantitativa. A investigação foi desenvolvida no contexto da disciplina de Fundamentos Antropológicos e Sociológicos, do curso de Psicologia da Faculdade Estácio do Rio Grande do Sul, tendo como foco a diminuição das vocações religiosas católicas no Rio Grande do Sul e suas relações com transformações socioculturais contemporâneas.
O percurso metodológico articulou três procedimentos principais: revisão bibliográfica e documental; análise de dados secundários do Censo Demográfico 2022 sobre religião; e coleta de dados empíricos com sujeitos vinculados à vida religiosa católica. A revisão bibliográfica buscou fundamentar a análise a partir de autores da sociologia da religião e da teoria social, especialmente Weber, Berger, Bauman, Goffman, Hervieu-Léger, Pierucci e Seidl.
A etapa empírica foi composta por um formulário on-line, elaborado no Google Forms, e por uma entrevista semiestruturada em profundidade com um ex-padre católico romano, atualmente reverendo anglicano. O formulário foi direcionado a três grupos: religiosos em atividade, ex-religiosos e vocacionados ou pessoas em processo de discernimento. Foram obtidas 35 respostas. Para o recorte deste artigo, foram consideradas válidas 30 respostas, correspondentes a participantes nascidos ou residentes no Rio Grande do Sul.
A amostra é de conveniência e não tem pretensão estatística representativa. Seu valor analítico está na capacidade de indicar tendências, tensões e categorias interpretativas relevantes para compreender o fenômeno. A análise dos dados combinou estatística descritiva simples, a partir da frequência de respostas, e análise temática das narrativas, com categorização dos motivos de ingresso, permanência, dúvida e saída da vida religiosa.
Por envolver trajetórias pessoais e temas sensíveis, como espiritualidade, sexualidade, saúde mental, vínculos institucionais e processos de desligamento, os dados foram tratados de forma anonimizada. As citações de respondentes foram identificadas por códigos, como R1, R2 ou E1, sem indicação de nome, congregação específica quando não necessária ou qualquer informação que permita reconhecimento individual.
Os dados do Censo Demográfico 2022 indicam que o catolicismo permanece como o maior grupo religioso do Brasil, mas em processo contínuo de retração relativa. Entre 2010 e 2022, a proporção de católicos caiu de 65,0% para 56,7% da população de 10 anos ou mais. No mesmo período, os evangélicos passaram de 21,7% para 26,9%, e os sem religião também apresentaram crescimento (IBGE, 2025).
A Região Sul aparece como a segunda grande região com maior percentual de católicos, com 62,4%, atrás apenas do Nordeste. No Rio Grande do Sul, o percentual de católicos declarados é de 60,6%, acima da média nacional. Além disso, o Censo 2022 mostra que, entre 20 municípios brasileiros nos quais os católicos superam 95% da população, 14 estão no Rio Grande do Sul, especialmente em áreas marcadas pela imigração italiana e polonesa (IBGE, 2025).
Esses dados impedem uma leitura simplista. A crise vocacional no Rio Grande do Sul não ocorre em um território de ausência católica. Ao contrário, ela aparece em um estado no qual o catolicismo ainda possui forte inscrição cultural e comunitária. A questão, portanto, não é apenas a perda numérica de fiéis, mas a transformação da capacidade de a instituição converter tradição cultural em adesão vocacional duradoura.
Do total de 35 respostas ao formulário, 30 foram consideradas válidas para o recorte do Rio Grande do Sul. A amostra incluiu participantes entre 22 e 66 anos, com predominância de pessoas acima dos 30 anos. O grupo foi composto por 13 religiosos em atividade, 13 ex-religiosos e 4 vocacionados ou pessoas em discernimento vocacional.
