23 Abril 2026
"É uma ilusão achar que no cadáver a vida se interrompeu. O ciclo da vida continua também ali, quando se inicia um novo processo, que envolve o ato de ser 'comido' pelos outros. A morte não significa a saída do ciclo do tempo, mas um novo revestimento, com a vida continuando e pulsando", escreve teólogo, Faustino Teixeira, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
Levando em conta a programação prevista para o simpósio organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU: A morte e o morrer, fiz uma alteração no projeto de minha reflexão sobre o tema, no sentido de evitar repetições desnecessárias. Deixo algumas questões que iria desenvolver para os outros conferencistas, e dedico-me aqui para dar uma breve pincelada sobre o envelhecimento, para concentrar-me na minha reflexão atual sobre a morte.
Vivemos um tempo marcado pelo envelhecimento da população, com o avanço da medicina e da melhoria das condições de vida. Verifico, porém, que o avançar da idade não vem acompanhado por cuidados específicos e especializados. Vivemos numa sociedade de consumo, marcada pela ênfase na produtividade e na eficácia. Como apontou Byung-Chul Han, “a sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho” [1].
Os mais velhos acabam sobrando nessa lógica do mercado, sendo muitas vezes descartados por estarem fora do circuito da produção. Não é algo simples lidar com o morrer. Trata-se de uma experiência que nos coloca radicalmente diante de nossa impermanência e “desaparecimento”. A morte, como indica André Comte-Sponville, “não é um lugar, é uma passagem, e bem estreita” [2]. Não é fácil dizer como o poeta, Manuel Bandeira:
“Quando a Indesejada das gentes chegar (...)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
À mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar” [3].
É cirúrgica a reflexão de Rainer Maria Rilke sobre a nossa presença num tempo marcado pela contingência. Ele diz na segunda elegia de Duíno, que “o que é nosso flutua e desaparece” [4]. Se as árvores e casas que habitamos resistem, “nós passamos”. Não estamos protegidos dessas marcas do tempo, e não há nada que impeça o nosso envelhecimento. Também não conseguimos viver nenhuma experiência que possibilite uma “duração pura” ou promessa de eternidade. O que há, fatalmente, é uma “inquietante fluidez”.
Rilke adverte-nos com precisão que a temporalidade corrói, sem piedade, todos os nossos esforços “de realização e plenitude ontológicas”. Ao comentar esta segunda elegia, Dora Ferreira da Silva sublinha: “A beleza, os gestos de fervor, os impulsos do coração, os momentos de êxtase e comunhão, tudo isso que é nosso 'flutua e desaparece” [5]. Como aponta Lacan, “não há ponto de chegada senão a própria morte – único ato que não é falho” [6].
Com a experiência do tempo vem também o adoecer, a precarização da vida pessoal, muitas vezes acompanhada por solidão, crise de sentido e sofrimentos indescritíveis. São questões precisas que estarão no cerne da reflexão de nossos próximos conferencistas.
A morte, que é um fato natural, passou a ser cada vez mais medicalizada, e a tecnologia empregada para a manutenção da vida “é capaz de transformar o processo de morrer em longa e sofrida jornada” [7]. É o que temos visto com frequência nos procedimentos que acompanham a distanásia, que envolve passos terapêuticos destinados a prolongar ao máximo a vida do paciente. Trata-se de uma prática que estende a vida, mesmo ao custo de muito sofrimento do paciente. É um recurso ainda muito utilizado no Brasil, e que vem sendo, em geral, a opção escolhida por boa parte dos médicos e dos familiares dos pacientes.
Em sua obra Mortais, Gawande fala do despreparo da medicina em lidar com do declínio vital e da mortalidade:
“Não é preciso ter passado muito tempo com idosos ou pessoas com doenças terminais para ver a frequência com que a medicina deixa desamparados aqueles a quem deveria ajudar. Os dias finais de nossas vidas são dedicados a tratamentos que confundem nossos cérebros e exaurem nossos corpos em troca de uma chance mínima de obtermos benefícios” [8].
