Da ilha no meio do Atlântico chega uma teologia da infância

José Tolentino Mendonça | Foto: Vatican Media

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29 Abril 2026

"O que ele busca extrair de sua exploração do passado só poderia ser expresso em poesia, por meio de justaposições, paráfrases, jogos de palavras e linhas nunca retas. Para usar suas próprias palavras, José Tolentino Mendonça busca para nós aquela "parte da beleza do mundo" que "permanece anônima", escreve de Paolo Giordano, escritor italiano, em artigo publicado por Corriere della Sera, 26-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Li essa coletânea de poemas de José Tolentino Mendonça como a história do crescimento de um homem, o crescimento de um poeta. Da infância à plena maturidade. Num momento preciso, em 2008, o poeta depara-se com uma antologia intitulada "Novo Romanceiro do Arquipélago da Madeira". A antologia reúne canções e textos da tradição madeirense transmitidos oralmente, os chamados romances. A avó do poeta era guardiã de romances, uma "informante oral", ou pelo menos é o que o poeta se lembra dela. Porque no "Novo Romanceiro", uma revelação, ou melhor, uma decepção, o aguarda: segundo os editores, a avó estava confusa, em condições de recordar apenas nove versos no total, e "com muitas pausas, reticências, parênteses, hesitações". Outras informantes tinham sido muito mais úteis do que ela.

“Se me tivessem perguntado antes, eu teria jurado que minha avó analfabeta conhecia uma quantidade colossal de histórias contadas oralmente e que ela foi minha primeira e inesquecível informante. [...] O que aconteceu que poderia explicar o caos, os erros, a falha de memória que me deixam perplexo?” É essa revelação tardia, essa falha, esse choque, que abre a ferida na qual o livro mergulha.

A falta de confiabilidade da própria memória é o portal que permite a José Tolentino Mendonça descer numa gruta, sabe-se lá quão profunda, em direção ao “centro da Terra”, ou melhor, onde se encontram as “pinturas rupestres”, isto é, as memórias mais remotas, tão distantes que parecem pré-históricas. E assim, eis a explicação para a citação de Georges Bataille sobre as cavernas de Lascaux, onde a própria humanidade deixou seus primeiros vestígios artísticos: “Não podemos datar essas pinturas com absoluta certeza”.

Assim como não podemos confiar em nossas próprias memórias com igual certeza.

José Tolentino Mendonça nasceu na Madeira, a ilha mais isolada do Oceano Atlântico, longe da costa africana, mas também das Ilhas Canárias e dos Açores. Nunca lá estive, mas no meu imaginário é um lugar íngreme, exposto aos elementos. E nesses poemas encontrei um reflexo da minha imaginação. Nos versos da primeira parte, dedicada à infância, há muita luz e muita festa. A natureza transborda sob a forma de mar, de campos, de manguezais e, sobretudo, de animais. Peixes-voadores, lebres, flamingos, cachorros, papagaios... José Tolentino Mendonça evoca as suas sensações de criança, na ilha e na costa de Angola, com uma espontaneidade que parece intocada pelos seus quase sessenta anos, ou talvez que seja precisamente despertada pela distância. A infância é o reino em que "o singular cruza o universal", é o tempo da harmonia entre interioridade e exterior, da suspensão. Onde certos acontecimentos da vida adulta real, cujos contornos se perderam, irrompem subitamente. Uma mulher africana dando à luz em um campo e cortando o cordão umbilical com um pedaço de vidro. Uma internação hospitalar. Soldados na aldeia. Nessa primeira parte, José Tolentino Mendonça descreve principalmente paisagens, paisagens físicas, mas também emocionais, como a alegria, estados de espírito "para os quais nenhum dicionário oferece explicações" e dos quais a infância é uma sucessão contínua.

Afinal, o que ele busca extrair de sua exploração do passado só poderia ser expresso em poesia, por meio de justaposições, paráfrases, jogos de palavras e linhas nunca retas. Para usar suas próprias palavras, José Tolentino Mendonça busca para nós aquela "parte da beleza do mundo" que "permanece anônima".

Após o interlúdio em prosa sobre o Novo Romanceiro, o registro muda. A infância já se foi há muito tempo, mesmo que não esteja completamente perdida nem seja lamentada. Ela está presente em uma forma diferente, espiritual, porque "quando uma parte do corpo é amputada/ não é que o que aconteceu seja apagado/ seu fantasma o repete com precisão". No José Tolentino Mendonça adulto, os pensamentos se tornam mais articulados, ainda mais abstratos.

A alma envelheceu "como a carne", aprendeu "a mentir com sinceridade". A noite prevalece sobre a luz do dia. E no lugar das sensações que a criança não conseguia nomear, que para ela simplesmente eram, aparece Deus. Talvez Ele já estivesse lá antes, mas não o teríamos chamado assim. Em vez disso, agora Deus está fora, "prefere passar por nós sem se fazer ouvir". É essa metamorfose que, mesmo tempo depois de minha primeira leitura de O Centro da Terra, ainda me acompanha: a metamorfose do êxtase da infância no pensamento de Deus. Tão precisa. Tão natural. Até óbvia agora que a encontrei. Na teologia de José Tolentino Mendonça que transparece nessas páginas, Deus nunca está onde sempre o colocamos, ou seja, acima.

Deus não paira lá do alto, não examina, não julga. “Ele se ajoelha diante de nós”, em vez disso. “Deus pede nossa mão/ e quer que o guiemos// Ele está esperando que lhe estendamos/ essa mão revogável”.

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