Quanto à origem familiar, 19 participantes declararam família predominantemente católica, 7 indicaram família parcialmente católica e 4 declararam família minimamente católica ou sem crença definida. Em relação à composição familiar, apenas um participante era filho único; 19 tinham de 1 a 3 irmãos; e 10 tinham 4 irmãos ou mais. Além disso, 13 participantes relataram histórico de vocação religiosa na família, enquanto 17 não possuíam tal histórico. Esses dados apontam para a relevância da socialização familiar, mas também indicam que a existência de vocação religiosa na família não é condição necessária para o surgimento do desejo vocacional.
Entre os 13 religiosos em atividade, observou-se que todos relataram algum tipo de acompanhamento religioso desde o início do chamado vocacional. Esse dado é relevante porque indica que a entrada na vida religiosa tende a ocorrer por mediação institucional: o chamado é percebido subjetivamente, mas precisa ser acolhido, interpretado e conduzido por figuras formativas, comunidades, diretores espirituais ou congregações.
As motivações de ingresso e permanência estiveram associadas à vida de oração, ao desejo de aprofundar a fé, ao serviço aos pobres, à vida comunitária e à possibilidade de testemunho evangélico. Nesse sentido, os religiosos ativos não aparecem como sujeitos sem conflito, mas como indivíduos que ainda encontram na instituição um lugar possível de sentido.
Ao mesmo tempo, algumas respostas revelaram tensões internas importantes. A formação foi descrita por participantes como necessitada de maior abertura, cuidado humano e atenção à afetividade:
"A formação vocacional precisa ser mais ampla e realista: cuidar da espiritualidade, mas também da sexualidade e da afetividade, preparar para lidar com as fragilidades humanas e com os desafios da vida comunitária." (R1)
"Dar mais autonomia aos religiosos jovens e abertura para realizar as coisas do jeito deles, e assim aprender com os próprios erros." (R2)
O grupo dos ex-religiosos constitui uma das partes mais significativas da pesquisa, pois permite observar não apenas a entrada, mas também os pontos de ruptura. Entre os 13 ex-religiosos válidos no recorte, 4 estiveram até 5 anos na vida religiosa, 6 permaneceram até 10 anos e 3 passaram mais de 10 anos em formação ou vida religiosa. Apenas 3 atuavam, no momento da pesquisa, em profissões relacionadas diretamente ao campo pastoral ou religioso.
As motivações iniciais de ingresso entre os ex-religiosos foram, em geral, positivas e ligadas à fé, ao serviço, ao desejo de fazer diferença na vida das pessoas, ao ideal de doação e à busca de sentido. Isso é um dado decisivo: a saída não significa que a entrada tenha sido falsa ou imatura em todos os casos. Muitos participantes reconheceram a experiência religiosa como formativa, significativa e importante para sua trajetória, mesmo após o desligamento.
Os motivos de saída foram agrupados em três categorias principais. A primeira reúne crises pessoais e institucionais, como crise de fé, crise espiritual ou existencial, busca por espiritualidade, desacordo com a doutrina ou hierarquia e perda de sentido da vida religiosa. A segunda envolve saúde mental e relacionamento, incluindo esgotamento, solidão, falta de vida comunitária e ausência de apoio dos superiores. A terceira reúne restrições e conflitos com o mundo secular, como dificuldades com o celibato, desejo de vida conjugal, vontade de experimentar outras áreas da vida, insatisfação com o trabalho pastoral e percepção de que a vocação estava restrita à administração sacramental ou patrimonial.
Os relatos indicam que a decisão de sair raramente aparece como evento isolado. Em muitos casos, ela é descrita como processo gradual, atravessado por dúvidas, amadurecimento, sofrimento e necessidade de reconstrução identitária:
"Não houve um momento ou acontecimento específico; é uma decisão que vai maturando aos poucos." (E1)
"Foi bem difícil. Momento mais difícil da minha vida. Me senti abandonado, com incerteza sobre o futuro." (E2)
As respostas também revelaram que o desligamento da vida religiosa não implica necessariamente abandono da fé. A crise vocacional pode expressar menos uma negação da espiritualidade e mais uma renegociação da forma institucional de vivê-la.
