A graça. Filme de Paolo Sorrentino. Comentário de João Lanari Bo

Cena do filme "La Grazia" | Foto: Divulgação/PiperFilm

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02 Abril 2026

Comentários sobre o filme dirigido por Paolo Sorrentino, em exibição nos cinemas.

O comentário é de João Lanari Bo, publicado por A Terra é Redonda, 30-03-2026.

João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo).

Eis o comentário.

1.

A graça traz mais uma vez para as telas aquele padrão de elegância que o cinema italiano costumava brindar o público. Nos idos dos anos de 1950, 1960 e talvez 1970, muitos cinéfilos, como Martin Scorcese, não hesitavam em nomear a prática audiovisual na península como a melhor do mundo – saindo do inovador neorrealismo pós-guerra e chegando aos espetaculares experimentos formais de cineastas como Michelangelo Antonioni e Frederico Fellini, Luchino Visconti e Pier Paolo Pasolini, para citar os mais notórios.

Filmes que passavam nas salas nobres em todo o planeta – e que sobrevivem, bem ou mal, na entropia do consumo eletrônico do streaming e assemelhados.

Paolo Sorrentino se posiciona como herdeiro dessa tradição. Não é tarefa fácil: contemplar e absorver imagens nos dias que correm, com a velocidade da internet, tornou-se cada vez mais um emaranhado de sugestões, sujeito a dispersões reiteradas. Nascido em 1970, ele filma sem parar, em vários formatos, alguns títulos marcantes – como A grande beleza, de 2013, e O divo, de 2008, ambos com seu ator-fetiche, Toni Servillo – outros nem tanto.

Um crítico da revista Variety insinuou que Paolo Sorrentino poderia ser considerado “uma espécie de Fellini-feito-para-TV”. Alusão um tanto cruel, dessas que supõe um passado imaculado para o cinema, impossível de ser resgatado. Não é o caso. A graça, nessa era de autocracias e delírios expansionistas em que vivemos, quer funcionar um pouco como resgate dessa tradição, mas também, e sobretudo, como fábula contemporânea de poder.

Contemporânea, e inteiramente ficcional – mas ancorada em incontornáveis índices de realidade, dos mais íntimos aos coletivos. Toni Servillo é um presidente da Itália em fim de mandato, Mariano De Santis, com seis meses a percorrer. Viúvo, católico, dialoga com pouquíssimas pessoas – a filha assistente, o ajudante de ordens, o amigo da universidade e Ministro da Justiça, a amiga próxima e crítica de arte, o general assessor e o ninguém menos que o Papa, um sacerdote negro.

O Papa aparece como interlocutor institucional, Igreja e Estado, mas também como gestor ético das dúvidas do presidente, públicas e privadas. Suas respostas, entretanto, aguçam seus dilemas.

Apartado do frisson mundano, ele se liga ao passado para reassegurar-se. Jurista, escreveu um compêndio de mais de duas mil páginas sobre direito penal, uma verdadeira pedreira que poucos absorveram. Um conjunto interminável de limites externos e normas positivas. Mas o sujeito do Direito também é movido por desejos inconscientes.

Em termos freudianos, o presidente é portador de um robusto superego, que atua como juiz interno, freia os impulsos do Id (desejos primitivos) e cobra perfeição do Ego, gerando culpa ou orgulho. Seu apelido, que lhe foi revelado tardiamente, é “concreto armado”.

2.

Este é o personagem que Toni Servillo e Paolo Sorrentino construíram. Uma das qualidades conhecidas do ator, o controle minimalista da máscara facial, é um dos fotogramas que sustentam o filme. Seu sorriso, ou uma expressão de tormento, guiam a narrativa – ao lado dos belos e austeros planos gerais de interiores palacianos, onde o corpo de Toni Servillo trafega isolado, com figurino impecável, em uma escala mínima, um ponto no espaço.

A idade do ator é 66 anos, mas no filme aparenta 75 ou mais. O simulacro de solidez que ostenta esvai-se quando observa, estático ao lado do ajudante de ordens, o desembarque oficial do presidente português, que luta para atravessar a distância entre o carro e o anfitrião sob uma repentina chuva. Slow motion e montagem perversa conduzem o olhar do presidente, e sua vulnerabilidade.

Na trilha sonora, um som eletrônico descompassado realça a contradição. “Pareço velho como ele?”, pergunta. Na intimidade, ele se delicia ouvindo gangsta rap, cuja letra sabe de cor. Um signo de modernidade que entra pelos tímpanos, canal privilegiado de comunicação com o inconsciente, dizia Jacques Lacan.

Contido ao extremo, toma decisões irritantemente lentas e depois de muita reflexão – presidentes na Itália tem um poder constitucional inferior aos dos Primeiros-Ministros, mas podem ser decisivos quando a esfera política se fragmenta.

Uma dessas decisões, mencionada de raspão no filme, é motivo de uma estonteante imagem no Scala de MilãoDe Santis é aplaudido de pé pelo público quando irrompe na frisa presidencial, em plano aberto e simétrico, um fish-eye arrebatador. Mesmo à distância, é possível distinguir, não obstante, um tormento interior do personagem, sua suspeita que o amigo e Ministro da Justiça o traiu com sua mulher, a amada Aurora.

A obsessão com que revisita a cena imaginária do adultério de Aurora chega às raias do autoflagelo. Real ou fantasiada, ela introduz uma permanente inquietude, enigmática e dolorosa.

Na oposição de grandezas que o filme trabalha, este é o ponto de maior agudeza – a rivalidade com o amigo passa também pelas decisões que estão no pipeline do Presidente, indulto para dois condenados, homem e mulher, por homicídio dos respectivos parceiros, e – a mais pesada – uma lei regulando a eutanásia, que a filha e liberais propugnam, mas o Papa é contra.

A graça, no plano individual, oscila entre convicção interior, a consciência individual, e as restrições da vida pública, as obrigações a que se submete Mariano De Santis. Mas o Presidente encarna o Estado, uma parte obviamente importante do Estado – seus juízos e deliberações se sobrepõem às consciências privadas da população.

Essa responsabilidade é um fardo que carrega, no ambiente monumental e harmonioso em que transita, povoado de paredes e adornos carregados de história. O presidente se crê capaz de impedir o caos gerenciando a diversidade de opiniões morais que geram o caos. O foro íntimo, reserva moral, duela com a ação pública.

“Falam mal da lentidão da burocracia”, pondera com a filha, mas sem ela não seriam possíveis “as boas decisões”. Conflitos interiores devem submeter-se, de alguma maneira, ao dever presidencial de arbítrio.

No final do dia, De Santis revela-se um não-autocrata, alguém que se enxerga como parte de um todo maior, que age com reticências ditadas pela consciência moral.

Ficha técnica

A graça (La Grazia)

Itália, 2025, 133 minutos.

Direção e roteiro: Paolo Sorrentino.

Elenco: Toni Servillo, Anna Ferzetti, Orlando Cinque, Massimo Venturiello, Milvia Marigliano, Giuseppe Gaiani, Giovanna Guida, Alessia Giuliani, Roberto Zibetti, Vaso Mirandola, Linda Messerklinger, Rufin Doh Zeyenouin, Alexandra Gottschlich.

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