E o Brasil “é o país que mais realiza o prolongamento artificial da vida em detrimento do alívio da dor” [9]. Hoje são recorrentes as críticas ao que vem denominado “obstinação terapêutica” e os “tratamentos fúteis”. A “obstinação terapêutica” diz respeito ao adiamento do processo do morrer (...) mediante o uso de terapias fúteis, inapropriadas ou potencialmente inapropriadas” [10]. Trata-se do prolongamento da vida biológica em detrimento da vida biográfica (e do que faz sentido para o paciente em questão) [11].
Mas como entender o humano na teia das relações, para então poder captar com significado uma compreensão mais tranquila da morte, entendida aqui como integração ao cosmos? Lendo a encíclica do Papa Francisco, nos damos conta de que “nós mesmos somos terra” e que os componentes de nosso corpo estão repletos de “elementos do planeta” [12].
Em verdade, estamos todos interligados. Tudo faz parte do Mistério maior do cosmo. Vejo uma necessidade imperativa de pensar a eternidade de forma distinta de como estamos acostumados a lidar. O desconforto com certas concepções religiosas mais tradicionais está presente em escritoras como Hilda Hilst, que relatou em singular poema no livro, Poemas malditos, gozosos e devotos (2001):
“É neste mundo que te quero sentir
É o único que sei.
O que me resta Dizer que vou te conhecer a fundo
Sem as bênçãos da carne, no depois,
Me parece a mim magra promessa” [13].
Numa das crônicas de Clarice, “Medo da eternidade” (6/06/1970) [14], ela relata uma experiência particular, quando ainda era criança, que resumiu como sendo “um aflitivo e dramático contato com a eternidade”. E isso se deu diante da monotonia de mascar uma goma de chicletes, que nunca acabava. Até que, em certo momento, ela joga a coisa na areia e se vê aliviada: Foi quando livrou-se do peso da eternidade sobre ela. Entender a eternidade não como algo além do tempo, mas como o tempo plenamente realizado, é um desafio aberto para nós. Como sinaliza o teólogo Karl Rahner, em seu Curso fundamental da fé, “é no tempo, como seu fruto maduro, que se faz a eternidade” [15]. Isso também implica numa concepção diferente da morte, entendida agora não mais como algo que dá fim à vida, mas como presença de um movimento em continuidade. A morte deve ser compreendida como a nossa integração mais funda no cosmos. Não uma desintegração do corpo, mas uma nova comunhão, sempre acolhida pelas mãos misericordiosas do Mistério, ou seja, desse Dom bonito que habita a folha, a vereda, os animais, vegetais e minerais, compondo uma sinfonia única de Diafania. A morte é o momento singular de emaranhamento no solo comum, onde estaremos irmanados com a mesma terra de que somos feito.
A centralidade humana em questão
Um primeiro ponto que eu gostaria de levantar aqui está relacionado com os trabalhos preciosos produzidos por Lynn Margulis e seu filho Dorian Sagan, em particular, o livro Planeta Simbiótico [16], bem como outros autores como Stefano Mancuso e Merlin Sheldrake. Trata-se do questionamento da centralidade humana. O ser humano não pode ser considerado o umbigo do universo, mas parte dele[17]. É alguém que está inserido na teia da vida, sem nenhuma excepcionalidade particular. Como mostra Margulis, “precisamos nos libertar de nossa arrogância específica da espécie. Não existem provas de que tenhamos sido 'escolhidos', a espécie para a qual todas as outras foram feitas” [18]. O antropólogo francês, Lévi-Strauss, já tinha levantado essa questão há um bom tempo, rompendo com essa ideia recorrente de que o ser humano ocupa um lugar “definitivo da verdade”, como o cume da evolução.
