Exposições. Guia à escuta com Hildegarda de Bingen

Foto: Wikimedia Commons

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30 Abril 2026

Hildegarda de Bingen, abadessa, escritora visionária, teóloga, santa, cientista, médica, herborista, musicista e grande erudita, “é uma figura que pode parecer distante, por ser uma mística do século XII, mas possui uma voz fortemente contemporânea, capaz de iluminar questionamentos e percursos do presente”. Assim a descreve o Cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito da Congregação para a Cultura e a Educação, na homenagem prestada à monja beneditina, que viveu de 1098 a 1179, no Pavilhão da Santa Sé na 61ª Exposição Internacional de Arte.

A reportagem é de Arianna Di Genova, publicada por Il Manifesto, 28-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Com uma exposição em dois locais fascinantes — o Jardim dos Carmelitas Descalços e o Complexo de Santa Maria Ausiliatrice, no bairro de Castello — e um título que ecoa o espírito da exposição de Koyo Kouoh, que busca a escuta: "O ouvido é o olho da alma". Uma capacidade musical, quase uma oração sonora, conduzida por artistas do calibre de Patti Smith, Meredith Monk, Brian Eno, Terry Riley (entre outros, mais "visuais" como Otobong Nkanga e Precious Okoyomon), a mostra se distancia do clamor das últimas controvérsias para se firmar em um novo começo inclusivo, no qual a voz se torna profética, abraçando a linguagem desconhecida promovida por Hildegarda. O público, usando fones de ouvido, poderá se entregar a um longo passeio contemplativo.

Isso por si só já seria suficiente para evitar entrar na arena conflituosa, mas José Tolentino não se esquiva dos tempos sombrios que afetam a cultura: "Rússia e Israel na Bienal de Veneza? A nossa resposta está no Pavilhão, na experiência de escuta compartilhada à qual somos convidados. O horizonte é aquele dado pelo Papa, um convite a uma paz que possa dizer algo a todos e transmitir um sentido de oportunidade coletiva”. Afinal, a própria Hildegarda de Bingen, musa artística da Lagoa, servia ao "ritmo da vida" e curava suas feridas quando aquela harmonia se interrompia.

O pavilhão do Vaticano, que há dois anos viu na linha de frente as detentas da prisão feminina de Giudecca se tornarem "guias íntimas da arte", aposta este ano em uma exposição, com curadoria de Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers, em colaboração com o Soundwalk Collective, na qual o próprio som se torna um caminho emocional para a compreensão do mundo.

Foi uma longa jornada que levou ao projeto, um itinerário orgânico também compartilhado com Alexander Kluge (o título do pavilhão foi tirado de sua obra), tanto que o último trabalho do cineasta (que faleceu em 25 de março) constituirá uma parte imponente da exposição, no Complexo Santa Maria Ausiliatrice: uma instalação de filmes e imagens em doze estações, em diálogo aberto com os cantos e os escritos de Hildegarda de Bingen.

É o seu testamento e dialoga, no mesmo local, com a liturgia sonora das monjas da Abadia de Eibingen. Hildegarda de Bingen e o hortus, confessa Obrist, alimentaram o imaginário de sua infância. Ele nunca esqueceu de quando, aos 5 anos, seus pais o levaram à Abadia de São Galo, nem, como adulto, das palavras de Cees Nooteboom dedicadas ao Jardim Místico dos Carmelitas Descalços de Veneza.

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