11 Abril 2026
O cardeal filipino Pablo Virgilio David, um dos prelados católicos mais proeminentes da Ásia, escreveu uma carta aberta aos americanos alertando-os sobre o “fracasso moral” na guerra entre os EUA e Israel contra o Irã.
A reportagem é de Paterno R. Esmaquel II, publicada por Crux, 10-04-2026.
David, vice-presidente da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, disse temer que as ameaças do presidente Donald Trump ao Irã possam replicar os horrores de Hiroshima e Nagasaki no Japão. Os EUA lançaram bombas atômicas sobre essas cidades japonesas durante a Segunda Guerra Mundial, matando mais de 170 mil pessoas.
A carta aberta gerou elogios e críticas no Facebook, levando-o a responder pessoalmente aos comentários de pessoas que o acusavam de tomar partido do Irã. Muitos dos comentários “refletem uma forma de cristianismo que se tornou intrinsecamente ligada à política, à ideologia e ao tribalismo cultural”, disse David em um e-mail para o Crux Now na quinta-feira.
A carta aberta, que recebeu mais de 4.300 curtidas e 2.900 compartilhamentos até sexta-feira, fez um apelo aos americanos para que “parem de fingir que isso se trata apenas de um homem”. Ele disse: “Um líder não age sozinho. Um líder é escolhido, apoiado e capacitado. E, portanto, isso diz respeito a vocês”.
Ao descrever Trump como um “imperador”, David disse: “Se a situação piorar — se os crimes de guerra continuarem impunes, se o direito internacional for ignorado, se as bombas continuarem a cair, se as cidades continuarem a arder, se o seu imperador usar armas de destruição maciça — não digam: 'Não fomos nós'. A história não aceitará essa desculpa. E Deus também não.”
O cardeal afirmou que se trata de uma “falha moral”, e não de liderança, “quando o poder é usado sem restrições, quando a guerra é escolhida sem ouvir, quando a destruição é justificada como força”.
“Só vocês têm o poder agora de impedir o que não deve ser desencadeado. Recusem o que jamais deve ser justificado”, disse David aos americanos. “Não deixem que a história registre que vocês viram o que estava por vir — e não fizeram nada.”
“Porque se essa linha for cruzada novamente, o sangue não estará apenas nas mãos de um homem. Estará nas suas”, disse David, de 67 anos, que também era um crítico ferrenho da guerra às drogas do ex-presidente filipino Rodrigo Duterte.
No entanto, os filipinos que apoiam a guerra dos EUA contra o Irã rejeitaram a carta aberta de David aos americanos. Um de seus críticos o chamou de "Bispo David Aiatolá", atribuindo ao seu nome um título usado por líderes muçulmanos xiitas. Outro crítico afirmou que sua publicação no Facebook favorece "o terror patrocinado pela República Islâmica do Irã".
David, em suas respostas às críticas, afirmou que de forma alguma estava tolerando o Irã. "De fato, existem ações do regime iraniano que contribuem para a instabilidade, e estas não devem ser ignoradas ou justificadas", disse o cardeal filipino a um comentarista.
Respondendo a outra pergunta, David disse que gostaria de dizer ao Irã que "o resto do mundo civilizado" se solidariza com o país pelos "ataques injustificados dos Estados Unidos e de Israel bem no meio das negociações".
David prosseguiu: “Mas aonde nos levará o mal por mal, a violência por violência, olho por olho, dente por dente, força por força? Vocês têm uma civilização muito mais antiga que a dos Estados Unidos. Seu antigo imperador Ciro demonstrou um alto nível de humanidade. É a vez de vocês demonstrarem esse alto nível de civilização, buscando uma solução baseada na diplomacia moral.”
Em entrevista ao Crux Now, David afirmou que tais comentários demonstram como a fé, em vez de ser moldada pelo Evangelho, “às vezes se torna uma linguagem através da qual as pessoas defendem lealdades políticas anteriores”.
“Nesses casos, o cristianismo deixa de ser vivido como discipulado sob a Cruz e passa a ser um reforço da identidade — Deus alistado ao lado da nação, do partido, do líder autoritário preferido”, disse o cardeal filipino.
“Ao mesmo tempo, não quero julgar as pessoas com severidade”, acrescentou David. “Muitas reações são motivadas por medo, confusão, visões de mundo herdadas e exposição seletiva à informação. É por isso que o diálogo paciente continua sendo importante. Não se pode simplesmente condenar; é preciso também ensinar. A tarefa da Igreja é ajudar a formar consciências, não apenas vencer discussões.”
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