Essa perspectiva, como mostrou Lévi-Strauss, produziu um “humanismo pervertido”, que acabou por instalar uma barreira nefasta entre a humanidade e o resto do vivente, ou seja, uma ruptura entre o humano e a sua matriz natural [19]. O ser humano, como mostra o neurobiólogo Stefano Mancuso representa, na verdade, uma parcela mínima da biomassa (massa viva) do planeta. O mundo animal, onde o humano se insere, representa apenas 0,3% da biomassa, enquanto os outros seres vivos (plantas) traduzem 85% da biomassa [20].
Como apontou Margulis, os seres humanos não surgiram por ação milagrosa, mas são o resultado de “bilhões de anos de interação entre micróbios altamente responsivos” [21]. Para a cientista, a ideia de um ser humano responsável pela Terra tem algo de cômico, dada a complexidade do invólucro Terra. Para Margulis e Sagan, “se queremos atingir uma longevidade evolutiva, devemos desacelerar, devemos aprender a condividir e partilhar com as outras formas de vida” [22]. Na verdade, diz a autora, é a Terra que cuida de nós [23]. O ser humano, sim, é um animal que tem a grave responsabilidade de cuidar de si mesmo.
A vida chegou antes
Os humanos não são os donos da Terra, nem seus habitantes mais nobres [24]. Eles são, na verdade, “seus inquilinos mais desagradáveis e inoportunos”. Sua chegada à Casa Comum, que é a Terra, ocorreu a apenas 300 mil anos, enquanto a história da vida remonta a 3,8 bilhões de anos [25]. A verdade é que a vida na Terra já estava em curso há bem tempo antes, florescendo e se reproduzindo a cerca de 1,1 bilhão de anos depois do surgimento da Terra [26].
E essa vida que surgiu é um sistema complexo e amplo, marcado por incrível interdependência de matéria e energia. E todos dependendo uns dos outros. Lá na origem temos a presença das bactérias, com sua incrível evolução química e social. Ao contrário do que entendiam os estudiosos em meados do século XIX, as bactérias, líquens e fungos são hoje situadas em reinos específicos, não mais se enquadrando entre as plantas [27]. Não há dúvida sobre essa “continuidade material do universo”, que envolve também o nosso corpo.
Nossa microbiota, que no passado veio nomeada como “flora bactérica” ou “flora intestinal”, vem habitada por uma imensa população de micróbios: sobretudo no intestino, onde residem 80% dos microorganismos que vivem em nós. São cerca 10 mil espécies de bactérias diferentes em nosso organismos [28]. Mesmo nas nossas células humanas estão presentes organelas que têm sua origem em bactérias aeróbicas primitivas: as mitocôndrias [29]. Na microbiota habitam os micróbios bons (simbiontes) e os problemáticos (patobiontes). Há entre eles um equilíbrio. Falamos de eubiose (vida boa) quando esse equilíbrio se mantém [30]. A morte não define um ponto final na vida. Ela funciona como uma “reciclagem, um fluxo que continua em uma comunidade ecológica e ancestral de origens” [31].
A vida em sua dinâmica de simbiogênese
O que podemos observar de fato na textura do mundo é a presença dinâmica de um emaranhamento, marcado por trilhas sempre entrelaçadas32. A vida que evoluiu no mar e ganhou cidadania na terra, precisou de angariar potentes recursos para lidar com a nova e hostil terra firme. Para o sucesso da vida foi de fundamental importância o caminho da interdependência e do respeito à biodiversidade.
Comentando sobre a singularidade do trabalho de Lynn Margulis, o biólogo e especialista em ecologia tropical, Merlin Sheldrake, sublinha a importância da autora em reconhecer a presença de uma rica colaboração entre as diversas formas de vida. Fala de seu traço “visionário” em sua percepção de uma simbiose na dinâmica evolutiva na evolução das primeiras formas de vida [33]. Como aponta Sheldrake, segundo Margulis “alguns dos momentos mais significativos da evolução resultaram da união – de forma permanente – de organismos diferentes” [34].
