06 Abril 2026
A reportagem é de Xavier Vidal-Folch, publicada por El País, 05-04-2026.
Será que criar o “inferno” no Irã, como Donald Trump afirma repetidamente, e reiterado por ele neste sábado, envolveria o lançamento de uma bomba atômica? Alguns temem que sim. Estes são os argumentos. E os contra-argumentos:
— Essa bomba quebraria o aparente empate no campo de batalha principal: o agressor não pode vencer com as armas atuais, e uma intervenção terrestre acarretaria o risco político letal de muitos corpos retornarem para casa; os atacados não se renderão. Mesmo que seja decapitada repetidas vezes, é uma hidra de sete cabeças.
Antes de recorrer a tamanha loucura, sempre há outra saída, menos custosa e mais prática. Retomar as negociações, mesmo que disfarçadas de propaganda: eles estão acabados, não podem nos vencer. E lançar uma pequena, porém espetacular, operação terrestre: ocupar uma ilha menor. Embora ninguém se esqueça da crise dos reféns no Irã (de 1979 a 1981), que arruinou a presidência de Jimmy Carter. A negociação é sempre uma opção.
— A negociação já fracassou.
A última rodada de bombardeios foi suspensa, com a expectativa de que fosse retomada, mas Benjamin Netanyahu pressionou/convenceu Donald Trump de que era preferível bombardear um inimigo (falsamente) fraco. E os bombardeios foram retomados tantas vezes quanto falharam.
— Seria um recurso rápido em tempos de fadiga de guerra, até mesmo fadiga mental.
— Rápido, talvez. Mas muito perigoso. Os dois principais atores, embora ambos sejam teocráticos, sabem que, no fim, perderiam mais.
— Mas estamos no pior momento possível. A proximidade do abismo é sempre o momento mais oportuno para uma decisão insensata.
— O pior momento sempre precede uma negociação, porque as partes tendem a explorar todas as possibilidades nesse jogo de blefe, para ver quem recua, quem para antes de mergulhar no abismo.
— Nenhum deles é confiável.
— Claro, mas lançar uma bomba atômica é um recurso assimétrico. Só um lado pode usá-lo, porque só um lado o possui. E esse lado, felizmente, ainda enfrenta controles internos: o Parlamento, o Judiciário, a opinião pública e a pressão de antigos e cansados aliados.
— Os dois agressores realizarão eleições no outono: eles precisam polarizar seus eleitores, radicalizá-los.
— Lançar uma bomba atômica levaria a um desastre total, revelando, em última análise, sua derrota política aos olhos dos eleitores. Esta não é uma ação militar defensiva contra o nazifascismo, que obteve apoio sólido, mas sim uma guerra de agressão impopular e ilegítima.
— Não precisa ser total. Existem bombas atômicas com alcance limitado.
"É melhor não tentar. A chamada Tsar Bomba multiplica os efeitos diretos da bomba de Nagasaki em mais de 3 mil vezes. Sem mencionar que a radiação viaja pelo espaço."
— Mas muito longe de Washington.
— E muito próximos de xeiques amigos, que não são apenas aliados, mas também parceiros de negócios. E se a esfera de influência se estendesse a Israel?
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