Historiador da Igreja: Maria Madalena é uma "figura composta"

Foto: Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Comando Vermelho usa drones gigantes para transportar até 20 fuzis FAL ou AR-15 entre favelas no Rio

    LER MAIS
  • A encíclica do Papa Leão XIV chega em boa hora: a inteligência artificial levanta questões que só a religião pode responder

    LER MAIS
  • A preocupação aumenta com o surto de Ebola no Congo: "Está fora de controle, tememos que ultrapasse as fronteiras"

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

22 Mai 2026

A historiadora da Igreja de Bonn, Gisela Muschiol, designou a figura de Maria Madalena como uma "figura composta", moldada ao longo de séculos. Numa conferência no Dies Academicus da Universidade de Bonn, ela expôs na quarta-feira como, a partir de diversas imagens bíblicas de mulheres, foi construída uma figura entre a "humilhação e a elevação", que ainda hoje molda os estereótipos eclesiais femininos.

A reportagem é publicada por katolisch.de, 20-05-2026.

Segundo a análise de Muschiol, no Novo Testamento quatro mulheres diferentes foram, em última instância, "entrelaçadas" na figura de Maria Madalena: a pecadora que unge os pés de Jesus; Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro; outra ungidora anônima na casa de Simão; e Maria de Magdala, a primeira testemunha da Ressurreição. Enquanto as tradições da Igreja antiga e da Igreja oriental teriam mantido a diferenciação entre essas Marias, a fusão das figuras seria um fenômeno da Igreja Ocidental, afirmou Muschiol.

A reconstrução histórica

O principal responsável por essa reformulação foi, segundo Muschiol, o Papa Gregório Magno, na virada do século VI para o VII. Numa carta central de consolo, ele reuniu os traços mais importantes da Maria Madalena composta a partir das quatro Marias: a "pecadora arrependida", a "ouvinte aos pés de Jesus", a "que unge" e a "anunciadora da mensagem da Ressurreição". Gregório fundamentou isso com a "maravilhosa ordem salvífica do amor de Deus", segundo a qual "a vida deveria ser anunciada pela boca de uma mulher, já que no Paraíso a morte foi pronunciada pela boca de uma mulher".

Na Idade Média, a essas figuras marianas se acrescentaria ainda a Maria Egípcia: "uma mulher totalmente coberta por seu longo cabelo, uma prostituta convertida", explicou Muschiol. Em textos cistercienses, ela se tornaria a personificação da esperança de uma vida além da morte. Os dominicanos, por sua vez, teriam apresentado a figura de Maria Madalena para legitimar o seu ideal de contemplação e pregação — com missão missionária.

"Pecadora" por suspeita masculina

Ao mesmo tempo, contudo, a concepção de Maria Madalena como prostituta teria se consolidado. A teóloga Elisabeth Gössmann qualificou tais narrativas, segundo Muschiol, como "fruto da suspeita masculina sobre as mulheres, que só as conhece como santas ou prostitutas". Essa tipificação como "pecadora" — sem equivalente masculino — estaria presente em textos eclesiais até os dias atuais.

Ainda persistiria uma vinculação consciente entre pecado e gênero feminino. "Por sorte", afirmou a teóloga, hoje estamos em condições de desconstruir essas "atribuições e funcionalizações" historicamente sedimentadas.

Leia mais