02 Abril 2026
O triciclo com bandeira e caixa de som não é caso isolado: é o símbolo ambulante de um bolsonarismo que troca a realidade pela fantasia autoritária e a política pela performance do rancor.
O artigo é de Vilmar Debona, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor, entre outros livros, de A vontade dos porcos-espinhos (Ideias & Letras), publicado por A Terra é redonda, 30-03-2026.
Eis o artigo.
No Centro barulhento de Florianópolis, um senhor trabalha para desfilar parte da nossa indigência mental e moral de país. Aposentado do Exército, ele passa os dias a fazer ronda montado num triciclo pavoroso. Exército, aliás, que nas partes insular e continental da capital catarinense ocupa a maior área construída de prédios públicos – o que por si mesmo já é uma crônica triste.
O senhor aposentado, para agredir transeuntes com viso e som a um só tempo, fixou nesse seu automotor assombroso uma bandeira gigante do Brasil, uma miniatura de canhão das Forças Armadas e uma caixa de som potente. Perturba os quatro cantos da cidade com três barulhos simultâneos: o do motor alterado e o de uma sirene estridente que imita viatura competem com músicas gauchescas “parodiadas”.
As “paródias” são majoritariamente de cunho nacionalista fanático. Ressentido com o fracasso de movimentos de meia-dúzia que há tempos querem partir a nação, como aquele “O Sul é meu País”, esse senhor prioriza e repete à exaustão uma canção gaúcha “parodiada”. A Querência amada, do velho Teixeirinha, vira “Querência do Brasil” na versão cafona com a qual o poluidor sonoro abusa dos tímpanos de todos. Ao invés de cantar
Querência amada,
Dos parreirais
Da uva vem o vinho
Do povo vem o carinho
Bondade nunca é demais
Canta-se
Não quero o atraso,
Não quero a corrupção
Defendo a família, o trabalho e a nação
Respeito a bandeira, o sangue que honrou
Quem preza a moral, o futuro construiu
E a corrupção expulsou
Onde diabos foi parar a intertextualidade da estrutura, do estilo, da rima e do ritmo, é uma dúvida óbvia que escancara em que medida o uso do termo “paródia” é mais um abuso do apequenado cérebro verde-oliva em circulação.
Mas a situação se agrava. Nos últimos tempos, o motoqueiro semifantasma passou a passear com uma máscara igualmente assombrosa. É verde e preta com olhos saltados. Ele trabalha com esmero a sua fantasia cotidiana. Parece se esforçar para montar performance de inédita feiura da (ir)racionalidade patriótica, essa visonha que insiste em comandar o país. Ele parece se querer o próprio diabo possível de produzir com brasas de Terra Brasilis, o avesso do que a pátria amada precisa para administrar a sanidade de suas tristezas.
Ele surge pelas esquinas, todos os dias, em horários alternados. Quer surpreender os desavisados. A bandeira desfraldada chicoteia o ar úmido da Ilha, e a caixa de som vomita versos de agressão crescente sobre Deus, pátria e família, numa batida que mistura bombacha e quartel. As pessoas já o reconhecem pelo ruído antes de vê-lo: um zumbido dito patriótico que antecede a máscara verde-preta avisa todos os dias que a caricatura de demônio cívico se aproxima.
Para em frente a escolas e universidades e acelera o volume, como se travasse uma guerra particular contra cadernos, livros, laboratórios e merendas. Grita palavras de ordem contra professores imaginários, denuncia doutrinações invisíveis, aponta para janelas fechadas como se nelas conspirassem pedagogias subversivas.
Filma adolescentes atravessando a rua e os interpela: “Estão aprendendo o quê, hein?”. A câmera tremida vira prova futura de uma decadência que ele mesmo inventa. Ao passar em frente a uma boate gay, uma pessoa do local caiu no riso ao vê-lo, gritou-lhe umas palavras de deboche, mas ele não ouviu e seguiu com seu canhãozinho idolatrado.
