12 Mai 2026
"O ato de cuidado materno consiste, basicamente, em reconhecer a diferença substancial que distingue o nome do número. Aos olhos de uma mãe, de fato, cada filho é filho único, mas não na ordem do número. É filho único porque é filho insubstituível e incomparável", escreve Massimo Recalcati, psicanalista, em artigo publicado por La Repubblica, 10-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O feriado que celebra as mães hoje parece ter se tornado um ritual destinado lentamente a desaparecer. E seria totalmente inútil evocar nostalgicamente o passado. Em vez disso, deveríamos tentar repensar a figura da mãe, devolvendo a ela toda a sua relevância. A literatura psicanalítica, basicamente, forneceu um retrato patológico dela. Um bestiário variegado a descreveu como uma desgraça a ser evitada como a peste: a mãe — a mãe galinha ou crocodilo, polvo ou vampiro — é a mãe que invade abusivamente a vida do filho, recusando sua perda; na linguagem freudiana, mas também junguiana, é a mãe devoradora que, em vez de se separar de seu fruto, o absorve canibalisticamente.
Mas essa versão tentacular da mãe — da qual a prática clínica ainda oferece inúmeros exemplos hoje — só pode ser a versão patológica da maternidade. A essa, dever-se-ia acrescentar a figura da mãe morta ou fria, como o oposto da devoradora, ou seja, a mãe que abandona seus filhos tornando-se ausente.
Também dever-se-ia tentar, contudo, ser mais justos com a mãe e, portanto, evocar não apenas sua onipotência devastadora, mas também seu ser figura insubstituível de cuidado. O filho, dizia Rainer Maria Rilke em um poema pungente, é como o orvalho que precisa de uma planta para se sustentar. E essa planta seria, precisamente, a mãe. Para além da identidade biológica, dever-se-ia lembrar, antes de tudo, que ser mãe não é o mesmo que ser a figura genitorial do filho.
Ser mãe não é um dado da natureza, mas uma experiência que consiste não tanto em gerar a vida, mas em cuidar dela de forma autêntica. Nesse sentido, Françoise Dolto lembrava que toda mãe é fundamentalmente sempre adotiva, no sentido de que o que a torna tal não é a continuidade biológica com o filho, mas, precisamente, o ato de cuidar. Poderíamos então dizer, de forma mais radical, indo além da identificação do materno com um único sexo específico, que existe uma mãe sempre que há um ato de cuidado ou, se preferir, que todo ato de cuidado se revela, em sua essência, profundamente materno.
Mas em que consistiria um ato de cuidado? A resposta a essa pergunta nos leva a perceber como a lição da mãe vai muito além do bestiário no qual se gostaria de aprisioná-la.
O ato de cuidado materno consiste, basicamente, em reconhecer a diferença substancial que distingue o nome do número. Aos olhos de uma mãe, de fato, cada filho é filho único, mas não na ordem do número. É filho único porque é filho insubstituível e incomparável. A lógica que inspira o cuidado materno nunca é aquela do geral, mas aquela do particular. Nesse sentido, Lacan lembrava que o amor materno é sempre amor pelo nome. É amor pela diferença do outro que rejeita ou encara com justificada suspeita qualquer generalização. A lição da mãe nos lembra, em outras palavras, que o amor que cuida nunca pode ser amor pela vida em geral, mas apenas amor de cada um, pelo filho por ser único, pelo seu nome mais próprio. Seu cuidado, portanto, nunca poderá ser procedural, protocolar, nunca será anônimo, impessoal, mas sempre particularizado. Nesse sentido, a lição materna também deveria ressoar em nossa vida civil e política, que com muita frequência demonstra sinais de incúria, ou seja, de confundir, em vez de distinguir, o nome do número.
Quando nos sentimos mais maltratados senão justamente quando nosso nome é confundido com um número? Esse é o risco da ação política, que muitas vezes pensa por meio de números em vez de nomes. Basta pensar na guerra como o fenômeno mais radical da incúria, podemos ver claramente como ela contradiz radicalmente o código materno. Se a maternidade, ao cuidar de cada indivíduo, torna a vida insacrifável, digna de ser considerada, como o Papa Francisco nos lembrou com força, "imensamente sagrada", a política pode, ao contrário, fazer do sacrifício do particular a sua ideologia subjacente. As vidas individuais não valem nada em relação à necessidade geral. Diversamente, o ensinamento materno nos lembra que ninguém é dono da vida de seu filho, nem mesmo quem a concebeu ou adotou. Pelo contrário, o que a maternidade demonstra é a existência de uma hospitalidade — acolher a vida do filho no próprio corpo — que renuncia a todos os direitos de propriedade.
É isso que vemos nestes belos meses de primavera nos parques públicos, quando encontramos mães ensinando seus filhos a caminhar. Um gesto aparentemente simples, mas que carrega em si toda a lição do amor materno: a você que foi sangue do meu sangue, vísceras nas minhas vísceras, eu ensino a caminhar, a se afastar de mim, a trilhar seu próprio caminho. Esse é o cerne mais profundo da grande narrativa bíblica do Rei Salomão. Seu famoso estratagema da espada revela que a verdadeira mãe não é aquela que reivindica o filho como sua propriedade, mas aquela que está disposta a perdê-lo, a renunciar a toda propriedade, contanto que a vida daquele filho seja salva.
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