A morte sob o prisma da metamorfose [35]
Retomando a pista aberta por Francisco e Tich Nhat Hanh, ao nos lembrar que somos terra, podemos acrescentar aqui uma expressão sugestiva de Donna Haraway, em seu livro que aborda o encontro das espécies: “Eu sou uma criatura da lama, não do céu” [36].
Quando Haraway fala da morte, apresenta-nos uma visão rica e desafiadora. O que ocorre com todos, depois da morte, não é um fim, mas um novo movimento. O ser humano não se apaga, mas transforma-se em composto vital. Como diz Stefano Mancuso, em sua obra sobre “O cântico da Terra”, a vida se recicla através da morte. A morte constitui um fenômeno necessário para que a vida continue a existir [37]. Para ele, “a decomposição é de vital importância: deixando substâncias químicas essenciais para a vida, os decompositores (sobretudo os fungos e bactérias) estraem dos mortos os materiais que servem para nutrir os vivos” [38].
Podemos falar em apoptose, ou seja, de uma morte celular programada; ou também de uma morte altruísta. A morte que abre lugar para a vida. Os componentes de nosso corpo servem são reutilizados por outros organismos que reciclam seus nutrientes [39].A morte, portanto, não significa o fim dos processos biológicos programados por um organismo. A morte é um instrumento que a vida adota para prosperar. O nosso corpo vem animado, desde sempre, por organismos não humanos. Donna Harawey diz ter um grande apreço à diversidade que nos habita:
“Adoro o fato de que genomas humanos sejam encontrados em apenas cerca de 10% de todas as células que ocupam o espaço mundano que chamo de meu corpo; os outros 90% de células são preenchidos pelos genomas de bactérias, fungos, protistas e que tais, alguns dos quais tocam uma sinfonia necessária para que eu esteja viva e outros que estão de carona e não causam a mim, a nós, nenhum dano” [40].
E reconhece, como igualmente prazeroso o fato de que serão esses mesmos “simbioentes benignos e perigosos” que vão atuar sobre o que restar do corpo, depois da morte. Nessa grande sinfonia universal, há um extraordinário encontro das espécies, em interações ad intra e ad destra, numa singular “dança de encontros que molda sujeitos e objetos” [41]. O ser humano, como terra, está envolvido numa dança cósmica, numa “dança de encontros” com as várias espécies companheiras.
Desse lindo emaranhado vão-se tecendo as malhas da vida, com todas as suas surpresas, mistérios e incógnitas. Nós humanos estamos emaranhados como compostos que vão se transformando e plasmando novas e inéditas formas de vida. Tudo nesse campo vital é um “devir-com”, para utilizar uma bonita expressão de Vinciane Despret. Para essa autora, o grande desafio consiste em “restituir aos seres vivos sua dignidade ontológica”. Todos os viventes vêm enriquecidos pelo “murmúrio de sua evolução interminável, que sedimenta neles uma historicidade infinita, plural e disponível no presente para inventar a sua vida” [42]. O bonito desafio que se impõe para todos, nessa teia vital, é aprender continuamente a “florescer conjuntamente na diferença” [43].
O filósofo italiano, Emanuele Coccia, partilha essa visão da “perenidade da vida sob a eterna mudança”, bem como o vivo sentimento de parentesco com todas as coisas. Não há dúvida sobre essa “continuidade material do universo”, que envolve também o nosso corpo. A morte não define um ponto final na vida. Ela funciona como uma “reciclagem, um fluxo que continua em uma comunidade ecológica e ancestral de origens” [44].
É uma ilusão achar que no cadáver a vida se interrompeu. O ciclo da vida continua também ali, quando se inicia um novo processo, que envolve o ato de ser “comido” pelos outros. A morte não significa a saída do ciclo do tempo, mas um novo revestimento, com a vida continuando e pulsando. Em singular passagem da canção de Gilberto Gil, Tempo Rei, ele capta com sabedoria essa imagem:
“Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo, transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos” [45].