Na Praça XV, transforma o triciclo em palanque. A miniatura de canhão, reluzente sob o sol, é apontada simbolicamente para o nada. Ou para tudo. Discursa contra urnas eletrônicas que, segundo ele, possuem vontade própria e preferências ideológicas. Fala de códigos secretos infiltrados por hackers venezuelanos de Florianópolis, essa categoria geográfica improvável que ele conjura com absoluta convicção.
Se alguém lhe pede evidências, ele ergue o celular como quem mostra uma escritura sagrada: “Tá tudo aqui”. Aqui é um vídeo tremido, um áudio rouco, um print sem fonte, um texto sem autoria.
Ele acredita na Terra plana com a devoção de um navegador ao contrário. Diz que a curvatura do horizonte é uma ilusão ótica patrocinada por Universidades. Já tentou desenhar no asfalto, com giz, o mapa verdadeiro do mundo: um grande disco cercado por muralhas de gelo e quartéis invisíveis. Uma criança lhe perguntou onde ficava a borda. Ele respondeu que ficava “além de onde os comunistas deixam você ir”.
Sobre vacinas, rosna. Conta que conhece um homem – sempre um homem sem nome – que desenvolveu escamas depois da terceira dose. “Jacaré!”, sibila, satisfeito com o próprio achado zoológico. Acrescenta detalhes a cada tarde: primeiro foram coceiras, depois uma cauda discreta, por fim um desejo incontrolável de lagoa. O fato de não haver um único jacaré humano passeando pela Beira-Mar é, para ele, prova do sucesso do acobertamento.
E há os clones. Fala deles com seriedade técnica. Garante que existem dezenas, centenas, espalhados em palanques e aeroportos. “Reparem na orelha, na altura da sobrancelha”, aconselha, aproximando-se demais dos rostos alheios. Para ele, a realidade é um teatro de dublês, uma novela mal editada. Se a imagem muda, é clone. Se a fala contradiz a anterior, é outro modelo em circulação.
Mas não se trata apenas de delírio folclórico. Há pequenas perversidades cotidianas. Ele aponta comerciantes como traidores da pátria porque aceitam pix de clientes “suspeitos”. Espalha boatos sobre vizinhos, insinua que artistas de rua lavam dinheiro internacional tocando violão desafinado. Uma vez perseguiu um entregador por três quadras, convencido de que a mochila térmica vermelha escondia exemplares do Manifesto comunista.
Encarnando o estereótipo do velho bolsonarista ressentido e enrustido, ele mistura bravatas de quartel com um moralismo rancoroso. Fala de virilidade perdida enquanto ajusta a máscara malsã; condena afetos públicos enquanto faz gritar a sirene fake do fim do (seu) mundo. Há nele uma teatralidade involuntária, mas um ardente desejo voluntário de ser visto como bastião, enquanto performa o próprio ridículo.
E, no entanto, ele não está só. Dois ou três o seguem às vezes, atraídos pelo conforto da fúria compartilhada. A pós-verdade, essa névoa espessa, paira sobre o Centro barriga-verde como maresia tóxica. Nela, o grito substitui o argumento; a convicção vale mais que o fato; a suspeita é medalha. Negar a realidade virou posicionamento político. Se a ciência contradiz, a ciência mente. Se o número desagrada, o número é fraude.
Quando o sol se põe e as lojas do Centro descem suas portas de aço, o triciclo ainda ronda como um inseto verde-amarelo que não consegue escalar a grande Figueira da praça. A bandeira, já um pouco desbotada e tendendo ao vermelho sem que o piloto perceba, insiste em tremular. E ele segue, mascarado, tocando suas “paródias” a cada dia mais sem nexo, convencido de que salva a nação ao mesmo tempo em que a reduz a caricatura delirante.
No fim, será apenas um homem pequeno, com membros diminutos, fantasiado de grandeza? Hoje será mais um dia em que ele vai troar em círculos numa cidade que tenta seguir, junto a ele, com sua racionalidade rastejante.
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