06 Mai 2026
A ONU alerta para o risco de escassez de fertilizantes nos países em desenvolvimento devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz.
A informação é de José Naranjo, publicada por El País, 05-05-2026.
A guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz desencadearam uma crise energética com consequências imprevisíveis para o continente africano. A escassez de combustível e um aumento de aproximadamente 50% nos preços do petróleo estão causando uma onda inflacionária que já afeta os cidadãos e agrava as dificuldades de acesso a fertilizantes e alimentos. Enquanto alguns governos optaram por reduzir os impostos sobre a importação de combustíveis, outros chegam a cortar o fornecimento de energia elétrica em suas cidades. Apesar de ser um grande produtor de petróleo bruto, respondendo por 8% da produção global, a limitada capacidade de refino da África faz com que o continente importe 70% do petróleo que consome. Três em cada quatro barris vêm do Oriente Médio.
Como todas as manhãs, o jovem Lamine Cámara chega cedo ao ponto de gueleh-gueleh, a van compartilhada que o leva ao trabalho no centro de Banjul, Gâmbia. No entanto, hoje é diferente. Dois passageiros estão envolvidos em uma discussão acalorada com o motorista, que se recusa a deixá-los entrar. O motivo: a tarifa aumentou de 10 para 15 dalasis (cerca de 20 centavos de euro). O motorista tenta explicar que um litro de gasolina agora custa € 1,40, enquanto três meses atrás custava apenas € 1. Os preços sofreram aumentos semelhantes em toda a África, com uma média de 50%, devido ao conflito no Oriente Médio. Mas, nessa discussão de rua, é difícil ser ouvido.
Todos os países africanos são afetados de uma forma ou de outra. Madagascar declarou estado de emergência energética para tentar conter possíveis distúrbios. Megacidades como Cairo (Egito) e Lagos (Nigéria) sofrem cortes diários de energia programados por seus governos para reduzir o consumo. Maurício, um dos países com a maior renda per capita do continente, impôs racionamento de eletricidade, e Senegal recomenda fortemente que seus cidadãos moderem o uso de energia elétrica. O Egito decretou o fechamento de certos estabelecimentos comerciais à noite e tornou obrigatório o trabalho remoto para evitar viagens; a Zâmbia está aplicando penalidades severas a quem estoca gasolina para especulação; o Zimbábue começou a misturar etanol à gasolina para melhorar seu desempenho; e a Namíbia reduziu os impostos em até 50% por três meses.
O problema afeta o mundo inteiro, mas os países africanos são mais vulneráveis por dois motivos: sua alta dependência energética e a vulnerabilidade de suas populações. “A maioria dos países em desenvolvimento são importadores líquidos”, afirmou Junior Davis, diretor da divisão para a África da Agência das Nações Unidas de Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em um comunicado. “O aumento dos preços da energia será rapidamente repassado aos preços dos alimentos e ampliará o risco de fome. Dado o alto endividamento de muitos países em desenvolvimento e a pressão sobre os gastos públicos que enfrentam há anos, é muito provável que as famílias tenham que pagar mais por energia, alimentos e fertilizantes e consumir menos. Não será fácil”, explicou.
O paradoxo reside no fato de que, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a África produz cerca de 8% do petróleo bruto mundial. Países como Nigéria, Angola, Argélia, Líbia, Guiné Equatorial e Gabão possuem reservas significativas em produção. No entanto, apenas 2% do fornecimento mundial de petróleo refinado provém do continente. A falta de investimento na indústria petrolífera, além da mera extração, e a manutenção insuficiente das instalações existentes exacerbaram essa dependência. Num contexto de incerteza e preços crescentes, a maior parte do petróleo disponível permanece no Norte Global. Em cidades como Nairóbi e Accra, longas filas em postos de gasolina já são uma cena comum.
Para tentar contrariar a situação, Aliko Dangote, o empresário mais rico da África, inaugurou a maior refinaria do continente em 2023, localizada na cidade nigeriana de Lekki. Com uma capacidade de produção de 650 mil barris por dia, ela conseguiu reduzir a necessidade de importações da Nigéria e até exporta produtos refinados, como diesel, óleo combustível e querosene — essencial para a aviação — para países vizinhos como Togo, Benim, Gana, Costa do Marfim e Senegal. Em meio à crise atual, a refinaria de Dangote recebeu encomendas de muitos outros países, como Quênia e África do Sul, segundo o Instituto de Estudos de Segurança (ISS), mas não consegue abastecer todo o mercado africano sozinha.
Além dos combustíveis, a agricultura é uma grande preocupação na África. “O problema mais imediato é o dos fertilizantes, porque afeta a segurança alimentar, e a segurança alimentar é sempre a base da estabilidade”, disse Pamela Coke-Hamilton, diretora-executiva do Centro de Comércio Internacional das Nações Unidas (ITC), à Reuters em meados de abril. “Quase um terço do comércio marítimo mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz. Os preços já subiram mais de 40%, justamente quando a época de plantio começou na África Ocidental e Central. Se os fertilizantes não forem aplicados agora, as colheitas serão perdidas”, acrescentou Yemi Osinbajo, vice-presidente da Nigéria até 2023, à revista Project Syndicate. “A África já está perdendo com o escândalo Irã-Contras”.
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