Na visão de Coccia, o corpo passa a ser alimentado por outros seres, e a vida migra assim, de uma forma para outra [46]. O temor da morte, como bem expressou Evando Nascimento, vem de nossa incapacidade, que é congênita ao humano “de reconhecer que, ao se integrar ao inorgânico, a vida nunca desaparece de todo, apenas ganha novas configurações metamórficas” [47].
A imagem de um fluxo contínuo que se segue à morte, vem também desenvolvida por Thich Nhat Hanh. O suave monge vietnamita, que morreu aos 95 anos, em janeiro de 2022, defendeu uma visão da morte extremamente rica e audaciosa. Sua visão sobre o momento derradeiro da vida está conectada com a sua concepção da interexistência. Para ele, tudo o que existe na terra está interconectado e interdependente. Não há vida desligada da grande dança cósmica. Defende ainda a falência de visões que defendem uma substancialidade autônoma para as pessoas. Tudo o que existe debaixo do sol, a seu ver, vem abraçado pela impermanência.
O temor que envolve a morte vem para ele rompido quando se compreende a morte no circuito mais amplo da vida. Para o suave monge do Vietnã não há, propriamente nascimento ou morte, mas formas diferenciadas de inserção num ciclo maior, que não controlamos. Assim como as nuvens se transformam em outra coisa, assim também ocorre com os humanos e demais criaturas. Tudo muda de forma. Para aqueles que praticam a contemplação profunda, diz Tich Nhat Hanh, o olhar consegue captar e entender essas modalidades distintas de existência. Diz ele: “Quando você pratica a contemplação profunda, você compreende que sua verdadeira natureza não nasce e não morre; não existe ou inexiste; não chega e não vai embora; não é igual nem diferente” [48]. A seu ver, é incorreto dizer que com a morte a pessoa se transforma em “nada”.
A natureza da pessoa é, na verdade, como a nuvem, que passa por diversas transformações. Como ele assinala, o ser humano provém da Terra e a ela se destina: “Em vez de buscar um outro lugar que nem mesmo estamos seguro que exista, podemos, sim, aceitar este lugar como nossa pátria. A Terra é real” [49]. Para o místico zen, há uma impropriedade na utilização do termo “morte”. O que ocorre, de fato, é uma transformação: “A matéria pode transformar-se em energia e a energia em matéria, mas nada se perde”. É como se dá com a nuvem. Antes de ser nuvem ela era alguma outra coisa. Era neblina, agua oceânica, chuva ou agua do rio. A nuvem jamais morre; ela não passa do ser para o não-ser. Sua natureza verdadeira é de não nascer nem morrer. Tudo vem inserido na dinâmica de uma “originação interdependente” [50].
Em verdade, “milhares e milhares de condições se combinam para que nos manifestemos nesta forma, e depois ocorrem outras condições para que nos manifestemos de forma diversa” [51]. A vida que se transforma na morte permanece como composto, mexido e remexido por outros seres e abrindo novas configurações de existência.
São questões colocadas pela ciência que lançam desafios novos para a teologia na sua compreensão de vida e morte, de corpo e alma e também de ressurreição. Quanto a essa última referência, a ressurreição, somos cada vez mais provocados a entendê-la como a continuidade de vida existente na memória dos que permanecem, servindo de fonte inspiradora para um seguimento singular.
Uma bela imagem que traduz essa compreensão de integração no todo ocorre no premiado filme de Pan Nalin, Sansara, de 2001. Trata-se da imagem da gota e o Mar. No início do filme, uma pergunta vem lançada ao jovem monge Tashi, assim que abandona o seu retiro em busca da bem-aventurança do mundo exterior: “Como evitar que uma gota de água jamais seque?”. No final, ele encontra a resposta ansiadamente buscada: “É só jogar a água no Mar”.
