Na Argentina, uma criança por mês é morta pelo próprio pai, mas ninguém fala sobre violência vicária

Foto: Rede Peteca

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13 Abril 2026

Em 05-07-2008, na cidade de Río Colorado, no norte da Patagônia, Pablo Alarcón, funcionário de um frigorífico, trancou seus filhos dentro de casa, amordaçou-os e cortou suas gargantas. Mirta Valenzuela, sua ex-companheira e mãe das crianças, o havia denunciado por violência doméstica. Alarcón tinha uma ordem de restrição contra ele, mas esta não mencionava seus filhos. Naquele sábado, ele ligou para ela diversas vezes e, como não conseguiu contato, deixou mensagens ameaçadoras. Ao ouvi-las, Mirta foi até a casa com a polícia. Alarcón abriu fogo contra os policiais. Mais tarde, quando conseguiram entrar na casa, encontraram Alarcón morto: ele havia cometido suicídio e, com a mesma faca, matou seus filhos, Juan Pablo, de 8 anos, e Macarena, de 6.

A reportagem é de Mariana Iglesias, jornalista, publicada por El País, 13-04-2026.

Esses irmãos encabeçam uma das estatísticas mais comoventes compiladas pela La Casa del Encuentro desde 2008: o número de crianças assassinadas pelos próprios pais em vingança contra as mães. Segundo essa associação civil, entre julho de 2008 e dezembro de 2025, 167 crianças, de bebês a adolescentes de 12 anos, foram mortas. O observatório Ahora Que Sí Nos Ven apresenta uma estatística muito semelhante: 35 crianças assassinadas pelos pais entre 2023 e 2025. Uma criança por mês.

Na Argentina, esses crimes são chamados de feminicídios vinculados. Na Espanha, são denominados violência vicária, violência secundária contra a vítima primária, que é a mulher. É a mulher quem se pretende ferir, e o dano é infligido por meio de terceiros. O homem sabe que maltratar e matar os filhos, que ele considera objetos, é ferir a mulher da maneira mais cruel.

Sonia Vaccaro é uma psicóloga argentina que vive na Espanha há muitos anos e se especializa em violência contra a mulher. Em 2012, ela cunhou o termo "violência vicária", definindo-a como "aquela que usa crianças para ferir e maltratar mulheres".

Meses atrás, Vaccaro assistiu à apresentação do projeto de Lei Orgânica sobre medidas relativas à violência vicária, que classifica essa violência como crime e fornece uma definição legal. "Este passo é extremamente importante; é uma forma de dar visibilidade a essa violência", afirmou a especialista. Na Espanha, o projeto de lei gerou controvérsia e muito debate, inclusive dentro dos movimentos feministas. Pode parecer um problema, mas é sem dúvida algo positivo: o assunto está sendo discutido.

Na Argentina, a violência vicária não está na agenda. Nem os feminicídios a ela associados. A verdade é que hoje em dia os feminicídios praticamente nunca são discutidos. O governo libertário liderado pelo presidente Javier Milei desmantelou todas as políticas públicas relacionadas à prevenção e ao atendimento, com um argumento claramente falacioso e retrógrado: "A desigualdade não existe, a violência não tem gênero".

"O agressor acredita que eles lhe pertencem"

Ada Rico, diretora da Casa del Encuentro, afirma que "o feminicídio é uma das formas mais extremas de violência contra a mulher; é o assassinato de uma mulher por um homem que a considera sua propriedade". Ela acrescenta que o conceito de "feminicídio vinculado" é uma contribuição teórica criada por essa organização "para realizar uma análise abrangente que aborde todos os aspectos da violência de gênero".

E ela explica: "Nos casos de feminicídio envolvendo filhas e filhos, fica claro que o agressor os considera sua propriedade e acredita que pode fazer o que quiser com eles, até mesmo assassiná-los. Os autores são, em sua maioria, pais ou padrastos. Em uma alta porcentagem dos casos, o local onde essas crianças são assassinadas é a própria casa ou a casa que compartilham com o agressor."

"Que tipo de pai é um bom pai se maltrata a mãe?"

— Fernanda Tarica, médica e diretora da Shalom-Bait

"Muitas mulheres decidem se separar ou denunciar a violência que seus filhos sofrem, às vezes porque veem seus pais os agredindo, outras vezes porque a violência é direcionada diretamente a elas. Algumas conseguem solicitar medidas de proteção para seus filhos, e estas são concedidas; outras vezes, elas têm que ouvir que violência contra ela é uma coisa e violência contra seus filhos é outra, têm que ouvir que o pai é o pai e que eles podem ser bons pais… mas que pai pode ser um bom pai se agride a mãe?", questiona Fernanda Tarica, médica e diretora da Shalom-Bait, uma associação civil em Buenos Aires que apoia mulheres vítimas de violência de gênero.

"A violência é eficaz, e o medo doutrina e controla; as crianças aprendem a ficar em silêncio e tentam se tornar invisíveis. Quando os homens acusados são os pais e, após uma denúncia de violência de gênero, mantêm contato com os filhos, o risco de violência contínua é alto. As mães vivem em constante preocupação com esse risco e tentam de diversas maneiras proteger seus filhos, mas sofrem pressão do sistema judiciário, de profissionais e da sociedade, que lhes diz: 'Não exagere, não tire o pai deles'. Acontece que o mundo está mais preocupado com o agressor e seus direitos do que com os direitos das crianças", explica a especialista.

"Por causa de você"

"Por sua causa, nos fomos para sempre", escreveu o caminhoneiro Gustavo Suárez em uma carta antes de atirar em seu filho e depois se suicidar dentro de seu caminhão na Rodovia 60, na província de Buenos Aires. Sua ex-companheira, Daiana García, o havia denunciado por violência doméstica, mas uma ordem judicial declarava: "Não há risco extremo que justifique a suspensão do direito de visita dos pais".

O menino, Francisco, tinha 4 anos. Sua mãe, 26. Suárez também escreveu para ela: "Você merece o pior pelo resto da sua vida, e eu sei que será assim". Isso aconteceu nos últimos dias de 2025. A mídia estampou manchetes como "horror" e "tragédia". Nesse novo contexto nacional em que falar sobre "gênero" é malvisto, a violência vicária sequer foi mencionada. Portanto, Espanha, celebre o debate.

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