O grupo de vocacionados ou pessoas em discernimento, embora numericamente menor, ajuda a compreender as dúvidas presentes antes do ingresso institucional. Os quatro participantes declararam participação em grupos juvenis ou comunitários. As respostas sugerem que o processo vocacional contemporâneo é marcado por busca de orientação, mas também por incertezas relacionadas à efetividade da escolha religiosa diante de outras possibilidades de vida.
Os medos e desafios apontados pelos vocacionados giraram em torno da pergunta sobre o sentido da escolha: ingressar na vida religiosa seria, de fato, o caminho mais autêntico e realizador? Essa dúvida não deve ser lida apenas como fraqueza vocacional. Ela expressa um modo moderno de decidir, no qual escolhas duradouras precisam ser justificadas diante de um horizonte amplo de alternativas afetivas, profissionais, comunitárias e espirituais.
Os resultados permitem compreender a crise vocacional como crise de reprodução institucional. Isso significa que a dificuldade não está apenas em "chamar" novos membros, mas em sustentar os mecanismos sociais que historicamente tornavam a vida religiosa uma possibilidade plausível, desejável e reconhecida. A família, a paróquia, a escola confessional, os movimentos juvenis e as comunidades locais continuam importantes, mas já não possuem a mesma força normativa de décadas anteriores.
A análise dos dados confirma parcialmente a hipótese de secularização, mas exige refinamento. Não se trata simplesmente de uma sociedade que deixou de crer. Muitos participantes continuam atribuindo grande importância à fé, à espiritualidade, ao serviço e à missão. O que se altera é o modo de relação com a instituição. O indivíduo contemporâneo tende a perguntar se a instituição acolhe sua história, sua afetividade, sua saúde mental, sua liberdade e sua busca de autenticidade. Quando a instituição responde apenas com disciplina, hierarquia ou manutenção de estruturas, a ruptura se torna mais provável.
A vocação religiosa, historicamente, podia ser compreendida como continuidade de uma tradição familiar e comunitária. Em muitos contextos, ser padre, irmão, irmã ou religiosa representava honra familiar, ascensão social, estabilidade e reconhecimento. Esse modelo não desapareceu completamente, mas perdeu centralidade. A pesquisa indica que a vocação passa a ser cada vez mais vivida como projeto de vida escolhido, e não como destino herdado.
Essa mudança modifica as expectativas sobre a formação. Se a vocação é compreendida como projeto pessoal e comunitário, o sujeito espera ser escutado em sua singularidade. A formação não pode limitar-se à transmissão de regras, conteúdos doutrinais ou hábitos comunitários. Ela precisa integrar dimensões humanas, afetivas, psicológicas, espirituais, sociais e profissionais. A demanda por formação integral apareceu tanto entre religiosos ativos quanto entre ex-religiosos, indicando uma tensão interna real.
Entre os temas mais sensíveis da pesquisa estão afetividade, celibato e saúde mental. As respostas não permitem concluir que o celibato, isoladamente, seja a causa da crise vocacional. Contudo, indicam que a forma como sexualidade, afetividade e solidão são trabalhadas no processo formativo pode favorecer permanência madura ou ruptura dolorosa. O problema não está apenas na exigência de renúncia, mas na ausência de espaços seguros para elaborar conflitos, dúvidas e desejos sem medo de julgamento ou punição.
A saúde mental também aparece como eixo relevante. Esgotamento, solidão, falta de vida comunitária e ausência de apoio dos superiores foram mencionados como fatores de sofrimento. Isso sugere que a vida religiosa, quando reduzida a produtividade pastoral, administração institucional ou cumprimento formal de funções, pode perder parte de seu sentido comunitário e espiritual. A sobrecarga dos membros remanescentes, em um contexto de diminuição vocacional, tende a intensificar esse ciclo: menos vocações geram mais trabalho para os que permanecem, e mais trabalho pode gerar sofrimento, desmotivação e novas saídas.