Esse foi um tema desenvolvido de forma extraordinária pelo místico sufi, Rûmî, na sua grande obra Masnavi. No Livro IV de se tratado místico ele assinalou:
"Quando o hû52 efêmero vem acolhido por Ele, ele se torna eterno e não morre jamais. É como uma gota d´água que teme o vento e a terra; pois os dois a fazem dispersar-se. Quando a gota vem jogada no mar, que é sua fonte, ela vem libertada do calor do sol, do vento e da terra. Sua forma exterior desaparece no mar, mas sua essência permanece inalterada, permanente e boa” [53].
Num precioso livro de Leonardo Boff, Brasa sob cinzas (1996), ele relata de forma emocionada a morte de um menino querido, de 22 anos, que morreu “antes do tempo”, em plena juventude. Ele foi levado para ser sepultado na fazenda da mãe, nunca lugar que ele mesmo tinha escolhido, como num pressentimento. Ao discorrer sobre o jovem, Leonardo falou de forma linda sobre essa integração do menino nos cosmos:
“Lá no meio da mata virgem há uma clareira natural. Há flores, pássaros, borboleta, a sinfonia dos habitantes da floresta, enfim, a grande comunidade cósmica. Ele vai unir-se à grande Pacha Mama, donde veio. Vai virar cosmos, árvore, seiva, semente, flor, fruto, luz, homem novo ressuscitado no coração do universo onde Deus tem sua morada” [54].
Lidar de forma serena com a morte, é um traço bonito que encontramos em alguns mestres Zen, como Riokan, da Escola Soto Zen, que viveu no Japão entre os anos de 1758 a 1831. Quando ele percebeu aos 74 anos o agravamento de sua situação de saúde, foi se apagando com naturalidade, morrendo em posição de meditação. Era admirador de um tradicional haicai que traduzia de forma esplêndida essa dinâmica do morrer em paz:
“Mostrando o dorso
mostrando a face,
caem as folhas”.
Inscreva-se no ciclo de estudos aqui.
Notas
[1] Byung-Chul Han. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 23.
[2] André Comte-Sponville. A vida humana. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 93.
[3] Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. 14ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987, p. 202 (poema Consoada).
[4] Rainer Maria Rilke. Elegias de Duíno. 6 ed. São Paulo: Biblioteca Azul, 2013, p. 21.
[5] Ibidem, p. 98.
[6] Vera Iaconelli. Análise. Rio de Janeiro: Zahar, 2025, p. 206.
[7] Maria Julia Kovács. Morte com dignidade. In: Karina Okajima Fukumitsu (Org). Vida, morte e luto. Atualidades brasileiras. São Paulo: Summus Editorial, 2018, p. 30-31.
[8] Atul Gawande. Mortais. Nós, a medicina e o que realmente importa no final. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015, p. 19.
[9] Ibidem, p. 231.
[10] Claudia Inhaia e Paula Barroso. Obstinação terapêutica. In: Luciana Dadalto & Úrsula Guirro. Bioética e cuidados paliativo. Indaiatuba: Editora Foco, 2024, p. 191.
[11] Ibidem, p. 194.
[12] Papa Francisco. Carta encíclica Laudato si. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015, p. 3 (n. 2).
[13] Hilda Hilst. Poemas malditos, gozosos e devotos. São Paulo: Editora Globo, 2005, p. 31.
[14] Clarice Lispector. Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018, p. 307-308.
[15] Karl Rahner. Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 505.
[16] Lynn Margulis. Planeta simbiótico. Um novo olhar para a evolução. Rio de Janeiro: Dantes, 2022.
[17] Lynn Margulis & Dorian Sagan. Microcosmo, p. 255; Philippe Descola. L´ecologia degli altri. L´antropologia e la questione de la natura. Roma: Linaria, 2013, p. 97.
[18] Lynn Margulis. Planeta simbiótico, p. 166.
[19] Emmanuelle Loyer. Lévi-Strauss. São Paulo: Sesc, 2018, p. 560-561.
