12 Mai 2026
Um assessor do primeiro-ministro do Catar se pronuncia: "Estamos investindo cada vez mais no diálogo, mesmo que os resultados não sejam automáticos."
Qualquer que seja a solução encontrada, ela terá que levar em conta as preocupações regionais. O pequeno Catar retoma seu papel como importante mediador nas disputas do Oriente Médio e deixa claro, de imediato, que a guerra entre os EUA e Israel, de um lado, e o Irã, de outro, não pode terminar com uma solução que ignore os países do Golfo.
Estas são as palavras de Majed Al Ansari, assessor do primeiro-ministro e porta-voz do Ministro das Relações Exteriores do Catar, que na verdade são a mesma pessoa: o Sheikh Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al Thani, que atualmente está construindo sua rede diplomática nos mais altos escalões dos EUA. Al Ansari, em Milão para uma série de reuniões institucionais, enfatizou a importância do diálogo em um encontro público no ISPI, mesmo em tempos como este, quando as esperanças estão se esvaindo: "Dizer que a mediação falhou e, portanto, deve ser questionada como ferramenta, é como dizer que o paciente está morto e que precisamos desligar os aparelhos. Em vez disso, este é um excelente motivo para investir mais na mediação, mesmo que ela não produza resultados automáticos."
A entrevista é de Elena Llorente, publicada por Página|12, 12-05-2026.
Eis a entrevista.
Qual é o seu papel na crise atual? Seu envolvimento é realmente maior?
O Catar dialoga com todos, e estamos tentando usar nossa posição para encontrar pontos em comum em diversas áreas. Temos participado da coordenação regional. A mediação é liderada pelo Paquistão, mas estamos coordenando e trabalhando em estreita colaboração com os americanos, tanto em nossa postura defensiva quanto em possíveis soluções regionais.
Seu primeiro-ministro se reuniu recentemente com o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance. Quais foram os assuntos discutidos?
A reunião teve como foco as relações entre os EUA e o Catar e a situação no Irã, com ênfase na energia e nos esforços diplomáticos para reabrir o Estreito de Ormuz.
Será que Ormuz continua sendo a questão central da crise?
Continua sendo a principal pressão sobre a economia internacional, inclusive para os iranianos. O fechamento do Estreito de Ormuz foi, em parte, a maneira que o Irã encontrou de dizer: se não pudermos exportar petróleo, ninguém exportará. Nosso objetivo é um acordo rápido que inclua a reabertura do Estreito.
Mas entre as condições iranianas que Trump considera inaceitáveis está também o reconhecimento da soberania de Teerã sobre o Estreito de Ormuz...
Não aprovamos a criação de uma situação em que o Estreito de Ormuz possa ser monetizado por uma única parte. A liberdade de navegação é um princípio bem estabelecido que não deve ser comprometido, e fechar o Estreito de Ormuz ou usá-lo como instrumento de pressão apenas agravaria a crise e colocaria em risco os interesses vitais dos países da região.
Nessa situação, um acordo definitivo parece impossível. Caso se chegue a um acordo temporário, qual deveria ser o foco?
O foco está na questão nuclear e numa solução temporária para reabrir o Estreito.
E se permanecermos inflexíveis, Teerã poderá ser subjugada pelos EUA pela força das armas ou pela economia?
O governo iraniano permanece estável. Esses sistemas podem sobreviver a sanções e embargos por anos.
Que papel pode a Europa desempenhar nesta fase?
Acreditamos que a Europa tem um papel importante a desempenhar nas parcerias de defesa e na manutenção da ordem internacional baseada em regras. Além disso, esta crise também demonstrou a força das nossas parcerias com os nossos aliados europeus.
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