A entrevista em profundidade com o ex-padre católico romano e atual reverendo anglicano não deve ser tomada como representação de todos os casos, mas como narrativa capaz de iluminar um aspecto importante do fenômeno: a saída da instituição não equivale necessariamente ao abandono da fé. Sua trajetória indica que a crise pode se manifestar como deslocamento de pertencimento, isto é, como busca por uma forma institucional mais coerente com a identidade, a teologia, a afetividade e o sentido de missão do sujeito.
Esse dado dialoga com a noção de secularização enquanto pluralização e desinstitucionalização parcial da experiência religiosa. O indivíduo não rompe obrigatoriamente com Deus, com a espiritualidade ou com a missão; ele pode romper com uma forma específica de organização institucional. Assim, a crise vocacional católica precisa ser analisada também como crise de confiança e de identificação com determinados modelos de Igreja.
A pesquisa permite apontar alguns caminhos de reflexão para instituições religiosas. A primeira necessidade é fortalecer processos de acompanhamento humano e espiritual que sejam contínuos, éticos e personalizados. A segunda é tratar afetividade e sexualidade de modo maduro, sem reduzi-las à repressão ou ao silêncio. A terceira é promover vida comunitária real, capaz de enfrentar a solidão e a sobrecarga. A quarta é ampliar a participação dos jovens religiosos nos processos formativos, evitando modelos excessivamente verticalizados. Por fim, a quinta é criar formas respeitosas de acompanhamento para aqueles que decidem sair, reconhecendo que o desligamento também exige cuidado e discernimento.
A crise vocacional católica no Rio Grande do Sul não pode ser compreendida apenas como diminuição de fé ou enfraquecimento moral das novas gerações. Os dados analisados indicam um fenômeno mais amplo, situado no cruzamento entre transformações sociais, mudanças familiares, pluralização religiosa, individualização das escolhas e tensões internas das instituições religiosas.
O Censo 2022 mostra que o catolicismo permanece majoritário no Brasil e especialmente expressivo no Sul, mas em processo de retração relativa. No Rio Grande do Sul, essa permanência cultural convive com a dificuldade de reprodução institucional da vida religiosa. A tradição católica ainda existe, mas já não se converte automaticamente em vocações duradouras. Isso confirma que a crise vocacional não é apenas numérica: ela diz respeito à capacidade de a instituição produzir pertencimento, sentido e confiança em um contexto de maior autonomia individual.
A análise do formulário indica que religiosos ativos ainda encontram na vida religiosa um lugar de missão, serviço e espiritualidade, mas demandam processos formativos mais humanos e abertos. Entre os ex-religiosos, as saídas se relacionam a crises pessoais e institucionais, saúde mental, solidão, conflitos com a hierarquia, dificuldades afetivas e busca por outras formas de realização. Entre vocacionados, aparecem dúvidas próprias de um contexto em que a escolha religiosa concorre com múltiplos projetos de vida.
Conclui-se que a crise vocacional é também uma crise de mediação entre instituição e subjetividade. O desafio da Igreja Católica e das congregações religiosas não é apenas "atrair jovens", mas criar condições para que a vocação seja vivida como caminho humanamente possível, espiritualmente significativo e institucionalmente saudável. Isso implica rever práticas formativas, fortalecer o acompanhamento, reconhecer a complexidade da afetividade, cuidar da saúde mental, valorizar a vida comunitária e escutar as novas formas de busca por sentido.
Como limite, destaca-se que a amostra utilizada é pequena e não representativa, composta por sujeitos acessados por redes de contato. Pesquisas futuras poderiam ampliar o número de entrevistas, comparar congregações diferentes, analisar dados históricos internos sobre entradas e saídas e investigar a diferença entre vocações masculinas e femininas no contexto gaúcho.
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Os dados empíricos utilizados neste artigo derivam de formulário on-line aplicado a religiosos, ex-religiosos e vocacionados, bem como de uma entrevista semiestruturada em profundidade realizada no contexto do trabalho extensionista. Por se tratar de material com conteúdo sensível, as respostas foram tratadas de modo anonimizado e os trechos citados foram selecionados por sua relevância analítica, sem identificação pessoal dos participantes.