[20] Stefano Mancuso. Nação das plantas. São Paulo: UBU, 2024, p. 24; Id. A planta do mundo. São Paulo: UBU, 2021, p. 82.
[21] Lynn Margulis. Planeta simbiótico, p. 21. Na sequência essa obra será citada no texto corrido, com a sigla PS, seguida do número da página do livro.
[22] Lynn Margulis & Dorian Sagan. Microcosmo, p. 256.
[23] Lynn Margulis. Planeta simbiótico, p. 159.
[24] Stefano Mancuso. Nação das plantas, p. 11. Como assinalou Ailton Krenak, “os humanos não são os únicos seres interessantes e que têm uma perspectiva de existência. Muitos outros também têm”: Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 32.
[25] Stefano Mancuso. Nação das plantas, p. 11; Christian de Duve. Poeira vital. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p. 6; Lynn Margulis. Planeta simbiótico, p. 107.
[26] Ibidem, p. 107.
[27] Merlin Sheldrake. A trama da vida. Como os fungos constroem o mundo. São Paulo: UBU, 2021, p. 232.
[28] Maria Rescigno. Microbiota. Arma segreta del sistema imunitario. Milano: Tea, 2021, p. 30-32 e 71.
[29] Lynn Margulis. Planeta simbiótico, p. p. 62-63.
[30] Maria Rescigno. Microbiota, p. 33.
[31] Emanuele Coccia. Metamorfoses, p. 119. Ele cita a pensadora Val Plumwood, do século XX.
[32] Tim Ingold. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 120-121; Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 170.
[33] Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 93-94.
[34] Ibidem, p. 93.
[35] Ver a respeito: Faustino Teixeira. A ultima aventura da liberdade. Envelhecer e morrer. São Paulo: Recriar, 2026, p. 113-119.
[36] Donna Haraway. Quando as espécies se encontram. São Paulo: UBU, 2022, p. 10.
[37] Stefano Mancuso. Il cantico della terra. Bari/Roma: Laterza, 2025, p. 141.
[38] Ibidem, p. 144.
[39] Ibidem, p. 148.
[40] Donna Haraway. Quando as espécies se encontram. São Paulo: UBU, 2022, p. 10
[41] Ibidem, p. 11.
[42] Vinciane Despret. Habitar como un pájaro. Modos de hacer y de pensar los territórios. Buenos Aires: Editorial Cactus, 2022, p. 166.
[43] Donna Haraway. Quando as espécies se encontram, p. 395.
[44] Emanuele Coccia. Metamorfoses, p. 119. Ele cita a pensadora Val Plumwood, do século XX.
[45] Carlos Rennó. Gilberto Gil. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 344-345. Acentuando o ciclo do movimento, Gil responde a uma questão lançada por Caetano Veloso, na letra de Oração ao tempo, quando chegou a afirmar o passo da extinção da pessoa numa saída para fora do círculo do tempo.
[46] Emanuele Coccia. Metamorfoses, p. 116-117 e 124.
[47] Evando Nascimento. O pensamento vegetal. A literatura e as plantas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2921, p. 60.
[48] Thich Nhat Hanh. Sem morrer, sem temer. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 64-69.]
[49] Thich Nhat Hanh. Lettera d´amore alla madre Terra, p. 40.
[50] Para um melhor esclarecimento cf. Clodomir Andrade. Budismo e a filosofia indiana antiga. São Paulo: Fonte Editorial/PPCIR, 2015, p. 63-64.
[51] Thich Nhat Hanh. Lettera d´amore alla madre Terra, p. 41-42.
[52] Trata-se do pronome indicando a terceira pessoa: Ele. É o pronome que expressa o Mistério Maior de Deus, celebrado no giro do Samá pelos dervixes, até se alcançar o êxtase.
[53] Djalâl-od-Din Rûmî. Mathnawî. La quête de l´Absolu. Paris: Rocher, 1990 (MIV, 2615-2618).
[54] Leonardo Boff. Brasa sob cinzas. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1996, p. 30.
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